Segunda-feira, Outubro 19, 2009

- o carteiro -

vamô dá um tempo, tá légau?

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

- original soundtrack -

See these eyes so green
I can stare for a thousand years
Colder than the moon
It's been so long
And I've been putting out fire
With gasoline

Feel my blood enraged
It's just the fear of losing you
Don't you know my name
Well, you been so long

See these eyes so red
Red like jungle burning bright
Those who feel me near
Pull the blinds and change their minds
It's been so long

Still this pulsing night
A plague I call a heartbeat
Just be still with me
Ya wouldn't believe what I've been thru
You've been so long
Well it's been so long
And I've been putting out fire with gasoline
putting out fire
with gasoline

See these tears so blue
An ageless heart that can never mend
These tears can never dry
A judgement made
can never bend
See these eyes so green
I can stare for a thousand years
Just be still with me
You wouldn't believe what I've been thru

You've been so long
Well, it's been so long
And I've been putting out fire
with gasoline
putting out fire with gasoline

(Cat People (Putting out fire), David Bowie)
- não vai mais vinho para essa mesa -

Jornalista da SIC sobre o concurso “Miss Cirurgia Plástica” realizado na Hungria (Jornal da Noite de 10/10/09)
“A vencedora irá levar para casa um apartamento.”

[e onde é que ela o põe?]
- o carteiro -
Quando um não quer, dois não pecam – Procriação IV
Após os progenitores terem feito “aquilo que Deus mandou”, mesmo aqueles que fizeram de uma forma que Deus desconhecia ou antes do tempo ordenado por Ele, vinha a gravidez. Na Antiguidade a gravidez era vista como uma expressão da Natureza: tal como a Terra guardava a semente e expulsava-a em forma de flor ou de fruto chegada a altura, as mulheres incubavam o ser durante nove meses. Para os gregos e romanos a presença de deusas (como Artémis/Diana) ajudavam a proteger o embrião e a afastar os maus espíritos (Lembram-se de termos falado de Litith) embora com o tempo – por volta do século IV-V a.C. o racionalismo de Hipócrates tenha colocado freio ao delírio que rodeava os tempos de incubação. Mas apesar de a gravidez ser algo natural e que deveria seguir o seu curso normal, a gravidez podia ser diagnosticada. Hipócrates, que podia ter boas máximas, mas não me parecia ser grande médico, apoiava o teste do alho na vagina que consistia em introduzir um alho húmido na vagina de uma mulher e deixá-la com o “tempero” toda a noite. Se pela manhã o cheiro a alho for expelido do corpo da mulher pela boca ou pelo nariz, a mulher estava grávida. Se nada acontecesse, a mulher não estava grávida. Outro método prescrito pelo médico grego para conhecer o estado da paciente era dar a beber à mulher uma mistura de água e mel. Se a senhora tivesse qualquer reacção na zona do ventre, então estaria grávida.
Nos conturbados, mas não obscuros tempos da Idade Média, a gravidez dentro do âmbito marital, respondendo às predisposições divinas, e fruto do respeito conferido pelo lençol que intermediava os corpos com a sua concuspicênciazinha na pequena abertura estratégica, era até bem visto. Cumpria-se a vontade de Deus Nosso Senhor que nos havia pedido há muito que crescemos e nos multiplicássemos, mesmo que muitas das mães o fossem antes de terem largado a manietação das bonecas e a pequena carnatura que molda os cantos da boca na infância. Assim, era possível que aos 26 anos, mais para a frente ou mais para trás, e não obstante o número vasto de vulvas a soldo de que um marido se podia servir, o aparelho reprodutor feminino estivesse lasso, gasto, e de pouco prazer para esposa e esposo. As mezinhas e as benzeduras que botariam crescedura ao crianço não eram bem vistas pela Igreja, mas ninguém as dispensava e no fundo conviviam como comadres. Incompreensível era o dito das entidades eclesiásticas às futuras mães: a gravidez era algo natural, era o destino da mulher e por isso deveria ser evitada a interferência das curandeiras, mas ao mesmo tempo… a gravidez era o castigo celeste pela incontinência voluptuosa de Eva. Pensava-se nesta época que a gravidez podia ser adivinhada quase e que se consumava no acto sexual. Para tal era necessário que existisse por parte do corpo da mulher um frémito de prazer durante o coito (que não era visto como prazer, mas como prenúncio de felicidade futura), que o homem retraísse o seu membro e que este ficasse mirrado e por fim, que a mulher não tivesse mais desejo sexual pelo homem em questão durante o resto da noite, estando o seu corpo já a fechar-se para a preparação do ser que iria albergar. Lá dentro, e enquanto homem e mulher dormiam de costas voltadas, já tudo estava decidido. Eu acho bem, mas também acho que por esta ordem de ideias a nossa taxa de natalidade seria muito mais elevada. A observação da possível gravidez através da urina era coisa já antiga, mas não com as tecnologias actuais. Lançar a urina, durante três dias seguidos, três manhãs consecutivas, sobre uma malva. Se a planta não morresse, a mulher estaria grávida. Outra teoria defendia que a urina deveria ser deixada uma noite dentro de um pote metálico onde deveriam repousar igualmente alfaias de ferro. Se na manhã seguinte estas aparecessem manchadas de vermelho, a mulher estava grávida. Vemos isto nesta pintura de Rogier van der Wyden, “Virgin with the Child and Four Saints”. Do lado direito da pintura (esquerdo da virgem), dois santos acompanham esta cena. São eles são Cosme e São Damião, santos patronos dos médicos e farmacêuticos. São Cosme segura numa das mãos um pote de vidro com uma pequena amostra de um líquido que se pensa ser urina, como que a atestar cientificamente que a Virgem trouxe no seu ventre o menino. Os cultores de urina agitavam à luz do sol a urina para verem o cambiante das suas cores, podendo adivinhar logo se a mulher estava de esperanças, se a criança era do sexo feminino ou masculino e até, se teria outras doenças. Não que a gravidez seja uma doença (às vezes parece uma praga a avaliar pela quantidade de barrigas que nos atiram à cara), mas naquela altura era considerada uma doença. Mas a melhor teoria médica para executar um teste caseiro de gravidez é, na minha opinião, aquele que aconselha o repouso durante três dias e à sombra de um frasco de vidro contendo a urina da mulher. Quando coado através de um pano fino branco a gravidez fica assegurada se no mesmo ficarem alguns bichinhos. Lá está, o Preformismo.
Gerrit Dou
The Dropsical Woman
1663
Musée du Louvre, Paris


Santo Constantino, o Africano


Rogier van der Weyden

Virgin with the Child and Four Saints
1450-51
Städelsches Kunstinstitut, Frankfurt

Após conhecer o resultado do exame urológico e caso este tivesse resposta positiva, os casais desejavam saber o sexo da criança, coisa que se impunha e que podia fazer a diferença em certas uniões. Alguns casamentos só eram legitimados quando a esposa desse ao seu esposo um filho macho, um varão. Até aí, e caso o marido decidisse, esta seria repatriada para o seio paterno. Ora como os filhos do sexo masculino eram muito desejados, era natural as teorias e as práticas para adivinhar o sexo da criança beneficiassem mais na sua análise os homens que as mulheres. Hipócrates por exemplo dizia que o rapaz se mexia mais cedo que a rapariga e outros médicos, botânicos, farmacêuticos e espalha brasas diziam que sendo o feto masculino a mulher se sentia bem, com boa cara, bem disposta, com apetite e feliz. Há também uma teoria, que permanece até hoje que coloca o feto feminino a crescer para o lado esquerdo do corpo da mãe e o masculino a crescer para o lado direito. Obviamente isto tinha uma explicação muito cara aos homens: como a maior parte das pessoas era destra, dizia-se que o lado direito do corpo era mais hábil, e desenvolto, logo, um ser do sexo masculino teria de nascer nesse lado e herdar dele as características. Outro teste determina ainda o sexo e o número de filhos que a mulher vai ter. Ainda hoje se pratica e chama-se jogo do pêndulo e que consiste em fazer balançar sobre a barriga de uma grávida um pêndulo (há quem faça com uma simples agulha que balança no fio). Se este pêndulo se mover de forma circular, será uma rapariga (alusão unívoca!). Se pelo contrário o pêndulo tiver um movimento de vai-vem, é um rapaz.


gravura do século XIX

Se a mulher esperava uma menina a ordem cósmica fazia dela uma sofredora no parto e na gestação, coisa muito merecida por virtude do despautério de Eva, a prostituta do Éden. Tudo quanto fosse enjoo, desejo estranho e histerismos dos quais a grande parte das mulheres tirava grande proveito, excepto as menos aptas intelectualmente. Caberia à mulher o trabalho de durante esses nove meses munir-se de uma lista extensa de desejos e desenrolá-la como uma língua na pastelaria, no chapeleiro, na modista, na luvaria, ou frente ao marido à noitinha e com a alça da camisa a fugir virginalmente do ombro macio e em gancho. As que o Senhor tinha dotado de outros atributos que não a inteligência (e digamos, neste caso da camisa, de beleza), teriam que se haver com alguns “nãos”, raros, quase inexistentes face à crença universal que quem falava não era a mãe, mas a criança e que esta, se privada de algo, nasceria com defeito impresso na pele como um selo ou como a marca de um ferro quente. E os desejos poderiam ser muitos, sendo que aqueles que mais facilmente se aceitavam eram os de ordem alimentar, embora nem tudo aquilo que as mulheres colocavam à boca fosse propriamente comestível como aranhas, urina, areia, cabelos, ferro, etc… segundo o retrato da época. Havia também desejos de roubar, de vandalizar ou de maltratar, desejos esses que deveriam ser satisfeitos sob pena de a mulher transmitir aos filhos a carência. Acredito que muitas grávidas terão exagerado nesta parte como forma de vingançazinha.
Já no século XVIII e com a ascensão de uma consciência médica e consequente aprofundamento, a gravidez foi sendo desmistificada aos poucos e poucos. No entanto prevaleciam algumas teorias – que quase sempre conferiam à mulher, fosse qual fosse o mal, o mesmo diagnóstico - de sofredora militante de histerismo crónico e milenar. A ciência havia descoberto muito quanto ao nascimento em si, mas pouco quanto aos desejos femininos, aos seus anseios e às necessidades do feto dentro da incubadora. Ora foi também por esta altura que o Homem – que cria a doença e acha a cura – inventou um torturante e dissuasor aparelho de nome fórceps que no entender da mãe iria ajudar ao nascimento, mas que no entender do médico, cada vez mais chamado para ver a vagina em dilatação em detrimento das carcaças sabidas, mas caciqueiras das parteiras de serviço que ordenavam mais ou menos dores à parturiente quanto os seus ouvidos fossem capazes de aguentar ou quanto a condição do nascido a isso obrigasse, era apenas uma forma de fazer do nascimento um negócio.

Louis Léopold Boily
The Second Month
1825

Durante a época vitoriana a moda espartilhada e ataviada atrapalhou, se não a concepção, pelo menos a gestação. As mulheres, muito deformadas pelos ditames da moda, eram como pombas de coração acelerado e por isso, muito pouco úteis na nobre e animalesca tarefa de parir um saudável varão. Apesar dos conselhos médicos de algum exercício físico, as pobres almas não primavam pela sensatez e muitas vezes, as mais afoitas que se aventuravam a fazer um pequeno movimento, por ausência do mesmo durante toda a vida, acabavam por sofrer abortos. Daí que a questão do exercício físico e do papel activo da mulher durante o tempo de gestação tenha sido sempre desconsiderado. E quem engravidada, privada que era de uma vida social cheia do rumorejar de saiotes, rendas e dos bordões dos homens nas crinolinas, tinha que se recolher no recesso do lar, onde o que a esperava eram somente os bibes e um tricot canónico esquecido entre os livros e os suspiros de que o diz chegasse rapidamente. Isto acontecia porque as mulheres se viam desposadas do uso da sua bonita roupagem, dos seus trajes elegantes, até porque ainda não existia uma moda para grávidas, não existia a roupa propositadamente feita para mulheres grávidas e elas escondiam sob um corpete, e até aos limites do aceitável, a barriga que crescia. Havia uma vergonha declarada em estar grávida, assim como existia uma conduta protocolar de distanciamento entre mãe e filho. A panaceia de mulher grávida era um aro ou um cinto de couro que passava pela nuca e por baixo da barriga, para segurá-la.

gravura do século XVI
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

Antes e depois ou na continuidade do post sobre a futilidade. Obviamente que ser fútil não é gostar de moda. Na minha opinião a futilidade implica sempre comparação e nessa comparação há uma impossibilidade de resolução. Uma vez que a possibilidade insiste nos nossos gostos, apenas se pode dizer que gostar de X ou de Y é absolutamente fútil quando comparado com Z. Ora, como os gostos se devem discutir, ao mostrar os meus gostos vou ser avaliada pelos outros que farão com eles a comparação acima descrita. Mas como cada um ajuíza de forma diferente (excepto nos casos extremos e mesmo assim, tenho vista muita coisa), não há solução de gosto. O gosto e a premência nem sempre combinam e dentro do gosto, assim como dentro da premência, há várias ordens de importância.
Apresento um post sobre a moda e sobre Dali. Da primeira gosto, do segundo não. Mas era coisa que se impunha. Depois de ver o livro “Moda e Surrealismo” e de me deparar com a obra de Elsa Schiaparelli, uma estilista italiana muito influenciada pelo Surrealismo, notei a semelhança entre muitos dos seus modelos e alguns quadros, principalmente de Dali. Um deles é este casaco com bolsos estrategicamente posicionados. Digo “estrategicamente” porque é muito semelhante à Vénus de Dali e ao pormenor da mulher que se encontra em primeiro plano no quadro “Girafa em chamas”. Como já disse, não gosto nada de Dali, mas estive a ler que Dali interessava-se por moda e atribuía-lhe um sentido paradigmático: a moda condicionava as acções dos homens ou antecedia-as. Quando na Segunda Guerra Mundial os tecidos escassearam, Chanel teve de fazer vestuário com os tecidos usados na roupa interior e usados nas fardas dos soldados (Lagerfeld reviveu isso nos anos 90 ao fazer desfilar modelos vestidas com tailleurs feitos de turco). Quando a Alemanha mostrou ao mundo o seu poder, um dos principais veículos da sua mensagem foi o uniforme da polícia alemã que contrastava com a pobreza dos uniformes dos aliados. Era algo intimidatório, que merecia respeito e medo, mesmo que não se concordasse com o regime. Mas a moda e principalmente a roupa está associada ao seu receptáculo, ao seu contentor (uma vez que moda é muitas vezes desprovida de conteúdo, tem pelo menos um contentor): a gaveta. A gaveta é uma alegoria da Psicanálise, do segredo e, na minha opinião, da Caixa de Pandora. Na Vénus com gavetas, a gaveta representa o interior podre da beleza, mesmo da beleza imaculada. A estilista Elsa Schiaparelli, que também estudou filosofia e era coetânea de Dali, deverá, como ele ter conhecido as teorias de Freud. Desconheço se as aplica com o mesmo sentido de Dali, mas constrói o seu casaco colocando as gavetas praticamente no mesmo local do corpo que Dali coloca, e as suas peças são tão extravagantes quanto as dele. Ela confirma esta relação com Dali, não apenas na colocação das gavetas nos mesmos locais, mas porque, se virmos os modelos que concebe, Elsa é tão desconcertante com a análise da moda e do outro quanto Dali.

