terça-feira, dezembro 06, 2016

- o carteiro -
 
Olá Pai Natal, como estás do teu reumático? Este ano, não estou com muita vontade desta coisa toda do Natal. O que até é contraditório, face a este post... Não é nada pessoal, mas eu fico a pensar, a pensar... enfim... No Natal lembro-me sempre onde estava no Natal anterior e penso como as coisas mudaram... Este ano sinto-me cansada. E mais não digo.

Ora bem: sabes que o que preciso não são livros, mas estantes. De qualquer forma prefiro pedir-te livros: não tem que enganar. Já as estantes... não sei se conheces em profundidade o mundo IKEA. Sabes que também não sou mulher para pulseiras Pandora. Por isso vê-la lá o que os duendes podem fazer por mim. beijos e abraços, beluga (P.S. quando estiveres a ler isto, endireita as costas)

[só na amazon ou na book depository]
The Byzantine Rite;
- Masterpieces in Detail: Early Netherlandish Art from van Eyck to Bosch;
- Noah Charney, The Art of Forgery
- Ornament and Illusion: Carlo Crivelli of Venice
- Inventing Beauty: A History of the Innovations that made us beautiful 
- Risque Beauty - Beauty Secrets of History Most Notorious Courtesans
- Early Christian and Byzantine Art
- Image on the Edge: The Margins of Medieval Art
- Jay Parini, Every time a friend succeeds something inside me dies (biografia de Gore Vidal) 

[ainda por ler e ter]
- Salman Rushdie, Uma Memória
- Thomas Mann, Tonio Kroger 
- Stefan Zweig, Amok
- Stefan Zweig, O Mundo de Ontem
- Gustave Flaubert, Bouvard e Pécuchet
- Christopher Hitchens, Deus não é Grande
- Bernardino Sá Gomes, Carlucci vs Kissinger: Os EUA e a Revolução Portuguesa
- Thomas Mann, As três últimas novelas;
- Robert Musil, O homem sem qualidades (dois volumes);
- Thomas Bernhard, Autobiografia;
- Nikolaus Wachsmann, KL;
- Jacques Le Goff, A História deve ser dividida em pedaços?;
- Dostoievsky, Os irmãos Karamazov;
- Balzac, A comédia humana;
- Hans Küng, O Cristianismo;
- Eça de Queirós, O conde de Abranhos;
- Slajov Zizek, qualquer um, excepto "Violência"
- Paul Celan, Não sabemos mesmo o que importa;
- Antonin Artaud, Van Gogh, o suicidado da sociedade;
- História Universal da Música 1 e 2;
- Daniel Faria, Poesia;

[desejos de natal do ano passado, não concretizados, mas lidos] 
- Celine, Viagem ao fim da noite;
- Robert Graves, Conde Belisário;
- Thomas Mann, Dr. Fausto;

 [desejos de natal do ano passado, concretizados e lidos]
- Gustave Flaubert, A educação sentimental;
- Dostoievsky, Os demónios;
- Albert Camus, O mito de Sísifo;
- Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, O mistério da estrada de Sintra;
- Edmund de Waal, The hare with amber eyes;
- Alberto Caeiro, Poesia;
- Susan Sontag, Olhando o sofrimento dos outros;
- Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo;
- original soundtrack -

há quem goste mais da Ella Fitzgerald ou da Aretha Franklin, mas para mim não há ninguém que bata o sentimento da Etta James. Ela canta coisas - mesmo coisas que já não se usam - como se estivesse a senti-las.
às vezes ouço esta música à noite, à janela, quando tudo está suspenso e silencioso.













Something told me it was over
When I saw you and her talkin'
Something deep down in my soul said, 'Cry, girl'
When I saw you and that girl walkin' around

Whoo, I would rather, I would rather go blind, boy
Then to see you walk away from me, child, no

Whoo, so you see, I love you so much
That I don't wanna watch you leave me, baby
Most of all, I just don't, I just don't wanna be free, no

Whoo, whoo, I was just, I was just, I was just
Sittin here thinkin', of your kiss and your warm embrace, yeah
When the reflection in the glass that I held to my lips now, baby
Revealed the tears that was on my face, yeah

Whoo and baby, baby, I'd rather, I'd rather be blind, boy
Then to see you walk away, see you walk away from me, yeah
Whoo, baby, baby, baby, I'd rather be blind...

(I'd rather go blind, Etta James)
- não vai mais vinho para essa -

Prémio Se Estivesses Calada Fazias-te Filósofa
num deste dias, no comboio, sentei-me junto a um casal de italianos que falava inglês entre si. ela coloria mandalas no telemóvel. ele estava a fazer palavras cruzadas. às tantas ele pergunta-lhe:
- amore, "Brian da música inglesa"? três letras...
ela respondeu encolhendo os ombros. ele insistiu e ela voltou a responder - um pouco agastada - que não sabia
eu disse:
- May. Brian May.
- Não, tem um "n" no meio. Vê? - e mostrou-me a quadrícula.
- Brian Eno.
- "Ino"?
- No, "Eno". - respondi.
Pouco depois ele voltou a perguntar-lhe:
- amore, "rei que tomava pequenas porções veneno para se manter imune". ela voltou a encolher os ombros, mas eu não resisti. foi mais forte:
- Mitríades.
- Pode escrever aqui? - perguntou ele?
escrevi ao lado, ele confirmou, sorriu e disse:
- Óptimo! Agora tenho muitas letras!
Ela olhou-me com uns olhos...

