
Domingo, Março 18, 2012
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
gosto muito deste quadro. não tanto do quadro, mas da expressão no rosto dela, do perfil dela. adoro. faz-me lembrar eu. talvez seja narcisismo, mas enquanto não tenho tempo para posts melhores, deixo este.

Delacroix
Orphan girl at cemetery
1824
Museu do Louvre, Paris
Sábado, Março 17, 2012
aconselho isto
Quarta-feira, Março 14, 2012
- o carteiro -
desculpem fazer isto aqui, mas será que algum dos leitores do blog conhece uma receita confiável de bolo de chocolate húmido? se sim e não se importar de partilhar comigo, por favor escreva para o endereço (no cabeçalho): beluga@portugalmail.com
prometo não transformar o belogue num daqueles blogs onde as pessoas trocam receitas de picacuati de titicuátu ou fricassé de gato.
Terça-feira, Março 13, 2012
Sexta-feira, Março 09, 2012
- o carteiro -
(sem tempo para escrever posts jeitosos)
- o que acham Marina Abramovic, Ingrid Slschy, Robert Longo e outros sobre My Favourite Cindy Sherman
- imagens e objectos da Marilyn Monroe (a mulher mais bonita do mundo)
- keep calm and carry on (história)

Quinta-feira, Março 08, 2012
Terça-feira, Março 06, 2012
Sexta-feira, Março 02, 2012
Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012
- original soundtrack -
só hoje é que reparei que esta música é mesmo muito bonita
Ayayayay
Feels like fire
I'm so in love with you
Dreams are like angels
They keep bad at bay-bad at bay
Love is the light
Scaring darkness away-yeah
I'm so in love with you
Purge the soul
Make love your goal
I'm so in love with you
Dreams are like angels
They keep bad at bay-bad at bay
Love is the light
Scaring darkness away-yeah
I'm so in love with you
Purge the soul
Make love your goal
The power of love
A force from above
Cleaning my soul
Flame on burnt desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal
A force from above
Cleaning my soul
Flame on burnt desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal
I'll protect you from the hooded claw
Keep the vampires from your door
When the chips are down I'll be around
With my undying, death-defying
Love for you
Envy will hurt itself
Let yourself be beautiful
Sparkling love, flowers
And pearls and pretty girls
Love is like an energy
Rushin' rushin' inside of me
Keep the vampires from your door
When the chips are down I'll be around
With my undying, death-defying
Love for you
Envy will hurt itself
Let yourself be beautiful
Sparkling love, flowers
And pearls and pretty girls
Love is like an energy
Rushin' rushin' inside of me
The power of love
A force from above
Cleaning my soul
Flame on burnt desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal
A force from above
Cleaning my soul
Flame on burnt desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal
This time we go sublime
Lovers entwine-divine divine
Love is danger, love is pleasure
Love is pure-the only treasure
I'm so in love with you
Purge the soul
Make love your goal
The power of love
A force from above
Cleaning my soul
The power of love
A force from above
A sky-scraping dove
Flame on burnt desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal
I'll protect you from the hooded claw
Keep the vampires from your door
Lovers entwine-divine divine
Love is danger, love is pleasure
Love is pure-the only treasure
I'm so in love with you
Purge the soul
Make love your goal
The power of love
A force from above
Cleaning my soul
The power of love
A force from above
A sky-scraping dove
Flame on burnt desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal
I'll protect you from the hooded claw
Keep the vampires from your door
(Power of love, Frankie goes to hollywood)
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
antes e depois ou quase ao mesmo tempo ou "vamos lá ver se me consigo concentrar porque estou a ouvir Nick Cave e bem sabem que isto me desconcentra. Theodore Robinson, como muitos outros antes dele e muitos outros no seu seguimento, pintou a partir de fotografias, o que não o diminui em nada. Quero por isso falar de outras coisas que não a diferença entre a fotografia e o quadro. Theodore Robinson era um impressionista americano. Sim, também os havia americanos, com ligações - em alguns casos e este é um deles - a França. Foi através dele, principalmente dele, que a América teve Impressionismo e teve contacto com o Impressionismo francês. Robinson, por exemplo, passou o Verão de 1887 em Giverny e embora tivesse dado a conhecer o Impressionismo francês, não foi através dele que desejou tornar-se conhecido, tendo por isso tentado distinguir-se de Monet de quem era bom amigo. Este quadro marca uma viragem no tempo que Robinson esteve em Giverny. Esse mesmo tempo pode ser dividido em dois períodos diferentes. Até aqui, até ao início dos anos 90 Robinson pintou sobretudo com pincelada pesada, redonda e breve, ao estilo de Pissaro. Mas a partir daqui a pincelada tornou-se mais leve e luminosa. Ora aqui ele ainda parece trabalhar quase manchas de cor, como podemos ver na água (a verde e roxo), no canto inferior direito. Mas em pequenos apontamentos o pintor tenta soltar a pintura e aplicá-la mais amiúde, mais solta e salpicada. A paleta é, na minha opinião, aquilo que mais limita o quadro. Há uma distância que procuramos ter com o quadro; não sentimos uma empatia imediata, talvez pela mancha branca dos barcos em contraste com a água bastante escura. se a água reflete o céu, então existe neste quadro uma discrepância entre um céu carregado e um dia tão iluminado como nos faz crer a luz presente no barco. é pelo menos o que eu acho, mas tendo em conta que não é um autor muito conhecido, corro o risco de estar a fazer uma análise que sirva uma ideia minha que é a que o Impressionismo francês é o melhor. Talvez não seja, mas parece. Também convém referir que segundo aquilo que penso, mesmo o pior Robinson pode ser melhor que o melhor Renoir!