Salvador Dalí
Venus de Milo with Drawers
1936
Colecção Privada


Elsa Schiaparelli


E para concluir a futilidade, eis uma sugestão, um bocadinho tardia, mas quem dá o que tem, a mais não é obrigado. Em Dusseldorf, no NRW Fórum, até 1 de Novembro é possível ver os vídeos e as instalações relativas aos desfiles de moda mais fantásticos dos últimos tempos: Thierry Mugler em 1997, Dries van Noten em 2004, Yves Saint Laurent no Grand Palais em 2008, Yohji Yamamoto em 1998, Rodarte na Gagosian Gallery em 2008, Maison Martin Margiela em 2009-10-10, Dior em 2005, Alexander MsQueen em 1999, e John Galliano em 2009.
- o carteiro -
Deverá existir em alemão uma palavra para falar desta ponte temporal entre o passado e o presente na arte, uma vez que em alemão há palavras para tudo. Sugiro Brückedazwischenpräteritumpräsens (brucke=ponte, dazwischen=entre, präteritum=passado, präsens=presente), mas como tem muitas letras, deixo antes Vergangenheitsbewältigung que significa “reconciliar-se com o passado”. E eis que o presente representado aqui pelo Turner Prize se encontra com o passado datado de 1987. Em 1987 o artista Tim Head pintou o retrato de várias vacas inspiradas nas vacas de Liz Leyh em Milton Keynes. Ao longe parece um lindo padrão de papel de parede, mas ao perto são vacas ou melhor, a imagem vaga de vacas inspiradas nas ilustrações de pacotes de leite da cadeia de lojas Sainsbury's, que por sua vez se inspiraram nas vacas de Liz Leyh. Quem vê a imagem percebe que por trás destas vacas está uma recordação de infância, vinda dos referidos pacotes de leite. A pintura dá-lhes um ar abstracto, dá-lhes nova forma e retira-lhes o aspecto familiar. E este quadro tem uma vantagem face à Pop Arte, para quem alegar que é apenas Pop Arte: ela aproxima-se de algo nobre que poderia cobrir as paredes de residências respeitáveis.

Tim Head
Cow Mutations
1987

Presentemente pode ser comparado ao Turner Prize. Antes dos galardoados, a Tate Britain organiza uma exposição com os finalistas e convida o público a falar das suas diferenças e semelhanças. Este ano o quatro finalistas são Roger Hiorns, Enrico David, Lucy Skaer and Richard Wright (onde é que estão as mulheres?). Entre eles há semelhanças: trabalham com marcas de água, ou stencil ou mesmo padrões. Aliás, diz-se que não há vários trabalhos nesta exposição, mas apenas um grande e longo trabalho que é a soma das propostas destes artistas que se assemelham tanto. Richard Wright, o último da lista é aquele que terá menos probabilidades de ganhar o Turner Prize uma vez que o seu trabalho é lacónico: ele pega numa grande sala e tacitamente enche a parede de folha dourada (a mesma que se usa para a talha) de forma a criar padrões e por consequência um oneroso papel de parede em que o elemento base do padrão é gigantesco face à ideia de padrão.

Richard Wright
Wall markings
2009
- o carteiro -

notícias do mundo da arte:
- Os Spandau Ballet vão regressar com uma tourné que irá incluir êxitos antigos e canções do novo album "Once More".
[link]

- Damien Hirst, que mudou o paradigma de obra de arte ao conservar em formol a carcaças de animais e vendê-las a preços escandalosos, originou o regresso ao passado. Esta semana, quando Hirst resolveu expôr algumas pinturas na Wallace Collection aos mesmos preços que os leilões pedem hoje por quadros de Ticiano e Rembrandt, ouviu um coro de críticas de toda a imprensa, de todos aqueles que desde os YBA o veneravam. O problema está em Hirst ter dessacralizado a intocável expressão artística que é a pintura ao aproximar-se muito dos Mestres Antigos (no preço) e dos mais recentes como Picasso ou Freud. Ele pressupõe com isto uma possível comparação com a pintura, que ninguém consegue achar legítimo.
- A ala direita da política e cultura americana (isto parece uma antítese), profundamente conservadora, referiu-se com desdém à colecção de arte dos Obama, alegando que a maior parte dos quadros são cópias de autores conhecidos. Em concreto o quadro Hard Edge é uma cópia de l’Escargot de Matisse. Argumenta-se que as cópias até teriam piada se Obama não estivesse tão desorientado. E o reparo até seria pertinente se tivesse vindo de alguém que não achasse que a Branca de Neve era uma depravada porque vivia com 7 homens anões.
- não vai mais vinho para essa mesa -

Guta, Experimenta não enviar. Por favor.

Sábado, Outubro 10, 2009

- back to black -

"Pode o deus que em mim vive mover profundamente todo o meu ser; mas nem mesmo ele, que comanda todas as minhas forças, pode mudar o que quer que seja à minha volta." - Goethe - Fausto
(estive a olhar para os arquivos e antes isto tinha muito mais piada. "no meu tempo é que era...")

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

- o carteiro -

uma pessoa tem os seus dias
- original soundtrack -

Não consigo encontrar a letra desta música, nem o nome do album. Mas é viciante

(Wonderful Life, Hurts)
- o carteiro -
cenas dos últimos episódios:

“vou lá, faço o meu papel, sou agradável, sorrio, rio, participo e depois venho embora” , “inexperiente e inocente. E as pessoas aproveitam-se disso”, “eh pá, não me prepares o pequeno-almoço. Destesto que me preparem o pequeno almoço”, “you can’t handle this”, “vou apagar-te dos ‘favoritos?”, "pára de te preocupares com o bem estar dos outros", “a vida custa-me muito mais sem ti, mas não posso fazer isso”, “não é assim tão mau ser imperfeito”, “já a vi pior”, “fim de semana no chiuaua”, “não é possível a vida ser isto", “talvez não seja aquilo que desejavas que eu fosse”, “o que tu pensas que é bom para ti não é”, “pensas demais”, “põe a mão aqui, põe cabra!”, “e a esperança? Eu não consigo viver assim!”, “ele está a fazer chantagem”, “há qualquer coisa de errado”, “gosta de tudo? Coma de tudo”, “muito cansada, muito triste, sem esperança, em branco”, “és a minha enguia arisca”, “tenho a sensação constante que não gostam de mim, toleram-me”, “mostra as mamas na internet! Expõe-te!”, “anda lá pedir-lhe um autógrafo!”, “looser”, “tens-te na pior conta”, “mach icho não tem muitach vitaminach”, “ridícula”, “amas como quem se vinga”, “diz-me onde estão as garrafas. Eu escondo-as melhor”, “dividimos o mesmo tecto, mas nunca mais fales comigo por favor”, “não tenho paciência”, “vai ser o nosso pequeno segredo”, “para mim, 90% de perfeição”, “não tenho de ser o balde do lixo dos teus desejos sexuais”, “és tímida?”, “ó chiquitita, aqui quem decide sou eu”, “amô, faiz um fávô prá mim? Liga o forno e passa SBT ná caisa”, “desculpa. Desculpa por pedir desculpa”, “as pessoas são simpáticas porque estás magra”, “às vezes a aluna inventa”, “está no banho? Tem de sair, falta uma faca no refeitório”, “Orlando, o que é que eu faço?”, “tens de tomar Ómega 3”, “fuma, droga-te!”, “18 valores em Antero de Quental? Que seca!”, “as tuas calças são tão feias”, “bebes dia sim, dia não”, “não era para ficar mais magra. Era para desaparecer”, “deixa-me em paz com as minhas guerras”, “não, parte-se do geral para o particular!”, “pois, pois, isso é muito bonito, mas não serve de nada”, “já para a coluna jónica já”, "se querias mesmo saber porque é que não perguntaste?", “porque é que não ficas?”.
- não vai mais vinho para essa mesa -


- Tens aí o endereço electrónico dela?
- Mostra. Humm, não conheço este servidor... Deixa cá procurar no google "rottlemeio".
- ...
- ... Só tem rottweiler. Deixa procurar antes com um "t" apenas. Ela soletrou o nome pelo telefone?
- Não, ela disse e eu escrevi...
- ...
- ...
- Não aparece!... Espera aí! Diz-me exactamente aquilo que ela disse, com sotaque brasileiro e tudo!
- Ela disse "tátjivintchiméia, étchi rottlemeio, ponto comi".
- Sabes... isso traduzido é "tativinteeseis@hotmail.com"
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates

antes e depois ou "como este post é, na minha modesta opinião, muito bom. O antes e depois de hoje não é bem um antes e um depois porque não se sabe aqui quem nasceu primeiro, a história de Jonas ou o útero feminino. Consideremos, para facilitar as coisas, que foi o útero feminino que nasceu primeiro da Mão de Deus. Logo o depois deste post é a saga de Jonas. O livro de Jonas pertence ao Antigo Testamento, mas como para existir Jonas era necessário existir uma mãe de Jonas com um útero, assim fica; primeiro o útero e depois o Jonas. Ora o Livro de Jonas, quase desconhecido, conta a história de Jonas. Esta história, muito resumidamente, diz que um dia, Deus envia à cidade de Nínive, cidade que era tradicionalmente, inimiga de Israel. A cidade, segundo Deus, tinha desobedecido às suas ordens. Jonas vai então pregar a palavra divina, mas uma vez em Nínive, foge à sua responsabilidade, metendo-se num barco com direcção a Társis (Espanha. Ou o barco era o Paquete Funchal, ou não sei…). O Senhor vendo isto criou uma tempestade no mar disposta a acabar com a insurreição de Jonas. Os marinheiros aflitos começaram a perguntar a Jonas quem lhes enviava a tempestade e Jonas disse que era o seu Deus. Zangados com atitude de Jonas que provocou a ira de Deus, lançaram-no ao mar e o mar cessou a sua fúria. Os homens recuperaram o amor a Deus, Nínive aproximou-se das leis de Cristo, mas Jonas ficou perdido no mar. Os homens de Nínive, do rei ao mais pequeno súbdito humilharam-se vestindo-se com panos de aniagem e cobriram-se de cinzas. Para castigar Jonas Deus fez com que o profeta fosse engolido por um grande peixe (erroneamente chamado de baleia) e lá permaneceu durante três dias. Jonas rezou durante esse tempo todo e Deus permitiu que o peixe soltasse Jonas.

Esta história tem uma importante mensagem teológica: Jonas representa a mentalidade estreita e vingativa com que se classifica muitas vezes os judeus. Como os judeus eram o povo escolhido, tornaram-se aos poucos impermeáveis à acção de Deus. Esta é uma parábola da misericórdia de Deus. Ora este relevo que aqui mostramos mais não é que a imagem de Jonas a ser expulso do interior do peixe, existente como decoração de uma misericórdia (apoio na parte de baixo de um banco de coro) na igreja of Saints Peter and Wilfrid em Inglaterra.

O útero… é um útero e tem aqui uma relação formal com a baleia. Não vejo outro tipo de analogia que possa ser feita entre a baleia e o útero humano, a não ser que na Idade Média o útero, por ser feminino, era visto como a fonte de todos os males, uma toca, uma boca insaciável, mais do que o berço das nações.



Church of Saints Peter and Wilfrid
1489
- o carteiro -
quando um não quer, dois não pecam - procriação III ou a mulheró-poedeira

Um dia, Jan Swammerdam levou até um convívio com os amigos onde se discutia embriologia um bicho-da-seda. Ninguém acreditava que daquele casulo pudesse sair uma borboleta, mas Jan começou a retirar as camadas que envolviam a borboleta e pôs a descoberto todas as partes que constituem esse insecto. O que se concluiu no convívio? Que cada uma das criaturas que existe ou virá a existir no mundo já está preformada dentro das criaturas mãe da mesma espécie. È este o princípio da Pré-formação que fala de um homúnculo, igual ao que virá sair, com todas as características que lhe iremos conhecer e completamente formado que apenas fermenta na barriga da progenitora. É uma outra abordagem à Teoria do Homúnculo em que o ventre materno mais não é que um suporte a algo que se desenvolve independentemente do exterior. Isto dizia que o ser humano era limitado apenas por factores genéticos e que nada de exterior poderia ter influência sobre o seu nascimento nem sobre o resultado final dessa incubação, pois toda a parte ideológica do ser já estava formada. Diz-se que esta teoria foi muito apoiada pela Igreja como forma de combater o Ateísmo. Ao dar a Deus o papel de criador matemático de tudo (as crianças com deficiência eram um aviso da fúria divina e confirmavam a regra), não se podia colocá-lo em causa, problematizá-lo. As crianças que nasceram na altura em que os paizinhos acreditavam nisto sofreram portanto um tratamento muito frio e desmaiado adulto pois todos partiam do princípio que a criança tinha as mesmas faculdades que o adulto, apenas não tinha tamanho. O contrário da Pré-Formação é a Epigénese que diz algo diferente. Diz que no interior do ventre materno se encontra um ser em desenvolvimento, tanto físico como genético e que nada nele é definitivo. O resultado final é fruto da genética, mas também das condições a que foi sujeito durante o seu desenvolvimento. Assim, a genética é apenas uma indicação de que o indivíduo poderá vir a gostar de comer x ou y, mas no fundo, só a experiência é que pode dizer que ele vai comer um em detrimento do outro.
Obviamente, entre a Epigénese e o Pré-formismo, ganha a Epigénese, uma vez que até por comparação com os animais, os seres humanos nascem em estados ainda pouco avançados. Os animais quando nascem começam a andar no próprio, o que não acontece com os humanos. Somos, desde o início, inacabados.
Dentro do Pré-formismo, que é o que me interessa mais porque a Epigénese é o que já sabemos e sobre o que já sabemos, embora não seja conhecimento estanque, alguém se encarregará de nos dizer mais temos duas teorias: a teoria do Ovismo e do Animalculismo. A teoria do Ovismo defende que o embrião está dentro do óvulo, dentro do gâmeta feminino, e a missão do espermatozóide é estimular o desenvolvimento do mesmo. Isto até nem é de todo mentira, pois numa última análise, todos nós existimos dentro do óvulo até nos formarmos com cromossomas XX ou XY. No início somos todos informes. Claro que não é o espermatozóide que nos dá o género com que nascemos, mas esta teoria faz justiça ao sexo feminino quando o sexo masculino se assume como predominante.
O Animalculismo ou Espermismo apoia quase o contrário: quem detém o embrião é o espermatozóide e quando este chega ao óvulo e o deposita, o óvulo mais não é que um receptáculo, um cacifo a 35º, mais coisa menos coisa. Os espermistas não sabiam se o sémen era suor leite, saliva, sangue ou até um bicho ou vários bichos. Daí o nome de Animaculismo, uma ideia que era muito atraente para os mais imaginativos. Para os espermistas, que defendiam que o esperma era um pan-líquido, que produzia maravilhas, os homens dentro do esperma teriam de lutar entre si para conquistar o seu direito ao óvulo. Sabia-se se a luta tinha sido renhida ou não quando o pequeno-homem vencedor dava origem a uma criança com deformidades ou alguma coisa fora do normal. O processo era inverso: olhava-se para a criança e o seu estado requeria explicação ou não. Esta não era a teoria apoiada pela Igreja, como vimos, mas o Preformismo tinha sido totalmente colocado de parte em 1775 graças às descobertas de Spallanzani e era necessário estar atento às novas teorias. Obviamente o espermismo foi recusado pela Igreja: como era possível desperdiçarem-se tantas vidas? E a masturbação? Que acto ignóbil! (Génesis 38, 4-10). Acabou de imediato o Espermismo!


