sexta-feira, abril 06, 2012

- o carteiro -

Depois de termos apresentado a influência da Biblia Pauperum na arte e na religião da Idade Média para a frente, apresentamos hoje outra fonte, um pouco diferente, mas que julgo, igualmente interessante. Trata-se do Hortus Deliciarium ou "jardim das delícias", ou ainda "paraíso" e que é uma fonte basicamente gráfica. Pensa-se que a autora tenha sido Herrade de Hohenburg, que foi abadessa do mosteiro de Hohenburg. Hohenburg fica no centro da Alemanha e ganhou importância graças ao trabalho da sua abadessa que propôs uma reforma e renovação espiritual dos mosteiros. Essa reforma passaria, segundo Herrade pelo regresso ao ensinamento através do livro. Isto é particularmente importante pois a sociedade da Idade Média não era alfabetizada. A alfabetização foi algo que se perdeu com a queda do Império Romano. E era justamente nos mosteiros que os livros eram copiados e divulgados. A obra foi escrita em latim ao longo de 20 anos e patrocinada por Frederico Barba Ruiva. O manuscrito não é uma compilação de textos bíblicos, mas antes um conjunto de reflexões acerca desses textos, como uma enciclopédia. Tinha como objectivo catequizar as pessoas que ao livro tivessem acesso. O livro original era um texto corrido e não estava dividido como o Speculum ou a Biblia Pauperum. Mas dividia-se porém em três grandes partes: uma dedicada ao Antigo Testamento, outra ao Novo Testamento e por fim, uma outra era referente a visões morais e episódios sobre o fim dos tempos. A imagem que trazemos hoje aqui (na verdade sou eu quem traz a imagem, mas como estou a escrever um trabalho e tenho de dizer o "nós", acabo por contaminar a escrita toda). Trata-se, aparentemente, de uma crucifixão (pode escrever-se crucificação e crucifixão), mas há um conjunto de elementos que têm de ser vistos.

As duas cortinas que vemos em cima, são o véu do templo, que de facto existiam. Não se trata da iconostásis, que é posterior e própria da igreja ortodoxa. Trata-se de um véu que que separava Deus dos homens; ou seja, que separava uma zona, dentro do templo, reservada para Deus - e onde se faziam os sacrifícios - e a zona para os homens comuns, manchados pelo Pecado Original. Isto acontecia assim, mas ainda hoje temos na Igreja uma área habitada pelo corpo de Cristo: o sacrário. Só o Sumo Sacerdote podia penetrar nessa área, mas isso também não era sempre, era uma vez por ano. Isto que estou a dizer não é invenção, estava escrito na Bíblia (o que não quer dizer que não seja invenção). Está presente na Carta aos Hebreus no Novo Testamento. Ali podemos ver: "Com efeito, a primeira aliança continha normas para o culto e um santuário terrestre. Foi construída uma tenda, a primeira, chamada o Santo, na qual se encontrava o candelabro e a mesa dos pães da oferenda. Por detrás do segundo véu estava a tenda chamada Santo dos Santos, onde se encontrava o altar de ouro para os perfumes e a Arca da aliança, toda recoberta de ouro, contendo um vaso de ouro com o maná, a vara de Aarão que tinha florescido e as tábuas da aliança. Sobre a Arca estavam os querubins da glória, que cobriam com a sua sombra o propiciatório. Mas não é agora o momento de falar desse assunto em pormenor. Ora, estando assim dispostas as coisas, os sacerdotes entram continuamente na primeira tenda para celebrar o culto; mas na segunda, só entra o Sumo Sacerdote, uma vez por ano, e não entra sem levar consigo o sangue que oferece por si próprio e pelos pecados involuntários do povo. (Heb 9; 1-7). Para além de falar do véu do templo, este excerto fala igualmente da Arca da Aliança. É possível ver a Arca da Aliança nas cenas da circuncisão e da apresentação no templo. Também Josefo escreveu acerca do véu do templo, dizendo que tinha 12cm de espessura e que nada nem ninguém podiam rasgá-lo. Neste caso parti-lo porque 12cm não é espessura de tecido ou folha.Mas, aqui nesta imagem o véu to templo não aparece direitinho como seria suposto. Isto porque quando Cristo morreu algo aconteceu. Diz em Lc 23; 43-46: "Ele respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.» Por volta do meio-dia, as trevas cobriram toda a região até às três horas da tarde. O Sol tinha-se eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio. Dando um forte grito, Jesus exclamou: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.» Dito isto, expirou.". Quando Jesus morreu, o véu do templo deixou de separar o puro do impuro, pois com a morte de Cristo cada um de nós tinha alcançado da salvação eterna. Foi para isso que ele morreu. Diz-se...