Theodore Robinson
Two girls in a boat
1890
Theodore Robinson
Two girls in a boat
1891
The Phillips Collection, Washington
não sei o que se passa. já não tenho uma noite de sono sem interrupções desde 2004. lembro-me dela: foi em casa da Miriam, em Lisboa. e quando não me atacam as insónias, o sono superficial, ataca-me uma vontade de dormir para sempre. Acordo de manhã e o meu primeiro pensamento é: "quando é que me volto a deitar?". As manhãs são tenebrosas e nem é porque tenha sono... é só mesmo porque não tenho vontade de me levantar. se pudesse passava o dia, e os dias inteiros na cama, a dormir ou apenas com os olhos fechados. de manhã sinto uma dor física, sinto vontade de morrer, mas morrer com um cobertor e uma almofada. não tenho vontade de postar, de escrever, de ir às aulas, de fazer os trabalhos, de estar com os amigos. cada tarefa, mesmo as que antes gostava, é um trabalho, uma obrigação que não vejo a hora de acabar.
- o carteiro -
cenas...
[1]
[2]
merchandising Obama 2012 (t-shirts Marc Jacobs!)
[3]
[4]
A BD de Matt Bros (Steve Jobs)
- o carteiro -
os humanos de hoje são herdeiros diretos da revolução Francesa e das Luzes. Descobriram a subjectividade e por consequência, o seu estatuto privilegiado que atenua as diferenças entre pessoas, bem como transforma cada uma delas em pequenos VIP no seu microcosmos. Por fim, o homem vindo da revolução francesa sentiu finalmente a força para rejeitar Deus. Com isto porém, e sem Deus para explicar o inexplicável, o homem sentiu-se sozinho no Universo, necessitando então de acreditar em algo. Foi então que começou a acreditar na cultura e foi igualmente a partir daí que se tornou individualista. Até às Luzes, a vida em si, o mundo tinha profundidade metafísica. As Luzes vieram relativizar tudo isso e coube portanto ao homem atribuir significado e valor às coisas como por exemplo, a arte (foi aqui que se desenvolveu, e muito, o turismo, mas também as galerias de arte, os museus e a literatura de viagem).
Estamos hoje mais do que nunca relacionados uns com os outros, temos acesso a informação como nunca antes e um novo mundo se forma todos os dias ante os nossos olhos. Hoje cada um de nós tem as ferramentas para criar: a criatividade é uma forma de vida da atualidade. Vivemos no auge do mundo individualizado, a fronteira entre criadores e consumidores é cada vez mais esbatida e a criatividade é hoje a qualidade individual mais apreciada - e sobreestimada! É esta a razão para o culto do artista. Mas neste mundo cada vez mais povoado, não basta ser um bom artista; é necessário ser o melhor de todos. Porquê? Porque foi sempre assim. Desde que começamos a colaborar em pequenos grupos e percebemos que uns eram melhores que outros em determinada tarefa, esta posição passou a ser invejada. Porém, num contexto mundial de 7 biliões de seres humanos, ser o melhor é cada vez mais difícil e mais ambicionado já que ser o melhor significa pertencer a uma percentagem muito pequena, uma elite. Mas com um mundo cada vez mais global, ser o melhor pode passar por obter um conhecimento privilegiado, que não esteja ao alcance de muitos, já que a aquisição de know-how nos torna a todos muito semelhantes. É por isso que hoje, e cada vez mais, as diferenças que separam os melhores dos outros que lhes ficam imediatamente atrás são cada vez mais pequenas. O mesmo acontece na arte: as pequenas diferenças que demarcam um de outro artista, potenciam a importância do artista. O que não quer dizer que a importância que é dada ao artista seja sinónimo de qualidade na sua obra! E como é que a cultura; ou seja, nós, conseguimos distinguir o melhor? O melhor de hoje em dia é aquele que apresenta obras mais diferenciadas e acessíveis. Mas como distingui-lo entre os outros se cada vez temos mais solicitações visuais? Temos cada vez mais museus, exposições, artistas... e estes já não se debruçam sobre questões fundamentais. Os artistas de hoje criam para um estereótipo que não é apenas a pessoa que vê, mas também, e sobretudo, a pessoa que compra, através de uma linguagem própria: tem de parecer arte, tem de ser palpável e única, tem de ser legitimada pelas exposições (mas também por instituições como os bancos), tem de ser previsível e coerente de forma a criar um estilo. mas também tem de ser autêntico e original e aqui é que começam os problemas pois isso implica uma sobrevalorização da originalidade o que por seu turno leva a uma corrida em busca da novidade e por vezes, à deglutição do novo sem qualquer digestão ou pensamento crítico acerca do mesmo. acredita-se que o que os artistas fazem é cultura, mas tudo é cultura, esteja numa tela, numa pedra ou num bit, sejam passarinhos a cantar dentro de gaiolas douradas ou uma senhora a vomitar uma pizza.
