quinta-feira, janeiro 17, 2019

- original soundtrack -

ode aos narizes grandes (e com sinais. e aos cabelos negros. ah… e às sobrancelhas grossas.)










Bem que se quis
depois de tudo ainda ser feliz
mas já não há caminhos pra voltar.
E o quê que a vida fez da nossa vida?
O quê que a gente não faz por amor?

Mas tanto faz,
já me esqueci de te esquecer porque
o teu desejo é meu melhor prazer
e o meu destino é querer sempre mais
a minha estrada corre pro teu mar

Agora vem pra perto vem
vem depressa vem sem fim dentro de mim
que eu quero sentir o teu corpo pesando
sobre o meu
vem meu amor vem pra mim,
me abraça devagar,
me beija e me faz esquecer.

(Bem que se quis, Marisa Monte)

- não vai mais vinho para essa mesa -

quando estás com o período e um pelo fica preso na cola do penso higiénico


- o carteiro -


Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a vase, 1888
National Gallery, Londres


quando a minha idade era outra que não esta, tive uma paixão platónica pelo Paulo Sousa.

Vamos por partes (e há muitas para dissecar!):
- deveria ter cerca de 16 anos. localizo tudo da minha adolescência nos 16 anos, não sei porquê. Os gregos dizem que é a idade em que a beleza feminina está no auge, mas eu não era nada bonita aos 16. Nem aos 17. nem antes disso. fui sempre normal. Mas sim, teria 16 anos. Foi antes de começar a emagrecer, o que aconteceu a partir dos 17, e por isso é natural que tenha sido entre os 15 e os 16 anos.
- mais platónica não podia ter sido… Platónica e assolapada, embora unilateral como convém às paixões assolapadas.
- O Paulo Sousa era um jogador de futebol, agora treinador de um clube qualquer.

Tudo começou porque a Vera gostava do Capucho, do Sporting. O pai dela comprava os desportivos e a gente lambuzava aquilo de beijos. Depois recortávamos as fotografias e os artigos e guardávamos entre as páginas dos livros de História. Abríamos os livros e discorríamos sobre o futuro: casas com piscina, crianças negras adoptadas e luas-de-mel em Bora Bora (nem sabíamos onde ficava Bora Bora, mas como o Norton de Matos havia casado na praia em Bora Bora, parecia ser uma tendência a seguir.) 

Um dia o Paulo Sousa foi jogar para a Juventus, Turim, Itália. Para mim, o outro lado do mundo. Quando é que ele me podia ver? Como poderia a nossa relação arrancar se ele estava tão longe? Ah... as cabras das italianas! As minhas esperanças de me revelar a mulher da vida dele - ele não sabia que eu era, mas eu estava certa ser - ficavam assim muito reduzidas. Eu chorei. Como chorei!... Sou dada a um bom drama: mulher que chora baba e ranho enquanto desce pela parede com o cabelo desgrenhado é a imagem que melhor ilustra um coração despedaçado. Pelo menos nos anos 80. E nos 90 também. E depois, os homens mais velhos... Desde sempre tive tendência para os homens mais velhos. E alguns deles, por mim. Talvez porque me vejam como uma espécie de Lolita que vai fazê-los sentirem-se mais jovens. Para panaceia de crise de meia-idade, sempre fica mais barato que comprar um descapotável. Só que no meu caso a "meia-idade" é sempre uma "idade-inteira" ou noutra versão, uma "idade para ter juízo". Já o meu interesse por eles escapa à minha compreensão: é como um crime que se repete sempre da mesma forma. Pecado com castigo, mas sem lição.

