segunda-feira, outubro 19, 2009

- o carteiro -

vamô dá um tempo, tá légau?

quinta-feira, outubro 15, 2009

- original soundtrack -

See these eyes so green
I can stare for a thousand years
Colder than the moon
It's been so long
And I've been putting out fire
With gasoline

Feel my blood enraged
It's just the fear of losing you
Don't you know my name
Well, you been so long

See these eyes so red
Red like jungle burning bright
Those who feel me near
Pull the blinds and change their minds
It's been so long

Still this pulsing night
A plague I call a heartbeat
Just be still with me
Ya wouldn't believe what I've been thru
You've been so long
Well it's been so long
And I've been putting out fire with gasoline
putting out fire
with gasoline

See these tears so blue
An ageless heart that can never mend
These tears can never dry
A judgement made
can never bend
See these eyes so green
I can stare for a thousand years
Just be still with me
You wouldn't believe what I've been thru

You've been so long
Well, it's been so long
And I've been putting out fire
with gasoline
putting out fire with gasoline

(Cat People (Putting out fire), David Bowie)
- não vai mais vinho para essa mesa -

Jornalista da SIC sobre o concurso “Miss Cirurgia Plástica” realizado na Hungria (Jornal da Noite de 10/10/09)
“A vencedora irá levar para casa um apartamento.”

[e onde é que ela o põe?]
- o carteiro -
Quando um não quer, dois não pecam – Procriação IV
Após os progenitores terem feito “aquilo que Deus mandou”, mesmo aqueles que fizeram de uma forma que Deus desconhecia ou antes do tempo ordenado por Ele, vinha a gravidez. Na Antiguidade a gravidez era vista como uma expressão da Natureza: tal como a Terra guardava a semente e expulsava-a em forma de flor ou de fruto chegada a altura, as mulheres incubavam o ser durante nove meses. Para os gregos e romanos a presença de deusas (como Artémis/Diana) ajudavam a proteger o embrião e a afastar os maus espíritos (Lembram-se de termos falado de Litith) embora com o tempo – por volta do século IV-V a.C. o racionalismo de Hipócrates tenha colocado freio ao delírio que rodeava os tempos de incubação. Mas apesar de a gravidez ser algo natural e que deveria seguir o seu curso normal, a gravidez podia ser diagnosticada. Hipócrates, que podia ter boas máximas, mas não me parecia ser grande médico, apoiava o teste do alho na vagina que consistia em introduzir um alho húmido na vagina de uma mulher e deixá-la com o “tempero” toda a noite. Se pela manhã o cheiro a alho for expelido do corpo da mulher pela boca ou pelo nariz, a mulher estava grávida. Se nada acontecesse, a mulher não estava grávida. Outro método prescrito pelo médico grego para conhecer o estado da paciente era dar a beber à mulher uma mistura de água e mel. Se a senhora tivesse qualquer reacção na zona do ventre, então estaria grávida.
Nos conturbados, mas não obscuros tempos da Idade Média, a gravidez dentro do âmbito marital, respondendo às predisposições divinas, e fruto do respeito conferido pelo lençol que intermediava os corpos com a sua concuspicênciazinha na pequena abertura estratégica, era até bem visto. Cumpria-se a vontade de Deus Nosso Senhor que nos havia pedido há muito que crescemos e nos multiplicássemos, mesmo que muitas das mães o fossem antes de terem largado a manietação das bonecas e a pequena carnatura que molda os cantos da boca na infância. Assim, era possível que aos 26 anos, mais para a frente ou mais para trás, e não obstante o número vasto de vulvas a soldo de que um marido se podia servir, o aparelho reprodutor feminino estivesse lasso, gasto, e de pouco prazer para esposa e esposo. As mezinhas e as benzeduras que botariam crescedura ao crianço não eram bem vistas pela Igreja, mas ninguém as dispensava e no fundo conviviam como comadres. Incompreensível era o dito das entidades eclesiásticas às futuras mães: a gravidez era algo natural, era o destino da mulher e por isso deveria ser evitada a interferência das curandeiras, mas ao mesmo tempo… a gravidez era o castigo celeste pela incontinência voluptuosa de Eva. Pensava-se nesta época que a gravidez podia ser adivinhada quase e que se consumava no acto sexual. Para tal era necessário que existisse por parte do corpo da mulher um frémito de prazer durante o coito (que não era visto como prazer, mas como prenúncio de felicidade futura), que o homem retraísse o seu membro e que este ficasse mirrado e por fim, que a mulher não tivesse mais desejo sexual pelo homem em questão durante o resto da noite, estando o seu corpo já a fechar-se para a preparação do ser que iria albergar. Lá dentro, e enquanto homem e mulher dormiam de costas voltadas, já tudo estava decidido. Eu acho bem, mas também acho que por esta ordem de ideias a nossa taxa de natalidade seria muito mais elevada. A observação da possível gravidez através da urina era coisa já antiga, mas não com as tecnologias actuais. Lançar a urina, durante três dias seguidos, três manhãs consecutivas, sobre uma malva. Se a planta não morresse, a mulher estaria grávida. Outra teoria defendia que a urina deveria ser deixada uma noite dentro de um pote metálico onde deveriam repousar igualmente alfaias de ferro. Se na manhã seguinte estas aparecessem manchadas de vermelho, a mulher estava grávida. Vemos isto nesta pintura de Rogier van der Wyden, “Virgin with the Child and Four Saints”. Do lado direito da pintura (esquerdo da virgem), dois santos acompanham esta cena. São eles são Cosme e São Damião, santos patronos dos médicos e farmacêuticos. São Cosme segura numa das mãos um pote de vidro com uma pequena amostra de um líquido que se pensa ser urina, como que a atestar cientificamente que a Virgem trouxe no seu ventre o menino. Os cultores de urina agitavam à luz do sol a urina para verem o cambiante das suas cores, podendo adivinhar logo se a mulher estava de esperanças, se a criança era do sexo feminino ou masculino e até, se teria outras doenças. Não que a gravidez seja uma doença (às vezes parece uma praga a avaliar pela quantidade de barrigas que nos atiram à cara), mas naquela altura era considerada uma doença. Mas a melhor teoria médica para executar um teste caseiro de gravidez é, na minha opinião, aquele que aconselha o repouso durante três dias e à sombra de um frasco de vidro contendo a urina da mulher. Quando coado através de um pano fino branco a gravidez fica assegurada se no mesmo ficarem alguns bichinhos. Lá está, o Preformismo.
Gerrit Dou
The Dropsical Woman
1663
Musée du Louvre, Paris


Santo Constantino, o Africano


Rogier van der Weyden

Virgin with the Child and Four Saints
1450-51
Städelsches Kunstinstitut, Frankfurt

Após conhecer o resultado do exame urológico e caso este tivesse resposta positiva, os casais desejavam saber o sexo da criança, coisa que se impunha e que podia fazer a diferença em certas uniões. Alguns casamentos só eram legitimados quando a esposa desse ao seu esposo um filho macho, um varão. Até aí, e caso o marido decidisse, esta seria repatriada para o seio paterno. Ora como os filhos do sexo masculino eram muito desejados, era natural as teorias e as práticas para adivinhar o sexo da criança beneficiassem mais na sua análise os homens que as mulheres. Hipócrates por exemplo dizia que o rapaz se mexia mais cedo que a rapariga e outros médicos, botânicos, farmacêuticos e espalha brasas diziam que sendo o feto masculino a mulher se sentia bem, com boa cara, bem disposta, com apetite e feliz. Há também uma teoria, que permanece até hoje que coloca o feto feminino a crescer para o lado esquerdo do corpo da mãe e o masculino a crescer para o lado direito. Obviamente isto tinha uma explicação muito cara aos homens: como a maior parte das pessoas era destra, dizia-se que o lado direito do corpo era mais hábil, e desenvolto, logo, um ser do sexo masculino teria de nascer nesse lado e herdar dele as características. Outro teste determina ainda o sexo e o número de filhos que a mulher vai ter. Ainda hoje se pratica e chama-se jogo do pêndulo e que consiste em fazer balançar sobre a barriga de uma grávida um pêndulo (há quem faça com uma simples agulha que balança no fio). Se este pêndulo se mover de forma circular, será uma rapariga (alusão unívoca!). Se pelo contrário o pêndulo tiver um movimento de vai-vem, é um rapaz.


