quarta-feira, junho 08, 2016

- o carteiro -

Um-post-fútil-a-combinar-comigo-e-com-a-silly-season

Há duas coisas que compro por impulso (quer dizer, com algum impulso porque estou mais para Tio Patinhas do que para Patacôncio). Uma é/são livros e a outra é roupa interior (pensavam que ía escrever "sapatos" ou "carteiras". Não, a "minha cena" é roupa interior). Claro que é muito mais fácil comprar livros que roupa interior: os valores envolvidos na aquisição de livros são no geral mais baixos do que na roupa interior, um livro não deixa de servir, não perde elasticidade, não passa de moda...
 
A aquisição de roupa interior é sempre uma desgraça. Mas sabe bem. Fosse ela Chantal Thomass ou Agent Provocateur e saberia ainda melhor. Já a minha avó me dizia que era necessário andar com a melhor roupa interior possível. Ela fartava-se de comprar camisas de dormir, o que me intrigava. Percebi mais tarde que ela não era coquete; tinha era receio de ir parar ao hospital. Dizia-me "a roupa interior tem de estar sempre bem pois nunca se sabe quando vais parar ao hospital". Custa-me por isso ver na ginástica, na natação, mulheres que se arranjam todas por fora, mas que usam roupa interior que parece que foi à guerra. Bom, também não sou exemplo: tenho uma gaveta cheia de roupa interior à qual nunca tirei a etiqueta. Penso "ah, é uma pena usar... fica para uma ocasião especial". Que ocasião especial? A cerimónia de entrega dos óscares?

 Já a aquisição de livros é mais caótica. Um destes dias fiz uma loucura (bom, também não foi nada por aí além): tinha visto num alfarrabista um livro por 10 euros. Convém dizer que quando era pequenina dizia "alfarrebista" porque se um alfarrabista vendia livros, também vendia revista (alfa-revista). Mas como me movo pelo Norte, o alfa-revista seria compreensivelmente um alfa-rebista. Bom, olhei para o livro e pensei que com jeito ainda poderia comprá-lo por menos de 10 euros. Mas no dia seguinte, à hora de almoço e um bocado aborrecida com o trabalho, resolvi ir a uma livraria. E mesmo sabendo que era uma má aquisição, trouxe o mesmo livro, a mesma edição, pelo dobro do preço. Pensei "que se lixe, vou desgraçar-me. Hoje até me vendem fósforos à porta do inferno". Para além dessas aquisições inflacionadas, às vezes também compro livros que sei, nunca vou ler. O/os tal/tais tsundoku. Alguns porque não vou ter tempo de ler até ao fim da vida, outros porque, após comprá-los percebo que fiz asneira: conferência do Georges Duby sobre uma coisa qualquer, relatório de contas do ministério da cultura em mil novecentos e não sei quê, volume II da história da Idade Média, quando o I está esgotado...
 
Pronto, era isto. Não tenho postado nada de jeito porque me falta tempo para investigar. abracinhos dos bons, que dos maus não vale a pena.

7 Comments:

Anonymous pedro b. said...

No sábado de manhã, na feira de Estremoz, também comprei uns livros que sabe-se lá quando vou ler. A feira de Estremoz é uma espécie de "vandoma" (feira da ladra) misturada com feira de hortaliças, louça regional, galináceos, coelhos e canários. Vende-se de tudo. A minha filha comprou uma banheira velha de latão, sem fundo, por 20 Euros a um cigano muito gordo e simpático, que estava a comer uma sande de queijo. Vimo-nos à rasca para meter a banheira dentro da mala do carro. Tivemos que tirar as malas para fora e rebater um dos assentos. Um dos feirantes emprestou-nos uma fita métrica.

Fui comprando livros cada vez mais baratos (na verdade não comprei muitos, apenas uns quatro ou cinco); nas primeiras bancas custavam 5 Euros, depois mais à frente já eram dois por 5 Euros, e lá para o fim da feira, debaixo de umas árvores, um velhinho vendia tudo a 1 Euro. Comprei um policial do Erle Stanley Gardner, “O Estranho caso do gato envenenado”, mas estava lá, por ex., “Mito e Significado” do Lévi-Strauss (Eds. 70). Era tão barato que estive para o comprar também mas a minha filha disse: “Vá, para com isso, pareces maluco a comprar livros!” Havia também livros alemães e franceses numa outra banca, quase tudo a 1 Euro; um mini-catálogo de bolso sobre cerâmica de Picasso, com reproduções a cores.

Custou-nos bastante regressar ao Porto com a carrinha cheia de lixo, os livros e papéis misturados com as garrafas de água, uma flor de alcachofra gigante embrulhadas nuns panos, para não se estragar no meio da malas, o raio da banheira a chocalhar lá atrás, a cada curva da estrada.