Prémio Ai, Até a Mim Doeu
no comboio, um casal sentou-se à minha frente. estavam de mão dada e ela encostou a cabeça no ombro dele. falava do Natal nestes termos:
- Tenho de comprar os presentes de Natal - disse ela
- Ainda é tão cedo!... - respondeu ele
- Mas eu adoro o Natal! é tão xiro! (dizia "xiro" e não "giro"). Não sou como algumas pessoas que deixam tudo para a última...
- Podes crer! O Natal já não me diz nada. Desde que o meu avô faleceu, o Natal para mim deixou de ter grande interesse.
- Mas é xiro. É xiro, fofo e adorável! - continua ela.
- Ligo tanto ao Natal que até gostava de passá-lo no Brasil, vê lá tu! - diz ele.
- O Brasil só para quando nos casarmos! - refere ela.
- Sabes bem que isso não vai acontecer. - disse ele.

Prémio Discrição e Bom Gosto
no comboio
- bocê tá aqui?
- tou.
- eu bim mais o meu marido ao mercado, mas num bim à fruta nem às coubes. biemos ber umas coisas prós netinhos. prós da minha filha. prós do meu filho, a macaca da mulher dele que compre. é duma raça aquela mulher... se num fosse mãe dos meus netinhos é'lia ber o quera bom pá tosse. andaba já de requitó. atão num é qu'éla qria que se fizesse já as partilhas? a gente num ixtá cos pés pá coba e aquela macaca quer dinheiro?! o meu filho é que é um p*** mole, coitado. ela dá-lhe duas ábater e ele baixa as orelhas. elas têm a força no meio das pernas, já se sabe. tá-se a rir? é berdade! a minha outra filha num é assim. anda agora a bender herbalife e está muito bem. tem muitas clientes que tomam lá daquelas coisas. eu num tomo. nem eu nem o meu marido. o que faz bem é cumer e buber prá frente. mas a gente num cóme qualquer coisa... agora pró almoço deixei umas coxas de galinha a descongelar. galinha, mas da nossa criação. a gente tem galinhas, dois garnizés pacaninos, coitadinhos... agora co frio inda m'aparecem mortos. o galinheiro é fichado, mas está muito frio. está bom prá penca, pró Natal. a minha bizinha deu-umas a semana passada, mas inda falta mais frio. frio e bicarbonato de sódio pra ficarem mais berdinhas. agora as do mercado... catixa... nem que me pagassem. as nossas lá em casa num têm nada, é tudo puro. e o médico disse que pró meu home - que anda munto esqueçumelado desde que se reformou - é o melhor. eu bem lhe digo: ó home, agora que ixtás mais folgado podias ir dar uma bolta, pegar no carro... mas ele, não senhor. não arreda pé do programa da manhã da tbi nem do pomar. num destes dias deu-le pra subir a uma árbore, uma pereira... nem sei s'era uma pereira... e magoou-se num bracinho. tibe de chamar os bombeiros e lebá-lo próspital. e num é quele estába-me sem trussos? fiquei pra morrer quando me chamaro ao consultório. eles também lá no hospital estão prontos para ber aquilo. olhe, eu é que já num beijo há muito tempo.... ah, ixto não é como antigamente que era tudo às ixcondidas. elas hoje já a sabem toda.
- adeus, até amanhã.
- já bai?
- tem de ser.
- bá lá.
...
- ai, ai...
- ars longa vita brevis -
hipócrates
"antes e depois" ou como "vocês vão já dizer: "bai-t'imbora. não é nada um "antes e depois". Buuuu, fora!!!" e eu vou ter de responder: "tenham lá calma, concentrem-se e pensem se, em parte, não tenho razão neste antes e depois". andava na faculdade (na primeira) quando descobri esta música do João Gilberto. Chama-se o Pato e deixo aqui parte da letra (a parte que interessa para este "antes e depois"):
O pato vinha cantando alegremente, quém, quém
Quando um marreco sorridente pediu
Pra entrar também no samba, no samba, no samba
O ganso gostou da dupla e fez também quém, quém
Olhou pro cisne e disse assim "vem, vem"
Que o quarteto ficará bem, muito bom, muito bem

Ou seja, um quarteto animal (pato, marreco, cisne e ganso) reuniu-se para fazer música. Há umas peripécias pelo meio - ou no fim - mas é esta a ideia. Desde que ouvi esta música pela primeira vez fiquei a pensar que tinha muito em comum com o Carnaval dos Animais de Saint-Saens. Claro que no Carnaval do Animais, há mais animais que não entram na música do João Gilberto: o elefante, o leão... mas repete-se a ideia de música com/pelos animais bem como a ideia de onomatopeia. Ora vejamos, n'O Pato, imita-se a "voz" do pato com o "quém, quém, quém...". N'O Carnaval do Animais, cada animal/espécie tem a ele associado um instrumento ou uma forma de tocar que nos lembra os grunhidos, rugidos, balidos, pios dos respectivos animais: para as tartarugas o piano é muito lento, para os cangurus há muitas hesitações, saltos, avanços, para o cisne a música é muito suave...