hoje não conseguimos explicar uma obra de arte presente num museu sem lermos o que está escrito na legenda. com sorte não encontramos lá um "sem título". isto é quase como se um artista tivesse escrito um romance e depois um outro livro a explicar o sentido do romance. o mesmo se passa nas exposições: as exposições são livros que explicam ao observador o que o artista quis dizer. Nem sempre foi assim, só a partir dos anos 70, quando o conceptualismo e o academismo deram as mãos. isto fez com que as obras de arte fossem descritivas, narrativas e agradáveis, acessíveis; ou seja, era necessário vestir as ideias (os bonecos do kons, o tricot da vasconcelos... são isso mesmo: vestir de forma atraente uma ideia). o artista de hoje veste ideias e as exposições são desfiles de moda, onde o mais bem vestido é também o mais vestido, o que tem e transmite muitas ideias, o que é universal e ambíguo, isto porque o artista de hoje não quer que se pense que não tem ideias. por isso sobrecarrega-nos de coisas: ao dizer tudo o artista não está a dizer nada definitivo e por isso continua a ter a atenção de todos. no fim, o que nós temos é um cabide cheio de metáforas e formas de representar a ideia, mas já não temos a ideia em si! Este não comprometimento do artista prende-se com a sua necessidade de ser amado e admirado. Mas o que acontece é que estamos no mesmo sítio: começámos por explorar a arte numa direção, voltámos atrás e estudámos outros caminhos, mas agora já demos a volta e não sabemos mais que ideia é importante, o que é que é importante para a arte. Não vamos nunca voltar a fazer arte pelo amor à arte, nem sei se isso alguma vez aconteceu. como em tudo é necessário moderação, mas podemos ser mais honestos, não esperar reconhecimento ou pagamento, parar de tentar agradar a todos e acima de tudo, seleccionar. lá porque sai da nossa cabeça, não quer dizer que seja bom. o cabelo também sai da nossa cabeça...
[link]
Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012
Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012
- original soundtrack -

Another bride Another June
Another sunny honey moon
another season, another reason
for makin' whoopie
Alot of shoes, alot of rice
the groom is nervous. he answers twice
its so Killin that he's so willin'
To make whoopee
Picture a little love nest
down where the roses cling
picture the same sweet love nest
Think what a year can bring
He's washing dishes and baby cloths
He's so ambitious he even sows
but don't forget folks thats what you get folks
for makin' whoopee
Another year or maybe less
what's this I hear? Well you can't you guess
She feels neglected and he's suspected
of makin' whoopee
She sits alone most every night
He doesn't phone her he doesn't write
he says he's busy but she say's "is he?"
He's makin' whoopee
He doesn't make much money
only five thousand per
some judge who thinks he's funny
says you'll pay six to her
he says now judge suppose i fail
the judge says budge right into jail
you better keep her i think it's cheeper
then makeing whoopee
you better keep her
I know it's cheaper than makin' whoopee
Another sunny honey moon
another season, another reason
for makin' whoopie
Alot of shoes, alot of rice
the groom is nervous. he answers twice
its so Killin that he's so willin'
To make whoopee
Picture a little love nest
down where the roses cling
picture the same sweet love nest
Think what a year can bring
He's washing dishes and baby cloths
He's so ambitious he even sows
but don't forget folks thats what you get folks
for makin' whoopee
Another year or maybe less
what's this I hear? Well you can't you guess
She feels neglected and he's suspected
of makin' whoopee
She sits alone most every night
He doesn't phone her he doesn't write
he says he's busy but she say's "is he?"
He's makin' whoopee
He doesn't make much money
only five thousand per
some judge who thinks he's funny
says you'll pay six to her
he says now judge suppose i fail
the judge says budge right into jail
you better keep her i think it's cheeper
then makeing whoopee
you better keep her
I know it's cheaper than makin' whoopee
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
antes e depois ou eu bem sei Hassam o que é um tipo ser o segundo. o segundo é aquele que não ganhou ao primeiro. nunca ninguém se lembra do segundo e é por isso - e por causa da forte tradição europeia na arte (afinal era aqui se se situava a República das letras) - que tu és o segundo e o Caillebotte é o primeiro. Não te inibas Hassam, porque nem sempre quem chega em primeiro é o melhor. Neste caso o Caillebotte tem uma evidente vantagem: a perspetiva com dois pontos de fuga, pois tu aplica-la também, e igualmente com um edifício a servir de charneira. a tua visão da avenida é igual à dele; ou melhor, digamos que tu te serves do mesmo mote que ele para pintar este tipo de perspetiva. desconheço se foi propositado ou não, mas acredito que no vosso microcosmos artístico (hoje seria impossível) a cópia fosse ainda um sinal de admiração pelo original. tudo acontecia num ambiente de grande camaradagem e partilha porque de facto o vosso mundo era pequeno. hoje, com a transformação do conceito espácio-temporal, tudo está ligado, mesmo o que não está, e a noção de cópia é insuportável para quem copia. antes achava-se que Deus estava sozinho no céu porque ninguém estava ao nível dele. hoje achamos que toda a gente está no céu porque nos achamos todos divinos e especiais. o que é uma mentira, deixa-me dizer-te. o que não quer dizer que não admire a forma como retratas um dia de chuva que tenho a certeza, ser muito diferente em Boston e em Paris. Se o Caillebotte não fosse francês, eu diria que era inglês por causa do tom azul-cinza do ambiente. Como nunca fui a Boston, acredito no teu retrato climatérico. Até gosto mais da tua pincelada difusa, com contornos menos nítidos pois é assim que se vê através da chuva. É não só uma pintura de um dia de chuva como uma pintura com chuva, como se tivesses pintado e depois, ao vires embora com o quadro, o pingo grosso de uma caleira tivesse aterrado na pintura. Mas sabes o que é? É que eu pelo-me pela forma como o Caillebotte pinta a água entre as pedras da calçada...