13/6/16 8:50 da tarde  
Anonymous pedro b. said...

Querida Beluga,

Depois de muito vasculhar, lá consegui descobrir a razão porque, a partir do Quattrocento, a serpente da Queda de Adão e Eva aparece representada com rosto e corpo de mulher. Coloquei o comentário no respectivo post. Gosto muito de ler este blog, que mistura assuntos sérios com puros disparates e coisas para nos fazer rir. Infelizmente nem sempre tenho muito tempo para colocar comentários.
Beijos,

15/6/16 4:06 da tarde  
Anonymous pedro b. said...

p.s.: este blog é muito instrutivo, estou sempre a aprender coisas novas! Por exemplo, nunca tinha reparado nos corninhos da serpente-menino do quadro de Ticiano, talvez porque na versão de Rubens (ou cópia, quase podemos dizer), mais divulgada, eles não aparecem.

15/6/16 4:09 da tarde  
Blogger beluga said...

Olá professor, boa noite

Desculpe responder apenas agora. Fui fazer um retiro espiritual para a Birmânia. Estou a brincar. Fui fazer um retiro espiritual para Fátima. Estou também a brincar. Fiquei a pensar na vida e não me apeteceu postar. A pensar naquilo que acontece, e principalmente, naquilo que não acontece. Dou por mim a pensar "será culpa minha? será alguma coisa que eu faço ou digo? será alguma coisa que eu tenho? Ou que não tenho..."

Também me dá para essas coisas: não para comprar banheiras de latão, mas para adoptar o pensamento de uma amiga minha ("é tão barato que é uma pena não comprar"). E esse do Mito e Significado, valia a pena. Aliás, não sei se se recorda, mas uma vez, há muitos anos, encontramo-nos num Mercado do Livro, no Mercado Ferreira Borges. Ou tínhamos combinado alguma coisa? Já não me lembro. Este Natal comprei umas coisas boas para oferecer, a preços simpáticos: O Eleito do Thomas Mann e um livrinho do Proust.

Obrigada por gostar do blog: é uma coisa em que eu sei que sou boa. é talvez a única (desculpe, tenho andado a pensar muito). Deixo-lhe aqui um desafio, com mais corninhos:

Francois-Leon Benouville (French, b. 1821 - d. 1859)
Martyrs chrétiens entrant à l'amphithéâtre/ Christian martyrs going into the amphitheatre (1855)
Oil on canvas 4.59 x 3.91 m
Musée d'Orsay, Paris,

(Repare no homem que se encontra por cima da entrada em arco. está a fazer corninhos)

boa noite, obrigada por esta troca de ideias e até breve, beluga

22/6/16 10:51 da tarde  
Anonymous pedro b. said...

Sim, lembro-me de termos estado no Mercado Ferreira Borges, a Ana Clément comprou uma série de volumes encadernados do Camilo (ou seriam do Eça? Não, acho que eram do Camilo, até porque ele escreveu muito mais do que o Eça e aquilo deviam ser volumes 'despernados', romances ou novelas que a Clément ainda não tinha lido).
Beijos,
pedro b.

24/6/16 10:57 da tarde  
Blogger beluga said...

Eish… não me lembro disso!
Infelizmente, o Camilo escreveu mais do que o Eça e chegou a dizer, acerca d’A Relíquia, que a história se dividia em duas partes: a primeira parte era lixo e a segunda era porcaria (não foram estas as palavras, mas o sentido foi este). Felizmente o Eça é muito melhor que o Camilo. Estou até pensar mandar fazer uma t-shirt com os seguintes dizeres: “In Eça we trust”.
Não me lembro mesmo desse encontro com a Ana…

27/6/16 12:52 da manhã  
Anonymous pedro b. said...

Eu também gosto mais do Eça, mas as opiniões dividem-se. Muita gente considera o Camilo superior -por ex., uma colega minha (da UA), que diz "nunca seria capaz de ler um livro do Eça duas vezes" - ao contrário do Camilo, subentende-se, embora eu ache ela também nunca leria duas vezes um Camilo. E depois há a personagem, o Camilo "romântico", etc. Eça era por vezes um quase-jornalista, um cronista, um crítico dos costumes - e também um cínico, claro. Camilo era uma força da natureza, um apaixonado (ou um tresloucado, depende dos pontos de vista). Era um exagerado, como todos os Românticos… Com tudo isto, apercebi-me agora que sei muito pouco de Camilo (sei talvez um pouquinho mais de Eça); contam-se muitas histórias - sobre a vida dele no Porto, por ex.- mas algumas diria que são apócrifas. Bjs,

28/6/16 2:06 da tarde  

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