Enfim, é o que eu acho, embora o que eu acho não seja grande coisa.
- o carteiro -

dúvidas com o lixo proveniente de Itália? Esclarecimentos aqui e aqui
T14 
 
- o carteiro -

esta fachada da Igreja da Madre de Deus em Macau é um tratado iconográfico. O que existe da Igreja é apenas isto, uma imagem que figura nos facebook's de quem já lá foi, já que é uma imagem icónica:












A Igreja, antiga igreja de que hoje só subsiste a fachada, foi destruída por dois incêndios e um tufão. É chamada de Igreja de São Paulo, nas antigas ruínas da Igreja da Madre de Deus. Estas designações são importantes já que tanto São Paulo como a Virgem (a Virgem pode ser considerada Madre de Deus, caso a considerem Christotokos ou Theotokos. Os ortodoxos consideram-na Teothokos) estão fortemente representados na fachada, mais ela que eles. Esta é de facto uma lição de iconografia e por isso não se pense, nunca se pense, mesmo nos casos mais regionais, mais locais, que a colocação deste ou daquele elemento é casual. Tudo é pensado, mesmo que seja para dar resposta a uma exigência do mecenas ou copiado de modelos mais ou menos conhecidos.
Comecemos por baixo, que é por onde se deve começar:
A fachada apresenta-se desenvolvida em três bandas horizontais. Na primeira, a de baixo, o que se salienta é a colunata jónica.













[Para quem não sabe, as ordens arquitetónicas gregas - grosso modo: o formato das colunas gregas - podiam ser de três tipos: dórica (com coluna levemente bojuda, apertada no topo junto ao capitel e capitel simples); jónica, mais feminina (caracterizada por coluna estriada, direita e capitel em volutas confrontadas); e coríntia (cujo capitel se caracteriza pelas folhas de acanto). Os romanos acrescentaram a ordem compósita (cujo capitel é uma combinação de folhas de acanto e volutas). Esta questão é para mim complexa, mas no geral, podemos dizer que o que distingue as ordens arquitectónicas é o capitel e a base.]

A colunata jónica ( que aqui surge com fuste liso) apresenta-se no esquema 2-3-3-2 (ou ABBA, não o grupo, mas o tipo de rima). Temos duas colunas - abertura lateral - três colunas - abertura principal com inscrição "MATER DEI" - três colunas - abertura lateral - duas colunas. Enquanto a abertura principal apresenta inscrição acima referida, nas aberturas laterais pode ler-se o anagrama "IHS" que quer dizer: "IESUS HOMINUM SALVADOR".






























A segunda faixa/banda/registo, é o registo horizontal da ordem coríntia














Tal como a primeira banda horizontal, também esta possui três aberturas, na mesma orientação do que aquelas. Nota-se novamente a presença da colunata no mesmo esquema de baixo, mas desta vez de ordem coríntia; ou seja, com capitel em folhas de acanto.













O que mais se destaca neste segundo registo horizontal é a presença de esculturas relativas às figuras de: Beato Francisco de Bórgia (a vermelho); Santo Inácio de Loiola (a azul); São Francisco Xavier (a verde) e Beato Luís Gonzaga (a amarelo):





































































Segue-se o terceiro e último registo de ordem compósita



















E o que vemos neste terceiro registo é um corpo central com seis colunas compósitas que emolduram o nicho central (com Nossa Senhora), bem como elementos decorativos que parecem aleatórios, mas não são. Para além deste corpo central vemos suas volutas que ligam as laterais ao corpo central e quatro obeliscos encimados por esferas (dois de cada lado). A imagem da Virgem está rodeada de anjos em várias poses: como se estivessem a tocar instrumentos musicais, em adoração, a insensar (a vermelho). Este nicho central tem depois, à sua esquerda e à sua direita, várias imagens relacionadas com as litanias da Virgem e os seus símbolos, como a Fonte Selada (a azul), o Cipreste de Sião (a verde), a Porta Aberta (a amarelo), a Porta Fechada (a branco), a Nave da Igreja (a roxo), a Virgem Apocalíptica (a cinzento/preto). No extremos temos representações do dragão ferido, símbolo do pecado, com a inscrição "O diabo tenta o Homem para praticar o mal"; e o esqueleto, símbolo da morte com a inscrição "A pessoa que se lembra da morte é sem pecado".






















Nicho central (vermelho)


















Fonte Selada (azul)


















Cipreste de Sião (verde)















Porta Aberta (amarelo)














Porta Fechada (branco)


















Nave da Igreja (a roxo)


















Virgem Apocalíptica (a preto)











o diabo (a tracejado)












a morte (a tracejado)

Tudo isto é coroado por uma construção em forma triangular, como se de um frontão se tratasse, com quatro colunas compósitas que enquadram o nicho central no qual podemos ver Cristo Salvador, rodeado dos símbolos da sua Paixão (ou Arma Christi). São elas: a corda (a azul), a cruz (a verde), a lança, martelo, turquês, esponja, coroa de espinhos e o azorrague (a amarelo); o estandarte, a cana verde, os cravos e a escada (a roxo) a coluna (a branco) e as varas (a preto):





































Cristo Salvador
















Corda (a azul)
















cruz (a verde)
















Lança, Martelo, coroa de espinhos, turquês, esponja e azorrague (a amarelo)
















Escada, cana verde, estandarte, cravos (a roxo)
















Coluna (a branco)

















as varas (a preto)

Tudo isto termina com São Pedro (à esquerda), São Paulo (à direita), e a Pomba do Espírito Santo (rodeada do Sol e da Lua):












































Resumindo e concluindo: a Mãe de Cristo Salvador, com a ajuda dos seus representantes na Terra (santos e beatos) e com a ajuda do próprio Cristo que morreu por nós na cruz através de instrumentos de martírio e à mão dos homens, vence a morte e o pecado e leva a todos, dia e noite, para todo o sempre, a graça do Espírito Santo.