gravura do século XIX

Se a mulher esperava uma menina a ordem cósmica fazia dela uma sofredora no parto e na gestação, coisa muito merecida por virtude do despautério de Eva, a prostituta do Éden. Tudo quanto fosse enjoo, desejo estranho e histerismos dos quais a grande parte das mulheres tirava grande proveito, excepto as menos aptas intelectualmente. Caberia à mulher o trabalho de durante esses nove meses munir-se de uma lista extensa de desejos e desenrolá-la como uma língua na pastelaria, no chapeleiro, na modista, na luvaria, ou frente ao marido à noitinha e com a alça da camisa a fugir virginalmente do ombro macio e em gancho. As que o Senhor tinha dotado de outros atributos que não a inteligência (e digamos, neste caso da camisa, de beleza), teriam que se haver com alguns “nãos”, raros, quase inexistentes face à crença universal que quem falava não era a mãe, mas a criança e que esta, se privada de algo, nasceria com defeito impresso na pele como um selo ou como a marca de um ferro quente. E os desejos poderiam ser muitos, sendo que aqueles que mais facilmente se aceitavam eram os de ordem alimentar, embora nem tudo aquilo que as mulheres colocavam à boca fosse propriamente comestível como aranhas, urina, areia, cabelos, ferro, etc… segundo o retrato da época. Havia também desejos de roubar, de vandalizar ou de maltratar, desejos esses que deveriam ser satisfeitos sob pena de a mulher transmitir aos filhos a carência. Acredito que muitas grávidas terão exagerado nesta parte como forma de vingançazinha.
Já no século XVIII e com a ascensão de uma consciência médica e consequente aprofundamento, a gravidez foi sendo desmistificada aos poucos e poucos. No entanto prevaleciam algumas teorias – que quase sempre conferiam à mulher, fosse qual fosse o mal, o mesmo diagnóstico - de sofredora militante de histerismo crónico e milenar. A ciência havia descoberto muito quanto ao nascimento em si, mas pouco quanto aos desejos femininos, aos seus anseios e às necessidades do feto dentro da incubadora. Ora foi também por esta altura que o Homem – que cria a doença e acha a cura – inventou um torturante e dissuasor aparelho de nome fórceps que no entender da mãe iria ajudar ao nascimento, mas que no entender do médico, cada vez mais chamado para ver a vagina em dilatação em detrimento das carcaças sabidas, mas caciqueiras das parteiras de serviço que ordenavam mais ou menos dores à parturiente quanto os seus ouvidos fossem capazes de aguentar ou quanto a condição do nascido a isso obrigasse, era apenas uma forma de fazer do nascimento um negócio.

Louis Léopold Boily
The Second Month
1825

Durante a época vitoriana a moda espartilhada e ataviada atrapalhou, se não a concepção, pelo menos a gestação. As mulheres, muito deformadas pelos ditames da moda, eram como pombas de coração acelerado e por isso, muito pouco úteis na nobre e animalesca tarefa de parir um saudável varão. Apesar dos conselhos médicos de algum exercício físico, as pobres almas não primavam pela sensatez e muitas vezes, as mais afoitas que se aventuravam a fazer um pequeno movimento, por ausência do mesmo durante toda a vida, acabavam por sofrer abortos. Daí que a questão do exercício físico e do papel activo da mulher durante o tempo de gestação tenha sido sempre desconsiderado. E quem engravidada, privada que era de uma vida social cheia do rumorejar de saiotes, rendas e dos bordões dos homens nas crinolinas, tinha que se recolher no recesso do lar, onde o que a esperava eram somente os bibes e um tricot canónico esquecido entre os livros e os suspiros de que o diz chegasse rapidamente. Isto acontecia porque as mulheres se viam desposadas do uso da sua bonita roupagem, dos seus trajes elegantes, até porque ainda não existia uma moda para grávidas, não existia a roupa propositadamente feita para mulheres grávidas e elas escondiam sob um corpete, e até aos limites do aceitável, a barriga que crescia. Havia uma vergonha declarada em estar grávida, assim como existia uma conduta protocolar de distanciamento entre mãe e filho. A panaceia de mulher grávida era um aro ou um cinto de couro que passava pela nuca e por baixo da barriga, para segurá-la.

gravura do século XVI
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

Antes e depois ou na continuidade do post sobre a futilidade. Obviamente que ser fútil não é gostar de moda. Na minha opinião a futilidade implica sempre comparação e nessa comparação há uma impossibilidade de resolução. Uma vez que a possibilidade insiste nos nossos gostos, apenas se pode dizer que gostar de X ou de Y é absolutamente fútil quando comparado com Z. Ora, como os gostos se devem discutir, ao mostrar os meus gostos vou ser avaliada pelos outros que farão com eles a comparação acima descrita. Mas como cada um ajuíza de forma diferente (excepto nos casos extremos e mesmo assim, tenho vista muita coisa), não há solução de gosto. O gosto e a premência nem sempre combinam e dentro do gosto, assim como dentro da premência, há várias ordens de importância.
Apresento um post sobre a moda e sobre Dali. Da primeira gosto, do segundo não. Mas era coisa que se impunha. Depois de ver o livro “Moda e Surrealismo” e de me deparar com a obra de Elsa Schiaparelli, uma estilista italiana muito influenciada pelo Surrealismo, notei a semelhança entre muitos dos seus modelos e alguns quadros, principalmente de Dali. Um deles é este casaco com bolsos estrategicamente posicionados. Digo “estrategicamente” porque é muito semelhante à Vénus de Dali e ao pormenor da mulher que se encontra em primeiro plano no quadro “Girafa em chamas”. Como já disse, não gosto nada de Dali, mas estive a ler que Dali interessava-se por moda e atribuía-lhe um sentido paradigmático: a moda condicionava as acções dos homens ou antecedia-as. Quando na Segunda Guerra Mundial os tecidos escassearam, Chanel teve de fazer vestuário com os tecidos usados na roupa interior e usados nas fardas dos soldados (Lagerfeld reviveu isso nos anos 90 ao fazer desfilar modelos vestidas com tailleurs feitos de turco). Quando a Alemanha mostrou ao mundo o seu poder, um dos principais veículos da sua mensagem foi o uniforme da polícia alemã que contrastava com a pobreza dos uniformes dos aliados. Era algo intimidatório, que merecia respeito e medo, mesmo que não se concordasse com o regime. Mas a moda e principalmente a roupa está associada ao seu receptáculo, ao seu contentor (uma vez que moda é muitas vezes desprovida de conteúdo, tem pelo menos um contentor): a gaveta. A gaveta é uma alegoria da Psicanálise, do segredo e, na minha opinião, da Caixa de Pandora. Na Vénus com gavetas, a gaveta representa o interior podre da beleza, mesmo da beleza imaculada. A estilista Elsa Schiaparelli, que também estudou filosofia e era coetânea de Dali, deverá, como ele ter conhecido as teorias de Freud. Desconheço se as aplica com o mesmo sentido de Dali, mas constrói o seu casaco colocando as gavetas praticamente no mesmo local do corpo que Dali coloca, e as suas peças são tão extravagantes quanto as dele. Ela confirma esta relação com Dali, não apenas na colocação das gavetas nos mesmos locais, mas porque, se virmos os modelos que concebe, Elsa é tão desconcertante com a análise da moda e do outro quanto Dali.

Salvador Dalí
Venus de Milo with Drawers
1936
Colecção Privada


Elsa Schiaparelli


E para concluir a futilidade, eis uma sugestão, um bocadinho tardia, mas quem dá o que tem, a mais não é obrigado. Em Dusseldorf, no NRW Fórum, até 1 de Novembro é possível ver os vídeos e as instalações relativas aos desfiles de moda mais fantásticos dos últimos tempos: Thierry Mugler em 1997, Dries van Noten em 2004, Yves Saint Laurent no Grand Palais em 2008, Yohji Yamamoto em 1998, Rodarte na Gagosian Gallery em 2008, Maison Martin Margiela em 2009-10-10, Dior em 2005, Alexander MsQueen em 1999, e John Galliano em 2009.
- o carteiro -
Deverá existir em alemão uma palavra para falar desta ponte temporal entre o passado e o presente na arte, uma vez que em alemão há palavras para tudo. Sugiro Brückedazwischenpräteritumpräsens (brucke=ponte, dazwischen=entre, präteritum=passado, präsens=presente), mas como tem muitas letras, deixo antes Vergangenheitsbewältigung que significa “reconciliar-se com o passado”. E eis que o presente representado aqui pelo Turner Prize se encontra com o passado datado de 1987. Em 1987 o artista Tim Head pintou o retrato de várias vacas inspiradas nas vacas de Liz Leyh em Milton Keynes. Ao longe parece um lindo padrão de papel de parede, mas ao perto são vacas ou melhor, a imagem vaga de vacas inspiradas nas ilustrações de pacotes de leite da cadeia de lojas Sainsbury's, que por sua vez se inspiraram nas vacas de Liz Leyh. Quem vê a imagem percebe que por trás destas vacas está uma recordação de infância, vinda dos referidos pacotes de leite. A pintura dá-lhes um ar abstracto, dá-lhes nova forma e retira-lhes o aspecto familiar. E este quadro tem uma vantagem face à Pop Arte, para quem alegar que é apenas Pop Arte: ela aproxima-se de algo nobre que poderia cobrir as paredes de residências respeitáveis.