Antes que a Epigénese acabasse com a festa, o Ovismo ainda fez correr muita tinta. Literalmente! É que eram inúmeras as ilustrações dos naturalistas acerca da possibilidade de um ser humano nascer de um ovo. Temos que ver que o ovo sempre teve muita importância em todas as culturas. Sem contar com as variações que cada crença depois lhe associa, elas têm em comum o facto de verem o ovo como o princípio da vida. Não nos interessa dizer o que egípcios, budistas, persas pensam sobre o ovo pois para isso temos o dicionário dos Símbolos. Mas para fazermos uma relação breve com o que mais próximo temos da nossa cultura ocidental, já desde o Estoicismo, o universo era comparável ao ovo: a casca era a lógica, a clara comparável à ética, e a gema, no centro, seria a física; ou seja, os princípios da relação dos Estóicos com a Natureza. Esta ideia é tão antiga que se impõe as perguntas:
- Se o Mundo é um ovo, e se este ovo é a morada dos humanos, quem foi a mulheró-poedeira que o pôs? Eva não foi, pois Eva é posterior ao Mundo.
- E se os vivíparos desenvolvem-se no interior da mãe, como conciliar o Ovismo com a Viviparidade?

William Harvey
Ex ovo omnia
1651


William Harvey
Ex ovo omnia (pormenor)
1651

E para esta última questão é importante ver que as duas coexistiam: acreditava-se que um ser vivíparo (uma mulher) podia dar luz um ser à sua imagem e semelhança (amén!) e que esse ser era gerado dentro de um ovo que estava dentro dos ovários da mãe. E não foi uma ideia tão mal encarada como parece à primeira vista: Leonardo da Vinci – bom, mas este não conta – produziu alguns esboços e uma pintura onde mostra a criança a nascer de um ovo. O que me parece um bocado tonto para um homem que inventou o primeiro escafandro e o primeiro guardanapo. Mesmo mais tarde, havia quem dissesse que a razão para as mulheres terem os ovários na zona baixa do abdómen se devia à sua posição próxima do local onde o útero recebia o “grande fogo”. Reinier de Graaf, um naturalista holandês escreveu que as mulheres conservavam nos maiores folículos dos ovários (chamados folículos de Graaf), o ovo, o que, segundo a ilustração me parece improvável. O embrião já está formado e é bem grandinho para depois descer o útero na altura do parto.

Leonardo da Vinci
Studies of embryos
1509-14
Royal Library, Windsor


Leonardo da Vinci
Leda
1508-15
Galleria degli Uffizi, Florença


Reinier de Graaf
1672


Reinier de Graaf
1672

O ovo é no fundo uma alegoria humana da Caixa de Pandora, bem como o útero que o expulsa: todo o bem pode estar ali contido, mas o mal também. E é também uma forma de celebrar a morte, embora aqui só nos interesse falar dele enquanto veículo para a vida. Ainda que de uma forma um bocadinho excêntrica. E o Ovismo estende-se de tal forma à arte que podemos vê-lo tanto no quadro de Piero della Francesca “Madonna and Child with Saints”, como no livro “Admirável Mundo Novo de Adous Huxley. No primeiro exemplo, Piero della Francesca pintou um ovo de avestruz mesmo em cima da cabeça da Virgem e se fizermos uma análise da perspectiva do quadro e do seu Ponto de Fuga auxiliado pelas construções arquitectónicas, vemos que tudo na pintura se centra na cabeça da Virgem. È por isso impossível ignorar o ovo, embora seja comum em muitos altares dedicados à Virgem. A razão da relação entre a Virgem e o ovo de avestruz pode ser desdobrada: por um lado a analogia entre o Nascimento de Cristo (vindo do interior da Virgem Maria) e o ovo que incuba à luz do Sol e por isso, eclode sem intervenção humana (quase, porque na prática o nascimento de Cristo é uma forma de Ovismo – Ele nasce do interior da Virgem mas vem já numa redoma mística). Ainda nesta linha de pensamento, foi dito que o ovo era uma pérola e que por isso representava a Imaculada Concepção uma vez que tal como Cristo, a pérola sai sem intervenção qualquer do interior da concha. Por outro lado, há a relação entre o ovo e o nascimento e o ovo e a morte, pois é símbolo da renovação cíclica (daí o ovo da Páscoa que é a vitória da vida sobre a morte). Logo, diz-se que o ovo de avestruz (sendo a avestruz um dos símbolos heráldicos da família Montefeltro que encomendou o painel e que se vê pintada nele) remete para a morte de Battista Sforza (que faz de Virgem Maria) e o nascimento de Guidbaldo Montefeltro (que faz de Menino Jesus), como se tal como uma avestruz, ela tivesse enterrado o ovo na areia, tivesse morrido e deixasse cá apenas a sua imagem e o ovo a chocar.

Piero della Francesca
Madonna and Child with Saints (Altar dos Montefeltro)
1472-74
Pinacoteca di Brera, Milão

No livro “Admirável Mundo Novo” Huxley referia-se com mordacidade ao Processo Bokanovsky descrevendo-o como a forma asséptica para criar vários seres humanos concebidos a partir de um só ovo. Estes ovos não têm mãe, não há partos neste “Mundo Novo”, mas fica aqui patente a ideia de um útero materno que é substituído por uma fábrica, conservando-se apenas a ideia de ovo. Por mais que nossa imaginação avance, por melhor que seja a tecnologia, ainda concebemos um futuro em que homens e mulheres não serão necessários na reprodução, mas em que o ovo, a incubadora continua a existir, como são exemplo disso os embriões criados em laboratório no filme Matrix ou Relatório Minoritário.
- o carteiro -


um destes dias disseram, de uma forma subtil, que era fútil. Tomei como uma afronta, não sei bem porquê. Depois pensei: "bem, antes a futilidade que a falsa modéstia". Como diria o Wilde: "The makeup tells us more than the face".

- Roisin Murphy canta (e canta) no desfile de Viktor and Rolf (pode uma pessoa pedir mais do que isto);

- Dita von "Teases" para a Wonderbra (uma linha ao seu dispôr)

- Alexander McQueen a trabalhar para o Serviço Nacional de Saúde. Em especial para os ortopedistas.

- Um questionário que nos reduz a três ou quatro perfis. Vaidades!

- o carteiro -

Parábola do Bom Eleitor
Um dia, uma cidade de Portugal inventou um desfile de Carnaval com grupos carnavalescos, piadas, grupos de passerelle e Escolas de Samba. Ao princípio e como a cidade era pequena, só existiam duas escolas de samba assim como pouco mais de 10 grupos carnavalescos e de passerelle. A sua função era simplesmente entreter as pessoas prometendo-lhes três dias de folia e a sensação de que no futuro a performance seria melhor. Entre os rigores climáticos do Natal e os rigores espirituais da Páscoa, o povo assistia com manifesta alegria à passagem das cores das escolas, da euforia dos grupos e da mascarada que aproximava quem divertia de quem era divertido. Todos eram amigos nesses três dias e mesmo quem não se conhecia passava a conhecer sem qualquer vergonha ou medo: médico e paciente bebiam do mesmo gargalo, patroa e empregada balançavam a perna ao som do chorinho. Mas com o tempo as Escolas de Samba, instigadas pelo que se passava além-mar, tornaram-se mais, e mais sofisticadas. A Comissão do Carnaval inventou o concurso para Escolas de Samba onde eram avaliadas as passistas, o mestre-sala, a porta-bandeira, o enredo, a música, os fatos e a coreografia. Os atrasos entre as alas que compunham a Escola e as falhas técnicas eram penalizadas por espectadores dissimulados entre a multidão, que numa folha avaliavam estes parâmetros. No fim, o júri contava os votos e declarava-se, na varanda do Município o vencedor e no dia seguinte empregada e patroa voltavam as costas e médico e paciente não se cumprimentavam. Havia "choro e ranger de dentes" chegando muita gente a "vias de facto". A votação beneficiava sempre as duas grandes: a Costa Dourada que se apresentava de vermelho e branco ( a primeira vez que uma escola de samba se apresentou apenas de branco as passistas pareciam umas cegonhas com a pena a mudar. A partir sempre que uma Escola de Samba se apresentava de branco, perdia) e a Bandinha que desfilava de rosa, branco e lilás.

Apesar de hoje as Escolas de Samba serem mais, o poder de reinar como vencedora durante um ano (e usufruir de um subsídio para as representações externas do nosso Carnaval), continua a claudicar, ao ritmo anual de uma cor por ano entre os vermelhos e os rosas. Para o povo que vota resta a folia com tempo limite e o vomitado da praxe à porta de cada casa, como que anunciar a passagem do compasso e o início de épocas em que todas as promessas serão esquecidas.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

- original soundtrack -

A propósito das músicas com história, homenageamos uma que fez história. Sem letras, sem imagens. Peço toda a vossa atenção para o vídeo que mereceu um comentário de Nick Cave: "Rios de Sémen". (Ai Kylie se eu fosse mais nova, não me escapavas). E sim, I love Pop. So what?
(Spinning Around, Kylie Minogue)
- não vai mais vinho para essa mesa -

That's all folks? Belogue2? Shit, shit, shit, shit, shit, shit
- ars longa vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou como os filmes do Hitchcock, vistos cinco vezes, ainda têm mais coisas para contar, ou como já não é a primeira vez que falo dos filmes dele (principalmente "A mulher que viveu duas vezes" e a "Chamada para a Morte") ou como isto não é tudo porque a obra continua actual e porque podemos analisá-la ao nível dos sapatos, da semelhança entre planos inovadores daquele tempo e os planos da Comunicação Social, ao nível das jóias, da influência sobre os pintores e dos pintores (principalmente Dali em "Spellbpound" - com quem Hitchcock se incompatibilizou - e Magritte) e muito mais. Já não é a primeira vez que a Mattel faz uma Barbie para coleccionador com uma temática como a Barbie Mary Poppins ou a Barbie Grease. A razão para ter postado este "antes e depois" e não outro (tenho um caderninho de anteses e depoiseses) prende-se com uma leitura que estava a fazer um dia destes. O livro falava de uma tríade na cinematografia de Alfred Hitchcock que contemplava por esta ordem os filmes "Intriga Internacional", "Psico" e "Os Pássaros". Neste último, o primeiro ataque de um pássaro dá-se quando Melanie, depois de ter vindo da pequena doca frente à casa do seu amante (depois de ter deixado lá dentro dois pássaros engaiolados para a filha deste), regressa a Bodega Bay no mesmo barco a motor. Ela contempla-o de cada vez mais perto e não se apercebe, assim como cada um de nós, devido ao plano em que a cena foi filmada (ver aqui aos 06m e 04s), da aproximação de um pássaro, do lado esquerdo do ecrã, que desce até à sua cabeça e a bica. Ora este plano lembra de imediato um outro, bem mais trágico e que corrobora a expressão "a vida imita a arte": o das primeira imagens do segundo avião a atingir o World Trade Centre a 11 de Setembro de 2001, imagens essas captadas quase do chão, como um quadro barroco cuja perspectiva se expressa "di sotto in su", "de baixo para cima". Vemos como a entrada no plano do avião vindo da esquerda, surpreende a pessoa que está cá em baixo e é tão rápido que quase só em câmara lenta (ver aqui) percebemos do que se trata.

Pois o livro referia que o embate dos aviões com as torres sujava completamente a paisagem de Nova Iorque e que a relação com estes três filmes de Hitchcock se explicava a nível iconográfico. Primeiro, em "Intriga Internacional" o avião (como um pássaro gigantesco) ataca Cary Grant numa estrada junto a um campo de milho em Midwest (05m e 43s). Depois, em Psycho vemos como o quarto de Norman Bates está cheio de pássaros embalsamados (02m e 56s), que representam o meio-termo entre o avião (o pássaro grande ou muitos pássaros) para o que se passa em "The Birds", o ataque de um pássaro ou de vários pássaros vivos.

Alfred Hitchcock
The Birds
1963


Mattel
Barbie, The Birds
2008
- o carteiro -

Tudo o que você nunca quis saber acerca da utilização do facebook:
Sombra real – a sombra do ponto, quando nele incide um raio luminoso qualquer, projectada de imediato no Plano Frontal de Projecção (PFP) ou no Plano Horizontal de Projecção (PHP), consoante a posição do ponto no espaço.
Sombra virtual – a sombra acessória de um ponto, cujo único propósito é servir de denominador comum entre duas sombras reais projectadas em planos de projecção diferentes. Uma sombra real projectada no PHP e uma sombra real projectada no PFP não podem ser unidas. Usa-se a sombra virtual para encontrar o ponto de charneira, a “plataforma de entendimento” entre duas sombras.

Estes dois conceitos do desenho e da Geometria Descritiva, embora difíceis de compreender sem recurso à folha, ao aristo e ao lápis são o paradigma daquilo que hoje constitui a forma como a maior parte das pessoas vive as aplicações ciberculturais.
Antes de avançar neste post devo dizer que:
- o Belogue, a Beluga e eu não temos nada a objectar em relação a quem tem Facebook ou em relação ao Facebook em si, mas à forma como a maior parte dos utilizadores faz uso da aplicação.

- Sou a pessoa mais suspeita para falar deste assunto pois vivo no medo constante de não ser fisicamente aquilo que esperam de mim.

A razão pela qual não concordo com o Facebook e porque o mesmo padece de vários “males”: é narcísico, viciante e ilusório. É narcísico porque necessita da aprovação do outro, do comentário alheio. Como os diálogos se fazem a dois, é sempre obrigatória a presença de outro. Quando esse outro não aparece experiencia-se a sensação de desilusão, de abandono, de ausência de um feed-back. Parte-se, com o objectivo de provocar esse feed-back, para as observações de cariz intimista e pessoal que criam quase sempre a piedade alheia. E embora não se procure a piedade, à falta de melhor, toma-se esta esmola como algo positivo (voluntário e sincero) criando-se assim um ciclo vicioso. Funciona esta auto-estima in vitro ao mesmo nível das endorfinas, só que tomada em doses para mamute.