Até à próxima.

domingo, dezembro 04, 2016

CUBISMO


















DADAÍSMO











SURREALISMO













sexta-feira, dezembro 02, 2016

- não vai mais vinho para essa mesa -

[a jantar]
- chiça, esta coisa do Fidel não tem jeito nenhum! o homem já morreu há uma semana e ainda andam com ele de um lado para o outro...
- qual é o problema? é do outro lado do oceano, o cheiro não chega cá... para mais nesta televisão, que tem vidro a proteger...

[no psiquiatra]
- o que é que escreveu aí no computador? posso saber?
- escrevi: "normal", "em mudanças" e "cuidado com o que desejas, pode concretizar-se".
- parece o valter hugo mãe.
- pareço? não sei... nunca li valter hugo mãe.
- nem eu.
- acho-o tão...
- desinteressante?
- boçal, vaidoso, oco. um tipo que quase se emociona com o que diz, que acha que descobriu as minas de sabão amarelo do pensamento...
- podia tentar tratá-lo...
- não consigo tratar casos de falta de talento.

[na estação]
- que estás aqui a fazer?
- o mesmo que tu.
- não... aqui? não devias estar em casa?
- vim trabalhar.
- hoje?
- o trabalho é uma terapia.
- estás doentinha? tens alguma coisinha partida?
- o coração

quarta-feira, novembro 30, 2016

gostava de ser daquelas pessoas que dá nomes a coisas. nomes a: 

perfumes vendidos por catálogo: "Sparkling Night", Cherry Blossom, Pink Me, Red Passion (for men) (têm de ser sempre nomes compostos e em inglês)
cores de camisolas da La Redoute: azul cueca, carmim tuberculose, verde bílis (para dar continuidade aos tons "amora", "caqui", "tijolo", "musgo")
operações da PJ, da BT, da GNR: operação "sopr'aqui" - álcool; operação "rissóis sorridentes" - alucinogénos; operação "Bling Bling" - jóias roubadas; operação "Bitch please, I'm fabulous" - tráfico de influências; operação "caramelos da Penha" - contrabando

segunda-feira, novembro 28, 2016

- original soundtrack -

isto
(há quem ache que isto é pretensioso e pseudo-intelectual, mas às vezes sabe bem)
- não vai mais vinho para essa mesa -

































- ars longa, vita brevis -
hipócrates

Olá leitores do belogue, como estão? Hoje trago um post que não parece grande coisa, a avaliar pela imagem, mas é. O que é que vocês acham que vêem? Uma jarra com flores, um arranjo floral, responderão... Não, o que vocês vêem é uma natureza morta. As naturezas mortas eram uma temática que estava no último lugar das temáticas em pintura. Eram mais apreciadas e consideradas as pinturas religiosas e históricas, depois as cenas de género, os retratos, as paisagens e no final, as naturezas mortas. Mais do que pinturas de flores (ou de frutos, ou de animais mortos, ou de instrumentos musicais com caveiras e flores, ou restos de uma refeição) as naturezas-mortas eram uma lembrança constante a crentes e não crentes - caso os houvesse - daquela máxima do Eclesiastes (1: 2): "vaidade das vaidades, tudo é vaidade". Para melhor compreenderem uso outra frase, esta do Génesis (3: 19): "lembra-te ó homem que és pó, e ao pó hás-de voltar". Flores e frutos duram pouco tempo: são como a juventude e a beleza. Os instrumentos musicais e espelhos alertam-nos para transitoriedade da vida, a sua irrelevância, a vaidade e tudo o que é prática mundana, própria da sociedade secular, mas nada apropriada para a vida além da morte. Caso a representação possua uma caveira e/ou outros símbolos associados com a morte trata-se de uma vanitas.

  















Jan Brueghel, the Elder
 Bouquet of Flowers
1609-15
Staatliche Museen, Berlim


Sempre houve representações de naturezas-mortas. Primeiro não tinham esse nome (nos frescos romanos talvez nem tivessem nenhum nome), e só com o século XVII é que se afirmaram como estilo autónomo depois das representações bem sucedidas de Chardin. Bem, no século XVI Vasari falava em "cosa-naturale" e no século XVIII em França utilizam-se as expressões "nature inanimée" ou "nature reposé". Mas é talvez em Espanha e na Flandres que no século XVII surgem os termos que nos interessam: em Espanha as pinturas de flores são chamadas de "Floreros" (assim como havia os "bodegón" que eram, no fundo, cenas de cozinha) e na Flandres o termo é, traduzido, "Flores, Frutos e Bouquets". A representação de flores pode ser considerada apenas uma forma de o artista mostrar o seu virtuosismo. No caso do Brueghel, que tantas vezes pintou as temas, a justificação só pode ser mesmo o virtuosismo e passo a explicar porquê. Tomei como exemplo esta natureza-morta do autor. Como não sou uma especialista em flores identifiquei apenas aquelas que consegui identificar e que se encontram marcadas com números na imagem. Assim temos:






















1 - Tulipas (a minha flor preferida)
As tulipas foram introduzidas na Europa, vindas da Ásia, por volta de 1600. Na Holanda, os bolbos de tulipas eram mais caros que os quadros a representá-las, o que não admira que se fale de uma tulipamania que levou ao suicídio de pessoas que se endividavam para comprar estas plantas. Por volta de 1630, no auge da tulipamania na Holanda, um bolbo de uma espécie de tulipa excepcional podia custar mais que uma casa.
As tulipas florescem hoje quase todo o ano. Fiz muita pesquisa e obtive resultados diferentes, mas no geral há uma unanimidade no que concerne ao meses compreendidos entre Março e Maio como os mais comuns para o seu florescimento.