Tim Head
Cow Mutations
1987

Presentemente pode ser comparado ao Turner Prize. Antes dos galardoados, a Tate Britain organiza uma exposição com os finalistas e convida o público a falar das suas diferenças e semelhanças. Este ano o quatro finalistas são Roger Hiorns, Enrico David, Lucy Skaer and Richard Wright (onde é que estão as mulheres?). Entre eles há semelhanças: trabalham com marcas de água, ou stencil ou mesmo padrões. Aliás, diz-se que não há vários trabalhos nesta exposição, mas apenas um grande e longo trabalho que é a soma das propostas destes artistas que se assemelham tanto. Richard Wright, o último da lista é aquele que terá menos probabilidades de ganhar o Turner Prize uma vez que o seu trabalho é lacónico: ele pega numa grande sala e tacitamente enche a parede de folha dourada (a mesma que se usa para a talha) de forma a criar padrões e por consequência um oneroso papel de parede em que o elemento base do padrão é gigantesco face à ideia de padrão.

Richard Wright
Wall markings
2009
- o carteiro -

notícias do mundo da arte:
- Os Spandau Ballet vão regressar com uma tourné que irá incluir êxitos antigos e canções do novo album "Once More".
[link]

- Damien Hirst, que mudou o paradigma de obra de arte ao conservar em formol a carcaças de animais e vendê-las a preços escandalosos, originou o regresso ao passado. Esta semana, quando Hirst resolveu expôr algumas pinturas na Wallace Collection aos mesmos preços que os leilões pedem hoje por quadros de Ticiano e Rembrandt, ouviu um coro de críticas de toda a imprensa, de todos aqueles que desde os YBA o veneravam. O problema está em Hirst ter dessacralizado a intocável expressão artística que é a pintura ao aproximar-se muito dos Mestres Antigos (no preço) e dos mais recentes como Picasso ou Freud. Ele pressupõe com isto uma possível comparação com a pintura, que ninguém consegue achar legítimo.
- A ala direita da política e cultura americana (isto parece uma antítese), profundamente conservadora, referiu-se com desdém à colecção de arte dos Obama, alegando que a maior parte dos quadros são cópias de autores conhecidos. Em concreto o quadro Hard Edge é uma cópia de l’Escargot de Matisse. Argumenta-se que as cópias até teriam piada se Obama não estivesse tão desorientado. E o reparo até seria pertinente se tivesse vindo de alguém que não achasse que a Branca de Neve era uma depravada porque vivia com 7 homens anões.
- não vai mais vinho para essa mesa -

Guta, Experimenta não enviar. Por favor.

sábado, outubro 10, 2009

- back to black -

"Pode o deus que em mim vive mover profundamente todo o meu ser; mas nem mesmo ele, que comanda todas as minhas forças, pode mudar o que quer que seja à minha volta." - Goethe - Fausto
(estive a olhar para os arquivos e antes isto tinha muito mais piada. "no meu tempo é que era...")

quinta-feira, outubro 08, 2009

- o carteiro -

uma pessoa tem os seus dias
- original soundtrack -

Não consigo encontrar a letra desta música, nem o nome do album. Mas é viciante

(Wonderful Life, Hurts)
- o carteiro -
cenas dos últimos episódios:

“vou lá, faço o meu papel, sou agradável, sorrio, rio, participo e depois venho embora” , “inexperiente e inocente. E as pessoas aproveitam-se disso”, “eh pá, não me prepares o pequeno-almoço. Destesto que me preparem o pequeno almoço”, “you can’t handle this”, “vou apagar-te dos ‘favoritos?”, "pára de te preocupares com o bem estar dos outros", “a vida custa-me muito mais sem ti, mas não posso fazer isso”, “não é assim tão mau ser imperfeito”, “já a vi pior”, “fim de semana no chiuaua”, “não é possível a vida ser isto", “talvez não seja aquilo que desejavas que eu fosse”, “o que tu pensas que é bom para ti não é”, “pensas demais”, “põe a mão aqui, põe cabra!”, “e a esperança? Eu não consigo viver assim!”, “ele está a fazer chantagem”, “há qualquer coisa de errado”, “gosta de tudo? Coma de tudo”, “muito cansada, muito triste, sem esperança, em branco”, “és a minha enguia arisca”, “tenho a sensação constante que não gostam de mim, toleram-me”, “mostra as mamas na internet! Expõe-te!”, “anda lá pedir-lhe um autógrafo!”, “looser”, “tens-te na pior conta”, “mach icho não tem muitach vitaminach”, “ridícula”, “amas como quem se vinga”, “diz-me onde estão as garrafas. Eu escondo-as melhor”, “dividimos o mesmo tecto, mas nunca mais fales comigo por favor”, “não tenho paciência”, “vai ser o nosso pequeno segredo”, “para mim, 90% de perfeição”, “não tenho de ser o balde do lixo dos teus desejos sexuais”, “és tímida?”, “ó chiquitita, aqui quem decide sou eu”, “amô, faiz um fávô prá mim? Liga o forno e passa SBT ná caisa”, “desculpa. Desculpa por pedir desculpa”, “as pessoas são simpáticas porque estás magra”, “às vezes a aluna inventa”, “está no banho? Tem de sair, falta uma faca no refeitório”, “Orlando, o que é que eu faço?”, “tens de tomar Ómega 3”, “fuma, droga-te!”, “18 valores em Antero de Quental? Que seca!”, “as tuas calças são tão feias”, “bebes dia sim, dia não”, “não era para ficar mais magra. Era para desaparecer”, “deixa-me em paz com as minhas guerras”, “não, parte-se do geral para o particular!”, “pois, pois, isso é muito bonito, mas não serve de nada”, “já para a coluna jónica já”, "se querias mesmo saber porque é que não perguntaste?", “porque é que não ficas?”.
- não vai mais vinho para essa mesa -


- Tens aí o endereço electrónico dela?
- Mostra. Humm, não conheço este servidor... Deixa cá procurar no google "rottlemeio".
- ...
- ... Só tem rottweiler. Deixa procurar antes com um "t" apenas. Ela soletrou o nome pelo telefone?
- Não, ela disse e eu escrevi...
- ...
- ...
- Não aparece!... Espera aí! Diz-me exactamente aquilo que ela disse, com sotaque brasileiro e tudo!
- Ela disse "tátjivintchiméia, étchi rottlemeio, ponto comi".
- Sabes... isso traduzido é "tativinteeseis@hotmail.com"
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates

antes e depois ou "como este post é, na minha modesta opinião, muito bom. O antes e depois de hoje não é bem um antes e um depois porque não se sabe aqui quem nasceu primeiro, a história de Jonas ou o útero feminino. Consideremos, para facilitar as coisas, que foi o útero feminino que nasceu primeiro da Mão de Deus. Logo o depois deste post é a saga de Jonas. O livro de Jonas pertence ao Antigo Testamento, mas como para existir Jonas era necessário existir uma mãe de Jonas com um útero, assim fica; primeiro o útero e depois o Jonas. Ora o Livro de Jonas, quase desconhecido, conta a história de Jonas. Esta história, muito resumidamente, diz que um dia, Deus envia à cidade de Nínive, cidade que era tradicionalmente, inimiga de Israel. A cidade, segundo Deus, tinha desobedecido às suas ordens. Jonas vai então pregar a palavra divina, mas uma vez em Nínive, foge à sua responsabilidade, metendo-se num barco com direcção a Társis (Espanha. Ou o barco era o Paquete Funchal, ou não sei…). O Senhor vendo isto criou uma tempestade no mar disposta a acabar com a insurreição de Jonas. Os marinheiros aflitos começaram a perguntar a Jonas quem lhes enviava a tempestade e Jonas disse que era o seu Deus. Zangados com atitude de Jonas que provocou a ira de Deus, lançaram-no ao mar e o mar cessou a sua fúria. Os homens recuperaram o amor a Deus, Nínive aproximou-se das leis de Cristo, mas Jonas ficou perdido no mar. Os homens de Nínive, do rei ao mais pequeno súbdito humilharam-se vestindo-se com panos de aniagem e cobriram-se de cinzas. Para castigar Jonas Deus fez com que o profeta fosse engolido por um grande peixe (erroneamente chamado de baleia) e lá permaneceu durante três dias. Jonas rezou durante esse tempo todo e Deus permitiu que o peixe soltasse Jonas.