A quem argumenta que o mesmo se passa, ou pode passar nos blogs (falo da minha experiência apenas. Nunca tive Hi5, Orkut ou conta de Messenger), a verdade é que isto se passa numa aplicação que supostamente serve para “fazer amigos” ou recuperar “amizades perdidas” pelo tempo. Que tipo de intimidade podemos estabelecer com amigos com quem não temos contacto desde a saída de circulação do escudo e, ainda mais, com amigos acabadinhos de fazer, daqueles que ainda estão quentinhos? E para os amigos que estão apenas distantes fisicamente? Onde está o postal, a carta, o telemóvel e, por muito que me custe chegar a este degrau na enumeração, a impessoalidade do mail? Há uma facilidade falaciosa em falar com aquele que não conhecemos, ou com o que acabamos de conhecer, em detrimento daquele que nos está no sangue ou na memória. É ou não verdade que preferimos a legitimação do desconhecido do que a do conhecido? A reprovação do desconhecido em detrimento da legitimação do conhecido? A coibição de qualquer um deles ao marcar do número de telemóvel de um amigo que mora a poucos quilómetros de nós?

O Facebook facilita um certo facticismo gestual que cria a ilusão de vida real ao fazer com que os intervenientes, com a esperança do elogio do outro, o elogiem de volta. Assim observa-se um diálogo óbvio que consiste na troca de encómios, como requer a falsa conversação. No dia-a-dia, quando um desconhecido que espera connosco pelo comboio nos vê tiritar de frio diz: “hoje está mais frio, não é?”, é óbvio que iremos responder qualquer coisa como “é, arrefeceu muito.” Há um código instituído desde tempos imemoriais que faz com que este diálogo vago e feito de factos do conhecimento geral subsista no tempo. Não cria amizades, mas permite fazer a manutenção das normas vigentes que sendo um aborrecimento ou não, dão-nos a possibilidade de viver em sociedade de uma forma saudável. Já no Facebook nota-se por parte de muitos utilizadores que na troca de palavras com os amigos antigos e reencontrados, ou com os amigos novos e desconhecidos, faz-se o percurso inverso. Há um grau de conhecimento mútuo (ou presume-se que esse grau exista e todo o diálogo é orientado nesse sentido) e por consequência a troca de confidências e elogios factuais, que podem ser dirigidos em específico àquela pessoa ou não, e levam à ilusão de cumplicidade. Assim é possível ter no Facebook 400 amigos absolutamente desconhecidos, só pelo prazer do acumular, pela necessidade de reconhecimento geral e por salvaguarda de possíveis candidatos a carpideiras caso se mostre necessário, e na gare do comboio nenhuma resposta à mini provocação “está mais frio”.

Aceito todas as críticas, caso exista alguma, e respondo pelas minhas palavras. Reconheço que a reserva em me mostrar, em me encontrar na vida real com alguns dos que aparecem aqui, se deve à minha insegurança e que por isso o meu exemplo pode não ser entendido como concordante com o acima escrito. Mas a razão para não ter 400 amigos e apenas 5 é porque só tenho capacidade para retribuir com o máximo de honestidade a estes cinco. Desculpem o tom duro.

P.S. (salvo seja!) – Não considero o Twitter pois é um GPS para sub-16 com espelho incorporado.
- o carteiro -



- ars longa, vita brevis -
hipócrates

(isto hoje não está grande coisa. O que até já se está a tornar um hábito. Shame on me!)
Música
- Dionne Bromfield tem apenas 13 anos, mas canta assim e no próximo dia 12 de Outubro vai lançar o seu disco de estreia. Embora eu de vez em quando note um tom Sequim D'Ouro na voz dela, já se fala da sucessora de Amy Winehouse, e com a marca Lioness da cantora problemática que Dionne virá para o mundo dos crescidos.
- Kitty, Daisy and Lewis eh pá... porque sim.
- Já há muito tempo que não se (ou)(via) no Metropolitan de Nova Iorque uma ópera tão vaiada. Há que dizê-lo com frontalidade: pelo menos houve música do princípio ao fim! A Tosca de Puccini foi um tour de force, uma vez que mesmo vaiados, os artistas insistiram em vir ao palco agradecer os assobios enquanto o director tentava a todo o custo que a cortina descesse. As vaias deveram-se à forma como o director, Luc Bondy, tentou descolar-se da inesquecível encenação de Franco Zeffirelli. É que o homem inovou tanto nos cenários que não colocou a bota a dizer com a perdigota: no libreto Tosca ataca Scarpia com um punhal e ali não havia punhal e pior! Quando Tosca vê que ele está morto, diz o libreto que acende uma vela e lhe deixa um crucifixo no peito, mas no cenário não há crucifixos nem candelabros nem velas.
Publicidade
- em 2009 (como se apela ao sentimento e aos fundos de investimento)
- ... e em 1993 (como se pensava o futuro na At&T)
- e num tempo em que espero, nunca nenhum de nós viva (fotografias de Steven Klein para um editorial de moda da Vogue Hommes Internacional)
Moda
- From head
- to pocket
- to toe (os sapatos de vidro de Martin Margiela)
Livros
- A agonia do Cristianismo, Miguel de Unamuno
- Bartleby, o escrivão, Herman Melville
- Crime nos Estábulos, Agatha Christie

Terça-feira, Setembro 22, 2009

- o carteiro -

amanhã há posts.

Sábado, Setembro 19, 2009

- back to black -

"Facebook killed Web logs" - Beluga & Mim

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

- original soundtrack -


I turn sideways to the sun
keep my thoughts from everyone
It's a jungle, I'm a freak
Hear me talk, but never speak


So I'm stepping out of time
because breaking is a crime
And it may all be too late
but I've no passion for this hate


That's the price of love (that's the price of love)
Can you feel it (can you feel it)
If we could buy it now (that's the price of love)
how long would it last (that's the price of love)


And when this building is on fire
these flames can't burn any higher
I turn sideways to the sun
and in a moment I am gone


That's the price of love (that's the price of love)
Can you feel it (can you feel it)
If we could buy it now (that's the price of love)
how long would it last (that's the price of love)
...

(World, New Order)
- não vai mais vinho para essa mesa -




Guta (1m:07s), Experimenta sérum para pontas secas.



- o carteiro -
quando um não quer, dois não pecam - procriação II
Apesar de os homens (e as mulheres) muito terem equacionado sobre a procriação, o seu raciocínio nem sempre foi nem é ainda racional. Algumas teorias sobre a concepção do embrião têm tanto de fantasista quanto de perturbador e só podem ser o resultado de épocas opressivas ou de sociedades que usam a ciência e a religião para esconder as suas faltas. Estas invenções e mitos encontram-se em qualquer religião e em qualquer tempo. Note-se que ainda hoje nas revistas da especialidade, os supostos sexólogos e ginecologistas, médicos dóótóres respondem a perguntas como "sentei-me na moto do meu namorado. Estarei grávida?" (depende... ele também estava lá sentado?). Desde a Antiguidade que como já dissemos, foi muito justa para o cidadão (homem com mais de vinte anos nascido na Grécia, tudo o resto eram metecos, mulheres ou escravos e por isso, não cidadãos), mas madrasta para a mulher, proliferaram lendas que estavam associadas à mitologia, mas também serviam o interesse grego em não justificar o papel social da mulher. Vejamos... não estou aqui a fazer um manifesto feminista porque isso é uma grande chatice e eu não tenho paciência. Mas a verdade é que histórias inicialmente narradas pelos grandes escritores como Virgílio, Homero, Hesíodo ou Platão, passaram a ser Verbo. No que diz respeito à procriação dos seres humanos, dos mortais (isto porque a dos deuses vem mais daqui a nada), as mulheres são "autorizadas" a procriar com inspiração divina. Digo "autorizadas" porque obviamente se desconhecia todo o mistério que estava à volta da concepção do embrião. Mesmo o próprio útero era um mistério, uma coisa que sangrava, provavelmente dissuasora nas autópsias, no estudo do corpo morto. É certo que os gregos sempre preferiram esculpir homens e só mais tarde, com Fídias as mulheres passaram a ser tema e corpo de escultura. Por isso esta noção de concepção divina ou sem intervenção do homem justificou para os gregos os fenómenos injustificáveis. Virgílio fez passar a ideia, segundo uma descrição no texto Geórgicas que as mulheres (aqui sob a forma de éguas) engravidavam porque inspiravam o vento Zéfiro. Ficavam grávidas do ar! Outros filósofos diziam que as galinhas eram fecundadas apenas pelo cantar do galo e as perdizes, pelo cheiro do macho.

Andreas Cellarius
Influência da Lua na procriação
Na mitologia hindu a gestação de Buda durou dez meses e foi concebido em sonhos através da entrada no corpo da mãe (rainha Maya), de um pequeno elefante com seis dentes. Quando, após os dez meses, a rainha tentou colher uma flor de uma árvore, Buda nasceu da sua anca. O mesmo aconteceu na mitologia grega. Veja-se o exemplo de Dionísio, filho de Sémele, uma mortal que morreu enquanto Zeus se exibia perante ela. Ficou durante três meses na coxa de Zeus depois deste o ter retirado da mãe já morta. A própria mitologia grega tem os nascimentos mais estranhos da História (uma prerrogativa da mitologia). Atena, nasceu de elmo posto e já formada da cabeça de Zeus. Este tinha literalmente, comido a mãe dela, Métis. Afrodite nasceu do mar, pelo menos é assim que é pintada. Era filha de Urano; ou seja, era filha dos órgãos genitais de Urano que foram atirados ao mar após cortados por Cronos. Herácles nasceu graças a uma distracção de Hera (a legítima de Zeus) que para se vingar do seu marido andar metido com Alcmena, cruzou as mãos e os pés para ela não dar à luz. Só que distraiu-se e Alcmena lá deu à luz ao fim de sete dias de agonia. Na mitologia egípcia a promiscuidade era maior e nota-se no caso do nascimento de Osíris e Ísis, dois deuses primordiais. Osíris e Ísis eram gémeos que no útero da mãe estavam tão unidos que quando nasceram, já Ísis estava grávida de Hórus. O pai era, como não podia deixar de ser o irmão e marido Osíris. Esta história fez com o médico cirurgião Cosme Viardel reconsiderasse a sua tese sobre os gémeos e a bolsa amniótica de cada um, pois segundo aquilo que se dizia na época era que os gémeos falsos tinham bolsas amnióticas separadas para manter as decências


Cosme Viardel



E assim como a religião criou, à sua medida, as regras para o "bom sexo" que estava relacionado com o casamento e com a procriação, a sabedoria popular também criou as suas normas que apesar de estranhas, estão muitas vezes correctas e vão onde nenhuma ciência vai. Claro que os fenómenos da sabedoria popular podem ser explicados cientificamente, mas o facto de existirem criam por si estranheza. Lembro-me de ouvir coisas que mais tarde vi serem verdade como: um bolo ou um pão feitos por uma mulher com o período menstrual nunca levedam, a premira vez que uma árvore dá fruto, o mesmo não pode ser colhido por uma mulher ou a árvore não dará mais fruto. Como as mulheres não podem, devido aos filhos, abandonar as terras e partir em busca de uma nova vida, têm que, em muitas sociedades, dedicar-se à terra. São por isso elas as guardiãs dos segredos telúricos e com a sabedoria feminina, os homens não brincam. A Terra (feminino) é fecundada pelo Sol (masculino) e está em constante produção; está permanentemente e procriar. Por isso, e por as mulheres estarem relacionadas com a sabedoria tectónica, em determinadas civilizações como as que professam crenças indianas os jovens esposos que desejem filhos devem passar a primeira noite numa caverna, numa gruta de nome “fona”; ou seja, vagina. Daí, do interior da Terra vai brotar uma criança. Dizem que os menires tinham esse significado: pedras que fecundam para sempre a Terra. para além disso tinham um poder afrodisíaco e médico, uma vez que curavam os homens que neles se sentassem de infertilidade e seriam benéficas para as mulheres que ali roçassem o sexo e pretendessem engravidar. Outras manifestações naturais como os rios, quedas de água e as respectivas nascentes possuem um significado e analogia óbvias. São os locais de onde as forças da Natureza emergem do interior da terra. Há populações que recomendam, aos casais desejosos de filhos, que tenham relações na água: se serve para os cardumes e para os patos, serve para os humanos. As mulheres que desejem ser fecundadas devem abrir as pernas frente ao mar ou a uma corrente de água, para que esta possa penetrar no seu sexo. Da mesma forma se diz que a água, que a rebentação das ondas do mar no ventre de uma mulher grávida provoca aborto. Para além desta água que brota do interior da Terra, existe uma outra forma de presença da água, à qual é atribuída um poder fecundante que na minha opinião faz mais sentido: a água das chuvas, especialmente amada nas regiões que sofrem com a seca. A devoção e interesse que certas populações mostram pela água das chuvas é fácil de compreender: não vem da própria Terra, mas do Céu, logo é uma forma de fecundação e é tão rara e preciosa, única no ano (na Primavera) que só pode ter um poder de fecundar os seres que por ela são atingidos. Voltando à mitologia, não esqueçamos que Danae foi fecundada por Zeus que se transformou numa chuva de ouro para chegar até ela. Desta união nasceu Perseu.