2 - Lírios
Os têm origem no Hemisfério Norte e já em frescos em Creta era possível ver representações desta flor. O seu significado religioso é dos mais importantes, quando comparado com a maior parte das flores: é símbolo da Virgem Maria, da sua pureza e virgindade. Encontrei 20 versículos na Bíblia que falam de lírios, principalmente nos Cânticos. 
Os lírios florescem em Junho

3 -Jasmim
O Jasmim é originário da China, mas foi introduzido na Europa no século XVI. O jasmim está associado à sedução, seja enquanto chá, seja enquanto essência. Floresce entre Junho e Setembro.

4 - Fritillaria
Esta flor foi para mim uma descoberta, já que quando a vi no quadro pensei que fosse somente uma tulipa que estava num dia menos bom. Ora tenho a impressão, pelo que li, que esta flor é originária na Ásia, onde é utilizada com fins medicinais. Uma vez que é originária da Ásia, calculo que tenha chegado à Europa após os contactos europeus com aquela zona do globo. Estou a pensar aí por volta do século XIV, que foi quando os europeus conheceram a corte chinesa/mongol. Desconheço quando floresce, mas isto não é preocupante para o que pretendo mostrar.

5 - Peónias
As peónias são flores lindas. Não é que perceba muito de flores, mas sei do que gosto e gosto de peónias. Não tanto como gosto de tulipas, mas gosto. As peónias são originárias da China (a peónia é, aliás, a flor oficial da China), Mongólia, Coreia e Japão e florescem entre Junho e Julho. Não sei se há referência bíblica à Peónia, mas sei que há uma referência mais antiga: a Ilíada de Homero! A Peónia floresce na Primavera.

6 - Íris
Esta flor, ora bem... foi-me difícil decidir que flor poderia ser. Vi muitas espécies até encontrar uma que fosse parecida com a imagem. Após muito andar, percebi que havia grande probabilidade de se tratar da íris. Também queria que tivessem em atenção que hoje as espécies estão muito cruzadas e que com as estufas é possível ter estas flores quase todo o ano. A íria, por exemplo, é também referida como lírio, mas há uma diferença entre o lírio indicado pelo número 2 e esta flor. A íris é originária do continente europeu e pode ser colhida entre a Primavera e o Verão.

7 - Hidrangeas 
Estava a olhar para o quadro e a tentar identificar flores quando percebi que estas flores azuis e pequeninas faziam parte de um conjunto, a uma flor flor só cujo nome é hidrangea. Vejam lá se não tenho razão:

















As hidrangeas têm origem no Extremo Oriente e florescem entre a Primavera e o Outono.

Vamos então agora ao que interessa:


Analisando a tabela acima, feita tendo em conta os meses/épocas de florescimento de cada uma das flores, é evidente que muito dificilmente seria possível tê-las disponíveis ao mesmo tempo. O quadro de Brueghel, assim como de muitos outros quer se trate da pintura de flores, frutos, peixes... é uma composição simbólica. Brueghel procura transmitir uma ideia com fidelidade mimética, mas não fidelidade ao real. Mostra o seu virtuosismo que ofusca e se sobrepõe aos factos. E o que nos dizem os factos: que estas flores não podiam ter estado de facto todas na mesma jarra pois o seu florescimento dá-se em alturas diferentes.
- não vai mais vinho para essa mesa -

jantar de amigas, devidamente "anificadas" para manter o anonimato. os parêntesis rectos dizem respeito a partes da conversa que não podem ser referidas.
ana3 - que vais fazer?
ana2 - arepas.
ana4 - arepas? credo, isso dá tanto trabalho. podias fazer uma coisa mais simples... por mim estás à vontade.
ana1 - onde ponho isto?
ana2 - o quê?
ana1 - este esfregão.
ana2 - vai para o lixo.
ana1 - ?
ana2 - eh pá, não consigo usar na louça esfregões que já limparam a banca. 
ana3 - tens cada mania...
ana1 - vai para o lixo?
ana2 - sim.
ana4 - olha lá: o que é isto aqui no frigorífico?
ana2 - é o meu plano de treino enquanto cozinho.
ana4 - enquanto cozinhas?
ana2 - sim. por exemplo: coloco os bifes no grelhador e faço dez burpees. viro os bifes faço vinte agachamentos, coloco o arroz no tacho e faço mais dez flexões.
ana4 - e resulta?
ana2 - não. quando acabo de cozinhar fico cheia de fome. deixei de fazer comidas complexas que é para fazer o mínimo de exercício possível. já não tenho idade.
ana4 - deixaste de fazer comidas complexas, mas hoje fizeste arepas.
ana1 - exacto: arepas!
ana2 - eh pá... apeteceu-me uma coisa pesada.
ana3 - "uma coisa pesada para a noite"...
ana4 - "para andar a chá de cidreira até às calendas"...
ana2 - que chatas! para que é que vos convidei?!
ana3 - para fazeres arepas.

[...]

ana1 - e lá estava eu, quase "no osso"...
ana4 - de roupa interior?
ana1 - sim?
ana4 - e como era?
ana1 - o quê?
ana4 - a roupa interior.
ana1 - o que é que isso interessa?...
ana3 - anda lá, diz como era ou ela nunca mais se cala!
ana1 - era um básico... preto em algodão.

ana4 - também uso esses.
ana2 - são bons e práticos, não são? Era da Intimissimi?

ana4 - e esta colecção tem umas peças... as colecções de Inverno são melhores que as de Verão...
ana2 - ai não acho... as de Verão também têm coisas giras...
ana1 - posso continuar?
ana4/ana2 - vá lá, desculpa.
ana1 - estava lá e ele diz-me, com muita propriedade: "não gosto de te ver com isto".
ana2 - "não gosto de te ver com isto" como quem diz "quero ver-te sem nada?"
ana1 - não! "não gosto de te ver com isto" como quem diz "não gosto da tua roupa interior"!!! já viram isto?!
ana3 - toma e embrulha!

ana2 - e a roupa interior dele, como é que era?
ana1 - ... estava a ver que não me perguntavam isso...