Esta história tem uma importante mensagem teológica: Jonas representa a mentalidade estreita e vingativa com que se classifica muitas vezes os judeus. Como os judeus eram o povo escolhido, tornaram-se aos poucos impermeáveis à acção de Deus. Esta é uma parábola da misericórdia de Deus. Ora este relevo que aqui mostramos mais não é que a imagem de Jonas a ser expulso do interior do peixe, existente como decoração de uma misericórdia (apoio na parte de baixo de um banco de coro) na igreja of Saints Peter and Wilfrid em Inglaterra.

O útero… é um útero e tem aqui uma relação formal com a baleia. Não vejo outro tipo de analogia que possa ser feita entre a baleia e o útero humano, a não ser que na Idade Média o útero, por ser feminino, era visto como a fonte de todos os males, uma toca, uma boca insaciável, mais do que o berço das nações.



Church of Saints Peter and Wilfrid
1489
- o carteiro -
quando um não quer, dois não pecam - procriação III ou a mulheró-poedeira

Um dia, Jan Swammerdam levou até um convívio com os amigos onde se discutia embriologia um bicho-da-seda. Ninguém acreditava que daquele casulo pudesse sair uma borboleta, mas Jan começou a retirar as camadas que envolviam a borboleta e pôs a descoberto todas as partes que constituem esse insecto. O que se concluiu no convívio? Que cada uma das criaturas que existe ou virá a existir no mundo já está preformada dentro das criaturas mãe da mesma espécie. È este o princípio da Pré-formação que fala de um homúnculo, igual ao que virá sair, com todas as características que lhe iremos conhecer e completamente formado que apenas fermenta na barriga da progenitora. É uma outra abordagem à Teoria do Homúnculo em que o ventre materno mais não é que um suporte a algo que se desenvolve independentemente do exterior. Isto dizia que o ser humano era limitado apenas por factores genéticos e que nada de exterior poderia ter influência sobre o seu nascimento nem sobre o resultado final dessa incubação, pois toda a parte ideológica do ser já estava formada. Diz-se que esta teoria foi muito apoiada pela Igreja como forma de combater o Ateísmo. Ao dar a Deus o papel de criador matemático de tudo (as crianças com deficiência eram um aviso da fúria divina e confirmavam a regra), não se podia colocá-lo em causa, problematizá-lo. As crianças que nasceram na altura em que os paizinhos acreditavam nisto sofreram portanto um tratamento muito frio e desmaiado adulto pois todos partiam do princípio que a criança tinha as mesmas faculdades que o adulto, apenas não tinha tamanho. O contrário da Pré-Formação é a Epigénese que diz algo diferente. Diz que no interior do ventre materno se encontra um ser em desenvolvimento, tanto físico como genético e que nada nele é definitivo. O resultado final é fruto da genética, mas também das condições a que foi sujeito durante o seu desenvolvimento. Assim, a genética é apenas uma indicação de que o indivíduo poderá vir a gostar de comer x ou y, mas no fundo, só a experiência é que pode dizer que ele vai comer um em detrimento do outro.
Obviamente, entre a Epigénese e o Pré-formismo, ganha a Epigénese, uma vez que até por comparação com os animais, os seres humanos nascem em estados ainda pouco avançados. Os animais quando nascem começam a andar no próprio, o que não acontece com os humanos. Somos, desde o início, inacabados.
Dentro do Pré-formismo, que é o que me interessa mais porque a Epigénese é o que já sabemos e sobre o que já sabemos, embora não seja conhecimento estanque, alguém se encarregará de nos dizer mais temos duas teorias: a teoria do Ovismo e do Animalculismo. A teoria do Ovismo defende que o embrião está dentro do óvulo, dentro do gâmeta feminino, e a missão do espermatozóide é estimular o desenvolvimento do mesmo. Isto até nem é de todo mentira, pois numa última análise, todos nós existimos dentro do óvulo até nos formarmos com cromossomas XX ou XY. No início somos todos informes. Claro que não é o espermatozóide que nos dá o género com que nascemos, mas esta teoria faz justiça ao sexo feminino quando o sexo masculino se assume como predominante.
O Animalculismo ou Espermismo apoia quase o contrário: quem detém o embrião é o espermatozóide e quando este chega ao óvulo e o deposita, o óvulo mais não é que um receptáculo, um cacifo a 35º, mais coisa menos coisa. Os espermistas não sabiam se o sémen era suor leite, saliva, sangue ou até um bicho ou vários bichos. Daí o nome de Animaculismo, uma ideia que era muito atraente para os mais imaginativos. Para os espermistas, que defendiam que o esperma era um pan-líquido, que produzia maravilhas, os homens dentro do esperma teriam de lutar entre si para conquistar o seu direito ao óvulo. Sabia-se se a luta tinha sido renhida ou não quando o pequeno-homem vencedor dava origem a uma criança com deformidades ou alguma coisa fora do normal. O processo era inverso: olhava-se para a criança e o seu estado requeria explicação ou não. Esta não era a teoria apoiada pela Igreja, como vimos, mas o Preformismo tinha sido totalmente colocado de parte em 1775 graças às descobertas de Spallanzani e era necessário estar atento às novas teorias. Obviamente o espermismo foi recusado pela Igreja: como era possível desperdiçarem-se tantas vidas? E a masturbação? Que acto ignóbil! (Génesis 38, 4-10). Acabou de imediato o Espermismo!


Antes que a Epigénese acabasse com a festa, o Ovismo ainda fez correr muita tinta. Literalmente! É que eram inúmeras as ilustrações dos naturalistas acerca da possibilidade de um ser humano nascer de um ovo. Temos que ver que o ovo sempre teve muita importância em todas as culturas. Sem contar com as variações que cada crença depois lhe associa, elas têm em comum o facto de verem o ovo como o princípio da vida. Não nos interessa dizer o que egípcios, budistas, persas pensam sobre o ovo pois para isso temos o dicionário dos Símbolos. Mas para fazermos uma relação breve com o que mais próximo temos da nossa cultura ocidental, já desde o Estoicismo, o universo era comparável ao ovo: a casca era a lógica, a clara comparável à ética, e a gema, no centro, seria a física; ou seja, os princípios da relação dos Estóicos com a Natureza. Esta ideia é tão antiga que se impõe as perguntas:
- Se o Mundo é um ovo, e se este ovo é a morada dos humanos, quem foi a mulheró-poedeira que o pôs? Eva não foi, pois Eva é posterior ao Mundo.
- E se os vivíparos desenvolvem-se no interior da mãe, como conciliar o Ovismo com a Viviparidade?

William Harvey
Ex ovo omnia
1651


William Harvey
Ex ovo omnia (pormenor)
1651

E para esta última questão é importante ver que as duas coexistiam: acreditava-se que um ser vivíparo (uma mulher) podia dar luz um ser à sua imagem e semelhança (amén!) e que esse ser era gerado dentro de um ovo que estava dentro dos ovários da mãe. E não foi uma ideia tão mal encarada como parece à primeira vista: Leonardo da Vinci – bom, mas este não conta – produziu alguns esboços e uma pintura onde mostra a criança a nascer de um ovo. O que me parece um bocado tonto para um homem que inventou o primeiro escafandro e o primeiro guardanapo. Mesmo mais tarde, havia quem dissesse que a razão para as mulheres terem os ovários na zona baixa do abdómen se devia à sua posição próxima do local onde o útero recebia o “grande fogo”. Reinier de Graaf, um naturalista holandês escreveu que as mulheres conservavam nos maiores folículos dos ovários (chamados folículos de Graaf), o ovo, o que, segundo a ilustração me parece improvável. O embrião já está formado e é bem grandinho para depois descer o útero na altura do parto.

