segunda-feira, fevereiro 20, 2017

- original soundtrack -











Nada consigo fazer
Quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta
Um vazio se faz em meu peito
E de facto eu sinto
Em meu peito um vazio
Me faltando as tuas carícias
As noites são longas
E eu sinto mais frio.
Procuro afogar no álcool
A tua lembrança
Mas noto que é ridícula
A minha vingança
Vou seguir os conselhos
De amigos
E garanto que não beberei
Nunca mais
E com o tempo
Essa imensa saudade que sinto
Se esvai
(Peito vazio, Cartola)
- não vai mais vinho para essa mesa -

lamento, mas não tenho nenhuma parvoíce a assinalar. fica para a próxima
- o carteiro -

o espaço da gente

Há muitos anos participei numa escavação arqueológica de um castro. O que me chamou a atenção foi a dimensão das construções: minúscula. Interrogava-me como seria possível alguém dormir ali. Mais tarde, mais informada, visitei Conímbriga. As dimensões exíguas repetiam-se se bem que agora a habitação das camadas elevadas possuísse áreas destinadas a actividades: o gineceu (divisão para as mulheres), o androceu (divisão para os homens), o espaço para o fogo, o triclinium (para receber os convidados), o atrium, etc. Ainda assim - e não obstante essa existência de espaços para diferentes funções, algo que não acontecia com os castros - as divisões da casa romana pecavam (achava eu), por exíguas. E na Idade Média, o mesmo acontecia, se bem que com o tempo tudo isso foi sendo alterado.

Era natural que não existisse muito espaço dentro de um castro: não havia a noção de saúde pública, logo não havia rede de esgotos ou mesmo latrinas fora ou dentro da habitação; não havia computadores logo não havia escritório; o tempo era passado a procurar comida ou a tratar dela (gado) e por isso a vida familiar devia ser muito limitada. No que concerne à antiguidade, a vida na pólis e a pólis em si eram mais importantes do que o cidadão, o indivíduo. Havia um espaço para o fogo que deveria estar presente para os deuses, havia um espaço para eles, um espaço para elas, cozinha e latrinas, havia - em alguns casos - sistema de esgotos, mas as dimensões de cada uma destas divisões era de facto muito pequena. Porquê? Porque esta gente tinha poucos bens e uma noção de habitação diferente da nossa. Esta gente não tinha coisas. Já leram algum inventário do século XVII ou visitaram o Mosteiro de Arouca? tanto num caso como no outro encontrarão evidências de que os nossos antepassados eram muito parcos em bens. Não havia camas, não havia mesas; ou seja, quando ouvem a expressão "fazer a cama" ou "pôr a mesa", isso tem uma razão de ser. As camas não eram objectos, mas lugares. Geralmente lugares da casa perto do fogo, perto do lume, onde se cozinhava. dormia-se em enxergas. As mesmas que se usavam para dar à luz, fazer filhos, receber convidados, comer... Da mesma forma, não se punha a mesa: um nobre que andasse de palácio em palácio não possuía, em cada um dos seus palácios, mobília completa. Não, a mobília era carregada com o séquito para outro palácio. Daí a expressão "pôr a mesa".
 
Também na Idade Média as casas eram pequenas e mal arejadas. Existia a ideia que o ar trazia doenças, e por isso, quanto maior fosse a casa, pior seria. As janelas eram altas para evitar os roubos e por isso o interior das casas era naturalmente lúgubre, a combinar um pouco com a ideia de que tudo deveria ser feito Ad Majorem Gloria Deo. Talvez por isso as grandes e arejadas construções da Idade Média tenham sido as religiosas. À medida que surgem as preocupações com a higiene, surgem casas-de-banho e espaços mais arejados, maiores; à medida que as camadas mais baixas da sociedade começam a questionar o seus governantes e exigir melhores condições de vida, surgem construções maiores; à medida que uma burguesia endinheirada ascende e se interessa pela literatura, pelo teatro, pela política e recebe em casa, surgem pequenas bibliotecas e espaços para tertúlias; à medida que a ideia de intimidade e privacidade se instala (ideia que nem sequer tem uma palavra em comum em todas as línguas), exigem-se quartos para pais e filhos. E chegamos onde estamos hoje: somos cada vez menos, há cada vez menos filhos e as famílias são cada vez menores. Não obstante, temos casas cada vez maiores e acumulamos mais tralha. Material e da outra.
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates
 
