terça-feira, março 14, 2017

- original soundtrack -

sem tirar nem pôr

I was happy in the haze of a drunken hour
But heaven knows I'm miserable now
I was looking for a job,
And then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?

Two lovers entwined pass me by
And heaven knows I'm miserable now
I was looking for a job,
And then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Oh, why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?

What she asked of me
At the end of the day
Caligula would have blushed
You've been in the house
Too long, she said
And I naturally fled
In my life why do I smile
At people who I'd much rather
Kick in the eye?

I was happy in the haze of a drunken hour
But heaven knows I'm miserable now
You've been in the house
Too long, she said
And I naturally fled
In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?
(Heaven knows I'm miserable now, The Smiths)
- o carteiro -
Fortuny, Carpaccio e Proust (não necessariamente por esta ordem)
Mais do que a pintura francesa (Manet e os seus espargos, O Dejeuner des Canotiers e outros) ou a holandesa (o "pano de muro amarelo" de Vermeer), a verdade é que a grande referência artística do Em Busca do Tempo Perdido (a Recherche, daqui para a frente) é a pintura italiana e veneziana (não que Veneza não pertença a Itália, mas percebem o que quero dizer), à excepção, claro da pintura de Elstir. Entre os representantes desta pintura italiana, há uma breve referência a Ticiano e Veronese, mas o nome grande - e que vai crescendo na Recherche - é sem dúvida o de Carpaccio.
"Não", dizem vocês. "Sim", digo eu.
Antes mesmo de escrever a Recherche, Proust já demonstrara interesse pela pintura de Carpaccio após a tradução de Ruskin que a refere, bem como após a viagem que empreendeu a Veneza em 1900. Viu os Carpaccio na Galleria dell'Accademia e na Igreja de San Giorgio dei Schiavoni. Nesta história, como em toda a Recherche, a realidade serve de inspiração à ficção, mistura-se com ela. Não é só Charles Ephrussi que está na base de Swann, nem Alfred Agostinelli que poderá, diz-se, estar na base de Alebrtine,1 mas também Carpaccio na base de Fortuny (embora neste caso ambos sejam reais e não ficção). Carpaccio em Proust funciona como a madalena no chá: espoleta (e não despoleta) a memória. A primeira referência a Carpaccio na Recherche surge quando o narrador Marcel fala de Oriane de Guermantes relacionando-a com a música de Wagner e os quadros de Carpaccio:

"Seus olhos azulavam como uma pervinca impossível de ser colhida e que, no entanto, me fosse dedicada; e o sol, ameaçado por uma nuvem, mas ainda despedindo, com toda a força sobre a Praça e na sacristia, seus raios de luz, dava uma encarnação de gerânio aos tapetes rubros que tinham sido estendidos para a solenidade e sobre os quais se adiantava sorrindo a Sra. de Guermantes, e acrescentava à lã deles um róseo aveludado, uma derme nua, esta espécie de ternura, de grave doçura na pompa e na alegria que eriçam certas páginas de Lohengrin, certos quadros de Carpaccio, e que fazem entender que Baudelaire tenha podido atribuir ao som do clarim o epíteto: delicioso." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann. Lisboa: Relógio d'Água, 88)

Proust, que conhecia a obra de Carpaccio até pelo que foi dito em cima, deveria estar a referir-se a uma obra em especial que calculo seja "Incontro dei Fidanzati" do "O Sonho de Santa Úrsula":









Carpaccio
 Incontro dei Fidanzati (pormenor)
1495

Galleria dell'Accademia, Veneza

No segundo volume da Recherche volta-se a Carpaccio quando Elstir evoca as suas pinturas deste ciclo do Sono de Santa Úrsula:

"Havia torneios marítimos como agora, geralmente em honra de alguma embaixada semelhante àquela que Carpaccio representa na Lenda de Santa Úrsula. Os navios eram maciços, construídos como arquiteturas, e pareciam quase anfíbios como Venezas menores no meio da outra, quando, unidos por meio de pontes levadiças, recobertos de cetim escarlate e de tapetes persas, levavam mulheres de brocado cereja ou de damasco verde até junto dos balcões incrustados de mármores multicores onde outras mulheres se debruçavam para ver, em seus vestidos de mangas negras,cujas aberturas de forro branco eram bordadas com pérolas ou ornadas de rendilhado fino. Não se sabia mais onde acabava aterra e onde começava a água, o que ainda era palácio ou já formava o navio, a caravela, a galeaça, o Bucentauro." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann. Lisboa: Relógio d'Água, 206)
De facto, nesta pintura de Carpaccio do ciclo referido vemos que o barco no centro da pintura tem a mesma altura dos edifícios que o ladeiam. O mesmo acontece com outro quadro do ciclo, cujo título é "Arrivo dei Pellegrini a Colonia". Os barcos possuem a mesma altura e imponência dos edifícios à volta e mesmo à medida que passamos aos planos secundários, os barcos continuam a ser da dimensão das estruturas arquitectónicas.
















Carpaccio
Arrivo dei Pellegrini a Colonia
1490
Galleria dell'Accademia, Veneza 
Quando visitou Veneza em 1900, Proust descreveu as suas impressões, relativas aos Carpaccio, à sua amiga Maria de Madrazo, irmã de Reynaldo Hahn e tia de Fortuny. E quem era Fortuny? Fortuny era nem mais nem menos que o maior estilista da época. Mariano Fortuny y Madrazo, de origem espanhola, mas veneziano a partir de 1889, foi pintor, inventor e costureiro, vestindo todas as elegantes do início do século. Criou os famosos vestidos Delphos, baseados na arquitectura, escultura e cultura clássicas, vestidos todos plissados e com motivos bizantinos.
Fortuny
Vestido Delphos
1915
[Não sei porquê, mas este vestido parece o frasco de Organza da Givenchy.]
Ora é justamente a Fortuny que Marcel, o narrador, encomenda um vestido para Albertine levar a Versalhes, na noite anterior ao seu desaparecimento.
"Guardando de meu sonho de Veneza apenas o que podia referir-se a Albertine e suavizar o tempo que ela passava em minha casa, falei-lhe de um vestido de Fortuny que era necessário que encomendássemos por aqueles dias." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Prisioneira. Lisboa: Relógio d'Água, 75)
"assim, os chambres de Fortuny, fielmente antigos mas poderosamente originais, faziam surgir como um cenário, e até com maior força de evocação do que um cenário, pois que o cenário ficava por imaginar, a Veneza toda atulhada de Oriente" (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Prisioneira. Lisboa: Relógio d'Água, 153)
E é quando, já após a fuga de Albertine, o narrador vê em Veneza a pintura "Le Patriarche du Grado" de Carpaccio, se recorda de Albertine dessa noite em que usou o vestido de Fortuny:
(...) Carpaccio, e que essa mulher de faces avermelhadas, olhos tristes, com seus véus negros, e que nada poderá jamais, para mim, fazer sair daquele santuário suavemente iluminado de São Marcos, onde estou certo de reencontrá-la, pois ela tem o seu lugar reservado e imutável como um mosaico, seja a minha mãe. Carpaccio, a quem acabo de citar e que era o pintor ao qual, quando eu não trabalhava em São Marcos, fazíamos visitas com mais frequência, precisou um dia reanimar o meu amor por Albertine. Eu via pela primeira vez O Patriarca de Grado Exorcizando um Possesso. [...] quando senti, de repente, como que um leve aperto no coração. Às costas de um dos companheiros da Calza, reconhecível pelos bordados de ouro e pérolas que inscrevem em suas mangas ou coletes o emblema da risonha confraria à qual eram filiados, eu acabava de identificar o casaco que Albertine usava quando fora comigo à Versalhes em carro descoberto, na noite em que eu estava longe de pensar que apenas quinze dias me separavam do momento em que ela iria embora de minha casa. Sempre disposta a tudo, quando lhe pedira que partisse, naquele triste dia que ela deveria chamar, em sua última carta, duas vezes crepuscular, visto que a noite caía e nós falamos em nos separar, ela atirava aos ombros um casaco de Fortuny que levara consigo no dia seguinte e que, desde então, eu jamais tornara a ver em minhas lembranças. Ora, era neste quadro de Carpaccio que o genial filho de Veneza o utilizara, fora nas costas desse membro da Calza que o havia assinalado, a fim de lançá-lo sobre tantas parisienses que decerto ignoravam, como eu até agora, que o modo num grupo de cavalheiros, no primeiro plano do Patriarca de Grado, numas Academia de Veneza. Eu reconhecera tudo e, tendo esquecido casaco, ao vê-lo, os olhos e o coração daquele que ia, naquela noite, partir para ir com Albertine, fui invadido, durante alguns instantes, por um sentimento, da dor, logo dissipado, de desejo e de melancolia." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Fugitiva. Lisboa: Relógio d'Água, 106-107) 