Leonardo da Vinci
Studies of embryos
1509-14
Royal Library, Windsor


Leonardo da Vinci
Leda
1508-15
Galleria degli Uffizi, Florença


Reinier de Graaf
1672


Reinier de Graaf
1672

O ovo é no fundo uma alegoria humana da Caixa de Pandora, bem como o útero que o expulsa: todo o bem pode estar ali contido, mas o mal também. E é também uma forma de celebrar a morte, embora aqui só nos interesse falar dele enquanto veículo para a vida. Ainda que de uma forma um bocadinho excêntrica. E o Ovismo estende-se de tal forma à arte que podemos vê-lo tanto no quadro de Piero della Francesca “Madonna and Child with Saints”, como no livro “Admirável Mundo Novo de Adous Huxley. No primeiro exemplo, Piero della Francesca pintou um ovo de avestruz mesmo em cima da cabeça da Virgem e se fizermos uma análise da perspectiva do quadro e do seu Ponto de Fuga auxiliado pelas construções arquitectónicas, vemos que tudo na pintura se centra na cabeça da Virgem. È por isso impossível ignorar o ovo, embora seja comum em muitos altares dedicados à Virgem. A razão da relação entre a Virgem e o ovo de avestruz pode ser desdobrada: por um lado a analogia entre o Nascimento de Cristo (vindo do interior da Virgem Maria) e o ovo que incuba à luz do Sol e por isso, eclode sem intervenção humana (quase, porque na prática o nascimento de Cristo é uma forma de Ovismo – Ele nasce do interior da Virgem mas vem já numa redoma mística). Ainda nesta linha de pensamento, foi dito que o ovo era uma pérola e que por isso representava a Imaculada Concepção uma vez que tal como Cristo, a pérola sai sem intervenção qualquer do interior da concha. Por outro lado, há a relação entre o ovo e o nascimento e o ovo e a morte, pois é símbolo da renovação cíclica (daí o ovo da Páscoa que é a vitória da vida sobre a morte). Logo, diz-se que o ovo de avestruz (sendo a avestruz um dos símbolos heráldicos da família Montefeltro que encomendou o painel e que se vê pintada nele) remete para a morte de Battista Sforza (que faz de Virgem Maria) e o nascimento de Guidbaldo Montefeltro (que faz de Menino Jesus), como se tal como uma avestruz, ela tivesse enterrado o ovo na areia, tivesse morrido e deixasse cá apenas a sua imagem e o ovo a chocar.

Piero della Francesca
Madonna and Child with Saints (Altar dos Montefeltro)
1472-74
Pinacoteca di Brera, Milão

No livro “Admirável Mundo Novo” Huxley referia-se com mordacidade ao Processo Bokanovsky descrevendo-o como a forma asséptica para criar vários seres humanos concebidos a partir de um só ovo. Estes ovos não têm mãe, não há partos neste “Mundo Novo”, mas fica aqui patente a ideia de um útero materno que é substituído por uma fábrica, conservando-se apenas a ideia de ovo. Por mais que nossa imaginação avance, por melhor que seja a tecnologia, ainda concebemos um futuro em que homens e mulheres não serão necessários na reprodução, mas em que o ovo, a incubadora continua a existir, como são exemplo disso os embriões criados em laboratório no filme Matrix ou Relatório Minoritário.
- o carteiro -


um destes dias disseram, de uma forma subtil, que era fútil. Tomei como uma afronta, não sei bem porquê. Depois pensei: "bem, antes a futilidade que a falsa modéstia". Como diria o Wilde: "The makeup tells us more than the face".

- Roisin Murphy canta (e canta) no desfile de Viktor and Rolf (pode uma pessoa pedir mais do que isto);

- Dita von "Teases" para a Wonderbra (uma linha ao seu dispôr)

- Alexander McQueen a trabalhar para o Serviço Nacional de Saúde. Em especial para os ortopedistas.

- Um questionário que nos reduz a três ou quatro perfis. Vaidades!

- o carteiro -

Parábola do Bom Eleitor
Um dia, uma cidade de Portugal inventou um desfile de Carnaval com grupos carnavalescos, piadas, grupos de passerelle e Escolas de Samba. Ao princípio e como a cidade era pequena, só existiam duas escolas de samba assim como pouco mais de 10 grupos carnavalescos e de passerelle. A sua função era simplesmente entreter as pessoas prometendo-lhes três dias de folia e a sensação de que no futuro a performance seria melhor. Entre os rigores climáticos do Natal e os rigores espirituais da Páscoa, o povo assistia com manifesta alegria à passagem das cores das escolas, da euforia dos grupos e da mascarada que aproximava quem divertia de quem era divertido. Todos eram amigos nesses três dias e mesmo quem não se conhecia passava a conhecer sem qualquer vergonha ou medo: médico e paciente bebiam do mesmo gargalo, patroa e empregada balançavam a perna ao som do chorinho. Mas com o tempo as Escolas de Samba, instigadas pelo que se passava além-mar, tornaram-se mais, e mais sofisticadas. A Comissão do Carnaval inventou o concurso para Escolas de Samba onde eram avaliadas as passistas, o mestre-sala, a porta-bandeira, o enredo, a música, os fatos e a coreografia. Os atrasos entre as alas que compunham a Escola e as falhas técnicas eram penalizadas por espectadores dissimulados entre a multidão, que numa folha avaliavam estes parâmetros. No fim, o júri contava os votos e declarava-se, na varanda do Município o vencedor e no dia seguinte empregada e patroa voltavam as costas e médico e paciente não se cumprimentavam. Havia "choro e ranger de dentes" chegando muita gente a "vias de facto". A votação beneficiava sempre as duas grandes: a Costa Dourada que se apresentava de vermelho e branco ( a primeira vez que uma escola de samba se apresentou apenas de branco as passistas pareciam umas cegonhas com a pena a mudar. A partir sempre que uma Escola de Samba se apresentava de branco, perdia) e a Bandinha que desfilava de rosa, branco e lilás.

Apesar de hoje as Escolas de Samba serem mais, o poder de reinar como vencedora durante um ano (e usufruir de um subsídio para as representações externas do nosso Carnaval), continua a claudicar, ao ritmo anual de uma cor por ano entre os vermelhos e os rosas. Para o povo que vota resta a folia com tempo limite e o vomitado da praxe à porta de cada casa, como que anunciar a passagem do compasso e o início de épocas em que todas as promessas serão esquecidas.

quarta-feira, setembro 23, 2009

- original soundtrack -

A propósito das músicas com história, homenageamos uma que fez história. Sem letras, sem imagens. Peço toda a vossa atenção para o vídeo que mereceu um comentário de Nick Cave: "Rios de Sémen". (Ai Kylie se eu fosse mais nova, não me escapavas). E sim, I love Pop. So what?
(Spinning Around, Kylie Minogue)
- não vai mais vinho para essa mesa -

That's all folks? Belogue2? Shit, shit, shit, shit, shit, shit
- ars longa vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou como os filmes do Hitchcock, vistos cinco vezes, ainda têm mais coisas para contar, ou como já não é a primeira vez que falo dos filmes dele (principalmente "A mulher que viveu duas vezes" e a "Chamada para a Morte") ou como isto não é tudo porque a obra continua actual e porque podemos analisá-la ao nível dos sapatos, da semelhança entre planos inovadores daquele tempo e os planos da Comunicação Social, ao nível das jóias, da influência sobre os pintores e dos pintores (principalmente Dali em "Spellbpound" - com quem Hitchcock se incompatibilizou - e Magritte) e muito mais. Já não é a primeira vez que a Mattel faz uma Barbie para coleccionador com uma temática como a Barbie Mary Poppins ou a Barbie Grease. A razão para ter postado este "antes e depois" e não outro (tenho um caderninho de anteses e depoiseses) prende-se com uma leitura que estava a fazer um dia destes. O livro falava de uma tríade na cinematografia de Alfred Hitchcock que contemplava por esta ordem os filmes "Intriga Internacional", "Psico" e "Os Pássaros". Neste último, o primeiro ataque de um pássaro dá-se quando Melanie, depois de ter vindo da pequena doca frente à casa do seu amante (depois de ter deixado lá dentro dois pássaros engaiolados para a filha deste), regressa a Bodega Bay no mesmo barco a motor. Ela contempla-o de cada vez mais perto e não se apercebe, assim como cada um de nós, devido ao plano em que a cena foi filmada (ver aqui aos 06m e 04s), da aproximação de um pássaro, do lado esquerdo do ecrã, que desce até à sua cabeça e a bica. Ora este plano lembra de imediato um outro, bem mais trágico e que corrobora a expressão "a vida imita a arte": o das primeira imagens do segundo avião a atingir o World Trade Centre a 11 de Setembro de 2001, imagens essas captadas quase do chão, como um quadro barroco cuja perspectiva se expressa "di sotto in su", "de baixo para cima". Vemos como a entrada no plano do avião vindo da esquerda, surpreende a pessoa que está cá em baixo e é tão rápido que quase só em câmara lenta (ver aqui) percebemos do que se trata.