ou
 
- o carteiro -

antes e depois ou como "das coisas nascem coisas, já dizia o Bruno Munari e muito bem. ora boa noite, senhoras e senhores. hoje trago-vos um post que começa por um "antes e depois", mas que evolui para um "carteiro". Porquê? Porque sim. O antes é este

Abadia de Westminster
Século XIII
e o depois, este.

Hand Holbein
The Ambassadors (pormenor)
1533
National Gallery, Londres

Como podem ver pelas legendas, trata-se do pavimento da Abadia de Westminster que, segundo os entendidos, mimetiza o chão do edifício inglês ou esta história não tivesse tudo a ver com Inglaterra e o seu poder no século XVI. À primeira vista, o quadro de Holbein fala de poder e riqueza, mas a célebre anamorfose da caveira, em baixo leva-nos a reconsiderar a ideia inicial: talvez esta tela seja mais do que aquilo que pretende ser; talvez seja uma vanitas e nesse caso nos tente mostrar que a morte é mais poderosa do que qualquer riqueza ou poder político. Esta é sem dúvida uma cena montada onde cada objecto tem um papel específico.


Hand Holbein
The Ambassadors
1533
National Gallery, Londres

Vamos primeiro aos tecidos, aos padrões: as três grandes faixas horizontais do quadro mostram padrões:
o cortinado




o tapete








o pavimento






 
Esta demonstração de riqueza tem eco em outros pormenores do quadro como nas vestes que ambos usam. Num dos casos temos pele/pelo que não é de arminho, segundo me parece, mas que segundo sabemos não estaria ao alcance de qualquer um. No outro caso, a incrível textura do pelo da gola, bem como a textura e padrão da capa que um dos embaixadores veste:








































 
Estes homens, que eram sem dúvida, ricos, tinham também conhecimento e poder. Eram também jovens: o do lado esquerdo tinha 29 anos (está escrito na adaga que ele segura) e o outro tinha 25 (vemos no número no livro sob o seu braço). Estes homens são franceses, como o prova a insígnia da Ordem de São Miguel instituída por Luís XI de França, que um deles tem ao peito (São Miguel a matar o dragão)
































































A referência feita ao conhecimento, vem dos objectos que encontramos na prateleira. Se as suas vestes e o cenário em que se encontram, nos falam da sua riqueza e do seu mundo estático, com certezas, os objectos falam da sua visão do mundo, dos valores que partilham. Podemos dizer que na prateleira de cima, tudo está em ordem e que de facto, essa prateleira nos fala do que estes dois homens dominam. Em baixo, na prateleira de baixo o mesmo não se passa e os objectos, para além de desalinhados, incompletos ou estragados, são de outra natureza. Ora vejamos o que se passa na prateleira de baixo:
 
a guitarra com uma corda partida












o conjunto de flautas, incompleto


 
o globo de pernas para o ar…

Tudo isso é o reflexo de uma França em crise. A França havia sido sempre uma nação poderosa, mas agora, à data da pintura, tornou-se uma nação ameaçada pelo poder dos seus rivais sendo que os mais perigosos são Portugal e Espanha. Os dois reinos dividiram, como se sabe, o mundo em duas partes. França está ameaçada por todos os lados, com inimigos que não a deixam ser a potência que sempre foi. O papel destes dois jovens é salvar a honra francesa, restabelece-la e para isso precisam de alguns trunfos que podem ser vistos neste quadro e que estão ligados à parte de cima da prateleira. O primeiro trunfo, ainda na prateleira de baixo é um hino de Lutero, fundador do Protestantismo. Se apoiar as facções protestantes nos reinos rivais, a França consegue semear a discórdia entre Católicos e Protestantes e assim enfraquecer o poder que estas potências têm no mundo e enquanto seus vizinhos.