Bom, um dia disseram-me que o Paulo Sousa - que era de Viseu - tinha casa de família "naquela saída depois do cruzamento, assim-assim e assado". Obviamente, a família dele era, seria, a minha família e por isso tinha de ir lá ver como era, se me agradava, se no futuro mandaria arrancar aqueles anões de barro do jardim, mais a charrua enferrujada com uma samambaia a pender do pseudo cesto, ou arrancar as correntes à lá Alpes suíços. Da casa não vi grande coisa: havia um gradeamento branco, alto e cerrado que não permitia vislumbrar nem a samambaia. Mas eu vaticinei que ele iria ser meu. O problema era a distância. E as italianas. E a minha falta de sorte crónica. Obrigada pelas circunstâncias a seguir em frente, curei as mágoas ao som de Led Zeppelin. Os livros ficaram obsoletos no ano seguinte, seguiram-se outros destinos para luas-de-mel, a Vera mudou de turma, acabaram-se as boas-novas do futebol. Surgiram paixões platónicas em latitudes mais propícias, mas todas tão distantes como Turim está, ou mais até. Entra-se no circuito de vários Humberts Humbert, faz-se de Dolores,... mas Turim continua a ser o outro lado do mundo.  

segunda-feira, janeiro 14, 2019

- original soundtrack -

imagino esta música a tocar numa estação de rádio mal sintonizada, numa roulotte nas ruas abandonadas da cidade de Nova Iorque numa noite quente de Agosto de 1975, com a cidade esvaziada e deprimida. não sei… lembrei-me que seria o cenário para:

(Lonely, Bobby Vinton)
- não vai mais vinho para essa mesa -

#mais100mlepummmmm
ou
#comoplanearumatentadoterrorista
ou
#nãofaçamhashtagdahashtagdecima

a passar na segurança do aeroporto:
ele - posso abrir a sua mala?
eu - sim, claro
ele, enquanto abre a mala - esqueceu-se da pasta de dentes aqui dentro. devia tê-la colocado nesse saco transparente. posso?
eu - sim (ao mesmo tempo que passava o saco transparente)
ele, olhando o saco transparente - Neroli Portofino, Tom Ford? Excelente escolha!...



















eu - eu sei!
ele - também há outro com mais bergamota e outro com mais laranja.
eu - mas este é o melhor!
ele, admirando o frasco - boa escolha!... pode seguir! 
- o carteiro -

ao que parece, esta história começa com a escultura egípcia, que, por sua vez (e a meu ver) vai beber aos relevos egípcios e assírios. senão vejamos: os egípcios retratavam a figura humana, nos relevos, com um pé em frente do outro, como que a simular movimento. Os assírios também já faziam isso.













Lion Hunt of Ashurbanipal
645–635 a.C.
British Museum, Londres


Mas enquanto os assírios preferiam, na escultura da figura humana, um certo estaticismo, os egípcios optaram, já no período anterior à Primeira Dinastia por fazer avançar o pé esquerdo. Ou seja, a figura humana encontrava-se não só em movimento, como - e mais importante - fiel à realidade. Talvez os egípcios pensassem "se estes tipos vão estar aqui milénios, mais vale que estejam confortáveis" (não. isto sou só eu a brincar)

o que quero dizer é que o avanço de um pé face ao outro na escultura da figura humana, é mais próximo do real e confere naturalidade ao que é esculpido. Todos nós, quando em pé, temos a tendência para nos apoiarmos num pé ou no outro. nunca, ou quase nunca, deixamos que o peso do corpo recaia sobre os dois pés. nem juntos, nem afastados.

depois veio a escultura grega que foi progressivamente, tornando-se mais natural e os romanos que aproveitaram o período helenístico da escultura grega para tornar a sua própria escultura ainda mais teatral. Parece antagónico, mas o teatral dos gregos (período helenístico) foi o ponto de partida para muita da escultura romana. Assim, o que era já decandente por se afastar da idealização da figura humana, tornou-se o novo "natural" dos romanos. O avanço do pé transformou-se na serpentinatta; ou seja, num espasmo do corpo que começa pelo pé esquerdo avançado face ao direito e termina na cabeça a olhar para o lado oposto àquele a que se dirige o corpo e que é uma expressão estética sem correspondente com a realidade pois ninguém se mantém naquela posição produzida muito tempo. pois então o que temos: nem a posição estática, nem o requebro dos membros são poses reais.