Pois o livro referia que o embate dos aviões com as torres sujava completamente a paisagem de Nova Iorque e que a relação com estes três filmes de Hitchcock se explicava a nível iconográfico. Primeiro, em "Intriga Internacional" o avião (como um pássaro gigantesco) ataca Cary Grant numa estrada junto a um campo de milho em Midwest (05m e 43s). Depois, em Psycho vemos como o quarto de Norman Bates está cheio de pássaros embalsamados (02m e 56s), que representam o meio-termo entre o avião (o pássaro grande ou muitos pássaros) para o que se passa em "The Birds", o ataque de um pássaro ou de vários pássaros vivos.

Alfred Hitchcock
The Birds
1963


Mattel
Barbie, The Birds
2008
- o carteiro -

Tudo o que você nunca quis saber acerca da utilização do facebook:
Sombra real – a sombra do ponto, quando nele incide um raio luminoso qualquer, projectada de imediato no Plano Frontal de Projecção (PFP) ou no Plano Horizontal de Projecção (PHP), consoante a posição do ponto no espaço.
Sombra virtual – a sombra acessória de um ponto, cujo único propósito é servir de denominador comum entre duas sombras reais projectadas em planos de projecção diferentes. Uma sombra real projectada no PHP e uma sombra real projectada no PFP não podem ser unidas. Usa-se a sombra virtual para encontrar o ponto de charneira, a “plataforma de entendimento” entre duas sombras.

Estes dois conceitos do desenho e da Geometria Descritiva, embora difíceis de compreender sem recurso à folha, ao aristo e ao lápis são o paradigma daquilo que hoje constitui a forma como a maior parte das pessoas vive as aplicações ciberculturais.
Antes de avançar neste post devo dizer que:
- o Belogue, a Beluga e eu não temos nada a objectar em relação a quem tem Facebook ou em relação ao Facebook em si, mas à forma como a maior parte dos utilizadores faz uso da aplicação.

- Sou a pessoa mais suspeita para falar deste assunto pois vivo no medo constante de não ser fisicamente aquilo que esperam de mim.

A razão pela qual não concordo com o Facebook e porque o mesmo padece de vários “males”: é narcísico, viciante e ilusório. É narcísico porque necessita da aprovação do outro, do comentário alheio. Como os diálogos se fazem a dois, é sempre obrigatória a presença de outro. Quando esse outro não aparece experiencia-se a sensação de desilusão, de abandono, de ausência de um feed-back. Parte-se, com o objectivo de provocar esse feed-back, para as observações de cariz intimista e pessoal que criam quase sempre a piedade alheia. E embora não se procure a piedade, à falta de melhor, toma-se esta esmola como algo positivo (voluntário e sincero) criando-se assim um ciclo vicioso. Funciona esta auto-estima in vitro ao mesmo nível das endorfinas, só que tomada em doses para mamute.

A quem argumenta que o mesmo se passa, ou pode passar nos blogs (falo da minha experiência apenas. Nunca tive Hi5, Orkut ou conta de Messenger), a verdade é que isto se passa numa aplicação que supostamente serve para “fazer amigos” ou recuperar “amizades perdidas” pelo tempo. Que tipo de intimidade podemos estabelecer com amigos com quem não temos contacto desde a saída de circulação do escudo e, ainda mais, com amigos acabadinhos de fazer, daqueles que ainda estão quentinhos? E para os amigos que estão apenas distantes fisicamente? Onde está o postal, a carta, o telemóvel e, por muito que me custe chegar a este degrau na enumeração, a impessoalidade do mail? Há uma facilidade falaciosa em falar com aquele que não conhecemos, ou com o que acabamos de conhecer, em detrimento daquele que nos está no sangue ou na memória. É ou não verdade que preferimos a legitimação do desconhecido do que a do conhecido? A reprovação do desconhecido em detrimento da legitimação do conhecido? A coibição de qualquer um deles ao marcar do número de telemóvel de um amigo que mora a poucos quilómetros de nós?

O Facebook facilita um certo facticismo gestual que cria a ilusão de vida real ao fazer com que os intervenientes, com a esperança do elogio do outro, o elogiem de volta. Assim observa-se um diálogo óbvio que consiste na troca de encómios, como requer a falsa conversação. No dia-a-dia, quando um desconhecido que espera connosco pelo comboio nos vê tiritar de frio diz: “hoje está mais frio, não é?”, é óbvio que iremos responder qualquer coisa como “é, arrefeceu muito.” Há um código instituído desde tempos imemoriais que faz com que este diálogo vago e feito de factos do conhecimento geral subsista no tempo. Não cria amizades, mas permite fazer a manutenção das normas vigentes que sendo um aborrecimento ou não, dão-nos a possibilidade de viver em sociedade de uma forma saudável. Já no Facebook nota-se por parte de muitos utilizadores que na troca de palavras com os amigos antigos e reencontrados, ou com os amigos novos e desconhecidos, faz-se o percurso inverso. Há um grau de conhecimento mútuo (ou presume-se que esse grau exista e todo o diálogo é orientado nesse sentido) e por consequência a troca de confidências e elogios factuais, que podem ser dirigidos em específico àquela pessoa ou não, e levam à ilusão de cumplicidade. Assim é possível ter no Facebook 400 amigos absolutamente desconhecidos, só pelo prazer do acumular, pela necessidade de reconhecimento geral e por salvaguarda de possíveis candidatos a carpideiras caso se mostre necessário, e na gare do comboio nenhuma resposta à mini provocação “está mais frio”.

Aceito todas as críticas, caso exista alguma, e respondo pelas minhas palavras. Reconheço que a reserva em me mostrar, em me encontrar na vida real com alguns dos que aparecem aqui, se deve à minha insegurança e que por isso o meu exemplo pode não ser entendido como concordante com o acima escrito. Mas a razão para não ter 400 amigos e apenas 5 é porque só tenho capacidade para retribuir com o máximo de honestidade a estes cinco. Desculpem o tom duro.

P.S. (salvo seja!) – Não considero o Twitter pois é um GPS para sub-16 com espelho incorporado.
- o carteiro -



- ars longa, vita brevis -
hipócrates

(isto hoje não está grande coisa. O que até já se está a tornar um hábito. Shame on me!)
Música
- Dionne Bromfield tem apenas 13 anos, mas canta assim e no próximo dia 12 de Outubro vai lançar o seu disco de estreia. Embora eu de vez em quando note um tom Sequim D'Ouro na voz dela, já se fala da sucessora de Amy Winehouse, e com a marca Lioness da cantora problemática que Dionne virá para o mundo dos crescidos.
- Kitty, Daisy and Lewis eh pá... porque sim.
- Já há muito tempo que não se (ou)(via) no Metropolitan de Nova Iorque uma ópera tão vaiada. Há que dizê-lo com frontalidade: pelo menos houve música do princípio ao fim! A Tosca de Puccini foi um tour de force, uma vez que mesmo vaiados, os artistas insistiram em vir ao palco agradecer os assobios enquanto o director tentava a todo o custo que a cortina descesse. As vaias deveram-se à forma como o director, Luc Bondy, tentou descolar-se da inesquecível encenação de Franco Zeffirelli. É que o homem inovou tanto nos cenários que não colocou a bota a dizer com a perdigota: no libreto Tosca ataca Scarpia com um punhal e ali não havia punhal e pior! Quando Tosca vê que ele está morto, diz o libreto que acende uma vela e lhe deixa um crucifixo no peito, mas no cenário não há crucifixos nem candelabros nem velas.
Publicidade
- em 2009 (como se apela ao sentimento e aos fundos de investimento)
- ... e em 1993 (como se pensava o futuro na At&T)
- e num tempo em que espero, nunca nenhum de nós viva (fotografias de Steven Klein para um editorial de moda da Vogue Hommes Internacional)
Moda
- From head
- to pocket
- to toe (os sapatos de vidro de Martin Margiela)
Livros
- A agonia do Cristianismo, Miguel de Unamuno
- Bartleby, o escrivão, Herman Melville
- Crime nos Estábulos, Agatha Christie

terça-feira, setembro 22, 2009

- o carteiro -

amanhã há posts.