O segundo trunfo é o das suas relações com vizinhos do mundo islâmico. Quando Holbein pinta este quadro, os muçulmanos estão à porta da Europa, o que não impede os embaixadores de negociar com eles, obrigando-os a mover as suas forças e desta forma, ver a sua posição fortalecida na Europa.















O terceiro e último trunfo é... a vida amorosa do rei inglês Henrique VIII, simbolizado pelo pavimento que, como dito acima, mimetiza do pavimento da Abadia de Westminster. De facto, a França apoiou o rei na sua decisão de repudiar a sua primeira mulher e casar com Ana Bolena. Esta foi a forma que o reino francês teve de criar atritos entre a Inglaterra e os vizinhos alemães e de certa forma, tornar a sua posição mais favorecida dentro do mapa da Europa. E com isto, a França acaba por embarcar numa "nova religião" (não será uma nova religião, mas uma nova visão do Cristianismo); ou seja, o Protestantismo, na medida em que lhe é mais favorável no xadrez geo-político. Estas ideias de transgredir valores humanos ou religiosos haviam sido divulgadas um ano antes com a publicação do livro de Maquiavel, "O Príncipe".
 
A prateleira de cima, fala-nos do conhecimento, mas do conhecimento de coisas mensuráveis, o conhecimento científico. Temos por isso mapas de estrelas e constelações
 
 














Um quadrante náutico




















um astrolábio




















um calendário cilíndrico


e um outro instrumento (um sólido de dez faces não regulares) cujo nome e função desconheço. O que retiramos disto é que todo o conhecimento, poder e riqueza são em vão já que a morte é o fim de tudo. Mas pode haver salvação, redenção e essa vem do alto (do canto superior esquerdo do quadro), de Cristo:



vou embora. beijos e até breve
ah... não se esqueçam de lavar a dentuça, a papuça e beber um leitinho antes de ir dormir.

sábado, fevereiro 18, 2017

27 de Abril de 2016
27 de Agosto de 2016

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

- b' day -

pronto, é isso. mais um. obrigada aos "mais que as Graças e menos que as Musas"*.

*as Graças eram três; as Musas, nove

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

aquele momento em que desligas a luz e ficas no escuro, em silêncio, a identificar todos os sons, principalmente o do coração a bater encostado ao colchão, como um exército a cavalo. aquele momento em que duvidas das certezas de ontem e achas que, o que antes tomavas por elogio é na realidade, e agora, troça; o que antes parecia respeito é na realidade desprezo. só algo se mantém: a culpa que te atribuis.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

- o carteiro -

um dia com postagens dedicadas ao 'mor. seja lá o que isso fôr.
- original soundtrack -

pô! qué qué isso Chico?! Cê qué mátá eu do coração?











Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás se fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir

(Eu te amo, Chico Buarque)
- não vai mais vinho para essa mesa -

- então, e tu?
- eu o quê?
- não namoras?
- não.
- porquê? não percebo, deve andar tudo cego!
- não namoro porque... trabalho ao Sábado.
- hã?
- sim, trabalho ao Sábado. Ora toda a gente sabe que aos sábados é que se namora. Se eu namorasse, não podia namorar ao sábado, porque trabalho. logo, teria de namorar ao domingo. como ao domingo é dia de ir para casa da sogra fazer rissóis para a semana, é dia de ir comer tremoços para a beira-mar enquanto se houve o relato, é dia de... ir ao Continente comprar polares da Modalfa em promoção... não posso namorar.
- o carteiro -
vocês perguntam, e muito bem, porque é que já não faço posts com "sustânça". eu respondo a verdade e nada mais do que a verdade: não tenho tempo. e ultimamente dediquei-me a uma tarefa pantagruélica, que nunca terá fim, temo, de fazer a árvore genealógica da família mais disfuncional de sempre. Uma vez que estamos "in the mood for love" e uma vez que do amor novos seres brotam, eis que surge a genealogia dos deuses gregos. Como disse, isto é um trabalho sem fim e, certamente, com outro modus operandi que não o por mim escolhido. A fonte foi a Teogonia do Hesíodo interpretada pelo Pierre Grimal e o pseudo-Apolodoro. Há nomes que não constam da lista como da Penélope, Telémaco e acho que até do Ulisses, mas foi o que consegui fazer. Por isso não postei nenhum texto com imagens anotadas e ampliadas, daqueles que vocês gostam e eu gosto ainda mais. Desculpem, mas para hoje é o que há. beijinhos às famílias.