o que é curioso é que o pé que avança é sempre, na escultura egípcia, o esquerdo. senão vejamos:

King Menkaura and queen
2490–2472 a.C.
Museum of Fine Arts, Boston

mas eis que chegamos à escultura da Antiguidade Clássica (isto para não falar de "escultura grega" nem "escultura romana" e seus diferentes períodos cujos nomes podem confundir o pessoal).  enquanto que com a escultura egípcia, o pé esquerdo avançava, os gregos e principalmente os romanos criaram figuras espelhadas, sendo que assim numa delas era o pé esquerdo que se encontrava à frente e na outra, o pé direito.  e enquanto os egípcios se mantiveram fiéis ao modelo utilizado para a figura humana (reconhecido como egípcio em qualquer contexto), os romanos utilizaram as referências dos seus antecessores, mas também as suas próprias referências. Assim temos uma espécie de cariátides egípcias na porta da Villa de Adriano (agora na Sala a Croce Greca do Museu do Vaticano), também chamadas/chamados de Telamons, sendo que estas nem seguram de facto nenhum entablamento, nem são figuras de uma escultura romana típica, nem mesmo apresentam a regra egípcia do pé esquerdo frente ao pé direito (isso acontece numa figura, mas não na outra). A graça repete-se na entrada do Palazzo Davia Bargellini:

Telamons
Sala a Croce Greca, Vaticano


Palazzo Davia Bargellini
Século XVII
Bolonha

São portanto figuras espelhadas que resultam de uma reinterpretação, de uma reutilização do motivo egípcio e grego dos Kouroi e que também Rafael usa numa pintura na Stanza dell'incendio no Vaticano. Não usa as duas figuras, mas aquela que é a figura secundária, a figura derivada da original (a figura com o pé direito avançado, já que no original egípcio é o esquerdo que avança): Basta reparar na figura do canto da sala:
Rafael
Stanza dell'incendio
1514
Vaticano

Beijos e lavem sempre as mãos depois do xixi.

quarta-feira, janeiro 09, 2019

- o carteiro -

como finges que estás:


como estás na realidade:

todos os dias.

segunda-feira, janeiro 07, 2019



- original sountrack -

porque Vivaldi é mais do que aquilo que ouvimos quando ligamos para a contabilidade e nos colocam em espera…











Sileant zephyri,
rigeant prata,
unda amata,
frondes, flores non satientur.

Mortuo flumine,
proprio lumine
luna et sol etiam priventur.

Sed tenebris diffusis
obscuratus est sol,
scinditur quoque velum,
ipsa saxa franguntur
et cor nostrum non frangit vis doloris?
At dum satis non possumus dolere
tu nostri bone Jesu, miserere. 

(Filiae maestae Jerusalém, Vivaldi)

- não vai mais vinho para essa mesa -

[no banco]
ela - podia assinar no canto superior direito de cada uma destas páginas? assinar não, rubricar.
eu - poder podia, mas não tenho uma rubrica…
ela - não?
eu - não… mas posso inventar agora, não posso?
ela - sim, desde que mantenha igual em todas as páginas e em documentos futuros.
eu - bom, ora vamos lá…
ela - …
eu - …
ela - … então? conseguiu?
eu - sim… mas parece um pénis. Há problema com isso? não sei se se pode dizer "pénis" num banco…
ela - ah… pode.
eu - pénis, pénis, pénis
- não vai mais vinho para essa mesa -

























e para não dizerem que não falei das flores…











sexta-feira, janeiro 04, 2019

- original soundtrack -

Vai minha tristeza
E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Por que eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade
É que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza
E a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim, não sai

(…)