sábado, setembro 19, 2009

- back to black -

"Facebook killed Web logs" - Beluga & Mim

quinta-feira, setembro 17, 2009

- original soundtrack -


I turn sideways to the sun
keep my thoughts from everyone
It's a jungle, I'm a freak
Hear me talk, but never speak


So I'm stepping out of time
because breaking is a crime
And it may all be too late
but I've no passion for this hate


That's the price of love (that's the price of love)
Can you feel it (can you feel it)
If we could buy it now (that's the price of love)
how long would it last (that's the price of love)


And when this building is on fire
these flames can't burn any higher
I turn sideways to the sun
and in a moment I am gone


That's the price of love (that's the price of love)
Can you feel it (can you feel it)
If we could buy it now (that's the price of love)
how long would it last (that's the price of love)
...

(World, New Order)
- não vai mais vinho para essa mesa -




Guta (1m:07s), Experimenta sérum para pontas secas.



- o carteiro -
quando um não quer, dois não pecam - procriação II
Apesar de os homens (e as mulheres) muito terem equacionado sobre a procriação, o seu raciocínio nem sempre foi nem é ainda racional. Algumas teorias sobre a concepção do embrião têm tanto de fantasista quanto de perturbador e só podem ser o resultado de épocas opressivas ou de sociedades que usam a ciência e a religião para esconder as suas faltas. Estas invenções e mitos encontram-se em qualquer religião e em qualquer tempo. Note-se que ainda hoje nas revistas da especialidade, os supostos sexólogos e ginecologistas, médicos dóótóres respondem a perguntas como "sentei-me na moto do meu namorado. Estarei grávida?" (depende... ele também estava lá sentado?). Desde a Antiguidade que como já dissemos, foi muito justa para o cidadão (homem com mais de vinte anos nascido na Grécia, tudo o resto eram metecos, mulheres ou escravos e por isso, não cidadãos), mas madrasta para a mulher, proliferaram lendas que estavam associadas à mitologia, mas também serviam o interesse grego em não justificar o papel social da mulher. Vejamos... não estou aqui a fazer um manifesto feminista porque isso é uma grande chatice e eu não tenho paciência. Mas a verdade é que histórias inicialmente narradas pelos grandes escritores como Virgílio, Homero, Hesíodo ou Platão, passaram a ser Verbo. No que diz respeito à procriação dos seres humanos, dos mortais (isto porque a dos deuses vem mais daqui a nada), as mulheres são "autorizadas" a procriar com inspiração divina. Digo "autorizadas" porque obviamente se desconhecia todo o mistério que estava à volta da concepção do embrião. Mesmo o próprio útero era um mistério, uma coisa que sangrava, provavelmente dissuasora nas autópsias, no estudo do corpo morto. É certo que os gregos sempre preferiram esculpir homens e só mais tarde, com Fídias as mulheres passaram a ser tema e corpo de escultura. Por isso esta noção de concepção divina ou sem intervenção do homem justificou para os gregos os fenómenos injustificáveis. Virgílio fez passar a ideia, segundo uma descrição no texto Geórgicas que as mulheres (aqui sob a forma de éguas) engravidavam porque inspiravam o vento Zéfiro. Ficavam grávidas do ar! Outros filósofos diziam que as galinhas eram fecundadas apenas pelo cantar do galo e as perdizes, pelo cheiro do macho.

Andreas Cellarius
Influência da Lua na procriação
Na mitologia hindu a gestação de Buda durou dez meses e foi concebido em sonhos através da entrada no corpo da mãe (rainha Maya), de um pequeno elefante com seis dentes. Quando, após os dez meses, a rainha tentou colher uma flor de uma árvore, Buda nasceu da sua anca. O mesmo aconteceu na mitologia grega. Veja-se o exemplo de Dionísio, filho de Sémele, uma mortal que morreu enquanto Zeus se exibia perante ela. Ficou durante três meses na coxa de Zeus depois deste o ter retirado da mãe já morta. A própria mitologia grega tem os nascimentos mais estranhos da História (uma prerrogativa da mitologia). Atena, nasceu de elmo posto e já formada da cabeça de Zeus. Este tinha literalmente, comido a mãe dela, Métis. Afrodite nasceu do mar, pelo menos é assim que é pintada. Era filha de Urano; ou seja, era filha dos órgãos genitais de Urano que foram atirados ao mar após cortados por Cronos. Herácles nasceu graças a uma distracção de Hera (a legítima de Zeus) que para se vingar do seu marido andar metido com Alcmena, cruzou as mãos e os pés para ela não dar à luz. Só que distraiu-se e Alcmena lá deu à luz ao fim de sete dias de agonia. Na mitologia egípcia a promiscuidade era maior e nota-se no caso do nascimento de Osíris e Ísis, dois deuses primordiais. Osíris e Ísis eram gémeos que no útero da mãe estavam tão unidos que quando nasceram, já Ísis estava grávida de Hórus. O pai era, como não podia deixar de ser o irmão e marido Osíris. Esta história fez com o médico cirurgião Cosme Viardel reconsiderasse a sua tese sobre os gémeos e a bolsa amniótica de cada um, pois segundo aquilo que se dizia na época era que os gémeos falsos tinham bolsas amnióticas separadas para manter as decências


Cosme Viardel



E assim como a religião criou, à sua medida, as regras para o "bom sexo" que estava relacionado com o casamento e com a procriação, a sabedoria popular também criou as suas normas que apesar de estranhas, estão muitas vezes correctas e vão onde nenhuma ciência vai. Claro que os fenómenos da sabedoria popular podem ser explicados cientificamente, mas o facto de existirem criam por si estranheza. Lembro-me de ouvir coisas que mais tarde vi serem verdade como: um bolo ou um pão feitos por uma mulher com o período menstrual nunca levedam, a premira vez que uma árvore dá fruto, o mesmo não pode ser colhido por uma mulher ou a árvore não dará mais fruto. Como as mulheres não podem, devido aos filhos, abandonar as terras e partir em busca de uma nova vida, têm que, em muitas sociedades, dedicar-se à terra. São por isso elas as guardiãs dos segredos telúricos e com a sabedoria feminina, os homens não brincam. A Terra (feminino) é fecundada pelo Sol (masculino) e está em constante produção; está permanentemente e procriar. Por isso, e por as mulheres estarem relacionadas com a sabedoria tectónica, em determinadas civilizações como as que professam crenças indianas os jovens esposos que desejem filhos devem passar a primeira noite numa caverna, numa gruta de nome “fona”; ou seja, vagina. Daí, do interior da Terra vai brotar uma criança. Dizem que os menires tinham esse significado: pedras que fecundam para sempre a Terra. para além disso tinham um poder afrodisíaco e médico, uma vez que curavam os homens que neles se sentassem de infertilidade e seriam benéficas para as mulheres que ali roçassem o sexo e pretendessem engravidar. Outras manifestações naturais como os rios, quedas de água e as respectivas nascentes possuem um significado e analogia óbvias. São os locais de onde as forças da Natureza emergem do interior da terra. Há populações que recomendam, aos casais desejosos de filhos, que tenham relações na água: se serve para os cardumes e para os patos, serve para os humanos. As mulheres que desejem ser fecundadas devem abrir as pernas frente ao mar ou a uma corrente de água, para que esta possa penetrar no seu sexo. Da mesma forma se diz que a água, que a rebentação das ondas do mar no ventre de uma mulher grávida provoca aborto. Para além desta água que brota do interior da Terra, existe uma outra forma de presença da água, à qual é atribuída um poder fecundante que na minha opinião faz mais sentido: a água das chuvas, especialmente amada nas regiões que sofrem com a seca. A devoção e interesse que certas populações mostram pela água das chuvas é fácil de compreender: não vem da própria Terra, mas do Céu, logo é uma forma de fecundação e é tão rara e preciosa, única no ano (na Primavera) que só pode ter um poder de fecundar os seres que por ela são atingidos. Voltando à mitologia, não esqueçamos que Danae foi fecundada por Zeus que se transformou numa chuva de ouro para chegar até ela. Desta união nasceu Perseu.