- o carteiro - 

no dia de São Valentim o pessoal vai todo jantar fora. elas esperam um anel no dedinho, eles esperam que aquilo tudo não sai muito caro. os restaurantes enchem-se: o amor dá fome! [por acaso acho que não. acho que estar apaixonado é a melhor forma de emagrecer. e sobre isto havia tanto para contar... mas não pode ser.] O que interessa dizer é que sim: no dia de São Valentim - que as lojas, supermercados e restaurantes antecipam e anunciam desde os Reis -, os enamorados perdem a cabeça e para além de presentes da Tous oferecem-se o jantar protocolar que anuncia uma noite agitada. ou pelo menos mais longa. as ementas são a preceito: algumas afrodisíacas, outras apenas parvas, como estas. são receitas de um livro de culinária para enamorados, anos 80, com a chancela Barbara Cartland, essa Liberace da etiqueta amorosa. A sôra Da. Barbara aconselha uma ou duas entradas:





































(com os camarões a tentarem sair pelo tomate fora como um deles se encontra a tentar sair da relação), um prato principal que pode ser de carne ou peixe:
 
(caliente, carino), e sobremesa, porque há que adoçar a vida:

Se por esta altura ainda ninguém tiver vomitado nem tiver tido um ataque provocado pelas cores estridentes dos pratos, quer dizer que é uma relação com futuro. E o futuro é já a seguir!
- o carteiro -

o amor morreu. mas... viva o amor?

Há aquela história que diz: o rei morreu, viva o rei; ou seja, "rei morto, rei posto". No amor diz-se que "sarna de cão cura-se com pelo de outro cão"; ou seja, "amor morto, amor novo". Depois do fim da História (Fukyama) do Fim da História da Arte (Hand Belting), do fim da Pintura, diz-se que estamos a assistir ao fim do amor (Byung-Chul Han - The Agony of Eros). Ao que parece, a pornografia está a matar o amor, bem como as redes sociais que exaltam o "eu". Ora o amor necessita da anulação do "eu" para se poder exaltar. Há até aquela célebre passagem de Coríntios que diz: "O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá (1 Coríntios 13:4-8).
Mas o amor já não é o que era. Ou melhor "a notícia da sua existência foi um exagero". O amor existe, mas não é de facto necessário para o casamento. Talvez até atrapalhe. Mas houve um momento na História (dois, aliás) em que passámos a acreditar que sim, que era importante procriar, beijar, ajudar, amparar na velhice... alguém que amássemos, em vez de vivermos da juventude à velhice com alguém que nos era designado. Por um lado a Idade Média e os romances de cavalaria. Por outro a Reforma Protestante que colocou o ênfase no indivíduo, nas suas escolhas. É neste sentido que acho que a Reforma Protestante foi importante para a disseminação da ideia de "casamento com amor" desde que tal não colocasse em causa a ideia mais importante e que era a de que o trabalho tinha ligação directa a Deus.