- o carteiro -

Van Gogh
Fifteen sunflowers in a vase
1888
National Gallery, Londres
quando a minha idade era outra que não esta eu achava que namorar devia ser muito "fixe". "fixe" era a palavra que o pessoal de 6, 7 anos que queria ser "fixe", usava na altura. eu nunca recebi uma carta de São Valentim, tanto que passei a ser daquelas miúdas que se juntavam aos rapazes que recebiam as ditas cartas, debruadas a rosa e com bolas e corações em vez de pinta sobre os "is", e ficava o tempo do recreio a gozar, a rir, a fazer desenhos maldosos nas palavras sentidas das pobres. e depois fazia o mesmo juntando-me às raparigas, desdenhando da falta de romantismo dos rapazes da primeira classe... tãããão imaturos! ainda pensei em juntar-me a mais meia-dúzia igual a mim e enviar cartas falsas tanto a rapazes como raparigas, mas a verdade é que esses rapazes e raparigas começaram a namorar uns com os outros. todo um vocabulário não propriamente novo, mas muito aliciante, estava disponível. "namorar" era "passar o recreio todo com", "dar a mão" era "um beijo", "um beijo" era "fazer sexo", "mostrar as cuecas atrás de um arbusto" era excomunhão e chamada do encarregado de educação à escola. para além da vergonha de muitas vezes não termos as cuecas mais sexys porque tinham sempre desenhos, ou risquinhas ou eram de cores berrantes como as cuecas da Barbie que se usavam muito. havia também um jogo que, às escondidas, as miúdas menos populares faziam. eu fazia, confesso. consistia em fazer um quadrado no centro do qual se escrevia a idade com que desejávamos casar. havia quem dissesse 18 anos. todas exclamávamos: "tão cedo?". e para mostrarmos que éramos muito mais independentes e que o amor era só uma parte da vida, escrevíamos no nosso jogo, "28". quem queria ser mesmo radical, escrevia "30", mas aí já ninguém ligava porque todas achávamos que aos 30 anos estaríamos mortas. em cima do quadrado, na parte exterior escrevíamos "1", "2" e "3" números estes que correspondiam ao número de filhos que desejávamos ter. desconhecíamos a esterilidade, a infertilidade e a opção de não ter filhos. afinal, nós éramos o resultado da opção contrária. do lado esquerdo do quadrado, exteriormente colocávamos três nomes que correspondiam a três pessoas com quem desejávamos casar. Essas pessoas tinham sempre entre 6 anos (ai ai... os rapazes imaturos), e 28 anos (ai ai... o George Michael...). do lado direito ficavam os nomes de três locais onde gostaríamos de passar a lua de mel. eu escrevia sempre egipto e madrid porque gostava das consoantes mudas e rematava por vezes com um lugar exótico: caraíbas. que eu não sabia onde ficavam. também dizia Taiti, porque a Barbará tinha um gel duche com embalagem paralelepípedica que se chamava Taiti-com monoi. Em nunca dizia "passa-me o Taiti" dizia "passa-me o Taiti Comónoi". Não me lembro do que me calhava, mas acho que saía satisfeita. depois amarfanhava a folha para a minha mãe não ver. sentia que lhe fazia uma traição e acima de tudo, que traía deus. mais tarde, já com 15 (ai ai, as raparigas imaturas...) fazíamos um outro jogo: escrevíamos o nome dele seguido de "love" seguido do nosso nome. Depois contávamos as vezes que apareciam as letras. passo a exemplificar: Maria love João= 131113111. depois somávamos os números dos extremos, o que segundo o exemplo dava 24241. novamente: 382 e por fim: 58. neste caso a Maria gostava do João 58%. era ver darmos pulos de alegria quando a percentagem chegava perto dos 100%, no liceu, cá fora, frente às salas de aula dos outros. quando não dava, era o jogo que estava errado. por causa disso, por fazermos barulho frente às janelas das salas de aula dos outros e por darmos beijos na boca umas às outras, diziam cobras e lagartos de nós, mas éramos tão inocentes!!! no fundo acreditávamos que o jogo do quadrado e todos os outros jogos que nos preconizavam uma vida amorosa plena de alegrias eram a mais pura verdade, mesmo que não existisse mais o Taiti.
Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012
- original soundtrack -
bem, eu não percebo muito de música, por isso se me quiserem "tagar" por causa deste post, estão à vontade. o que tenho a dizer em minha defesa é que gostei da música (é cá um parasita!) e gostei dela. ouvi dizer que é "the next big thing". não sei, nem sei como é que se pode classificar esta música cheia de palavrões, mas gostei.