Charles Joseph Natoire
Boreas and Orinthyia
1741
Indianapolis Museum of Art


Ticiano
Danaë
1553
Hermitage, São Petersburgo

Com efeito, com o passar dos tempos e até pelo menos ao século XVII, acreditava-se que era possível as mulheres engravidarem pelo ar ou pela água. Na Idade Média, esta justificação era muito útil para as senhoras de bem cujos maridos partiam para a guerra. Quando se viam "solteiras" e com mais uma criança a caminho, só uma boa mentira corroborada pela Igreja podia salvá-las das más-línguas. Desta forma virgens tinham filhos, viúvas tinham filhos, mulheres sem marido tinham filhos... tudo isto sem o toque sequer de um homem. O homem exilado ficava convencido e tudo acabava bem na harmonia do lar. Por outro lado, afastava as mulheres de lugares como os banhos públicos ou as termas. Fazia com que elas andassem mais cobertas, pois tal como se pensou em relação aos males do corpo, a culpa era do banho. Muitas mulheres eram aconselhadas a não ter as janelas abertas à noite, se não queriam engravidar; poderiam engravidar apenas pelo inspirar. (Não deixa de ser curioso que um dia destes numa conversa com um médico ele dizia que respirar era fatal, era o que levava à morte.) A lenda de que o sémen - ou qualquer coisa muito semelhante - poderia andar pelo ar ou pela água - vinha de uma crença inspirada em Anaxágoras e chamava-se Panspermia. É-me difícil explicar o que era, mas esta crença dizia mais ou menos isto: pan (total)+sperma (semente) queria dizer que a vida estava em todo o Universo, que era fruto de um caldo arcaico, onde se tinham formado, com a ajuda de forças da Natureza (relâmpagos, furacões, chuvas) moléculas, aminoácidos, proteínas, genes por fim os seres microscópicos com um grau de complexidade e aperfeiçoamento cada vez maior. Era a geração espontânea aqui ilustrado por uma parte de um quadro de Bosch onde do lago as espécies nascem por geração espontânea. Assim, tal como o pólen retirado às flores andava pelo ar, quem sabe se os espermatozóides voariam.
Hieronymus Bosch
Triptych of Garden of Earthly Delights
1500
Museo del Prado, Madrid

Na minha opinião, e tenho a certeza que na opinião de muita gente, tenho a certeza que estas aberrações, ou pior do que isso, a ausência de um interesse científico sobre a forma como a mulher pode engravidar e sobre o seu aparelho reprodutor em comparação com as teses sobre o aparelho reprodutor masculino, são sexistas e criadas como encapotamento de uma incapacidade para penetrar no mundo feminino. Este "penetrar" também quer dizer isso mesmo que estão a pensar! São sexistas porque os homens que não compreendiam bem o seu papel na reprodução (porque é que elas é que são incubadoras e eles não é uma pergunta capaz de incomodar muitos homens, perante a gravidez dos cavalos marinhos, mas é igualmente uma pergunta capaz de ajudar muitos clérigos. Afinal, Cristo disse que amaldiçoaria Eva com as dores do parto). São por outro lado infantis porque, sabendo nós que as mulheres vinham com "mais peças", os homens nunca tentaram perceber a razão para cada uma delas e atribuíram isso a algo diabólico. A mulher é a incubadora, o incubo, o demónio que dará uma vida. Não é por acaso que a mulher está associada à serpente. Vejamos este excerto do Timeu de Platão:
"Também nas mulheres e pelas mesmas razões, a chamada matriz ou o útero é um animal que vive nelas com o desejo de fazer filhos. Quando fica muito tempo estéril após o período da puberdade, tem dificuldades em suportá-lo, indigna-se, erra por todo o corpo, (...) até que, quando o desejo e o amor unem os dois sexos, eles podem colher um fruto, como numa árvore, e semear na matriz, como num sulco, animais invisíveis pela sua pequenez (...)"

O mistério da negação das mulheres face ao sexo, comparativamente às ereções masculinas (porque o útero tem erecções internas, ah pois é!) involuntárias e "indesejadas" durante o sono (causadas por Lilith segundo alguns crentes), é algo de intrigante. O homem e a mulher só poderiam pecar se os dois quisessem, mas para os homens naquela altura, o enigma que constituía o fascínio por esta porta do corpo feminino, porta esta cuja abertura estava dependente delas, apenas da vontade delas, era assustador. Entre o ar e a água e o homem, o homem via-se ameaçado pelos elementos naturais.

Entre estes elementos naturais encontramos a terra. Não estamos a falar na Terra como princípio feminino criador, mas como fonte de nascimento de crianças numa extensão daquilo que já acontece com as espécies vegetais. Vários deuses nasceram sob as árvores e na Alemanha acreditava-se que existiam criaturas semelhantes a duendes a viver dentro das árvores com nomes estranhos como "esposas-de-musgo". Existe um vocabulário que criou a tradição e corrobora o que aqui vamos falar: a vagina é associada à maçã cortada ao meio, ao morango e a alguns vegetais, o pénis é associado à cenoura, ao pepino e os testículos, a todos os frutos que sejam pequenos e redondos e por fim a fecundação é, nos termos mais infantis, a colocação de uma semente masculina na "barriguinha da mãe". Mesmo nas Escrituras, a mulher é vista como um campo fértil, a ser semeado pelo homem e segundo a sabedoria popular, o primeiro dia da Primavera é o dia do casamento dos pardais. Quando se fazem as colheitas, homens e mulheres participam em festas que não sendo propriamente orgíacas, são sempre vistas com muito entusiasmo estando os trabalhos divididos entre mulheres e homens: elas debulham o milho, eles malham-no. Diz-se que a romã dá ao homem a força viril, que o fruto da piteira, segundo a religião asteca foi utilizado para nutrir o primeiro homem e a primeira mulher, na Europa planta-se uma macieira sempre que nasce uma criança, o fruto da Oliveira era usado nos antigos rituais de fertilidade, no Japão o pessegueiro é símbolo da fertilidade, and so on, and so on...
A ideia que as crianças nascem das couves está relacionada com esta associação entre os frutos e os vegetais e a fertilidade, mas também com a falta de argumentos para explicar às pessoas - às crianças em especial - de onde é que elas nascem. Dizia-se que vêm de França transportadas pela cegonha. Aliás, os franceses utilizam muito os nomes dos vegetais como "mon chou" (minha couve) para se referirem a algo querido ou pequeno ou que amam. Por outro lado, embora essa seja uma realidade que nos é distante, para o paganismo a couve era utilizada para designar o órgão sexual feminino. Associam as duas coisas por causa do cheiro (eu nem sei o que dizer) e por causa do desenho da couve quando cortada.




Não era só a flora que tinha influência nos nascimentos; a fauna também tinha. Quer isto dizer que assim como era possível uma mulher engravidar de igual forma de um homem como de um elemento natural (um respiro, um gole de água, uma pedra, uma flor), também podia ficar grávida de um animal. A mitologia grega já nos diz isso, mas convém lembrar alguns exemplos. Não é que ninguém vá ler e ficar mais esclarecido, mas eu fico melhor com a minha consciência. A rã, por exemplo é um símbolo fetal no Egipto e tem para o Ocidente um significado evolutivo que muitas vezes não notamos. Quem não conhece a história dos irmãos Grimm em que o sapo (está certo que um sapo não é uma rã) é beijado pela princesa. O sapo é o estado intermédio entre o girino/espermatozóide e o humano (o sapo transforma-se em príncipe). A serpente, o ourobouros que já referi aqui é a serpente que morde a própria cauda. Como forma um círculo fechado, é estéril, mas como se fecunda a si própria pode ser vista como símbolo da fertilidade.

Paolo Porpora
Still-Life with a Snake, Frogs, Tortoise and a Lizard
National Museum of Wales, Cardiff

Antonio Carracci
The Rape of Europa
Pinacoteca, Bolonha

Bartolomeo Ammanati
Leda with the Swan
Museo Nazionale del Bargello, Florença
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois literário. Depois da lenda do Rei Salomão e da sua sabedoria que fez com que uma criança fosse poupada. Brecht repete a fórmula em "Círculo de Giz Caucasiano", cujo excerto apresento em inglês devido à impossibilidade de encontrá-lo em português. Esta peça para teatro de Brecht conta a história de uma mulher, servente, que fica a tomar conta de uma criança herdeira depois da mãe a ter abandonado. O papel de Salomão cabe aqui ao juíz Azdak. Mesmo que não leiam, sempre fica o post:

"Então vieram duas mulheres prostitutas ao rei, e se puseram perante ele. E disse-lhe uma das mulheres: Ah! senhor meu, eu e esta mulher moramos numa casa; e tive um filho, estando com ela naquela casa. E sucedeu que, ao terceiro dia, depois do meu parto, teve um filho também esta mulher; estávamos juntas; nenhum estranho estava conosco na casa; somente nós duas naquela casa. E de noite morreu o filho desta mulher, porquanto se deitara sobre ele. E levantou-se à meia noite, e tirou o meu filho do meu lado, enquanto dormia a tua serva, e o deitou no seu seio; e a seu filho morto deitou no meu seio. E, levantando-me eu pela manhã, para dar de mamar a meu filho, eis que estava morto; mas, atentando pela manhã para ele, eis que não era meu filho, que eu havia tido. Então disse à outra mulher: Não, mas o vivo é meu filho, e teu filho o morto. Porém esta disse: Não, por certo, o morto é teu filho, e meu filho o vivo. Assim falaram perante o rei. Então disse o rei: Esta diz: Este que vive é meu filho, e teu filho o morto; e esta outra diz: Não, por certo, o morto é teu filho e meu filho o vivo. Disse mais o rei: Trazei-me uma espada. E trouxeram uma espada diante do rei. E disse o rei: Dividi em duas partes o menino vivo; e dai metade a uma, e metade a outra. Mas a mulher, cujo filho era o vivo, falou ao rei (porque as suas entranhas se lhe enterneceram por seu filho), e disse: Ah! senhor meu, dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem teu nem meu seja; dividi-o. Então respondeu o rei, e disse: Dai a esta o menino vivo, e de maneira nenhuma o mateis, porque esta é sua mãe."

(1 Reis 3, 16-27)


Azdak: Plaintiff and defendant! The court has listened to your case, and as come to no decision as to who the real mother of the child is. I as Judge have the duty of choosing a mother for the child. I'll make a test. Shauva, get a piece of chalk and draw a circle on the floor. Now place the child in the centre (criança sorri para a mãe adoptiva). Paintiff and defendant, stand near the circle, both of you. Now each of you take the child by a hand. The true mother is she who has the strenght to pull the child out of the circle towards herself.
Advogado: High Court of Justice, I protest! I object the fate of the great Abashvili states, which are bound up with the child as the heir, should be made dependent on such a doubtfull wrestling match. Moreover, my client does not command the same physical strenght as this person, who is accustomed to physical work.
Azdak: She looks pretty well fed to me. Pull!
[a falsa mãe puxa, a mãe adoptiva larga a mão da criança]
Advogado: Congratulations! What did I say! The bonds of blood!
Azdak (para a mãe adoptiva): What's the matter with you? You didn't pull!
Grusha: I didn't hold on to him. Your Worship, I take back everything I said against you. I ask for forgiveness. If I could just keep him until he can speak properly. He knows only a few words.
Azdak: Don't influence the Court. I bet you know only twenty yourself. All right, I'll do the test once more, to make certain. Pull!
[a falsa mãe puxa e a mãe adoptiva volta a largar a criança]
Grusha: I've brought him up! Am I to tear him to pieces? I can't do it!
Azdak: And in this manner the Court has established the true mother. (Para Gruska) Take your child and be off with it.


Brecht
1944-1945
página 94
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
[1]
A Single Man the Tom Ford (sim, o ex da Gucci), conta a história de um professor que após a morte do seu amante tenta levar uma vida normal contando para isso com a ajuda de uma amiga. Com Colin Firth e Julianne Moore (que já antes tinha feito de esposa de um homossexual em "Longe do Paraíso" e em 2010 fará dupla lésbica com Annette Bening). O filme já ganhou o Queer Lion para melhor filme gay. Let´s look at a trailer...

[2]
O semanário NME chega às bancas com treze capas diferentes, todas elas com fotografias dos Beatles. São 13zinhas, para coleccionador ver e para comemorar a chegada de mais um disco de homenagem à banda. Apressem-se porque só há 100o cópias.
Houston, tenho a informação de que já não há nenhuma...
A indústria da música põe a render a sua eterna galinha dos ovos de ouro. "Mailo" Elvis e o Jackson.

[3]
Não era bem isto que eu queria postar, mas cá vai o "poder do marketing"

[4]
Depois da "asfixia democrática" (MFL dixit) e da "eutanásia social" (Portas dixit), aconselho o BE a apropriar-se dos possíveis temas fracturantes que podem dar mais do que soundbytes na campanha. Podem dar, quando agrupados, maus bitaites:
- a pedofilia partidária comunicada pela CNE a propósito do caso do MMS
- aborto cultural ou procriação cultural presidencialmente assistida
- homicídio agrícola em primeiro grau
- agilização do divórcio entre o trabalho e o emprego
- violação educativa ("ya, estivestes a ver?)

- não vai mais vinho para essa mesa -

Uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente

Ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez

Ora o facto levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez

Ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz.

(Joaquim Castro Caldas, Parábola da pequenez)

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

- post para tapar post -

Quero agradecer a todos:
Ana, ainda bem que vens e que gostas. Quando não gostares, telefona que eu coloco um "CENSURADO" a vermelho, só para ti. Como estás? Não fica muito bem mandar beijos por post, mas, beijos.
Jimi, desde há um bocadinho via gmail! Don't make me blush! Só coloquei os lábios porque não gosto de ver fotografias com cabeças cortadas pelo pescoço. Quanto às outras, às da exposição, tu devias ser punido com uma anemia por publicares isso. Não é que eu seja gira ao vivo e a cores, mas em fotografias fico com cara de prostituta drogada. Diz aos teus amigos que é photoshop. Do mau!
AM, é um pássaro? É um avião? Não, afinal é o Belogue. O fotógrafo devia estar com pressa para tirar as fotografias de toda a classe e nem me deixou construir de raiz. As sombras estão sempre, mas quando há luz, caramba... É preciso uns óculos de Sol!
Cara Alma (isto é uma antítese porque quem "vê caras não vê corações"), obrigada!
João Barbosa, imprima essas que eu vou imprimir umas a dizer "skinny bitch", para quando me for pesar. Não percebi as bolinhas, mas tenho a certeza que me vai explicar!
Rita, como ouvi um dia destes, tens de dizer "Eu curto o Belogue da Beluga porque manda bué de cenários". Não perguntei o que queria dizer, mas acho que as miúdas que disseram "manda bué de cenários" também não fazem ideia. Beijos
O que seria mesmo irónico era se este post tivesse mais comentários que o anterior.

Domingo, Setembro 13, 2009

- 4 anos de Belogue -

Há quatro anos a construir o Belogue (humm... ou seria um pinhal com rodas?). Obrigada aos que vêm, aos que vêem e a mim. Faltam-me as palavras para dizer tudo aquilo que fizeram por nós.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

- original soundtrack -

Compare the best of their days
With the worst of your days
You won't win
With your standards so high
And your spirits so low
At least remember ...
This is you on a bad day, you on a pale day

Just do your best and don't ...
Don't worry, oh
The way you hang yourself is oh, so unfair

See the best of how they look
Against the worst of how you are
And again, you won't win
With your standards so high
And your spirits so low
At least remember ...
This is you on a drab day, you in a drab dress


Just do your best and don't ...
Don't worry, oh
The way you hang yourself is oh, so unfair
Just do your best and don't ...
Don't worry, oh
The way you watch yourself is oh, so unfair


Just do your best and don't ...
Don't worry, oh
The way you hang yourself is oh, so unfair
Just do your best and don't ...
Don't worry, oh
Do your best and don't ...



(Do your best and dont worry, Morrissey)
- não vai mais vinho para essa mesa -


pior do que estar bêbada, é estar trêbada.
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
antes e depois ou “como eu tenho a sensação de que quando falo deste quadro digo sempre a mesma coisa” ou “como Fontainebleau está localizado a cerca de 60km a Sul de Paris, perto do vale do Sena. Era um destino popular dos reis de França: Luís VI construiu em Fontainebleau uma casa de caça e Francisco I da casa de Valois-Angoulème, reconstruiu o antigo palácio aí existente em 1528. Esta tornou-se a residência favorita do monarca que levou até ao palácio de Fontainebleau inúmeros artistas italianos que criaram a decoração e pinturas interiores pelas quais o palácio ficou conhecido. Este rei, não só convidou artistas italianos para trabalharem na sua corte, como fez alguma pressão para que os artistas franceses e flamengos que ali se encontravam produzissem trabalhos ao estilo dos grande4s mestres italianos. Foi daí que veio um estilo próprio chamado Escola de Fontainebleau de onde este quadro é proveniente.