Obviamente o amor não morreu. Toda a gente o quer sentir; toda a gente quer sentir-se amada, mesmo que isso signifique sofrer. Já amar... isso é outra coisa. Amar pressupõe a anulação do ego: para amar temos de esquecer o narcisismo e adoptar o altruísmo. Já não se ama assim. Talvez nunca ninguém tenha amado assim. E dar sempre sem receber em troca, nem esperar de facto nada em troca, parece-nos coisa de otário. Querer não implica ser querido. Ante isto Freud e a sua teoria do Eros e Tanatos faz muito sentido: a vida deveria ser um equilíbrio entre o desejo e a morte, entre o motor da vida (eros) e a inevitabilidade da morte (tanatos). O amor não morreu, mas está de facto em agonia. Numa sociedade neo-liberal em que o indivíduo é (ou deve ser), capaz de tudo, tem em si todas as possibilidades, não vencer no amor é falta de jeito ou de vontade. No primeiro caso, é "vergonhoso" e no segundo, admirável. E isto limita o amor porque ser mal sucedido nesse âmbito é feitio e não defeito. O amor é o erro que todos querem cometer. Como diria o Woody Allen: o coração quer aquilo que quer. e ponto. 

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

só amanhã

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

sai pensamento mau,
sai pensamento mau,
sai pensamento mau.
 - o carteiro -

ontem, ou anteontem, a administração Trump fez chegar aos "media" uma lista com 78 ataques terroristas que, segundo a própria administração, não tinham sido devidamente escalpelizados ou até noticiados pelos meios de comunicação social. Podem ver alguns abaixo:






















É tão ridículo publicar uma lista que refere que os atentados de Nice, Paris ou Orlando foram mal noticiados ou escondidos da opinião pública, como publicar uma lista onde a palavra "atacante" ou "atacantes" está mal escrita 18 vezes.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

"A esperança adiada exaspera o coração". (Provérbios 13: 12)
 tudo está bem quando acaba bem

O Shakespeare tinha obras com títulos muito úteis. Um deles é "muito barulho para nada". O outro é este: "tudo está bem quando acaba bem". Isto quer dizer que não importa os percalços do caminho; o que interessa é chegar à meta. (Por acaso acho que o mais importante não é chegar à meta, mas fazer o caminho.). Para Elle, a meta será receber o Óscar para melhor actriz. Não me venham com m*****: não necessito de ver os outros filmes para saber que é a Isabelle Huppert que deve ganhar o Óscar de melhor actriz. Da mesma forma que não necessito de ler todos os livros do Gabriel García Márquez para perceber que o Realismo Mágico não me diz grande coisa. Sim, a Meryl Streep é fantástica mesmo a fazer o pino, mas a Isabelle Huppert merece. Merece pelo Elle e pelos outros filmes que fez. Merece porque consegue ser fria, sarcástica, impiedosa, risível e, num Deus ex-Machina, fazer-nos sair da sala totalmente confusos: é ela a vítima ou somos nós? É que no fim, nós saímos do cinema desgastados, confusos, sem saber o que dizer e ela... ela sai airosa, reconciliada com todos, mesmo com aqueles que manipulou. Ou será da nossa imaginação e ela não manipulou o filho, o vizinho/violador, o amante? Será que ela, enquanto professora de piano não manipulou a mãe? As personagens dos dois filmes têm muitas semelhanças e eu, que adoro A Pianista, não posso deixar de adorá-la neste papel que não é para meninos. Neste caso, para meninas. Temos a cena da masturbação do amante no escritório, semelhante à da masturbação do jovem talento da música na casa-de-banho e que ela leva a cabo como se de uma punição se tratasse; temos a cena da fantasia sexual com o vizinho (enquanto ela o espreita da janela) e a cena em que a Erika Kohut urina atrás de um carro (mais uma vez a confusão: ela chora, quando urina, de dor - já que se cortava nas virilhas para simular o período menstrual - ou de prazer? Ela cortava-se para sentir dor ou para fingir, ante a mãe, que era uma outra pessoa, uma outra mulher?) E a personagem de Elle, gosta do jogo com o violador ou quer levá-lo ao desespero? Procura vingança, ou prazer? Ele é feita da mesma matéria de que o pai é feito? Pode a violência ser hereditária? É que no fim, tudo acaba bem. 