(212, Azealia Banks)
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
antes e depois ou como sempre que escrevo o título destes posts acho que devia mudar o aspeto do Belogue. mas em equipa que ganha (?!) não se mexe. bem, vamos ao que interessa. ainda que achem que uma imagem não tem nada a ver com a outra, reparem bem nos gestos da primeira e segunda personagens do friso egípcio e comparem com a pintura de Gauguin. o nome original do quadro é Ta Maatete que quer dizer qualquer coisa como "hoje iremos ao mercado" (gente parca em palavras). o melhor é que ele usa como modelo uma cultura muito afastada dele (ele tomou contacto com o friso no British Museum) para aplicar em outra cultura que também estava afastada dele, embora ele de facto vivesse lá, no Taiti. isto de usar outra cultura tem o que se lhe diga. é que o Taiti não tinha, segundo Gauguin, uma tradição artística e por isso o pintor usou a civilização egípcia. porquê a egípcia? porque achava-se que a polinésia tinha alguma relação com o egipto já que na na altura em que se assistiu à hegemonia deste povo, foi também quando se assistiu à hegemonia dos peles-vermelhas dos quais os taitianos eram oriundos. esta é uma das poucas pinturas relativas a este período em que Gauguin refere a realidade social da vida do Taiti. deste período vemos muitas mulheres deitadas, padres a tentar evangelizar as gentes, mas pouco sobre a sobre a vida em sociedade.
As pinturas murais do túmulo do nobre Nebamun são anteriores a Amenhotep III, que deu o grande impulso ao monoteísmo egípcio e fez florescer uma nova forma de fazer arte, muito mais humana e natural. Aqui não se nota, mas a figura feminina que em pé serve a primeira figura feminina sentada, apesar de manter o modelo representativo do corpo frontal e a cabeça de perfil, tem já um ventre muito redondo, anunciando já o humanismo, mas também a estilização do reinado de Amenhotep.
- o carteiro -
e hoje, algo completamente diferente: retrato.
nunca liguei muito a retrato. achava que era só isso: a cara/corpo de alguém, e até uma demonstração de algum narcisismo por parte do retratado. nunca compreendi aquelas pessoas que iam de férias para albufeira ou para barcelona e pagavam para se verem retratadas. mas desde que comecei a estudar retrato reparei em outras coisas. neste retrato de ostentação, isolado, a 3/4 e de pé, o rei mostra-se em toda a sua força e graciosidade, apesar de aqui já possuir mais de 60 anos, o que naquela altura deveria ser muito. obviamente não teria o cabelo preto retinto. a cabeleira também faz parte do figurino e contribui para o aparato. Mais, Luís XIV posa como se estivesse a fazer uma dança, o que no seu caso não é para admirar já que ele era um fervoroso amante de dança. aliás, o rei movia-se como numa dança. todo o cenário mostra o seu poder real, cenário esse que se encontra mesmo montado. vemos uma coluna semi-escondida no veludo vermelho pesado, um pedestal onde a cena se desenvolve e tudo isto coberto por ricos tecidos. o veludo é preso com cordão e borlas douradas e a coroa repousa num pequeno banco. já tínhamos visto aqui no belogue que as coroas nunca são usadas a não ser no momento da coroação. no caso português encontram-se sobre um banco porque não pertencem ao rei, pertencem a nossa senhora da conceição desde 1640, mais ou menos. para além disto o que quero mostrar aqui são três singelos aspetos: a mão da justiça, os estofos e o avesso do seu manto real coberto de arminho. quanto à mão... a mão, encontra-se pousada no mesmo banco onde está a coroa. vemo-la com dois dedos esticados. sei que foi adoptada por Carlos Magno, diz-se que lhe pertencia, mas lembra-me e muito a mão de um clérigo na bênção. segue-se o tecido azul com estampado a dourado. o que está estampado são as flores de lis, símbolo da França e dos bourbon. os lírios eram, na antiguidade, as flores que tinham surgido do leite derramado do seio de juno quando esta dava de mamar a hércules (que ainda por cima era filho do marido com alcmena). é também símbolo de pureza e castidade na iconografia religiosa (que terei de fazer próximo semestre. a propósito, não sei se fica muito bem dizer isto aqui, mas como está no meio de muitas letras talvez ninguém repare: tirei 18 a história da arte e civilizações do mundo antigo. poderia ter tirado mais, mas o trabalho correu-me mal). segue-se o manto com o forro em arminho. arminho é uma espécie de doninha, mas de maior porte de com cauda mais comprida e negra na ponta. no inverno muda o pêlo para branco. aquilo que vemos no avesso do manto, aqueles pontinhos a branco são a cauda de arminho. cada ponto é um arminho morto. ora o arminho era símbolo de incorruptibilidade e por isso uma pele que quase ninguém na classe política nacional poderia usar! agora a sério. o arminho é um animal especial que representa a a pureza e a contenção: só comia uma vez por dia. para além disso os caçadores sujavam com lama a entrada da sua toca. como o animal preferia morrer a sujar-se na lama, acabou por se tornar símbolo da pureza e da castidade

Hyacinthe Rigaud
Luís XIV, rei de França
1701
Museu do Louvre. Paris
Segunda-feira, Janeiro 30, 2012
Quarta-feira, Janeiro 25, 2012
- não vai mais vinho para essa mesa -
porque é que se diz que as bandeiras da argélia, malásia, maldivas, turquia... entre outras, têm um crescente? elas têm é um decrescente.