A Segunda Escola de Fontainebleau , entre 1530 e 1590 é claramente influenciada pelo estilo Maneirista, com as suas cores vibrantes, corpos sensuais e as formas alongadas. Uma das pinturas que representa bem este estilo é esta, a de Gabrielle d'Estrées e a sua irmã Julienne duquesa de Villars. As duas mulheres aparecem num "meio-nu"; ou seja, apenas despidas da cintura para cima, o que já nem era considerado escandaloso para a época. Nisso, a sociedade retrocedeu: há algum tempo atrás, uma exposição de Cranach em Londres levantou polémica porque os cartazes da exposição espalhados pelo metro de Londres mostravam algumas pinturas de nus do artista e claro, houve quem se insurgisse! Durante o Renascimento as pinturas de nu tornaram-se relativamente banais, fossem elas retratos de Adão e Eva, de personagens mitológicas ou até, como neste caso, de personagens reais (reais nos dois sentidos). Claro que estas senhoras estavam mais ou menos habituadas a andar nestes trajes, ou com qualquer coisinha em cima apenas, uma vez que, segundo se sabe, Gabrielle era amante do rei Henrique IV, o primeiro monarca da dinastia de Bourbon, conhecido como "O Bom Rei". As duas senhoras estão numa banheira como se estivessem na boca de cena de um teatro: repare-se nas cortinas em vermelho vivo que as emolduram! Ao fundo, a única pessoa vestida do quadro, provavelmente uma serva, encontra-se a trabalhar, debruçada. A sua posição e o seu anonimato mostram-nos o quão longe ela está do contexto: é quase como se a senhora não fosse importante para o quadro ou como se a sua presença viesse colocar em evidência a nudez que grassa o quadro. Algo que corrobora este meu pensamento de que o até o inanimado colabora com a nudez, é a fogueira acesa e sobre ela, um quadro dentro do quadro que mostra as pernas de um homem nu quase como complemento ao tronco nu das senhoras.

Gabrielle e a sua irmã são muito magras, reflectindo em certa medida o ideal de beleza do Maneirismo. A pele também é muito pálida e totalmente uniforme, o que nos pode indicar a presença de algum tipo de cosmético, porque nisto da pintura e da fotografia não há milagres: as pessoas têm poros e sinais e imperfeições. Embora também fique inebriada por um rosto e um corpo imaculado, temos de destrinçar as coisas. A pele pálida, muito branca mesmo era um sinal de beleza e riqueza, uma vez que só ficava moreno quem trabalhava de sol a sol nos campos. Esses eram pobres, tinham a pele curtida pelo Sol. Os ricos não trabalhavam, viam trabalhar. Nota-se aqui que os cosméticos foram aplicados tantos nos mamilos destas duas mulheres (não têm aréola, a parte mais escura e redonda à volta do mamilo) como nos rostos (bocas pequenas e vermelhas, blush nas maçãs do rosto...). Embora segundo os padrões de hoje nada nos indique isso, Gabrielle era considerada uma das mulheres mais bonitas de França, graças à sua pele pálida, às feições delicadas, ao peito em forma de maçã e ao cabelo loiro, provavelmente artificial. Julienne segura o mamilo da irmã Gabrielle apenas com dois dedos: a intenção dela não é agarrar o mamilo, mas mostrá-lo utilizando para isso apenas dois dedos. Isto pode levar-nos a pensar numa relação lésbica e incestuosa entre as duas, mas para a maior parte das mulheres, a mesma cena não é muito estranha, uma vez que é sabido que as mulheres são muito mais físicas umas com as outras do que os homens uns com os outros. Neste caso, não é uma questão erótica nem de amizade: o quadro é uma provocação social! Julienne aperta o mamilo da irmã para ver se deste sai leite, indicando assim que a amante do rei estaria grávida dele. Esta insinuação poderia ficar por aqui, sem qualquer alusão ao rei, não fosse a própria Gabrielle segurar entre os seus dois dedos, num gesto semelhante ao da irmã, o anel de coroação do monarca. O seu ventre escondido nada indica, mas no mesmo ano da pintura, Gabrielle deu à luz e ao rei um filho de seu nome César. Para além de César, deu ao rei mais três filhos, mas morreu apenas com 25 anos.

Já Miguel Villalobos é um daqueles fotógrafos que consegue que mesmo os mais cépticos e avessos à fotografia, cedam perante o convite dele ou até, peçam para o fotógrafo os imortalizar. Acho que ele faz muito bem aquilo que faz (sigam o link e vejam). Aqui, num conjunto de fotografias para a revista Slurp, foi possível "apanhar" Ugo Rondinone e Maurizio Cattelan a reproduzir num estilo Cindy Sherman (uso dos postiços no corpo) a pintura da escola de Fontainebleau. Os dois artistas são provocadores por natureza. Cattelan cujas obras nos fazem rir, mas não sabemos se esse é o seu único propósito, tem como objectivo fazer-nos rir... de nós próprios. O que ele faz é não endeusar nenhum regime ou área: cultural, social, religiosa, política, e fazer piadas com a nossa capacidade de piedade ou a forma como nos levamos tão a sério (substituindo animais por pessoas). Já Ugo Rondinone trabalha com vários meios: pintura, vídeo, instalação, fotografia, desenho, e em várias direcções; ou seja, tanto pode trabalhar em grande como em pequena escala, a partir da natureza ou da sua imaginação. O que importa no seu trabalho é que tudo o que existe no mundo, quando recontextualizado pode provocar emoções ou sensações físicas em quem observa.

Master of the Fontainebleau School
Gabrielle d'Estrées and one of her Sisters
1595
Musée du Louvre, Paris


Miguel Villalobos
Ugo Rondinone e Maurizio Cattelan
- o carteiro -
Quando um não quer, dois não pecam - Procriação I
Vamos dar aqui início a uma história, breve e provavelmente incompleta, sobre o nascimento: como era visto no início dos tempos, como era explicado, as tradições e as crenças, o papel de mãe e de pai e tudo o resto que me for possível investigar. E já há muito tempo que estava para falar disto, mas por uma resistência minha a tudo o que me lembre crianças, nunca o fiz. Agora que essa ferida vai ficando sarada, torna-se indiferente os filhos dos outros.

Se hoje para ter um filho é necessário haver apenas um espermatozóide e um óvulo, estando implícita a ideia de que tem de existir uma vagina e um pénis e por conseguinte, penetração, quando não havia estas modernices, a geração de uma criança passava obrigatoriamente pelo coito, ou como se dizia, coitu penis et cunni. Existia então a necessidade de contacto físico, de coexistência espacial, enquanto hoje sabemos que basta os fluidos se envolverem, não implicando essa envolvência a presença dos respectivos donos. Ainda hoje porém o nascimento é um mistério: o número de coisas e a variedade delas que pode existir na concepção de uma criança é tão grande que certos médicos dizem que um nascimento é um milagre. Se houve coisa que sempre me intrigou, para além do gira-discos, foi o parto natural. E se hoje associamos o coito à satisfação física de duas pessoas (na melhor das hipóteses) e/ou à fecundação, demorou muito ao Homem relacionar uma coisa com a outra. O Homem tinha relações sexuais porque via outro ser igual a ele, com as costas arqueadas que se encaixavam perfeitamente no seu tronco arqueado, a lavar num rio, acocorado, ou a catar outro ser. Mas o Homem não percebia que o seu acto é que era o responsável pela saída, após nove meses, de uma criança do útero da sua mãe. Atribuía por isso um papel mágico à mulher, pois era esta que transportava dentro de si o pequeno ser, e era dela que ele saía a rastejar.

Templo de Kandariya Mahadeva
1050 a.C.
Índia
Porque os mecanismos que regulam a relação entre o acasalamento e a concepção não estavam definidos, a Igreja principiou opor tomar o monopólio da educação dos seus crentes. E dos crentes dos outros também. Com vista a que o acto sexual não fosse banalizado por pudicícia do clero, mas sempre a dar resposta ao "Crescei e multiplicai-vos" dos Génesis, a Igreja apropriou-se da questão. Era no entanto difícil perceber se estavam a cometer uma blasfémia ao refrear os ânimos dos crentes ou se estavam apenas a assegurar a ordem do Mundo através da colocação de cada coisa no seu tempo: o conhecimento mútuo, o crescimento em Deus, a virgindade até ao casamento, a concepção para maior glória de Deus, etc. Por um lado havia a Sagrada Escritura, por outro era também necessário dar ouvidos aos padres da Igreja como São Tomás de Aquino que defendia que os órgãos sexuais do homem e da mulher tinham sido dados por Deus, não para o prazer dos próprios, mas para a conservação e perpetuação da espécie humana, para povoar assim a Cidade de Deus e apressar o Juízo Final! O prazer teria de ficar de fora, uma vez que era associado à animalidade e que estava fora dos contornos da lei de Cristo. Nada nas Escrituras falava aos padres da Igreja de prazer, à excepção do prazer de amar a Cristo e esse era muito platónico. Não é por acaso que, sendo portadora da semente, a mulher era vista como a tentadora, a culpada pelo prazer, pelo divertimento a que também podia estar associado o sexo.
Assim filósofos, padres, fisiólogos, doutores e sábios apressaram-se a encontrar uma norma que regulamentasse as relações sexuais. Nessa norma estava escrito o tamanho que o pénis deveria ter, o número de vezes em que era aceitável ter relações sexuais (não sei se por semana, se por mês ou por ano), a continência que se devia ter no sexo (sexo, mas pouco), quais as posições amorosas que devem ser banidas e quais as que são mais dignas, quais as consequências do sexo para o marido e para a mulher, qual a estação do ano mais propícia para procriar, qual o momento do dia (se de barriga cheia ou em jejum). De lado, vistas como acessórias e por isso prejudiciais ficaram as carícias, a masturbação a dois, as posições menos dignas, a relação sexual durante a menstruação (razão pela qual nasceriam crianças com lepra ou ruivas) e que já existia no Antigo Testamento, o sexo desenfreado e o desejo ardente. Quem não obedecesse a estas regras, principalmente as mulheres pois eram tidas como incitadoras de tudo o que era negativo, como se o seu útero fosse a casa do Diabo, era ameaçado com o fantasma da esterilidade, o aborto espontâneo e o nascimento de crianças com todos os tipos de deficiências.

O casamento era assim a única forma de ter relações sexuais com o aval divino, desde que não constituísse fonte de prazer para que as praticava e para além disso, fosse a origem de uma nova vida. Por isso, problemas como a frigidez ou a impotência eram, até há pouco tempo, causa de anulação de um casamento. Segundo a Igreja de hoje, um casamento pode ser anulado se o homem for impotente, mas não se for estéril. É que mesmo não podendo ter filhos, o homem estéril consegue ter uma erecção, logo consegue consumar o casamento. Já o homem impotente não consegue ter a erecção, logo não pode consumar. Como vemos, para a Igreja a questão do casamento entre pessoas de sexos diferentes não está na procriação, não é esse o seu propósito, mas na capacidade de ambos os membros poderem ter sexo, dê lá por onde der.

Na Grécia Antiga e até ao século XVIII a fecundação era explicada segundo os princípios de Hipócrates e de um seguidor seu, Galeno. Para Hipócrates o embrião resultava da união de duas sementes, a semente masculina e a semente feminina, ambas colocadas no interior do útero. Para Galeno havia uma emissão de esperma tanto por parte do homem como por parte da mulher, mas neste encontro de esperma, a semente feminina era mais fria com vista a aquecer a semente masculina. Havia no entanto questões às quais os médicos gregos respondiam com menos clareza no raciocínio. No que diz respeito à produção de esperma, por exemplo, os médicos gregos, Platão e os pitagóricos acreditavam que era feita no cérebro, descia pela espinal-medula e alojava-se nos testículos que serviam apenas de simples reservatórios. Por razões como esta as ramificações auriculares da artéria temporal chamam-se ainda hoje canais espermáticos. Já para outros médicos como Anaxágoras e Demócrito, a semente é produzida um pouco por todo o corpo teoria esta muito útil pois pode explicar a hereditariedade a todos os níveis. Em 1563 continuava a acreditar-se nisto, se tivermos em conta o que o professor italiano Niccolò Massa defende: que todas as partes do corpo contribuem para a produção da semente, sendo que uma delas produz uma parte muito importante do todo, parte essa chamada "licor". Para este professor os licores juntam-se nos testículos sem se misturarem. E esse todo é que constitui a semente. Mas no útero os licores dispersam-se para formarem os diferentes órgãos. Engenhoso, não?

Cerâmica grega
480 and 460 a.C.
Pompeia
Isto mostra que se os gregos são os precursores da Democracia, das artes e do pensamento filosófico não são dos conhecimentos médicos. Ressalve-se as limitações técnicas, não se pode ignorar que havia muito de imaginação nas teorias gregas. Aristóteles achava que o feto resultava da união do esperma masculino - segundo ele um resíduo da digestão em grau último - com a menstruação da mulher. A maior parte dos filósofos e médicos gregos era omissa em relação ao papel da mulher na procriação. Seguindo uma teoria falocrática, para estes homens a mulher e o seu útero era apenas o receptáculo de um embrião que já estava formado no esperma masculino. Daí a Teoria do Homúnculo. A excepção, mais tarde, é Descartes que defende que tanto o licor masculino como o feminino são contributo importante para a construção do todo. Ele referia que tal como na fermentação do pão, às tantas já não havia massa velha (fermento, hoje conhecido por fermento de padeiro) e massa nova. Assim, na relação sexual nenhum dos fluidos era privilegiado face ao outro.

Antoine van Leeuwenhoek
Foi em 1677 que Antoine van Leeuwenhoek descobriu ao microscópio os espermatozóides. A descoberta logo originou uma produção gigantesca de material sobre a mesma, sobre esses girinos (pequenos vermes e pequenos animais eram outras das denominações) que habitavam o corpo do homem. Para além do epítetos já referidos as pessoas referiam-se aos espermatozóides como sendo os “animaizinhos íntimos”, “os parasitas comensais”, os “infusórios”, os “vermículos” e outros mimos todos eles concebidos para designar esses pequenos animais que viviam dentro dos fluidos corporais masculinos, de cérebro pequeno e cauda comprida. Acredita-se neste tempo que cada “animal” destes tem uma alma própria (Leibniz aquiesceu, mas apenas na alma em sentido lato) e uma vontade também própria que faz com que o mais forte entre eles seja o vencedor e atinja, como prémio, a entrada no óvulo. Mais uma vez as deficiências do feto entram aqui justificadas pelo estado em que o espermatozóide atinge o óvulo: se a batalha foi dura, então é provável que a criança nasça com alguma deficiência.