Charles Joseph Natoire
Boreas and Orinthyia
1741
Indianapolis Museum of Art


Ticiano
Danaë
1553
Hermitage, São Petersburgo

Com efeito, com o passar dos tempos e até pelo menos ao século XVII, acreditava-se que era possível as mulheres engravidarem pelo ar ou pela água. Na Idade Média, esta justificação era muito útil para as senhoras de bem cujos maridos partiam para a guerra. Quando se viam "solteiras" e com mais uma criança a caminho, só uma boa mentira corroborada pela Igreja podia salvá-las das más-línguas. Desta forma virgens tinham filhos, viúvas tinham filhos, mulheres sem marido tinham filhos... tudo isto sem o toque sequer de um homem. O homem exilado ficava convencido e tudo acabava bem na harmonia do lar. Por outro lado, afastava as mulheres de lugares como os banhos públicos ou as termas. Fazia com que elas andassem mais cobertas, pois tal como se pensou em relação aos males do corpo, a culpa era do banho. Muitas mulheres eram aconselhadas a não ter as janelas abertas à noite, se não queriam engravidar; poderiam engravidar apenas pelo inspirar. (Não deixa de ser curioso que um dia destes numa conversa com um médico ele dizia que respirar era fatal, era o que levava à morte.) A lenda de que o sémen - ou qualquer coisa muito semelhante - poderia andar pelo ar ou pela água - vinha de uma crença inspirada em Anaxágoras e chamava-se Panspermia. É-me difícil explicar o que era, mas esta crença dizia mais ou menos isto: pan (total)+sperma (semente) queria dizer que a vida estava em todo o Universo, que era fruto de um caldo arcaico, onde se tinham formado, com a ajuda de forças da Natureza (relâmpagos, furacões, chuvas) moléculas, aminoácidos, proteínas, genes por fim os seres microscópicos com um grau de complexidade e aperfeiçoamento cada vez maior. Era a geração espontânea aqui ilustrado por uma parte de um quadro de Bosch onde do lago as espécies nascem por geração espontânea. Assim, tal como o pólen retirado às flores andava pelo ar, quem sabe se os espermatozóides voariam.
Hieronymus Bosch
Triptych of Garden of Earthly Delights
1500
Museo del Prado, Madrid

Na minha opinião, e tenho a certeza que na opinião de muita gente, tenho a certeza que estas aberrações, ou pior do que isso, a ausência de um interesse científico sobre a forma como a mulher pode engravidar e sobre o seu aparelho reprodutor em comparação com as teses sobre o aparelho reprodutor masculino, são sexistas e criadas como encapotamento de uma incapacidade para penetrar no mundo feminino. Este "penetrar" também quer dizer isso mesmo que estão a pensar! São sexistas porque os homens que não compreendiam bem o seu papel na reprodução (porque é que elas é que são incubadoras e eles não é uma pergunta capaz de incomodar muitos homens, perante a gravidez dos cavalos marinhos, mas é igualmente uma pergunta capaz de ajudar muitos clérigos. Afinal, Cristo disse que amaldiçoaria Eva com as dores do parto). São por outro lado infantis porque, sabendo nós que as mulheres vinham com "mais peças", os homens nunca tentaram perceber a razão para cada uma delas e atribuíram isso a algo diabólico. A mulher é a incubadora, o incubo, o demónio que dará uma vida. Não é por acaso que a mulher está associada à serpente. Vejamos este excerto do Timeu de Platão:
"Também nas mulheres e pelas mesmas razões, a chamada matriz ou o útero é um animal que vive nelas com o desejo de fazer filhos. Quando fica muito tempo estéril após o período da puberdade, tem dificuldades em suportá-lo, indigna-se, erra por todo o corpo, (...) até que, quando o desejo e o amor unem os dois sexos, eles podem colher um fruto, como numa árvore, e semear na matriz, como num sulco, animais invisíveis pela sua pequenez (...)"

O mistério da negação das mulheres face ao sexo, comparativamente às ereções masculinas (porque o útero tem erecções internas, ah pois é!) involuntárias e "indesejadas" durante o sono (causadas por Lilith segundo alguns crentes), é algo de intrigante. O homem e a mulher só poderiam pecar se os dois quisessem, mas para os homens naquela altura, o enigma que constituía o fascínio por esta porta do corpo feminino, porta esta cuja abertura estava dependente delas, apenas da vontade delas, era assustador. Entre o ar e a água e o homem, o homem via-se ameaçado pelos elementos naturais.

Entre estes elementos naturais encontramos a terra. Não estamos a falar na Terra como princípio feminino criador, mas como fonte de nascimento de crianças numa extensão daquilo que já acontece com as espécies vegetais. Vários deuses nasceram sob as árvores e na Alemanha acreditava-se que existiam criaturas semelhantes a duendes a viver dentro das árvores com nomes estranhos como "esposas-de-musgo". Existe um vocabulário que criou a tradição e corrobora o que aqui vamos falar: a vagina é associada à maçã cortada ao meio, ao morango e a alguns vegetais, o pénis é associado à cenoura, ao pepino e os testículos, a todos os frutos que sejam pequenos e redondos e por fim a fecundação é, nos termos mais infantis, a colocação de uma semente masculina na "barriguinha da mãe". Mesmo nas Escrituras, a mulher é vista como um campo fértil, a ser semeado pelo homem e segundo a sabedoria popular, o primeiro dia da Primavera é o dia do casamento dos pardais. Quando se fazem as colheitas, homens e mulheres participam em festas que não sendo propriamente orgíacas, são sempre vistas com muito entusiasmo estando os trabalhos divididos entre mulheres e homens: elas debulham o milho, eles malham-no. Diz-se que a romã dá ao homem a força viril, que o fruto da piteira, segundo a religião asteca foi utilizado para nutrir o primeiro homem e a primeira mulher, na Europa planta-se uma macieira sempre que nasce uma criança, o fruto da Oliveira era usado nos antigos rituais de fertilidade, no Japão o pessegueiro é símbolo da fertilidade, and so on, and so on...
A ideia que as crianças nascem das couves está relacionada com esta associação entre os frutos e os vegetais e a fertilidade, mas também com a falta de argumentos para explicar às pessoas - às crianças em especial - de onde é que elas nascem. Dizia-se que vêm de França transportadas pela cegonha. Aliás, os franceses utilizam muito os nomes dos vegetais como "mon chou" (minha couve) para se referirem a algo querido ou pequeno ou que amam. Por outro lado, embora essa seja uma realidade que nos é distante, para o paganismo a couve era utilizada para designar o órgão sexual feminino. Associam as duas coisas por causa do cheiro (eu nem sei o que dizer) e por causa do desenho da couve quando cortada.




Não era só a flora que tinha influência nos nascimentos; a fauna também tinha. Quer isto dizer que assim como era possível uma mulher engravidar de igual forma de um homem como de um elemento natural (um respiro, um gole de água, uma pedra, uma flor), também podia ficar grávida de um animal. A mitologia grega já nos diz isso, mas convém lembrar alguns exemplos. Não é que ninguém vá ler e ficar mais esclarecido, mas eu fico melhor com a minha consciência. A rã, por exemplo é um símbolo fetal no Egipto e tem para o Ocidente um significado evolutivo que muitas vezes não notamos. Quem não conhece a história dos irmãos Grimm em que o sapo (está certo que um sapo não é uma rã) é beijado pela princesa. O sapo é o estado intermédio entre o girino/espermatozóide e o humano (o sapo transforma-se em príncipe). A serpente, o ourobouros que já referi aqui é a serpente que morde a própria cauda. Como forma um círculo fechado, é estéril, mas como se fecunda a si própria pode ser vista como símbolo da fertilidade.

Paolo Porpora
Still-Life with a Snake, Frogs, Tortoise and a Lizard
National Museum of Wales, Cardiff

Antonio Carracci
The Rape of Europa
Pinacoteca, Bolonha

Bartolomeo Ammanati
Leda with the Swan
Museo Nazionale del Bargello, Florença