Dentro dos meus braços
Os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim
Colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos
E carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você viver sem mim


(Chega de saudade, Tom Jobim)
- não vai mais vinho para essa mesa -

visto numa tshirt:
"Team Eternity: 2007-2009"
- não vai mais vinho para essa mesa -
Mona vs David

ou como "um dia os quadros serão vistos assim":



Sim, claro… tudo está em constante mudança. Nada é inalterável. Mesmo os museus, os locais aparentemente mais inalteráveis que podemos visitar, estão a mudar. Aliás, já não visitamos museus; frequentamos museus. Eles serão um dia locais onde iremos para tomar café e, se nos apetecer, ver uma exposição. Ao secundarizar aquela que deveria ser a principal função dos museus para responder a objectivos economicistas e às novas gerações (uma vez que os grandes museus têm agora capital privado e têm de ser rentáveis e uma vez que as novas gerações têm cada vez menos capacidade de concentração), os mesmos tendem a encontrar soluções para rentabilizar-se. Por isso sim, os museus têm um preço. Os museus adaptam-se como podem à era da reprodutibilidade digital, em que todos somos criadores e "produtores de conteúdo". 

sexta-feira, junho 15, 2018

- original soundtrack -

de mim para mim

(...)
If you're so funny
Then why are you on your own tonight ?
And if you're so clever
Then why are you on your own tonight ?
If you're so very entertaining
Then why are you on your own tonight ?
If you're so very good-looking
Why do you sleep alone tonight ?
(...)

(I know its over, The Smiths)

quarta-feira, junho 13, 2018

não me apetece comer

segunda-feira, junho 11, 2018

- original soundtrack -

Isto, só isto: simples, belo, profundo. 

'tá difícil. cada vez mais difícil
- não vai mais vinho para essa mesa -


[numa repartição de finanças, atende-me uma senhora que parece uma coelha com a moléstia, a amachucar o seu lencinho de papel, sempre lacrimejante e de nariz a pingar. depois de explicar ao que vinha a senhora começa a frase com um:]
- não sei... sabe, estamos aqui poucos...
[e eu ouço]
- "não sei... sabe, estamos aqui poucos... o meu colega perdeu um clip e... teve de ir lá abaixo ver se achava o clip... eu fiquei aqui e tenho de contar estes clips todos para ver se encontro o clip dele... não é um clip qualquer. o dele é vermelho. Os meus são vermelhos também, mas eu tenho 48. Ele tem 47 clips, agora que perdeu o clip dele. Pode ser que esteja aqui entre os meus. Cada um de nós tem 48 clips. Para sempre... Nem sei se podia dizer isto, por causa do RGPD que protege os dados do clip! Oops!... Mas sabe como é, temos de nos ajudar... e tenho de fazer isto antes das 16:30h pois a essa hora desligo mesmo o computador e vou embora. O clip tem é de aparecer até às 16:30h... Foi por isso que não pude ver o seu email. Mas se quiser aparecer amanhã... Pode ser que entretanto o clip apareça e o meu colega esteja aqui e ajude a colocar a password... É que me magoei num agrafo..."- enquanto olha para mim por cima dos óculos.
[e esta imagem e monólogo passa na minha cabeça enquanto ela fala. Quando acaba, percebo que não prestei atenção a nada.]
- não vai mais vinho para essa mesa -

a descer a rua, mesmo a chegar à esquina, um tipo novo que estava por ali a cuspir fogo com os cães sentados à volta dele com gamelas para água e comida, pede-me uma moeda. Enquanto procuro pelo porta-moedas na carteira, ele diz-me
- nunca me cumprimentas. passas aqui todos os dias e nunca me cumprimentas. tens alguma coisa contra mim?
- .... ahhh... não... nunca te tinha visto...
- mas eu vejo-te todos os dias.
- desculpa... a partir de agora vou cumprimentar...
com ar ameaçador: - mas vê lá se dizes essas merdas e depois não cumpres!
- ... não me esquecerei...
aproximando-se mais: - e a moeda?