...
ana2 - então?
ana1 - ... era ho-rrí-vé-lêêêêêêê!
anas - ahahahahahahahahahahahahahah

ana1 - hó-rrí-vel!... imaginem um padrão geométrico anos 70, cores psicadélicas...
ana3 - as cuecas dele entraram numa trip de LSD.
ana4 - não tinha nenhuma pinta de lixívia? estás com sorte.
ana1 - lixívia?
ana4 - sim.
ana2 - como é que ele ia ter uma pinta de lixívia nas cuecas?
ana4 - não sei... podia ter decidido fazer faxina de cuecas...
ana3 - e então, o que é que fizeste?
ana1 - arranjei forma de vir embora. fingi que estava a sentir-me mal e disse que tinha de ir para casa tomar um comprimido e descansar.
ana4 - então... nada?!
ana1 - nada. e ainda bem! aquelas cuecas mataram o desejo, como o vídeo matou a rádio.
ana3 - mas não tens pena?
ana1 - de quê?
ana3 - sei lá... devias sentir alguma coisa por ele, não?
ana1 - ... estava com vontade de ser abraçada. estava a precisar de estar com alguém que me quisesse, que quisesse estar comigo. a outra parte... seria um meio e não um fim.
ana4 - para ele se calhar era um fim.
ana1 - não sei..., nunca mais falei com ele.
ana4 - não acho isso normal.
ana1 - o quê?
ana4 - partilharem intimidades e depois não falarem.
ana1 - foi melhor assim. evito ir ao restaurante onde nos conhecemos porque não quero vê-lo.
ana3 - vá lá, não sejas assim!
ana1 - a sério, não quero. vou olhar para ele e vou ver apenas à minha frente a cueca psicadélica.
ana3 - tinhas a depilação feita?
ana4 - hã? que pergunta é essa?
ana3 - é importante!
ana1 - tinha. desde que descobri a depilação a laser sou muito mais feliz.
ana4 - eu também.
ana2 - eu nem preciso de fazer depilação!
ana4 - nem sabes a sorte que tens. tinhosa!
ana2 - nunca percebi essa do "tinhosa"...
ana4 - as pessoas tinhosas são as que têm "tinha", uma doença do couro cabeludo.
ana2 - as coisas que tu sabes...

[...]