 








Carpaccio
The Healing of the Madman
 1496
 Gallerie dell'Accademia, Veneza

O pormenor de que Proust fala é, em meu entender, este. Veja-se a semelhança entre o mesmo e um design de Fortuny:











Carpaccio
The Healing of the Madman (pormenor)
 1496
 Gallerie dell'Accademia, Veneza






















Não será por acaso que Proust faz esta associação entre este Carpaccio e Fortuny. Li que na borla do capuz (assinalada no quadrado amarelo) está escrita a expressão "Com Tempo" o que não deixa de ser paradigmático num livro que fala disso, do Tempo.

1 - Alfred Agostinelli foi o grande amor de Proust. Motorista do escritor, juntamente com Odilon Albaret, acabou por, tal como Albertine, partir.
 













Anda Toucard
Alfred Agostinelli e Odilon Albaret
1908
Biblioteca Nacional de França, Paris
 
 
- não vais mais vinho para essa mesa -

se conto esta história, é para exorcizá-la e não para me vangloriar até porque não há nada nela de que me possa gabar.

num destes dias, ao passar aqui na rua onde trabalho, um dos vizinhos disse: "sempre a correr!", ao que respondi com um daqueles clichés: "tem de ser!". Mas ele não se ficou por ali. Olhando-me de alto a baixo (que no meu caso é "de baixo a baixo" pois quando alguém começa a olhar, logo acaba) ele atira um "tens filhos?". Eu que nunca o tratei por tu e era, como se costuma dizer "só bom dia e boa tarde", tenho um problema: apanhada de surpresa digo sempre o que não possa magoar o outro. Na minha cabeça, havia uma série de histórias que poderia contar como

[tive uma filha aos quinze anos, mas tive de dá-la para adopção. os meus pais obrigaram-me. a miúda vive com os pais adoptivos no Connecticut (não me perguntem porquê, foi uma coisa que me veio à cabeça) e soube que os pais faziam rituais satânicos com os corações das ovelhas que criavam. já pedi a guarda dela, mas está complicado...]

no entanto, o que me saiu foi a verdade, a maldita verdade: "não, não tenho". O moço dispara:
"estás livre? um destes dias vou convidar-te para jantar. aceitas? é que eu tenho uma paixão inconfessável..."

[estás a confessá-la]

"por ti. És linda"

[você é linda, mais que demais...]

"e para mim, um mistério." 

[um mistério? uuuuuu.... medo...]


"Aceitas sair comigo?"

Para não lhe dizer que não, que não aceitava sair com ele, e por distracção, disse:

"obrigada". (não sei bem porquê).

"Mas aceitas?" insistiu ele. "Olha que eu sou tímido!"


[sabes lá o que é ser tímido... ]

"Depois a gente fala", respondi, para não lhe responder a verdade: "não!" Para dentro disse "merda, devias ter dito logo que não, mas tens sempre medo que te achem uma cabra..."
Até que após algumas mensagens enviadas fora de horas

"tens facebook?",

 tive de dizer:
"Nuno, não é? Bom, deixa-me tratar-te por tu. Há coisas que não podem ser ditas conjugando os verbos de outra forma. Não tenho à vontade nenhum com homens, tenho-lhes até algum medo. Eis o meu mistério. Por isso, vai à tua vida. Só quero ficar em paz com as minhas guerras. Como diz o Chico... Conheces o Chico, o Chico Buarque? Pois, como diz o Chico:

"Deixa em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção
Pode ser a gota d'água"
- o carteiro -

[1]
Esta fotografia da colecção Outono/Inverno 2017 da Marc Jacobs, baseada no estilo Hip-Hop dos anos 70 em Harlem, captada por Joel Meyerowitz. (aqui)

[2]
Este site com as revistas avant-garde mais importantes do início do século XX

[3]
Esta biblioteca. A de Eco, claro.