- o carteiro -















Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a Vase
1888
National Gallery, Londres

quando a minha idade era outra que não esta (Eu era feliz e ninguém estava morto), as idas ao campo, a casa dos avós eram uma aprendizagem: de factos, e mitos. Aprendia-se como se fazia farinha, o quanto custava ordenhar uma vaca, a quantidade de lenha necessária para uma refeição... mas havia igualmente a ficção.

"vai buscar água para acender o lume"- uma expressão que ouvia a minha avó dizer várias vezes à minha tia e que me parecia uma antítese. e a minha tia lá ia. Havia um poço, é verdade, mas até o poço chegar a água para cozinhar, para lavar alimentos e pessoas era água do rio que a minha tia trazia numa espécie de ânfora de plástico, em cima da cabeça, sobre um pano enrodilhado que lhe dava para coroa, mas também para abanico.

"bicarbonato de sódio" - um dia, abeirei-me da panela em tripé que borbulhava nas brasas da cozinha velha (sim, porque os meus avós viviam claudicantes entre a vergonha de mostrarem alguma prosperidade fruto do trabalho no campo, da venda de pão caseiro porta-a-porta e da emigração e o orgulho na sua pobreza honesta, que eles acentuavam saindo à rua com os piores andrajos. tinham por isso uma cozinha velha e uma cozinha nova que nunca utilizavam). mas lá estava junto à panela quando vi a caldeirada de natal a ser cozinhada e vi igualmente a minha avó a deitar para a panela um pó branco. "estou tramada", pensei eu. "queres ver que a minha avó é bruxa e isto é uma poção mágica?". mas não... infelizmente a resposta foi mais simples, mas nem por isso menos surpreendente: "bicarbonato de sódio", respondeu a minha avó à pergunta: "o que é isso?". "para quê?", voltei à carga. "para as pencas ficarem mais verdinhas", respondeu-me ela. Eu ri-me fortemente. Para mim bicarbonato de sódio era o que a Vera usava para lavar os dentes. Para estes ficarem mais... branquinhos. A minha avó levou a mal e passou o Natal amuada.

canja de galinha e porco - nunca comi, em casa da minha avó, outra coisa que não fosse caldeirada de Natal, no Natal; e rojões de porco aquando da matança. curiosamente o almoço da matança era sempre precedido por uma canja de galinha o que me parecia uma estranha mistura. Os rojões eram acompanhados por arroz de fressura (não queiram saber o que era), sangue de porco e alface. Bebia-se gasosa Uprel ou vinho caseiro. Terminava-se com pão-de-ló ou rolo de chocolate. dormia-se até casa na parte de trás de uma Morris Marina branca.

deus te acrescente - a minha avó fazia pão. dobrada sobre si mesma e sobre a masseira, batia no pão e deixava a massa descansar junto ao fogão e aos gatos de olhos melados, com um fino pano branco por cima. às vezes dava-nos um bocadinho de massa crua. aquilo era bom. ou pelo menos, diferente. colava-se ao céu da boca como a hóstia, mas sem a obrigatoriedade de assistir a uma missa inteira. Antes de meter o pão no forno - pão que ela moldava redondo com as mãos e a parte interior dos antebraços - desenhava-lhe uma cruz e dizia "São Mamede te levede, São Vicente te acrescente, São João te faça pão e Deus te deite a sua divina bênção.". Depois de tirar o pão do forno a lenha, e com as mãos insensíveis ao frio e ao calor, calejadas e grossas, partia um pouco, dava-nos não sem antes vaticinar: "pão quente, muito na mão, pouco no ventre!" A minha avó tinha uma série de dizeres que provavam a sua superstição: não se podia abrir um guarda-chuva dentro de casa, nem cantar à noite, nem mesmo partir uma garrafa de azeite. Dava azar. No caso da garrafa de azeite compreendo o azar que dava: limpar aquela porcaria era um grande azar... Havia outros rituais proibidos como deitar fora a água do banho já depois das vésperas. Era deixar a água suja dentro da bacia (em casa da minha avó não havia casa de banho. Tomava-se banho completo uma vez por semana, na adega, dentro de uma bacia de plástico. nos restantes dias, lavava-se as partes pudibundas) e atirá-la para junto da casota do King (cão arraçado) na manhã seguinte. Também não se podia beber água durante a noite, pois a água, tal como as pessoas, também dormia. Beber água durante podia matar. Não beber... também não lá muito boa ideia...
- não vai mais vinho para essa mesa -
