ana3 - este Trump...
ana1 - será que ninguém lhe trata da tosse?
ana2 - todos aqueles que lhe podiam "tratar da tosse" já fazem parte do "partido dele". isto sem contar com os alienados que aproveitam isto para se comportarem como hunos.
ana3 - mas ela não é melhor.
ana4 - dou-te razão, ela não é melhor. mas do mal o menos. em frança há uns anos também foi necessário votar no Chirac para evitar uma vitória da extrema-direita.
ana2 - ela está melhor preparada que ele.
ana4 - ela está a anos-luz dele, mas faz parte do sistema. ela nunca vai passar disto... ele no entanto é simplesmente um jeitoso, um chico-esperto que vê nisto um jogo, uma diversão. ele não precisa disto para nada. para ele a presidência é um capricho.
ana2 - mas ela... ela é mulher de um ex-presidente. em que é que isso a habilita para ser presidente? parece a rússia e as oligarquias ... além disso aquele casal tem tantos rabos de palha... Como é que enriqueceram?
ana4 - às vezes as democracias têm estes períodos negros. os romanos por vezes suspendiam a democracia para pôr ordem no império.
ana2 - atendendo ao tamanho da América, talvez também não fosse mau de todo.
ana1 - o que me espanta é como é que chegámos aqui.
ana4 - agora disseste tudo. parece que não aprendemos nada com o passado. damos sempre voz a idiotas quando estamos na m*****!
ana2 - sabem, isto assusta-me. para onde estamos a ir? que mundo é este?
ana1 - foi assim que começou a segunda-guerra mundial.
ana4 - pensava que ias dizer: foi assim que a alemanha perdeu a guerra. é que a alemanha perdeu duas guerras!
ana2 - e vê como está agora!
ana3 - nunca percebi essa do "foi assim que a Alemanha perdeu a guerra".
ana4 - "what a nasty woman"
ana2 - quando ouvi isso só me lembrei daquele vídeo da Christina Aguilera...
ana3 - Yo Sister!
ana2 - ... em que ela diz: "So what am I not supposed to have an opinion/Should I be quiet just because I'm a woman"
ana3 - vou-te ser sincera, não consigo ter opinião acerca disso...
ana4 - acerca do quê? do Trump chamar a Clintona de Nasty Woman?
ana3 - não é isso... estava lembrar-me do video-clip e da ideia da música de que as mulheres podem apresentar-se como quiserem... isso não é verdade.
ana4 - então achas que nos devemos limitar: deixar de andar de mini-saia ou top por causa...
ana3 - tu andas de mini-saia e top?
ana4 - eu não disse "mini-saia e top", mas "mini-saia ou top".
ana3 - eu compreendi o que disseste. essa pequena mudança de partícula muda tudo na frase. o que estás a dizer é que és uma mulher com classe suficiente para não andar de mini-saia e top ao mesmo tempo. és uma mulher que deixa alguma coisa à imaginação. mas colocas-te assim num outro patamar.
ana4 - estou a acompanhar...
ana3 - quem de nós aqui não acha horrível que uma mulher se exponha?
ana1 - eu não acho. acho que cada pessoa deve fazer o que lhe dá na real gana.
ana4 - mas por uma mulher expôr o corpo isso não quer dizer que esteja "a pedi-las", que "merece" o assédio, que seja merecedora de menos consideração. a minha escolha é não expôr, mas apoio quem expõe.
ana3 - não apoias não! e tu também não achas que uma pessoa deva fazer o que lhe dá na real gana, como disseste! fazes como cada uma de nós faz: critica e diz "olha para aquilo"! por isso é que não dou para esse peditório. Não estou tão livre de constrangimentos como gostaria. nenhuma de nós está. a classe feminina só se apoia quando o que está em causa é uma violação com contornos horríveis, quando uma mulher é criticada por amamentar em público e, acima de tudo, quando as críticas vêm de homens.
...
ana4 - ... talvez tenhas razão. nunca vi as coisas assim...
ana2 - e tu?
ana4 - tudo bem.
ana2 - tudo bem o quê? nunca contas nada!
ana3 - é verdade, nunca contas nada.
ana4 - não há muito a contar. é a história de sempre: boy meets girl, girl loves boy, boy is not into it...
...
ana2 - pensas nele?
ana4 - todos os dias. às vezes sinto-me revoltada, outras ridicularizada, outras apenas triste... mas, como dizia o saramago...
ana3 - O professor de Físico-Química do 8º ano?
ana4 - não pá! o saramago, o escritor! O professor? Como é que ainda te lembras do professor?
ana3 - o que é que ele dizia?
ana4 - dizia: "é mais fácil querer-se do que se ser querido".
ana2 - tens a certeza que foi o saramago que disse isso?
ana4 - agora que me colocas a questão... não tenho, mas podia ter sido. e faz sentido. de qualquer forma, não há nada a fazer. não podemos obrigar ninguém a gostar de nós. cada um de nós é um mundo, com as suas ideias, medos, idiossincrasias, vícios... vivo a minha vida, faço tudo o que tenho de fazer, mas cá dentro sinto uma dorzinha aguda...
ana1 - vai passar.
ana2 - sabes o que tens de fazer?
ana4 - ...sei...
ana2 - tens de eliminar qualquer esperança do teu coração.
ana4 - ah sim... claro.
ana2 - acho que não percebeste: eliminar... qualquer esperança... do teu coração.
ana4 - ...
ana3 - andas a ler livros de auto-ajuda?
ana2 - credo, por quem me tomas?!
ana1 - eu leio...
ana2 - e acreditas nessas m*****?
ana1 - mal não faz!
ana3 - um destes dias fui a uma mulher que me leu o futuro nas cartas.
ana1 - aquela que eu indiquei?
ana4 - vocês as duas... uma indica, a outra vai...
ana3 - não querem saber o que ela disse?
ana4 - diz lá
ana3 - não acertou uma! nada, rien, niente.
ana4 - 'tás carregada!
ana3 - tinha curiosidade. Mal não faz...
ana4 - excepto à carteira!
ana3 - olha, que queres? Tinha curiosidade. Vamos mudar de assunto!
ana4 - já vi que não te interessa...
ana3 - não tenho problemas com isso! aliás, até te conto que ela me disse: disse que em Março, me iria aparecer um tipo mais novo.
ana2 - um pónei?
ana1 - um quê?
ana2 - um pónei?
ana1 - o que é isso?
ana4 - um homem que é mais novo do que a mulher com quem está.
ana1 - vocês inventam cada coisa!...
ana2 - é o que está a dar: póneis!
ana4 - não é a "minha cena".
ana1 - então e tu?
ana2 - eu o quê?
ana1 - como estás?
ana2 - casada...
ana1 - isso quer dizer "na mesma"?
ana2 - sim... quer dizer..., eu gosto de estar casada...
ana3 - gostas tanto que te casaste duas vezes.
ana2 - na primeira vez não chegámos a casar... felizmente!
ana3 - onde é que ele anda?
ana2 - em casa dos pais. vê lá tu! um homem daquela idade, sem emprego e a viver em casa dos pais.
