segunda-feira, janeiro 28, 2013

- o carteiro -

gostos discutem-se

pelo menos para mim. quando vejo o gosto dos jogadores de futebol, penso que de facto, "podes tirar a pessoa da pobreza, mas não tiras a pobreza da pessoa". uma pessoa com dinheiro e poder não é necessariamente uma pessoa bem formada, honesta, e com bom gosto. veja-se o Liberace ou o ronaldo. em relação à arte passa-se o mesmo. veja-se o Berardo e o parque do Bombarral. lembram-se daquela história do Hitler que foi recusado na academia de Belas-Artes (duas vezes)? Não sei se foi isso que fez dele um colecionador tão azeiteiro, mas há mais. Ao que parece o mercado da parolice já foi tomado pelos déspotas, ditadores e negociantes de droga todos.

O Hitler por exemplo, para além de ter organizado a Entartete Kunst - que, segundo a minha opinião era para alguns que o acompanhavam uma forma de ver boa arte (sim, porque os museus pilhados não foram só para as fogueiras nem para as exposições de arte degenerada. acho que muita coisa boa foi para usufruto pessoal de alguns colaboradores) - era um colecionador de Wolf Willrich e de Bocklin. Ainda que Bocklin seja um simbolista reputado, a Ilha dos Mortos, quadro preferido de Hitler é um mau Feng Shui. Remate à trave: vá lá, o pequeno homem gostava de Friedrich e de Speer. 
















Wolf Willrich
Family

O amigo Goering tinha melhor gosto: apreciava Botticelli, Rembrandt, Dürer e... tcharan: tinha um Picasso (olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço). Este caso e o de Goebbes são a prova que a arte degenerada e a sua exposição era na realidade apreciada por muitos, mesmo os membros do regime. Goebbels por exemplo deve ter tido de engolir alguns sapos para acompanhar o gosto particular do Führer. Teve de abandonar o apoio a Emil Nolde (era um colecionador das suas aguarelas) por Hitler considerava Nolde um degenerado, e "aprender" a gostar da estética de Conrad Hommel, Wilhelm Otto Pitthan, Arno Breker e Rudolf Zill. Lá foi construíndo a sua coleção baseado em nomes mais pacíficos como Rembrandt (um Rembrandt fica sempre bem na parede e não ofende) e Leo von Konig cujo atrevimento no traço deve ter escapado ao olho censório de Hitler.














Leo von Konig
Junger Dackel
1939


Ceausescu, que levou a cabo um "plano de austeridade" para liquidar a dívida nacional que previa a exportação de produtos e o racionamento do consumo interno que como consequência levou a enormes índices de má nutrição e mortalidade infantil, não se coibia porém dos seus iates e bons fatos (se eles soubessem o que custa mandar, toda a gente queria obedecer...). Ceausescu devia ser o tipo de homem que decorava a mesa com uma fruteira com frutos de plástico e decorava as paredes com últimas ceias em tapeçaria. A par desse blockbuster da pintura o ditador tinha também quadros de Constantin Artachino. Vá lá nem tudo estava perdido. Se eu fosse Deus levaria em linha de conta a sua preferência por gravuras de Goya. Fulgencio Battista pode não ter feito grande coisa por Cuba, mas ao longo da sua carreira política lá se foi abotoando com a aquisição de peças de autores cubanos como as coisas lindas de Armando Menocal, Mario Carreno (estou a vomitar) e Daniel Serra-Badue. Thank God o tipo também lhe dava na pintura de Rene Portocarrero e Amelia Pelaez. 















Daniel Serra-Badue
Rojo
1956
Art Museum of Americas


Reza Pahlavi foi o meu ditador preferido. Qual austeridade, qual promoção dos artistas nacionais... vamos ao que presta e "mai nada". Ele era Picasso, Warhol, Van Gogh, Monet, Renoir (embora, tenha de dizer que nem tudo de Renoir é bom. há mesmo coisas que, retirada a assinatura, passariam por sucedâneos do quadro do menino com a lágrima no olho), Degas, Duchamp, Chagall, Bacon. O rei Farouk do Egipto também não está mal. Pedir-lhe para não recolher vestígios arqueológicos de Amarna, por exemplo, seria como colocar a tigela de leite frente ao gato e dizer-lhe para não beber. Se o Napoleão pôde, ele também podia e foi isso que fez. Para além de colecionador Farouk devia ser também um bocadinho tarado: era vasta a sua coleção de arte erótica que incluía pintura, escultura, pornografia.

Mau Feng Shui devia ser o que se sentia em casa de Manuel Noriega: o ditador colecionava quadros gigantescos de Hitler e Kadaffi. Este por seu turno tinha em casa quadros do filho Saif Al-Islam (uma espécie de Dali, mas com tigres e o próprio pai). Saddam podia não gostar da América, mas gostava dos quadros da americana Rowena Morill (não acredito que vou postar um quadro da senhora. what a shame). A autora tinha vendido muitos dos quadros a colecionadores japoneses nos anos 80, mas ficou em estado de choque quando os viu na televisão, em casa de Saddam. Nem sei o que é pior: os quadros em si, ou estes estarem rodeados de plantas de plástico e decoração de gosto duvidoso. Imagino que só mesmo ele conseguisse viver ali.













Rowena Morill
The art of sorceress

Milosevic podia gostava dos Caprichos de Goya, principalmente os "Muchachos el Avio". Na sala de jantar, a imagem de dois ladrões andaluzes a prepararem-se para um dia de assaltos devia ser inspirador para abrir o apetite e pensar em genocídios. Mas mesmo importante, neste momento, é saber o que Bashar e a sua wanna-be Asma al-Assad gostam de apreciar enquanto pensam em bombardear o país. Ela, ocidental (uma prova que o gosto e a espinha dorsal não são moldados pelo local onde se nasce), decidiu abraçar a causa artística e quando eu digo abraçar, digo mesmo pegar em somas pornográficas e gastar em leilões para adquirir quadros de Nick Jeffrey. Um deles “Ornithop Callicore IV” que lembra Hirst. Mas mesmo Hirst deixou de ser o que era.

5 Comments:

Blogger António Machado said...

ai o meu mau gosto qu'eu gosto tanto da ilha dos mortos (smile)

28/1/13 11:17 da tarde  
Blogger beluga said...

está a brincar? quer dizer, até pode gostar, mas aquilo - aliás o simbolismo - é um bocadinho fora do seu tempo (do tempo dele)

29/1/13 12:27 da manhã  
Blogger beluga said...

desculpe antónio. às vezes levo demasiado longe esta coisa "dos gostos discutem-se"

29/1/13 12:29 da manhã  
Blogger António Machado said...

mas gosto (smile)
e gostei de o ver ao vivo, em Berlim...
a essas coisas do tempo "certo" procuro não ligar muito...

29/1/13 9:57 da tarde  
Blogger beluga said...

desculpe, não queria mesmo meter-me consigo ou deixá-lo desconfortável. a Ilha dos mortos, bem como outros quadros simbolistas sabem-me sempre ao mesmo a que me sabem os quadros de el greco. mas olhe, há um lado positivo nisto: foi a berlim e viu um quadro que gostava!

30/1/13 1:26 da manhã  

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