sexta-feira, junho 08, 2018

trabalhar ao almoço
trabalhar ao jantar
trabalhar nos feriados.

mais horas houvesse,
mais trabalhava

segunda-feira, junho 04, 2018

- original soundtrack -




sábado, junho 02, 2018


- não vai mais vinho para essa mesa -



















quinta-feira, maio 31, 2018

- original soundtrack -

por favor:













Good times for a change
See, the luck I've had
Can make a good man
Turn bad

So please please please
Let me, let me, let me
Let me get what I want
This time

Haven't had a dream in a long time
See, the life I've had
Can make a good man bad

So for once in my life
Let me get what I want
Lord knows, it would be the first time
Lord knows, it would be the first time


- não vai mais vinho para essa mesa -



- o carteiro -

porque hoje é feriado

é dia de Corpo de Deus! Aleluia, Aleluia. (ah, espera, isso é na Páscoa).

O pessoal - quem pode - não trabalha e deve agradece-lo a alguém, ou pelo menos saber porque razão é feriado. É que no Natal, a gente bem sabe: "nasceu Jesus"; na Páscoa (essa é fácil!), morreu Jesus. Mas Corpo de Deus? E nós a acharmos que Deus não tinha corpo... Se Deus tiver corpo este será como o nosso, pois nos Génesis (Génesis 1: 27) diz que Deus criou-nos à sua imagem e semelhança. Por isso, se eu sou parecido com Deus, ele é parecido comigo! Deve ter também um rabiosque pois tem um trono (referido no Livro do Apocalipse 4: 1-11) e é sabido que um rabiosque é essencial para sentar. Imaginamos Deus como um velho de barbas brancas, com uma túnica também branca, sandálias e sobrancelhas hirsutas. E ele pode de facto ter essa forma nas suas Teofanias. Ele pode aparecer-nos sob qualquer forma e, se nos portarmos mesmo bem, não nos aparece sob forma nenhuma! Mas se temos esta ideia é porque já vimos Deus representado assim. Lembremos "A Criação do Homem" de Miguel Ângelo no tecto da Sistina. E se os artistas representavam Deus desta forma, era porque existia uma fonte. Essa fonte era, mais uma vez, o Livro do Apocalipse:

"Voltei-me para ver de quem era a voz que me falava. E, ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro; no meio dos candelabros, vi alguém com aparência humana; estava vestido de uma túnica comprida até aos pés e cingido com um cinto de ouro em torno do peito; a sua cabeça e os seus cabelos eram brancos, como a brancura da lã e da neve; os seus olhos eram como uma chama de fogo; os seus pés assemelhavam-se ao bronze incandescente numa forja, e a sua voz era como o rumor de águas caudalosas; Ele tinha na mão direita sete estrelas e da sua boca saía uma aguda espada de dois gumes; o seu rosto era como o Sol resplandecente com toda a sua força" (Apocalipse 1: 12-16)

e o livro de Daniel:
"Continuava eu a olhar, até que foram preparados uns tronos, e um Ancião sentou-se. Branco como a neve era o seu vestuário, e os cabe­los da cabeça eram como de lã pura; o trono era feito de chamas, com rodas de fogo flamejante" (Daniel 7: 9)

Infelizmente - e antes que vocês pensem que é por isso que se festeja este feriado - devo dizer-vos que o feriado do Corpo de Deus está relacionado com uma crença, um pilar do Cristianismo e não tem nada a ver com a forma do corpo de Deus ou se este tem forma sequer. Essa é uma questão para meninos. Para o Cristianismo, Deus é tão... "imenso", que o Homem não tem capacidade para entendê-lo. Lá está, é aquela velha história: Deus é tão grande, que a Luz é uma sombra de Deus.