Segunda-feira, Janeiro 23, 2012
- original soundtrack -
eu sei que vocês são muito bem relacionados e têm facebook e twitter e isso tudo, e por isso já tiveram conhecimento desta parceria, mas vou deixar aqui o link na mesma porque gostei

- ars longa, vita brevis -
hipócrates
antes e depois ou depois de estudar HACMA. depois de estudar HACMA durante duas semanas uma pessoa não consegue pensar neste século nem neste milénio: as pessoas passam a chamar-se Imhotepe e Nofret e vivemos todos a preparar o nosso ka para a vida post-mortem. penso que perco tempo com isto, mas pelo menos fico a saber que afinal de contas - e ao contrário do que disse um senhor na televisão sobre os tempos feudais em que vivemos - , os egípcios eram pagos para construir o túmulo do seu faraó. para além disso os escravos tinham direitos como o direito de posse e casamento. mais, na mesopotâmia, e a partir do código de Hamurabi, existia uma lei que proibia a condenação sem provas, assim como outra que hoje conhecemos como "presunção de inocência". como a minha capacidade para derivar é grande, mesmo sem justificação, vou poupar-vos a parvoíces e tentar iniciar este post que em vez de ter um antes e um depois, deveria ter um antes e três depois. ficaríamos então com Rembrandt, Caillebotte (tenho quase a certeza que conseguiríamos qualquer coisa entre estes dois...), Chaim Soutine e Hermann Nistch, já que todos eles pintaram (no caso de Nitsch foi uma fotografia) bovinos esventrados. porém, e como já apresentei uma coisa assim parecida (como se isso alguma vez tivesse sido um impedimento...) vou abreviar e confrontar apenas o Caillebotte com o Chaim Soutine.
Caillebotte faz o que lhe compete: uma natureza morta. Aliás ele já havia feito coisas parecidas com uma língua de vaca e uma cabeça de porco (acho eu), penduradas num talho. o corpo do animal esventrado parece ter também uma ornamentação, tal como uma montra de talho, só que agora fazem desmaiar um raminho de salsa sobre as costeletas do cachaço, ou sobre a carne já moída (o que acho que não é permitido por lei... mas ainda se continua a ver. por acaso o trabalho dos talhantes desde sempre me fascinou. o corte da carne desde sempre me fascinou, mas isso fica para outra vez). Outro exemplo desta decoração da carne é o célebre leitão com uma laranja na boca, que é uma coisa que me choca porque um leitão é um porco bebé... não havia necessidade. bem, Caillebotte pinta sem sangue, como se o animal já tivesse sangrado tudo e tivesse sido limpo das vísceras e assim pudesse, contra todas as vozes figurar bem num quadro. É uma versão eugénica do animal esventrado. Já Chaim Soutine mostra a carcaça numa posição diferente. Como em Caillebotte não vemos mesmo o local onde as patas traseiras acabam, parece que o animal está bem seguro, está bem enquadrado. Já em Soutine isso não acontece. A carcaça está em desequilíbrio, no meio de nada (o fundo não é figurativo) e para além disso está mais aberta que a carcaça pintada por Caillebotte. Até parece ter sido sodomizada. Apesar de parecer ter sangrado o uso de cores que Chaim Soutine faz, mesmo as do fundo, acentuam a sugestão de sangue no animal. Tudo é berrante. Vemos que a peça em desequilíbrio e o jogo de cores é suficiente para a primeira nos parecer aceitável e a segunda, assustadora.

Caillebotte
Veau à l'étal
1882

Chaim Soutine
Le boeuf écorché
1924
- o carteiro -
o paper de Iconografia Profana III e última (mais havia a dizer, mas tinha um número limite de páginas)
Em meados do século XIX, Paris era a cidade para onde afluíam todos os que procuravam arte, progresso, indústria e grandes emoções. E um dos locais que os dandies, as demi-mondaines, os burgueses e os turistas frequentavam era justamente o Folies-Bergères, um bar repleto de prostitutas onde se podia assistir a programas de variedades e, obviamente, ver e ser visto. Walter Benjamim escreveu a propósito de Paris em 1929, que era a cidade dos espelhos e se o autor alemão não se referiu, com isto à galeria de espelhos em Versalhes, podemos imputar-lhe a referência a Manet neste seu bar. (Fig. 14) O pintor não retratou a cena in loco, como faziam muitos dos seus contemporâneos, mas antes no atelier. Por isso a luz que vemos não é a luz real do espaço, nem o poderia ser já que num bar privilegia-se sempre uma luz mais coada, menos reveladora. Note-se que as senhoras admitidas eram, na sua maioria, prostitutas e a prostituição não era legal. Embora o bar, à data, já fosse iluminado por uma das grandes invenções da época – a luz eléctrica – e também pelos candeeiros a gás, estamos em crer que nenhuma das duas opções provocaria tal incandescência. Também a rapariga ao balcão, de seu nome Suzon, não foi pintada no seu posto de trabalho, tendo-se deslocado até ao atelier de Manet. Este balcão, nesta pintura, não teria aliás razão de existir caso Manet tivesse sido fiel à realidade, já que nesta os três balcões do Folies-Bergères situam-se no exterior do edifício, junto aos jardins. No espelho que vemos no fundo, e que ocupa quase a totalidade da tela reside grande parte do entendimento da mesma. Vemos como reflete a jovem, o cavalheiro de chapéu e as senhoras ao fundo, mas escapa-nos um pormenor: se Suzon se encontra de frente para nós, fitando-nos como que esperando o pedido de uma taça de champanhe, porque não tapa ela, com a sua figura, todo o reflexo que a mesma teria caso Suzon se encontrasse mesmo de frente? Para a vermos refletida quase a ¾, seria necessário que o espelho estivesse em posição oblíqua, o que não acontece como o corrobora a moldura, paralela à moldura do próprio quadro. Aqui, tal como no Dejeuner sur l’herbe, Manet quebrou regras que os académicos do seu tempo viam como inquestionáveis. Paralelamente esta distorção da verdade matemática permite-lhe dar a conhecer um pouco mais do espaço: as duas senhoras refletidas no lado esquerdo do espelho são uma conhecida de Manet, a demi-mondaine Méry Laurent de vestido branco e atrás dela, de bege, a atriz Jeanne de Marsy. Elas constituem quase a exceção na tela já que as senhoras eram apenas admitidas de duas em duas semanas e graças a um “livre-trânsito” disponibilizado pelo gerente do local. No canto superior esquerdo do quadro, um pouco acima da cabeça da senhora Laurent, podemos ver uns botins verdes no trapézio, elemento esse que sustenta a existência de espetáculos de variedades naquela casa.