Antoine van Leeuwenhoek
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

[mas isso agora não interessa nada]
No Chile e na Argentina, países por onde passou o Rally Dakar (outra coisa que eu não entendo uma vez que Dakar é em África. Não obstante as ameaças terroristas, poderia conseguir-se outro percurso. O que não falta é terra!) pela primeira vez em Janeiro deste ano, e apesar dos avisos de arqueólogos e ambientalistas, foram causados danos irremediáveis e vários sítios arqueológicos. Em Julho, o Conselho nacional de Monumentos do Chile entregou ao governo chileno um documento que referia a extensão dos danos causados pelo rally e a repetição, daquilo que já havia sido dito antes do rally, pelo Conselho, em 2008, que bastaria mudar um pouco a rota do mesmo para que seis sítios arqueológicos fossem poupados.

Tanto o governo chileno como a ASO (Amaury Sport Organisation) e mesmo os ambientalistas e os arqueólogos estão de acordo num ponto: o rally foi muito lucrativo para o Chile e para a Argentina. E aqueles que defendem a preservação de locais de interesse arqueológico já se mentalizaram que muito provavelmente o rally veio para ficar. No entanto não podem deixar de defender que os danos podem ser minimizados que existir uma cooperação entre o governo, a organização do rally e eles próprios, com vista à alteração da rota. Por mais benevolentes que tentem ser, os arqueólogos fizeram notar que quatro dos locais assinalados como sendo de interesse arqueológico se encontram na região de Atacama e outros dois na região de Coquimbo. E que nesses mesmos locais tinham sido descobertos vestígios importantes de arte pré-columbiana que ficaram destruídos após a passagem da corrida. Os veículos destruíram objectos como facas, fragmentos cerâmicos e conchas, ossos humanos e cabeças de seta, datados de 9000 a.C. e 1500 d.C. No entanto, isto é apenas uma parte dos danos, uma vez que até agora apenas 10% do percurso foi analisado. Do outro lado, a organização e os concorrentes defendem-se dizendo que não obstante as regras apertadas para que os carros não passem perto das áreas assinaladas, as mesmas não estão sinalizadas. O que é certo é que nem para pedras nem plantas os gases emitidos pelos veículos são propriamente um Creme de la Mer.
[um Velázquez é um Velázquez, é um Velázquez. malgré moi!]
Durante anos esteve exposto no Met uma pintura atribuída a Velázquez. Era o retrato de um homem de bigode com cerca de trinta anos e datava do século XVII, século de produção do autor. Só que não, quando obtida em 1949, a pintura foi dada como pertencendo à oficina de Velázquez (aquela coisa da produção em série que os pintores utilizavam muito para dar resposta às encomendas). Agora, um curador do Met vem confirmar que a pintura em questão é mesmo um Velázquez-Velázquez.

As razões para os peritos desconfiarem da autoria do quadro baseavam-se na patine deixada pelo tempo sobre a tela, o que fez com que a mesma ficasse sem cor e a palete de cores utilizada parecesse muito mais sombria do que as habitualmente utilizadas pelo pintor espanhol. Recentemente, quando o museu começou a catalogar as obras espanholas que tinha em sua posse, o conservador do museu olhou para a obra novamente e com outros olhos e descobriu que depois de anos de pó e sob camadas sucessivas de verniz e retoques com produtos que hoje não são os mais adequados, se encontrava um verdadeiro Velázquez. O retratado ainda é desconhecido, até porque a pintura é um estudo, não está acabada: a face e traje do homem estão terminados, mas a paisagem em pano de fundo não. Por outro lado, nada há na pintura que possa dizer que é Velázquez, embora exista no pintor uma tradição de pintar este mesmo rosto: vemo-lo n'"As Meninas" a vestir a pele do próprio pintor e no quadro “The Surrender of Breda” que comemora a vitória da Espanha frente à Alemanha, na margem direita da pintura.

Esta descoberta parece ser de extrema importância para quem se interessa por isto (eu!), uma vez que a produção artística do pintor, pelo menos aquela que se conhece e que pode ainda ser recuperada é muito pequena: só se conhecem cerca de 110 a 120 quadros de Velázquez. Esta descoberta – não a descoberta em si, mas o facto de se falar nela – é relevante para qualquer visitante. Por mim falo: se visitasse o Met e visse a tela ao lado de outras de Velázquez (talvez eu nunca fosse ver a sala dedicada ao Velázquez), nunca pensaria que poderia não ser da sua autoria. Isto é um abre-olhos. Quantas telas e bustos e livros e peças e peças estão mal atribuídas ou não têm valor, ou tal como as relíquias, são produzidas industrialmente. Não há possibilidade para o visitante questionar. Tal como no livro "Todos os Nomes" de Saramago, um morto não fala. Como posso eu saber que por baixo daquela lápide rezo ao meu morto e não ao morto de outra pessoa. Segundo a ética cristã, deveria ser a mesma coisa pois o bem que fazemos a um é como se fizéssemos ao Pai e "what goes around, comes around", mas segundo a nossa ética, mesmo após a morte, o morto continua a ser nosso.
[o plano director municipal ou let's look at a trailer]
O arquitecto Jean Nouvel recebeu um puxão de orelhas, que nunca é uma coisa boa de receber, mas no caso dele, é pior que mau. É que o "puxão de orelhas" foi dado pela Câmara de Nova Iorque, cidade para a qual o arquitecto tinha projectado uma torre um pouco maior do que aquilo seu seria desejado. Estamos a falar de cerca de 61 metros numa torre perto do Museu de Arte Moderna. Inicialmente o projecto de Nouvel dizia que a torre deveria ter o tamanho do Empire State Building (381 metros), sendo que este edifício é, após o 11 de Setembro de 2001 o mais alto da cidade de Nova Iorque. Na semana passada o Departamento de Planeamento urbano da cidade decidiu cortar os tais 61 metros pois, segundo Amanda Burden do mesmo departamento, a forma do edifício, que acaba em três picos não estava de acordo com a estética do edifício com o qual iria competir em altura. Para além disso, a torre de Nouvel eclipsava o Museu por completo. Mas há quem defenda a Torre de Nouvel tal como está uma vez que acompanha o espírito da Midtown para onde está projectada. O facto de Nouvel, assim como outros, desejar a sua torre tal como está, lembra a necessidade dos arquitectos deixarem a sua marca. E se há uma cidade propícia a isso é Nova Iorque. Se há uma zona propícia a isso, essa zona é a Midtown.
- o carteiro -

Onde é que estavas no 11 de Setembro?
Eu estava no departamento a fazer um trabalho. Lembro-me de alguém ter dito que o WTC tinha sido atacado por dois aviões e que as torres tinham desabado. Pensei: "claro que desabaram! a construção na América é do pior, fazem tudo em pré-fabricado!". Isto não deixa de ser verdade hoje, mas já ninguém passará pela vida como se o mundo fosse o mesmo. Mesmo para aqueles para quem essa realidade parece longínqua, ela afectou toda a nossa vida. Tenho para mim que o fenómeno 11 de Setembro se tornou mais do que uma questão de justiça. É sem dúvida uma questão de dimensão da notícia. A forma como nos identificamos com a data, não tem só a ver com o facto de a termos vivido, de estarmos vivos no dia 11 de Setembro de 2001, mas por aquilo que nos foi mostrado. Porque é que é condenável o que alguns terroristas fizeram e não é condenável o que Kissinger fez ao ordenar o bombardeamento do Cambodja originando assim a morte de milhares de pessoas? Simone Weil dizia: "Há sempre um sentido ilimitado do desejo e estes, ao contrário dos limitados, não estão em harmonia com o mundo; pior, o nosso contacto com o bem, ao contrário das atitudes anti-éticas egoístas, sendo impulsionado por desejos de infinitude, visa o absoluto. A origem do bem tem um poder destrutivo tal que, para a nossa estabilidade pessoal, tem de parecer como mal. Por isso Cristo teve de morrer." O nosso desejo de encontrar a culpa apenas nos outros colide com a nossa culpa, pois embora nada possa justificar os ataques, eles tiveram uma dimensão mais simbólica do que numérica. Milhares de pessoas morreram, num só dia. E quantos milhares morreram num só dia na Europa ocupada? E quantos milhares morreram num só dia de conflito nos balcãs? E quantos milhares morreram num só dia na luta israelo-árabe? Quando um dia, ao ver Guernica um oficial alemão disse a Picasso: "Meu Deus, foi você que fez isto?", ele respondeu "Não, foram vocês que fizeram isto".

Há uns tempos, nuns subúrbios de Paris, um grupo de jovens emigrantes insurgiu-se, queimou carros e contentores do lixo, partir lojas e confrontou-se com a polícia após terem sido apelidados de escumalha pelo presidente francês Sarkozy. Mas porquê esta violência? E ainda por cima, porquê esta violência cujo alvo não é o governo francês, não é o presidente da república, não são as instituições, mas os bens de outros emigrantes. Porquê a violência terrorista oriental contra alvos ocidentais? Bom, facciosa a pergunta! A ser possível responder primeiro à questão bizantina de quem nasceu primeiro, se o ovo, se a galinha, podemos dizer que até quando os turcos ocuparam a Terra Santa, a violência dos Templários foi tal (respondendo a um apelo do Papa) que os próprios ficaram escandalizados e envergonhados com o que foi feito. Talvez durante séculos, as nações muçulmanas tenham aguentado, tal como os povos judeus, para exercerem a sua vingança. Quanto mais esperam, mais ostracizados eram e maior se tornava a sua raiva. Podemos também dizer que o caso não pode remontar até os primórdios, mas a verdade é que as relações entre o Oriente e o Ocidente eram relativamente pacíficas até aí. A pergunta continua a ser dúbia porque fala de orientais e ocidentais. Foi sempre possível dizer que alguém (um ocidental) era um "orientalista", sem qualquer dano para o mesmo. Os ocidentais aceitam como uma excentricidade o que vem do Oriente e a denominação continuava a ser uma forma de subjugar o Oriente. Não é possível porém a um oriental dizer que é um Ocidentalista. Isso seria ir contra as suas regras: quem não é pelo Oriente, é contra o Oriente. Porém, quando olhamos para as manifestações de rua acerca do caso das caricaturas de Maomé publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten notamos que esta civilização que supostamente traz a alteridade ao nosso quotidiano, é profundamente liberal e global. Passo a explicar. A maior parte dos muçulmanos que se manifestaram não tinham visto as caricaturas. O que isto quer dizer é que um fenómeno que acontece na Dinamarca une sob o mesmo pretexto nações tão díspares como a Dinamarca, o Líbano, a Indonésia, o Paquistão, etc. Todos eles estiveram juntos, ainda que de lados opostos da barricada, por causa de uma caricatura. Note-se também que quando os muçulmanos pedem, exigem respeito pela sua diferença, estão a protestar, a exigir direitos iguais na diferença, estão a pedir, no fundo e sem se darem conta, para serem tratados segundo os princípios básicos ocidentais. Acho que o desprezo a que os povos orientais votam os ocidentais é uma camuflagem, uma vez que é absolutamente normal que duas culturas se olhem de forma curiosa. Não há um fundamentalismo autêntico porque não há um desprezo autêntico, não há a ausência de ressentimento ou de inveja. O fundamentalismo islâmico está preocupado e intrigado com a vida, os usos e modos dos não-crentes. Não estão, de forma nenhuma afastados do outro que dizem desprezar.

Mas a vida não é fácil para eles. Quando as caricaturas saíram, a via do diálogo não foi facilitada isto porque o ocidente continua a sacralizar o Holocausto nazi e a não permitir que nenhum tipo de violência tenha uma importância superior a esse período histórico. O fenómeno contra o Oriente é de tal forma global e atinge as nações de forma tão encadeada que França, que se opôs à entrada dos EUA no Iraque viu as suas batatas fritas (french fries) simbolicamente sancionadas. O nome mudou para freedom fries. Ora os apoiantes da França e da sua decisão que se encontravam nos Estados Unidos tinham de trabalhar duplamente para encontrar uma solução que agradasse a "gregos e a troianos". E um ocidental que entrasse num restaurante ou pastelaria iraniana em qualquer parte do mundo saberia que os outrora bolinhos conhecidos por "bolos dinamarqueses" tinham sido substituídos, no nome e como sinal de protesto pela publicação das caricaturas por "rosas de Maomé". Os extremos tocam-se!
- o carteiro -

era só para dizer, no caso de me esquecer e esta tipa ganhar, que se apanho a Lady Gaga arranco-lhe os olhos com uma colher, compro-lhe um espartilho para a boca, jogo ao burro em pé com a cara de poker dela e aplico-lhe um clister de canto gregoriano. razão tinha a Roisin Murphy!

antes e depois

Roisin Murphy
You know me better
2007



Lady Gaga
Eh, Eh (Nothing Else I Can Say)
2009


Moloko
Sing it back
1999



Lady Gaga
Poker Face
2009

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

anemia

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

- o carteiro -

isto hoje não está nada de especial
- original soundtrack -

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz...