Quando na eucaristia dizemos o Creio (Creio em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador do Céu e da Terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis...) estamos a afirmar que cremos em várias questões inalienáveis do "ser cristão": acreditar que Jesus é filho de Deus, que nasceu de uma Virgem que viveu e morreu por nós, que ressuscitou ao terceiro dia após a morte e que ele foi "gerado e não criado, consubstancial ao Pai". E eis-nos perante a razão para termos feriado. No século XIII uma freira belga de seu nome Santa Juliana do Monte Carvillon, Liége sugeriu, primeiro ao seu bispo e depois ao Papa Urbano IV, e após uma visão, que fosse instituído um dia para um dos mais importantes sacramentos: o sacramento da Eucaristia. Isto prende-se com várias questões que não são somente de crença. Por um lado, instituir este dia e instituir um dia para celebrar a eucaristia, era uma forma de debelar os focos de heresia que iam surgindo. Por outro era uma forma de, na secretaria, dar a entender ser esta uma vontade divina (uma vez que todas as outras já haviam sido satisfeitas!...) e assim aproximar o crente de Deus. Se o crente pensasse "Deus quer isto", isso queria dizer que Deus estava atento aos crentes, estava próximo deles. Hoje em dia, com todo o ritual religioso estabelecido e fixado, não podíamos estar mais longe de Deus. Ou ele de nós. Precisamos pois de novos feriados que festejem coisas ainda não festejadas!

A Eucaristia é de facto importante para o cristão pois é nela que não só afirmamos a transubstanciação (transformação do corpo e sangue de Jesus em pão e vinho), como também afirmamos  a ideia de Jesus ser consubstancial a Deus; ou seja: um e outro são o mesmo embora sejam simultaneamente pessoas diferentes. (homoousios por oposição a homoiousios). 

A ideia de Santa Juliana foi bem acolhida, mas a verdade é que pouco tempo após ter sido instituído o dia de Corpus Christi - dia de Corpo de Deus - tanto o Papa como a freira acabam por falecer e o dia - e homenagem caíram um pouco no esquecimento. Só no século XIV as festividades foram retomadas tendo chegado até ao século XVIII com grande élan e depois tornando-se, como tudo o que tem de sobreviver no tempo, sistematizadas. E aqui estamos nós, a gozar o Corpo de Cristo como bons pecadores que somos.

sexta-feira, maio 25, 2018

- original soundtrack -

(...)
Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
(...)

(Que força é essa?, Sérgio Godinho)

quinta-feira, maio 24, 2018

beluga - aguenta miúda.

segunda-feira, maio 14, 2018

- original soundtrack -


porque sim


Quando acorda olha para o lado
Se veste bonita pra ninguém
Chora escondida no banheiro
Pras amigas finge que está bem
Mas eu vejo
Eu vejo

Acha que precisa ser durona
Não dá espaço para a dor passar
Tem um grito preso na garganta
Que não está deixando ela falar
Mas eu ouço
Eu ouço

Quase como que anestesiada
Vai deixando a vida carregar
Ela sentiu mais do que aguentava
Não quer sentir nada nunca mais
Mas eu sinto
Eu sinto

Qualquer um que encontra ela na rua
Vê que alguma coisa se apagou
Ela está ficando diferente
Acho que ninguém a avisou
E eu digo
Eu digo


(Ela, Tim Bernardes)