ana4 - mas ele já nada bem? fez alguma desintoxicação?
ana2 - não sei. por isso não o deixo ver o miúdo.
ana4 - eh pá... não devias fazer isso.
ana2 - não devia fazer isso??? tu sabes o que ele fazia quando o miúdo nasceu? eu saía de casa uns minutos para fazer qualquer coisa e quando chegava ele estava sentado no sofá, charrado, com o miúdo a chorar ao lado. e ele a abanar a cock, a olhar para a televisão com os olhos vidrados... ele despediu-se quando fiquei grávida porque "não estava a conseguir lidar com a ideia de ser pai"! Não devia fazer isso... enquanto não se tratar não vê o miúdo sozinho.
...
ana1 - e este?
ana2 - este é que devia ser o pai biológico do miúdo!
...
ana3 - não olhas para nós e pensas "encalhadas"?
ana2 - acho que vocês dão muita importância ao "estar acompanhado". por exemplo, se eu não tivesse o X, estaria igualmente bem. passaria mal no início, mas ficaria bem. não acho que necessitemos de estar com alguém para estarmos bem.
ana4 - primeiro: não existe "se". "se" não estivesses casada terias outra forma de ver as coisas. tu, nós... não existimos hipoteticamente. existimos, pronto! e onde e como existimos, condiciona quem somos.
ana2 - só acho que vocês dão muita importância a isso...
ana3 - uma pessoa só dá valor a uma coisa quando deixa de a ter.
ana1 - que treta! parecemos a Rita Pereira a debitar psicologia barata.
ana3 - a Rita Pereira debita psicologia barata?
ana1 - não conheces o célebre mantra Rita Pereira?
ana3 - não...
ana1 - "o impossível não existe. até acontecer!"
anas - ahahahahahahahahahahahahaha
ana2 - A Rita Pereira... essa grande filósofa... mas olha, mantenho a minha opinião: não é necessário ter alguém para se estar bem!
ana3 - isso és tu que alinhas os chacras e comes folhas de alface. eu preciso de alguém que goste de mim. não necessita de ser rico, nem bonito. tem de gostar de mim e eu dele. sem merdas.
ana4 - essa conclusão é do melhor: "sem m*****".
ana1 - já pensei colocar um anúncio na Maria
ana4 - já ninguém lê a Maria!
ana1 - pá... vê-se mesmo que não andas de transportes públicos! claro que ainda se lê a Maria!
ana4 - mas a Maria já não deve ter essas coisas do "consultório sentimental". Hoje faz-se tudo por internet...
ana1 - pois eu, se colocasse um anúncio, que, confesso, já me passou pela cabeça...
ana3 - a Marilyn Monroe colocou um pouco antes de morrer.
ana4 - na Maria?
ana2 - deixem a rapariga falar!
ana1 - obrigada! se colocasse um anúncio numa dessas revistas seria qualquer coisa como: "moça decente procura moço decente para relação séria." e rematava com um "sem m*****".
ana2 - essa da "relação séria"... aconselhava-te a refazer essa parte. espanta a "caça."
ana4 - "caça"? e isso, essa expressão, não espanta a "caça"?
ana1 - essa expressão é feia.
ana2 - mas o mundo é um couto! olhem só isto: num destes dias tive de fazer um telefonema para o banco, para falar com uma pessoa com quem já tinha falado. mas atenção: sempre de trabalho. eu nunca o conheci, ele é casado e quando disse o meu nome ao telefone ele respondeu "olá querida"! "Olá querida?!" Não, a sério: "olá querida?!"
ana4 - é porque tu és querida.
ana1 - isso foi querido da parte dele...
ana2 - 'tás parva? ele sabe lá quem eu sou!
ana4 - és uma fofinha, uma querida...
ana2 - pois, mas o mundo não é das queridas.
ana4 - isso é verdade. às vezes acho que as pessoas são condescendentes comigo porque sou pequenina. não preciso da pena de ninguém... eu como pena ao pequeno-almoço, com batatinhas!...
ana1 - somos todas pequeninas, já repararam?
ana1 - ainda assim... não quero ser uma daquelas velhinhas que empurram carrinhos de compras vazios...
ana3 - nunca se perguntaram o que é que essas senhoras levam no carro?
ana2 - acho que elas respigam nos mercados, coitadas. devem ter os carrinhos cheios de fruta podre. têm de ver um filme que se chama "os respigadores e a respigadeira."
ana3 - o que são respigadores?
ana2 - são os mais pobres e miseráveis dos pobres e miseráveis. são os que buscam, no fim das feiras, mercados e colheitas o que ninguém quer.
ana1 - posso falar? daquelas velhinhas que empurram carrinhos de compras vazios, dão comida aos gatos da rua...
ana3 - colocam o lenço de pano na manga da camisola...
ana1 - isso, colocam o lenço de pano na manga da camisola e usam sempre o mesmo anorak seja inverno ou verão.
ana3 - isso é triste...
ana1 - não quero ser assim.
ana4 - queres fazer "o" amor ao som de Barry White e junto a uma lareira enquanto bebes um flute de champanhe e ele te lambe a orelha...
ana1 - ai que visão dantesca!!!!
ana4 - ... e diz coisas obscenas ao teu ouvido...
ana1 - pára, credo!
ana4 - "não páro não. hoje vou fazer de ti mulher!"
anas - ahahahahahahahahahahahahahahahah
ana1 - mas será que há esperança?
ana3 - esperança para quê?
ana1 - quando olhas para a angelina e o brad pitt...
ana4 - para a ana malhoa e o jorge...
anas - ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah
ana1 - agora a sério! se até o "brangelina" acabou, o que é que podemos esperar do mundo? podemos ter esperança? o que é que sobra para pessoas simples como nós?
ana4 - nada.

[...]

ana2 - quo vadis?
ana3 - embora.
ana4 - já???
ana3 - sim, já. quer dizer, já é tarde. que horas são?
ana1 - 01:07h
ana3 - tenho de dormir para amanhã acordar bela...
ana1 - ah, muito bem!
ana2 - mas eu tenho aqui todas as temporadas do Downton Abbey.
ana3 - eish! no que tu me estás a meter!
ana2 - se ficares faço chá de cidreira para mim e deixo-vos ver o Downton Abbey.
ana3 - puff... lá terá de ser. primeiro as obrigações!
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

paises e mãeses: não bos aborreçaindes porque os bossos rebentos querem usar piercings. botainde os olhos nestas gentes

 1
















Hieronymus Bosch
Christ Carrying the Cross (pormenor)
1515-16
Museum voor Schone Kunsten, Gh
























 2

















Alonso Sanchez Coello
La Dama del Abanico
1570-1573
Museo del Prado, Madrid 























 3

















Antonio Moro
Maria de Portugal
1550
Pinacoteca Stuard, Parma 



















4



















Francesco Urbino
Dish with composite head of penises
1536
Ashmolean Museum, Oxford