E eu queria muito (e acho) que, em nome da diversidade e de um papel que inverte a lógica da vitimização, ela ganhasse o Óscar para melhor actriz. Aí sim, tudo estaria bem.

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

- original soundtrack -

Quem gostar, muito bem. Quem não gostar, muito bem também.











Addio, del passato bei sogni ridenti,
Le rose del volto già son pallenti;
L'amore d'Alfredo pur esso mi manca,
Conforto, sostegno dell'anima stanca
Ah, della traviata sorridi al desio;
A lei, deh, perdona; tu accoglila, o Dio,
Or tutto finì.

Le gioie, i dolori tra poco avran fine,
La tomba ai mortali di tutto è confine!
Non lagrima o fiore avrà la mia fossa,
Non croce col nome che copra quest'ossa!
Ah, della traviata sorridi al desio;
A lei, deh, perdona; tu accoglila, o Dio,
Or tutto finì.

(Addio al Passato, La Traviata, Verdi)
- não vai mais vinho para essa mesa -















 
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates
e
- o carteiro -
 
caros
olá a todos, como estão? estas postagens não podem ser como eu desejaria, mas vamos lá ver o que se consegue fazer. Hoje o "ars longa, vita brevis" e o "carteiro" misturam-se pois isto é simultaneamente um "antes e depois" e uma pequena "investigação". Bom, na verdade, esta investigação foi feita já há algum tempo e o resultado, apresentado na revista Science News em 2014, mas eu achei que merecia um post. Segundo a mesma revista, foi criado um algoritmo que permite a computadores analisar pinturas de épocas e artistas diferentes e estabelecer os pontos em comum entre elas. A revista apresenta o exemplo do paralelismo entre o Fréderic Bazille e o Norman Rockwell, mas há mais. Ainda estou a tentar descobrir forma de ler o resto do artigo sem ter de me registar. Tenho a certeza que algures, uma alma caridosa disponibilizou essa informação para os totós como eu. Então cá vai o que o algoritmo descobriu:
este é o antes



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Frederic Bazille
The artist's studio, Rue de la Condamine
1870
Musée d'Orsay, Paris
 
e este, o depois (que por sua vez tem outro antes):
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Norman Rockwell
Shuffleton's Barbershop
1950
 
Este Norman Rockwell vai muito bem com este tempo de tempo de híper-nacionalismo e paternalismo bacoco que a América vive. Não me admiraria se houvesse uma revalorização, das pinturas dele. Mas não era disso que eu queria falar. Queria falar - isso sim, da composição. Vamos lá, novamente, ao antes:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Frederic Bazille
The artist's studio, Rue de la Condamine
1870
Musée d'Orsay, Paris
 
 
e agora, ao depois:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Norman Rockwell
Shuffleton's Barbershop
1950
 
Vamos lá ver: a amarelo, a braseira do lado direito da pintura; azul, no centro, o conjunto de figuras humanas; a vermelho, do lado esquerdo, a janela; a verde, no canto esquerdo, a diagonal (que numa das pinturas é das escadas e na outra, da vitrina; a rosa/roxo, a cadeira, que num dos casos é uma cadeira normal e na outra, uma cadeira de barbeiro.
Ou seja, já está tudo inventado!
Beijos e abraços. Não apanhem frio, lavem os dentinhos antes do ó-ó e não falem com estranhos.


- o carteiro -

bom, como não podia deixar de ser, hoje vamos falar da auréola, em vez do nimbo.
Tal como dito anteriormente, a auréola está para o corpo, como o nimbo estava para a cabeça.
 
