segunda-feira, janeiro 28, 2013

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou "assim no céu como no céu. e porquê? a primeira imagem é do teto do mausoléu de santa Constança em Roma, enquanto a segunda é da cúpula de San Carlo alle quattro fontane de Borromini, cerca de 1000 anos depois. O mausoléu de santa constança é, como se pode ver, em planta centrada. essa questão dos edifícios de planta centrada interessa-me muito porque eles têm uma de duas origens: ou serviam de edifícios funerários (para comemorar a morte de um mártir ou de alguém ilustre; ou serviam de edifícios batismais. dou como exemplo do primeiro o mausoléu de santa constança ou de Gala Placídia em Ravena. enquanto edifícios batismais lembro-me do de São João Latrão, e não recordo nenhum outro agora. o círculo, o quadrado, o hexágono, a cruz grega... são formas arquétipas: são formas que convidam ao convívio, mas são também formas com um misticismo próprio: Parménides disse que o Ser era como uma esfera (nada se lhe podia retirar, nada lhe podia ser acrescentado), santo agostinho referiu a harmonia musical das esferas celestes, Palladio e Alberti defendiam a construção sobre planta centralizada. E assim é desde o início dos tempos. A Ocidente - que tinha herdado as basílicas romanas (destinadas em Roma para a prática da justiça, aquando a entrada em vigor do cristianismo como religião oficial do império, em 313 se não me engano) e que as tinha escolhido como locais de culto mudando apenas o eixo de entrada) não havia problema: continuavam a ser adoptadas as plantas basilicais mais ou menos complexas. A Oriente, em que o culto cristão era um pouco diferente (sacerdote e imperador participavam na cerimónia e depois de um cortejo entravam na igreja e beijavam-se no centro da mesma) esta forma também podia ser diferente. A Ocidente a planta centralizada implicava uma área interior aproveitável menor e isso faria com as pessoas umas em cima das outras não respeitassem as hierarquias. A Oriente o problema não se colocava. Bem isto então para dizer que no teto de santa constança podemos encontrar este padrão em mosaico que sugere a alternância de formas hexagonais, octogonais e cruciformes. 

Como dissemos (quer dizer, eu disse e vocês fizeram de conta que leram e eu agradeço-vos porque assim continuo a crer na ordem do universo), a Ocidente preferiam-se as plantas longitudinais. Mas tanto o Renascimento como o Barroco praticaram as plantas centradas por acreditarem no poder místico que as mesmas tinham, graças às relações matemáticas que com elas era possível estabelecer. À exceção do período da contra-reforma - em que com a formação de novas ordens religiosas e com as normas do concílio de trento se praticaram as plantas longitudinais de uma só nave com transepto inscrito ou sem transepto - estes foram tempos de dar asas à imaginação. Assim, Borromini - que não obstante ser um espírito soturno e ter mesmo chegado a suicidar-se tinha os projetos mais ousados no Barroco italiano (na  minha opinião) projeta esta San Carlo alle quattro fontane, uma igreja que ficava no cruzamento de quatro ruas, sendo que cada uma das esquinas tinha uma estátua. Borromini trabalhou ao nível interno a cúpula com caixotões, não quadrados como o Panteão que era modelo para tudo, mas hexagonais, octogonais e cruciformes! E agora que acabei (escrevi este post de uma vez, tenho de ir colocar as ideias em ordem, que as ideias em ordem são incompatíveis com o amor) vou para dentro que está frio. beijos e cafunés, rendinhas e coisas lindas














séc. IV
Roma (imagem retirada daqui. mas só imagem)



















Borromini
San Carlo alle quattro fontane
1646
Roma

5 Comments:

Blogger António Machado said...

mt obg, B.
duas das minhas obras d'eleição, relacionadas, e eu (aqui, a sofrer) sem saber de nada...

28/1/13 11:16 da tarde  
Blogger beluga said...

Quanto ao mausoléu, nada a acrescentar, mas olhe que eu prefiro o Barroco do Guarini do que do Bernini. o Bernini podia ser muito bom na escultura, que era, mas cúpulas é com o Borromini e com o Guarini. Conhece certamente a da Capela do Santo Sudário em Turim (com aquele jogo de linhas exterior e interior) e a cúpula da igreja de San Lorenzo em Turim (esta mais pelo exterior).
boa, é também a de sant'ivo alla sapienza, mas não sei porquê, parece-me que foi feita à pressa

29/1/13 12:26 da manhã  
Blogger António Machado said...

o GG é um ganda maluco
sobre o bernini concordo (e só ter por sido o arqui-inimigo do borromini já estava feito comigo)
porque diz que a da sapienza foi feita à pressa?

29/1/13 9:55 da tarde  
Blogger beluga said...

sapienza parece-me feita à pressa porque parece que ele chegou lá e disse: "ora bem, a planta é em estrela de seis pontas e... a cúpula vai ser assente na mesma forma". a forma da cúpula corresponde à planta e a cúpula assenta completamente na arquitrave, sem colunas ou outro sistema de sustentação. em san carlo havia a tentativa de fazer da cúpula algo flutuante, havia uma intenção. na sapienza parece que o papel da cúpula é só cobrir

guarini forever!

30/1/13 1:24 da manhã  
Blogger António Machado said...

vou pensar sobre isso... (mas só depois de reler o que o meu homónimo Blunt escreveu sobre o assunto...)

30/1/13 6:55 da tarde  

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