[4]
Mon ami, Proust! (aqui)

segunda-feira, março 13, 2017

diz que é uma espécie de poema

anseio os dias
de Verão.
as noites,
não.
fica pr'ámanhã. andei aqui às boltas com o Carpaccio (não é esse, é o pintor) e inda num resolbi o imbróglio. depois bós bendes de que se trata, mas prometo que amanhã benho botar posts

domingo, março 12, 2017

sai sentimento mau

quinta-feira, março 09, 2017

- original soundtrack -

Inútil Paisagem


 - não vai mais vinho para essa mesa -

despojos do dia I
entrar em casa à noite, abrir a porta e dizer: "querida, cheguei". ao sair de manhã, abrir a porta e dizer: "amor, vou comprar cigarros".

despojos do dia II
antes de adormecer leio sempre um poema, uma estrofe, um verso de um dos poetas de que gosto. e penso: "é bom. é muito bom. não percebi nada". de manhã enquanto me arranjo volto a ler a mesma coisa e penso: "é para lá de bom. continuo sem perceber nada".

despojos do dia III
deitar com as galinhas para acordar com as gaivotas

despojos do dia IV
entrar em casa e pensar: "esta casa precisava de... uma casa nova"
- o carteiro - 
 



















Aconteceu, por acaso, estar a meio da leitura do livro (agora acabada) quando soube do filme. Fui logo vê-lo, claro. O livro fala da Europa que se perdeu com a Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, com a Segunda. Como a confiança, a segurança, a crença no progresso e na razão deram lugar à barbárie, à desconfiança nos governantes e principalmente, a desconfiança face ao outro de que é paradigmática a instauração de limites geográficos e burocráticos. Fala de um certo laissez faire laissez passez que tornou mais fácil dois conflitos bélicos de monta em menos de 50 anos no mesmo espaço físico e com os mesmos actores. Ninguém acredita que um raio caia duas vezes no mesmo sítio. Mas tendo caído duas vezes no mesmo sítio, acreditará alguém que cairá uma terceira vez? Estes excertos fizeram-me tremer. Note-se que o livro foi escrito em antes de 1942 e que após um exílio forçado no Brasil, o expatriado Stefan Zweig e a mulher se suicidaram no “país tropical abençoado por Deus”.

“De um dia para o outro voltei a descer mais um degrau. Ontem ainda hóspede estrangeiro e, por assim dizer, um gentleman que aqui vivia dos seus rendimentos internacionais e pagava os seus impostos, e agora um emigrante, um refugee. Tinha resvalado para uma categoria inferior, embora não desonrosa. Por outro lado, qualquer visto para o estrangeiro que fosse posto naquela folha branca de papel tinha de ser expressamente requisitado, pois em todos os países se desconfiava daquele “tipo” de pessoas a que eu subitamente também pertencia, pessoas sem direitos, sem pátria que, quando se tornavam incómodas ou ficavam tempo de mais, não podiam ser expulsas caso necessário nem reenviadas para os seus países de origem como as outras. (ZWEIG, Stefan – O Mundo de Ontem. Lisboa: Porto Editora, 2004, p. 476)

“E lá ficavam à espera junto às fronteiras, lá iam mendigando à porta dos consulados, quase sempre em vão, pois que país estava disposto a receber despojados, pedintes? (ZWEIG, Stefan – O Mundo de Ontem. Lisboa: Porto Editora, 2004, p. 495)
- não vai mais vinho para essa mesa -


quarta-feira, março 08, 2017

fica para amanhã. hoje não consigo. Beijos e abraços