Fig. 14
Manet
Um bar no Folies-Bergères
1882
Courtauld Institute, Londres
Do lado direito do quadro, está presente uma figura um pouco enigmática, que se por um lado vem de encontro ao que foi dito acerca da quebra das regras de perspetiva, por outro não deixa de nos ser estranha. (Fig. 15) O “ele” e o “nós” confundem-se: o homem está perto o suficiente no reflexo, mas não na realidade, já que se estivesse ali junto ao balcão, estaria pintado lá. Por outro lado, a imagem do espelho, com a jovem Suzon ligeiramente inclinada para ele, pressupõe um grau de intimidade que o seu olhar, quando visto de frente, dissuade uma vez que ela está distante e talvez até, um pouco triste. Ele é o dandy/flanêur (uma e outra coisa não são a mesma) que a seduz, que procura conversa ou companhia que procura um contexto para a sua existência e presença naquele espaço, tal como nós. Um pormenor, que não existe no espelho, mas fora dele, tem de ser referido. Manet era um grande conhecedor de iconografia clássica. A isso não será alheia a presença, em alguns dos seus quadros, de naturezas-mortas, que não sendo o tema das telas, ajudam-nos a compreender as mesmas. Note-se que as naturezas-mortas eram pinturas non gratas, ou pelo menos, menos consideradas quando comparadas com cenas históricas, por exemplo. Estariam portanto no fim de uma escala de importância que os académicos seguiam à risca.

Fig. 15
Porém, no balcão podemos ver uma jarra com duas rosas: uma branca e outra rosada. As rosas são para a iconografia da Antiguidade símbolo de Vénus e estavam associadas à Virgem Maria nas pinturas religiosas. Para se certificar que estaríamos atentos a estes pormenores, Manet coloca não só a rosa branca (símbolo de pureza) junto à rosa pálida (símbolo do amor divino), como as arranja numa jarra com água, símbolo de pureza, e repete-as no corpete de Suzon. (Fig. 16) Avançaríamos com a hipótese de esta mulher de desdobrar em duas: ser a imagem divina que “serve o seu Senhor” e a Vénus que no espelho atende o seu senhor. Ainda que fique sempre a dúvida, face às laranjas que se encontram no balcão e que já foram usadas por Manet em pinturas onde figuravam prostitutas, se esta não seria apenas mais uma rapariga do campo que chegava à cidade procurando manter simultaneamente a sua ingenuidade e comer à guisa de alguns favores sexuais. Honni soi qui mal y pense.

Fig. 16
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Van Gogh
Fifteen sunflowers in a vase
1888
National Gallery, Londres
quando a minha idade era outra que não esta, as escolas primárias da cidade programaram em conjunto os festejos do dia mundial da criança. cada turma tinha de aprender uma canção que tinha como mote uma letra. ficámos com a canção do "d". não me perguntem a idade que eu tinha, o ano em que isto aconteceu, ou a logística da coisa. só sei que tinha de cantar a canção do "d", e se possível sem papel. ensaiámos arduamente (eu pelo menos) para saber a canção na ponta da língua. no dia, após um desfile pelas ruas da cidade, com uns chapéus à chinês feitos com cartolina, fomos todos colocados dentro da praça de touros. sem touros. ali várias turmas cantaram as suas músicas até chegar a vez da canção do "d". não me lembro se tínhamos de cantar as músicas por ordem alfabética. quando chegou à nossa vez, à vez da turma da dona Alcina, a coisa lá saiu:
"doíam os dentes ao demónio
há dez dias que não descansava
desceu ao dentista
e fez um grande pandemónio
dançou de medo e desespero
o demónio indicou o dente com o dedo
desatou a dizer as desgraças dele
..."
e por aí em diante. não me lembro do resto nem me lembro se acabava com o demónio desdentado ou com placa. gostei de saber, desde essa altura que o demónio tinha dores de dentes e que tinha desgraças para contar (quatro alminhas que se salvaram, uma tentação frustrada, oh opróbrio...). depois, depois veio o rui veloso e a miudagem passou-se. também não me lembro se tocou muitas músicas, mas acho que não. hoje penso que o rui veloso foi lá porque estava perto e não lhe custava nada. acho que tocou as músicas mais conhecidas, incluindo o chico fininho cujo disco tínhamos lá em casa. eu não sabia colocar os discos a tocar e por isso quase sempre os ouvia na rotação errada. lembro-me de ter dançado o chico fininho como de fosse charleston e vim embora. lembro-me de me ter sentido muito feliz. quando cheguei a casa fui ver a Rua Sésamo em espanhol, a preto e branco (alguém lá na rua tinha parabólica, uma inovação!). para ligar a televisão tinha de subir a uma cadeira e a um móvel. uma vez bati com a cara no móvel e lá se foi um dente que estava a abanar. enquanto via a Rua Sésamo, comi pão com manteiga e marmelada e tomei leite da garrafa termos, que a minha mãe tinha deixado preparado desde manhã. acho que a minha avó passou por lá, a caminho da praia, para eu lhe desapertar os milhares de colchetes da cinta e ela poder vestir o fato de banho que mais parecia uma armadura, principalmente nas mamocas. a minha avó tinha mamoca para dar e vender. se eu soubesse o que sei hoje, tinha comprado... depois a minha avó foi para a praia, ali a dois quarteirões para apanhar sol nos ossos, mas não nas varizes. eu não temia a velhice. a velhice era como um daqueles daqueles comboios em que de vez em quando alguém ficava debaixo. como era possível ficar debaixo de um comboio? a gente ouve o comboio a chegar e se não ouve, é porque ele ainda vem longe. a velhice era como um comboio que eu não ouvia chegar. era impossível ficar debaixo da velhice. hoje o que me perturba é saber que isto não é o ensaio geral para a vida.