A palavra auréola vem do latim aureola, o diminutivo de aura que por sua vez significa a luz do dia tocada pela brisa da manhã. Horácio por sua vez usava a palavra para designar um odor doce ou aroma leve. A palavra aura por sua vez vem do grego, de
αύρα, que por sua vez quer dizer "brisa suave, zéfiro, vapor... Estes significados apenas a um: sopro luminoso indicando a natureza da auréola que é, no fundo, uma chama e expressa, na iconografia, através de ondulações ou linhas que representem raios de luz. Aliás, no Salmo 103, v.2 lemos o seguinte: "Estás envolto num manto de luz  e estendeste os céus como um véu." Outras denominações podem ser dadas à auréola: "oval divina", "amêndoa mística", "mandorla" (em italiano), etc... Isto pressupõe que a auréola seja oval: de facto, assim como o nimbo segue a forma da cabeça, também a auréola segue a forma do corpo. Verifica-se portanto que a auréola apresenta a forma de uma oval alongada quando a figura humana está de pé, e circular ou oval quando a figura está sentada. O que não quer dizer que não se possa encontrar auréolas em quadrifólio, como estas aqui:

 
 











Catedral de Auxerre
Século XII



















Catedral de Chartres

Claro que, as intenções são diferentes: no primeiro caso Jesus tem o livro aberto e com a outra mão faz um gesto de bênção; no segundo caso Jesus tem mãos e braços abertos a mostrar as chagas. A auréola pode ser, como referido acima, uma vestimenta de luz ou uma emanação de luz do corpo divino. A imagem que mostro abaixo é uma reconstituição da imagem original, mas sim, é imagem de Deus (e não do seu filho). Deus é aliás, uma das poucas "personagens" retratada com auréola. É que enquanto o nimbo é usado por mais personagens, a auréola está limitada ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, sendo que por vezes pode ser aplicado a Maria.




















Manuscrito de Saint Sever (pormenor)
Século X

Há vários tipos de auréola. A redonda (com o arco-íris aos pés de Cristo. Calculo que seja o arco-íris. Pelo menos tem 7 voltas):



















Anónimo
1240-1300
Baptistério, Florença


A raiada:



















Boccaccio Boccaccino
Christ in Majesty with the Patron Saints of Cremona
1506

Catedral, Cremona

Em forma de amêndoa:



















Século XIII
Musée de Cluny

Bem, vou embora. Não tive tempo para mais.
- não vai mais vinho para essa mesa -

sonhei que a Cristina Ferreira estava a organizar o casamento da Fátima Lopes e eu ia ler a Primeira Leitura. Amén!...

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

a boa notícia: com o tempo, vai doer cada vez menos

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

segunda-feira, janeiro 30, 2017

- original soundtrack -

Para as Catarinas deste mundo, mas principalmente para os Carusos que sabem colocar em palavras o que se sente nestas alturas. (tradução aqui)
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Catari, Catari, pecche me dice sti parole amare,
pecche me parle e 'o core me turmiente, Catari?
Nun te scurda ca t'aggio date 'o core, Catari,
nun te scurda!
 
Catari, Catari, che vene a dicere stu parla ca me da spaseme?
Tu nun'nce pienze a stu dulore mio,
tu nun'nce pienze, tu nun te ne cure.
 
Core, core, 'ngrato,
t'aie pigliato 'a vita mia,
tutt'e passato e
nun'nce pienze chiu!
 
Catari, Catari...
tu nun `o ssaje ca
fino e `int`a na chiesa
io so' trasuto e aggiu pregato a Dio,
Catari.
E ll`aggio ditto pure a `o cunfessore:
sto'a suffri pe` chella lla...
sto'a suffri,
sto'a suffri nun se p? credere...
sto'a suffri tutte li strazie!`
E `o cunfessore,ch'e perzona santa,
mm`ha ditto: `Figliu mio
lassala sta!...
(Core' ngrato, Enrico Caruso)
adoro ver mulheres bonitas. na rua, onde fôr. fazem-me sentir no meu lugar, inferior ao delas.
elas jogam na "primeira liga", na Liga Sagres.
eu, na liga Uprel.
- não vai mais vinho para essa mesa -

 

a marcha do passado dia 21 de Janeiro, que reuniu milhares de homens e mulheres em várias cidades, contra a presidência Trump (e contra o homem em si, sejamos honestos), deverá ter tido momentos altos, histórias, cartazes... destaco esta publicada pelo suplemento The Cut do New York Times e que conta o seguinte episódio:
Sábado, dia 21, em Washington, decorria a marcha, quando uma senhora, com um lenço de apoio a Trump no banco traseiro, entra para dentro do carro onde a esperava o condutor. A senhora olhava os manifestantes à sua volta e claramente agastada disse a uma pessoa que passava: "Se vocês tivessem trabalho, não andariam aqui a fazer esta confusão". Uma mulher que se manifestava, sem olhar para o carro, respondeu: "Bitch, it's Saturday."

