terça-feira, janeiro 15, 2013

- o carteiro -



















Van Gogh
Fifteen sunflowers in a vase
1888
National Gallery, Londres


ontem após tomar banho, limpei-me a uma toalha que cheirava a leite de vaca. cheirava aos dias em que eu ia para casa da minha avó do campo. porque eu tinha uma avó no campo e outra na cidade. a do campo tinha porcos, galinhas coelhos, vacas e um cão que se chamava King, mas que lá em casa toda a gente chamava de "kingui". a minha avó era padeira e todos os dias de manhã ia levar o pão às pessoas da rua, a horas que para mim eram imagináveis. lembro-me de ir com ela para a terra, apanhar batatas: ela colocava uma toalha de mesa no chão, punha-me um chapéu na cabeça (daqueles com lenço, tal como ela) e deixava-me um pão com queijo e marmelada e uma garrafinha de sucol. eu ficava na sombra uma tarde inteira, a cavar como ela, mas só apanhava minhocas que me faziam arrepiar toda. às vezes lá apanhava uma batata, mas sachava-a a meio e penso que a minha avó não as vendia sachadas. lembro-me de comer sopa grossa e o chamado "condoito" (escreve-se conduto, mas a minha avó dizia "condoito"). o "condoito" era o segundo prato pautado, na maior parte das vezes, por carne, batatas e massa, tudo guisado. comia-se à colher. lembro-me que não havia banheira, nem lavatório, nem sanita. a sanita era um triângulo de cimento que o meu avô carpinteiro tapou com um balcão em madeira, com um buraco a meio. a sanita ficava ao lado do aido dos porcos, o que era bom porque os cheiros misturavam-se e assim a culpa podia ser sempre dos porcos. o quarto da sanita não tinha luz, mas quando o sol batia era possível ver aranhas com pêlos e moscas presas nas teias. lembro-me de ir com ela e com as vacas à ordenha, uns dez minutos pelas ruas a fugir dos poucos carros. a minha avó dizia "arruma preta, afasta mimosa". era um nome previsível, "mimosa". mas a minha avó gostava e era escusado porque para ela os gatos eram pantufa ou malhadinho. qualquer coisa que acabasse num diminutivo. quando chegávamos à ordenha as vacas eram lavadas nas zonas das vergonhas que eram todas muito próximas, sendo portanto possível que uma vaca que estivesse a dar leite fizesse as suas necessidades fisiológicas ao mesmo tempo, o que me enojava um bocado. mas a verdade seja dita: cheirava ali mais a leite do que a cócó. o leite era espesso, e ainda vinha morno. às vezes, quando as vacas davam mais leite pela manhã, a minha avó trazia-me um canado com um bocadinho de leite e eu bebia. claro. não havia nada naquela casa: não havia água canalizada, não havia água quente, não havia gás. o fogão era a lenha e a água para lavar a louça ou para regar era do rio. para cozinhar era do poço. por isso se dizia "vou buscar água para acender o lume", o que me parecia uma contradição. lembro-me que a vasilha onde a minha avó trazia a água acartada à cabeça era azul. o tempo era passado na cozinha velha, muito baixa e negra por causa do lume que estava sempre acesso com os gatos ali por perto, de pontas das orelhas roídas pelas brasas de uma panela tripé. a minha avó cozinhava na cozinha velha, comia na cozinha velha, via televisão na sala de baixo e dormia em baixo, tudo porque a sala de cima era para qualquer coisa de muito especial que nunca veio. as únicas vezes que aquela sala foi utilizada foi para casar os filhos nas fotografias, beijar o Senhor no Domingo de Páscoa e velar o corpo do meu avô que morreu sem as duas pernas. 

3 Comments:

Blogger alma said...

Beluga,
Notáveis memórias (gostei muito de ler)

15/1/13 11:07 da manhã  
Blogger António Machado said...

que bem que escreve (por vezes podemos correr o risco de deixar de reparar na "maneira" como bem escreve)
a sanita triangular... seria um prisma triangular? (tenho um fetiche, que não por sanitas, por prismas triangulares)
duas avós... que sortuda

15/1/13 8:50 da tarde  
Blogger beluga said...

obrigada alma. não sei se uma pessoa pode agradecer memórias: são coisas que acontecem. ou recordamos ou não

antónio, tem dias. nem sempre me apetece escrever. como a maior parte das pessoas penso escrever um romance. como proust, espero escrever "o" romance. mas não tenho paciência. as pessoas, mesmo as de romance, cansam-me. por isso escrevo coisas pequenas: acabo quando quero. quanto à sanita, sim, era triangular. por falar em coisas triangulares, lembrei-me disto que talvez já conheça (não quero estar a "subir acima da chinela"), mas que tenho andado a estudar: capela do santo sudário de Guarino guarini, Kapel, igreja de peregrinação de Georg dientzenhofer, capela da santa ana de Jan Blazej santini-aichel.

15/1/13 11:35 da tarde  

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