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boas exposições e porque é que o Sporting escolheu girassóis e borboletas:
[1]
Segundo Lucia Impelluso (Nature and it's symbols, The J. Paul Getty Museum) a borboleta é símbolo da morte e ressurreição. E isto já vem de longe. Em grego, o termo psyche tanto quer dizer alma, como borboleta razão pela qual muitas vezes Psyche, amada de cupido, é representada com asas como naquela escultura de Canova. Mas enquanto na Antiguidade a borboleta/alma podia ser uma sombra da morte, no Cristianismo a imagem da borboleta estava relacionada com a ressurreição devido ao percurso de vida do inseto, mas acima de tudo, devido ao facto de sair do casulo (isso fascinava as pessoas). Quando nas naturezas mortas (penso que esse é o caso do Sporting), as borboletas são retratadas junto a flores várias e junto a outros insetos como moscas ou libelinhas, representam a vitória do bem contra o mal. Já que estamos a falar de um clube de futebol que tem de enfrentar tantos adversários, parece-me bem. Quanto ao girassol ele é símbolo da ninfa Clítia. Clítia era uma ninfa que amava Apolo, mas ele estava apaixonado por outra que por acaso era filha do rei da Babilónia. Clítia não fez a coisa por menos e correu a contar ao rei Orchamus o que estava a acontecer. O rei furioso mandou enterrar a sua filha numa cova muito funda. Ora Apolo andava de um lado para o outro no céu, a tentar levar até essa cova algum cheiro que trouxesse a sua amada de volta à superfície. E Clítia olhava para ele, a cruzar o céu de manhã à noite, a ver se Apolo lhe dispensava um bocadinho de atenção. Eu acho que o girassol é a flor dos amores não correspondidos. Embora Ovídio não tenha referido que Clítia se transformou num girassol, o mais provável era que fosse essa a flor. Quanto ao Sporting... receio que o clube se veja como Clítia, que procura o Sol.
[2]
Damien Hirst: The complete spot paintings 1986-2011 na Gagosian Gallery e também em cerca de mais 11 locais diferentes. A exposição celebra os 25 anos de pintura de bolinhas do artista inglês e inclui cerca de 300 pinturas desde a primeira bolinha criada em 1986, passando pelas bolinhas mais pequenas em 1996, até às bolinhas de 2011. Esta exposição que abriu dia 12 e estará patente, numa galeria perto de si, até ao dia 18 de Fevereiro antecede a primeira grande retrospetiva dedicada a Hirst e que terá lugar na Tate Modern de Londres em Abril deste ano.
[3]
Gilbert and George: The urethra postcard pictures na Pinacoteca Giovanni and Marella Agnelli em Turim. Com um título "simpático", esta é a primeira exposição dedicada aos postais realizados pelo duo inglês. São mais de 130 dos postais de 2009, bem como alguns do final da década de 60. Até dia 6 de Março.
[4]
Mathematics: a beautiful elsewhere na Fundação Cartier em Paris até Março. Esta exposição inclui o contributo de matemáticos e cientistas em áreas que nos parecem tão estranhas como a teoria do número, geometria algébrica, geometria diferencial, topologia, probabilidades e (a minha preferida) matemática aplicada à biologia. Estes cientistas e matemáticos foram acompanhados por nove artistas incluindo Hiroshi Sugimoto, David Lynch, Patti Smith e Beatriz Milhazes que traduziram em obras (algumas melhores que outras, há que dizê-lo. há gente que não se percebe muito bem o que fez) conceitos matemáticos.
[5]
Judaism: a world of stories na Die Nieuwe Kerk, em Amesterdão, até 15 de Abril. Esta exposição conta com mais de 500 objetos e conta a história de cerca de 3000 anos de cultura, religião e art judaica. Os objectos em exposição vão tanto dos manuscritos no Mar Morto, do século I até um quadro de Chagall ou tapeçaria contemporânea.
[6]
Azzedine Alaïa in the 21st century no Groninger Museum até 6 de Maio. O estilista tunisino foi um dos mais importantes dos anos 90 e criou peças que tinham tanto de sedutor como de impraticáveis já com elas as mulheres pareciam uns insetos. Esta exposição mostra o trabalho de Alaïa nos últimos dez anos e está organizada pelos materiais usados: em cada divisão é focado um dos materiais usados pelo estilista, do veludo ao chiffon.