- ars longa, vita brevis -
Hipócrates

 
olá a todos. hoje não há "antes e depois". A vida está cara e eu não tenho tido nem tempo, nem internet, para falar a verdade. Uma vez que nos estamos a aproximar desse dia (Dia dos Namorados)pelo qual o comércio anseia, trago-vos antes um post sobre anéis. Na verdade, este é um post sobre poder e sobre o poder de um sobre o outro, bem como sobre o poder social do casamento. Porque esta coisa de casar por amor é relativamente recente e veio com os romances de cavalaria. As pessoas sempre sentiram isto; o amor não foi inventado na Idade Média. Mas o amor romântico não era necessário para casar. Aliás, o casamento não tinha nada a ver com o amor. Era um contrato onde o que importava era garantir a descendência, a subsistência das partes, e que tudo se mantivesse na ordem pré-estabelecida. Aliás, a ideia do amor romântico é um mito, como se pode ler aqui, neste link que a ana me enviou. Hoje o amor romântico está em decadência: toda a gente o quer, mas tê-lo é careta, é limitativo e, claro, uma carga de trabalhos! Toda a gente tenta compreender o que sente. Mas se o amor está na cabeça, porque é que o sentimos no coração? É que parece que é mesmo no coração, quando se trata, no fundo, de uma opção tomada dado um conjunto de circunstâncias que vão do nosso estado de espírito ao cheiro da outra pessoa. Nada mais casual, portanto. Hoje o amor romântico já não é o que era... o amor romântico deveria ser altruísta, mas é cada vez mais egoísta. Pensa-se "eu quero que me amem", mas não "eu quero amar". Não pensem que sou muito experiente nisto, pelo amor de Deus! Aliás, Deus - ou o divino - está presente neste amor romântico, embora este seja um princípio que sirva bem os prósitos do catolicismo pois o amor romântico cria relações mais duradouras e por isso, menos passíveis de uma ruptura ou de se basearem no lado físico, somente. Mas sim, existe alguma coisa de divino, de muito humano (no sentido de Humanidade) no amor romântico. Faz-me lembrar aquele texto do Livro da Sabedoria (vou citar de memória):
"A Sabedoria brilha sem perder a verdade e... Quem a busca desde a Aurora, não se fatigará, pois há-de encontra-la sentada à sua porta. Meditar sobre ela é prudência consumada e quem lhe consagra as suas vigílias depressa ficará sem cuidados..."
Ou seja: tudo tem um tempo para acontecer. Se não aconteceu, então é porque ainda não era o tempo para tal. O amor romântico, parolo ou não, tem um tempo.




















Michael Wolgemut
Portrait Diptych: Hans VI Tucher
1481













Michael Wolgemut
Portrait Diptych: Hans VI Tucher (pormenor)
1481





















Michael Wolgemut
Portrait Diptych: Ursula Tucher
1481


























































Nuremberg Master
Double Portrait of Berthold V and Christina Schmidtmayer
1475







































Nuremberg Master
Double Portrait of Berthold V and Christina Schmidtmayer (pormenor)
1475




























































Durer
Portrait of Hans XI Tucher
1499



Durer
Portrait of Hans XI Tucher (pormenor)
1499
 
Elsbeth nãoo era casada com Hans XI, mas com Nicolas Tucher. 
 
 


































Durer
Portrait of Elsbeth Tucher
1499
Staatliche Kunstsammlungen, Kassel













Durer
Portrait of Elsbeth Tucher (pormenor)
1499

Staatliche Kunstsammlungen, Kassel