(Vambora, Adriana Calcanhoto)
- não vai mais vinho para essa mesa -


- Eh pá, tipa bem feita!
- Gira!!!
- Que gira que quê? Bem feita. Pelo menos no que dá para ver da saia. Para cima, não sei.
- Lá estás tu a desdenhar. É boa!
- Do que se vê! Do que se vê é boa, mas não é gira. Tira-lhe a maquiagem, o cabelo pintado e os acessórios e é uma pessoa como as outras! Sabes que mais, tu emprenhas pelos olhos!
- E tu, as mulheres todas, pelos ouvidos!
- Hã? Não ouvi.
- o carteiro -

a mulher de bigode ninguém o... *

Quem não teve a tia da aldeia com o seu pelinho na "benta", daqueles pêlos grossos que elas cortavam com a tesoura por amolar, bem aparadinho ao Domingo para receber a família da cidade que ía lá comer rojões. Para além do homem da casa e do próprio porco (que post-mortem tem grande tratamento estético com o chamuscamento dos pêlos), a tia Rosinha, Maria ou Ainhas do Aido era a mulher mais peluda que conhecíamos. Por vezes, quando íamos ao mercado - para nós era a feira - na parte dos legumes deparávamo-nos sempre com uma senhora de buço pronunciado que vendia ovos ou umas pencas para o Natal a preços mais apetecíveis que qualquer rebuçado em troca de um beijo. As mulheres de buço (e penugens semelhantes em partes do corpo mais escondidas) são quase uma espécie em extinção. Isto porque a indústria do sexo, as revistas, os novos tratamentos, aquilo que comemos, as condições atmosféricas e todos os medicamentos que tomámos para curar uma simples gripe têm moldado os nossos gostos e as nossas hormonas. Há quem não possa alegar nenhum destes factos pois ter pelo na venta é o menos que se pode dizer. O que estas pessoas têm, não era, já no tempo em que nos ríamos delas, um problema que se resolva com tratamento estético. Chama-se hirsutismo e pode fazer de pessoas normais verdadeiras aberrações quando expostas ao ridículo. Há casos e casos e o que este post vai tentar fazer é abordá-los do ponto de vista da arte.
Antes que alguém soubesse que o hirsutismo é uma doença, era visto como uma extravagância, uma partida da Natureza para divertir as cortes, a par do nanismo, bócio, hipertireoidismo, cretinismo ou de algumas mutações genéticas. A hipertricose universal ou localizada, também conhecida por síndrome do homem lobo, ou mesmo hirsutismo é uma doença de natureza endócrina. É uma doença extremamente rara que consiste na constante produção do folículo capilar. Isto origina pessoas com crescimento anormal e contínuo de pelo em áreas onde por norma ele existe porque... temos pêlo no corpo todo, como no rosto, as palmas das mãos ou a planta dos pés. Os investigadores acreditam que esta doença é causada pelo acordar de um gene adormecido (ou a evolução do mesmo) que guardamos dos nossos tempos mais peludos. Nas crianças, as zonas afectadas começam por ter apenas o aspecto de um modesto revestimento capilar. mas ao contrário das outras crianças, rapidamente o pêlo cobre o rosto e as outras áreas já referidas. Este tipo de doença, deste tipo de natureza causa grandes modificações na fisionomia da pessoa e numa sociedade que se queria normal originava tanto a curiosidade de físicos, como das cortes (as famílias reais eram dadas ao seu momento mórbido), das feiras e dos pintores. Eles eram os homens selvagens, os Waldmenschen e as femmes sauvages dos primeiros viajantes, os hommes primitifs e os homo-hirsutus dos taxonomistas e os homens-cão-urso-leão-macaco dos feirantes. As pessoas que padeciam desse mal em estados extremos da doença (no fundo, todos nós temos hirsutismo, mas o crescimento está restringido a zonas comuns. E mesmo aquelas pessoas que têm pêlos no rosto ou nos ombros, não o têm na dimensão que aqui vamos mostrar) eram ostracizadas pela família e pela comunidade: permaneciam dentro de portas durante o dia e saíam apenas à noite para serem pouco vistas. Penso que daí também decorre a denominação que associa a doença com os lobos. É uma doença extremamente rara, mas suficientemente mórbida para atrair a sociedade da Idade Média para quem tudo o que fugisse ao cânone era obra demoníaca e castigo celestial. Nesta altura foram documentados apenas 50 casos. Um dos primeiros casos foi encontrado na corte do rei francês Henrique II. Este monarca gostava muito de bizarrias, coisas, objectos que fossem estranhos, excêntricos e originais. Em 1547 foi-lhe oferecido, como presente, um rapaz de 10 anos com uma aparência estranha: parecia meio humano e meio animal. Um pelo loiro comprido cobria-lhe o corpo por inteiro, excepto no que diz respeito aos lábios e aos olhos. O nome do rapaz era Petrus Gonsalvus (eu bem sabia que havia aqui gene nacional, carágo!). Pedro surge nesta obra de Agostino Carracci cujo título pode ser traduzido por Arrigo Peludo, Pedro louco e Amon Anão, um título que tem mais de inventário de Jardim Zoológico do que de nome de obra que pretende descrever uma alegoria da Natureza.
A obra de Carracci foi uma encomenda do Cardeal Ordoardo Farnese para o Palazzo Farnese. É um edifício anexo à embaixada francesa e ao um jardim botânico com animais ferozes enjaulados. Talvez daí tenha vindo a inspiração para o estranho título. Nota-se que Agostino Carracci não dominava este tema e tinha especial curiosidade pelos "homens peludos" uma vez que fez coexistir na pintura macacos e cães. O homem que se encontra no centro da pintura tem uma capa grosseira, identificada com a capa de um tamarco, traje dos Guanches, povo das Ilhas Canárias que acabou exterminado pelos espanhóis (Jimi, vê lá se encontras uma relíquia). Arrigo Gonsalvus, o homem selvagem não era mesmo um guanche. O pai de Arrigo, Petrus, que tinha sido escravo em Tenerife, já tinha hirsutismo. Casou com uma jovem holandesa muito bela que lhe deu quatro filhos, todos eles hirsutos, especialmente Arrigo. Foi o suficiente para os Habsburgo e os Farnese se interessarem por estes "prodígios da Natureza" e fazerem deles a companhia, leia-se "divertimento", ideal para os dias passados na corte. Outro membro bastante conhecido da família era Tognina Gonsalvus, a irmã de Arrigo que tal como ele foi oferecida de presente pelo duque de Parma ao seu irmão o Cardeal Odoardo Farnese.
Agostino Carracci
Hairy Harry, Mad Peter and Tiny Amon
1598-1600
Museo Nazionale di Capodimonte, Nápoles

Outro membro da família, e aquele de quem primeiro se falou é Petrus Gonsalvus cuja vida está bem documentada. Gonsalvus, pai de Arrigo e Tognina, nasceu em 1556 em Tenerife, mas acabou na corte de Henrique II como já foi dito. Este foi um dos primeiros casos de hipertricose universal congénita. Apesar de ser visto pela corte como uma mascote, uma aberração aceitável, Petrus era extremamente inteligente e tinha uma presença marcante que chamou a atenção do monarca. Henrique II acabou por fazer dele um dos seus mais importantes embaixadores. Como este retrato de Petrus, de autoria desconhecida se encontra no Castelo de Ambras na Áustria a doença tornou-se conhecida também por síndrome de Ambras.

Anónimo
Petrus Gosalvus Hirsute Man
1580

Em 1585 Lavinia Fontana pintou o retrato de Tognina, filha de Petrus e irmã de Arrigo. Não a pintou como uma aberração pois há no retrato algo de muito solene, pelo menos na minha opinião. O rosto coberto de pelo é o que salta à vista, mas os olhos da rapariga são de um negro profundo, os lábios e o nariz apresentam-se muito delicados, bem como as mãos que não mostram qualquer sinal de hirsutismo. A cabeça tem também um ornamento sumptuoso e o vestido está detalhadamente pintado indicando algum luxo. Tognina Gonsalvus nasceu em 1572 e herdou do pai a doença de que temos vindo a falar. Ela era, à semelhança do seu pai e do irmão, requisitada como espécime para aulas em alguns gabinetes de curiosidades de nobres e monarcas em vários países da Europa. Eram também exibidos em festas promovidas pela corte como exemplos de algo negativo; ou seja, não eram tidos como excepções, mas como fruto, a face visível e corpórea de uma natureza intrinsecamente má. A prova de que há esperança neste mundo (ou que há gente com pouquíssima sorte, depende da perspectiva), é que Tognina se casou e deu à luz um filho peludo. Não nos enganemos: em muitos casos os homens que casavam com mulheres hirsutas faziam-no a troco de algo muito desejado como um título ou dinheiro ou fama. Em 1592 o caso de Tognina foi estudado pelo professor Ulisses Aldrovandi da Universidade de Bolonha que juntou o caso dos Gansalvus a muitos outros que tinha conhecido. Compilou estas histórias em livros ilustradas com desenhos e xilogravuras e, não obstante tratar-se de um médico deu ao livro o título de "História dos Monstros". Eu estou para aqui a falar, mas não sei como reagiria se visse um hirsuto. Hoje esta doença é muito frequente em países como a Índia, o Paquistão ou o México, onde o número de casos tem vindo a crescer.

Lavinia Fontana
Tognina Gonsalvus
1590


Outro caso documentado pelos pintores é o de Magdalena Ventura de los Abruzos, aqui pintada por Ribera, o que para mim foi uma surpresa porque pensava que o Ribera era um "pintor de santos". Reconheço em Ribera a influência de Caravaggio, mas nunca o tive em muito boa conta. O duque de Alacalá, vice-rei de Nápoles encarregou Ribera de pintar esta mulher que aqui aparece junto ao seu segundo marido Felix e com uma criança nos braços. A intenção do duque era documentar o caso e dá-lo a conhecer ao rei Filipe III. Ao que parece Magdalena não nasceu com hirsutismo como nos casos anteriormente documentos, tendo sido apenas aos 37 anos que começou a crescer o pelo na cara desta mulher como nos indica uma inscrição em pedra, situada à direita da pintura. Magdalena nasceu na região de Abruzzi, Nápoles e teve sete filhos: três antes de lhe surgir a barba e quatro depois do hisutismo localizado (este não era um caso de hirsutismo generalizado, logo não deve ter existido qualquer problema com a amamentação das crianças que podiam sempre ficar com pelos na boca... Como se vê, Magdalena tem o seio farto e sem pelo.) e quatro depois do hirsutismo e neste caso, consequente virilização. Atente-se na sua fisionomia masculina: Magdalena mudou não só a produção de pelos no rosto, como a de estrogéneo de tal forma que as suas feições alteraram-se: tem rugas na fronte e os sulcos nasolabiais. Isto não impediu que a senhora se casasse e, tcharan... por DUAS VEZES!!

José de Ribera
La mujer barbuda
1631
Museo Tavera, Toledo


Juan Sánchez Cotán
Brígida del Río, la Barbuda de Peñaranda
1590
Museo del Prado, Madrid

A fugir já um pouco à temática do hirsutismo e já mais no voyeurismo, confesso, encontrei esta pintura de Juan Carreño de Miranda que mostra "a Monstra" ou "a Gorda". Há duas versões, uma com a criança nua e outra a que aqui apresentamos. Eugenia Martínez Vallejo é um caso típico de uma endocrinopatia chamada síndrome de Prader-Willi que se caracteriza pela obesidade, pelas dificuldades de aprendizagem, pelo atraso no desenvolvimento motor e sexual, flacidez genital, etc. Aqui Eugénia foi pintada aos seis anos de idade por Juan Carreño de Miranda. E apesar de desconhecer se esta foi alguma encomenda para algum monarca - apesar de Eugénia viver de facto na corte do rei -, a verdade é que o pintor era um reputado artista da mesma corte. Aqui, aos seis anos pesava 75 quilos e tem em ambas as mãos maçãs. Isto não é mais do que a analogia feita pelo pintor entre a forma corporal de Eugénia, o seu apetite voraz e a modorra em que vivia e o pecado da gula e da luxúria.

Juan Carreño de Miranda
Eugenia Martinez Valleji, La Monstrua
Museo del Prado, Madrid

* por favor não completar
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou como... “qualquer-coisa-que-agora-não-me-lembro”, ou como “Henry Moore disse que uma das suas fontes de inspiração era a arte Maia e fez muito bem em dizer porque isso vende livros, mas fez muito mal porque com Belogue ou sem Belogue, a gente chegava lá. Henry Moore é o tipo de tipo que teve "mais sorte que juízo": ainda não tinha um grande número de trabalhos com as dimensões colossais que hoje conhecemos quando já todo o mundo da arte estava aos seus pés. É claro que a expressão “ter mais sorte que juízo” se aplica mais aos audazes que aos verdadeiramente sábios. Moore havia tido a preparação necessária para poder justificar sem embaraço as suas escolhas e a forma de concretizá-las. Talvez a monumentalidade das suas esculturas fosse um valor acrescido, não descarto essa hipótese tão válida quanto o uso visceral do corpo ou o ataque às instituições. No entanto a referida formação foi de muito uso uma vez que permitiu-lhe separar o modelo da Natureza e a arquitectura Maia e todas as formas de arte primitiva, que eram concebidas para a monumentalidade ajudaram essa libertação. Depois, mais do que sorte, foi a visão que ajudou Moore: ele viu na Natureza (galhos de árvore, pedras, folhas, conchas, ossos) as formas no seu estado puro, as formas concebidas pela divindade (digo eu), por mãos ancestrais e cuja fórmula é repetida dia após dia sem se esgotar, sem intervenção humana e sem necessidade de códigos, guias ou manuais. O que se torna verdadeiramente inovador na escultura de Moore é a sua fuga ao óbvio, uma vez que não obstante o uso e referência inequívoca à Natureza, o escultor usa essa mesma na Natureza com a intenção de construir esculturas antropomórficas. Abandona o modelo, mas não a nascente do modelo. Moore via também a possibilidade de encontrar alguma beleza não excêntrica nas assimetrias que até aí tinham sido tratadas com alguma leviandade. O busto e os joelhos são para o escultor as montanhas (já dizia a Shakira em resposta ao Moore: "Lucky that my breasts are small and humble/So you don't confuse them with mountains"), as partes separam-se como pedras, podemos andar à volta da escultura como se ela fosse uma paisagem e temos de contorná-la como se fosse um tronco. Isto permitiu-lhe igualmente ver a escultura, não apenas como a arte de preencher espaços, mas como a arte que podia criá-los e trabalhar o dualismo positivo/negativo, imiscuindo-se assim um pouco na função do arquitecto, embora essa não fosse obviamente a sua intenção última. A noção de movimento tão associada à escultura por oposição à sacralidade da arquitectura não se nota na obra de Moore, mas sente-se que está vai crescer, que tem a sua vida, que é táctil e orgânica.

Apesar de dizer que só há três formas de representar o corpo humano - sentado, de pé, ou deitado - Henry Moore prefere uma forma híbrida entre o sentado e o deitado: o reclinado, uma vez que tanto o sentado quanto o deitado necessitam de um elemento (cadeira ou cama), não natural que dá sentido à sua pose. O reclinado não. O reclinado é hermafrodita; nasce de si mesmo.

Quando Henry Moore fala da influência da arte Maia e das civilizações primitivas na sua escultura, fala no caso aqui apresentado das semelhanças entre o seu reclinado e o reclinado do deus Chac, deus Maia da chuva. O seu nome, que pode ser escrito de várias maneiras quer dizer: "aquele que alimenta os outros", "o que urina", "ele que ilumina o céu", etc. As várias representações de Chac mostram-no como um ser com bigodes de gato, uma boca de réptil e presas próprias de réptil, reclinado como quem está a pescar. Mais tarde esta representação mudou para um estilo menos reptante e mais humano de forma que os dentes desapareceram totalmente. Na lenda Maia diz-se que Chac abriu uma grande montanha e retirou de lá milho, o alimento principal das civilizações mesoamericanas:”

Mayan Rain God (Chac)
948-1204
Itzá, México

Henry Moore
Reclining Figure
1929
Leeds City Art Gallery and Temple Newsam House
- o carteiro -


- Woolite, o Popeye, os Estrumfes e o Charlie Brown usam e a Olívia Palito, a Estrunfina e o Charles Schulz nunca se preocupam.
- Depois de Holiday, Celebration. Esta mulher está sempre de férias! (Aceita-se a entrega, no Belogue de um vestido igual.)
- Foi em Setembro que te conheci...
- Arquitectura 2.0 ou como gastar dinheiro e arrepender-se de seguida.


- "e o burro sô eu?" -

(João 5, 31)
"Se eu der testemunho de mim mesmo, não é digno de fé o meu testemunho."
(João 8, 18)
"Eu dou testemunho de mim mesmo; e meu Pai, que me enviou, o dá também."

[Do livro Roteiro da Bíblia, Edições Crise Luxuosa]

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

- o carteiro -

“O amor é dar o que não se tem...” (Platão, O Banquete)
"... a alguém que não o quer." (Lacan)

isto está bonito, está...

Sábado, Agosto 29, 2009

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"O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da inteligência." - Eça de Queirós