Segue-se, ao centro em cima, a lua e o sol. Porquê? Porque quando Jesus morreu fez-se noite:"Ao chegar o meio-dia, fez-se trevas por toda a terra, até às três da tarde. E às três da tarde, Jesus exclamou em alta voz: «Eloí, Eloí, lemá sabachtáni?», que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?". Note-se que as trevas ocorreram antes do véu do templo se rasgar. Por isso na imagem temos a presença do Sol (alusão ao meio-dia) e a lua (numa alusão às trevas). Para além disso, a Lua parece especialmente triste.

do lado esquerdo e direito, logo a seguir a Jesus, vemos dois homens, que são dois soldados. Um deles tem consigo uma lança, e o outro a vara com a esponja em vinagre e um balde, onde provavelmente a ensoparia. São ambos símbolos da paixão, mas não estão os dois presentes nos mesmos Evangelhos. Marcos fala da esponja com vinagre: "Um deles correu a embeber uma esponja em vinagre, pô-la numa cana e deu-lhe de beber, dizendo: «Esperemos, a ver se Elias vem tirá-lo dali.»" (Mc 15; 36). Já João é o evangelista que fala da lança: "Porém, um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água." (J0 19; 34). A propósito desta passagem da lança, não me lembro de nenhuma representação que mostre água a sair do corpo de Cristo, mas é algo para investigar.

De um lado para a esquerda e de outro para a direita encontramos quem eu penso ser Maria, mãe de Jesus e João. Maria, porque tem o nimbo. Acho que se fosse Maria Madalena não teria nimbo. João, porque parece novo e porque era um dos discípulos mais próximos de Jesus. Jesus até chegou a dizer a João: "Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua." (Jo 19; 26-27). De facto, na dormição da virgem, que é uma passagem com base nos apócrifos, João é quem está à cabeceira de Maria.

Os dois "companheiros" de Jesus que estão crucificados têm nome e estão diferenciados. Como se lembram Jesus foi crucificado com dois ladrões, como um impostor. Daí a razão para ser estranho que na maior parte das representações a sua cruz de Jesus a maior... Os ladrões chamavam-se Dimas e Gestas. Gestas é o mau ladrão, o da direita, que está a olhar para o lado. Já o da esquerda é o bom ladrão, o que olha para Jesus: "E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós. Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez. E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino." (Lc 23; 39-42). Não existe nos evangelhos canónicos referência a estes nomes, mas existe nos apócrifos. Vamos encontrá-los, na declaração de José de Arimateia (texto apócrifo), que diz o seguinte: "El primero, llamado Gestas, solía dar muerte de espada a algunos viandantes, mientras que a otros les dejaba desnudos y colgaba a las mujeres [...] El segundo, por su parte, estaba encartado de la siguiente forma. Se llamaba Dimas; era de origen galileo y poseía una posada." (I, 2).

Também do lado equerdo e direito vemos duas figuras femininas montadas em animais. A da direita tem o olhos tapados por um véu e está montada num burro sem corda. A da esquerda está montada num animal de 4 cabeças e 4 patas diferentes. Este animal representa o tetramorfo, os quatro símbolos que representam os quatro evangelistas. Assim temos: Marcos identificado pelo leão (e pela pata de leão), João representado pela águia (e pela garra), Lucas é representado pelo touro (pata de touro, atrás) e Mateus é representado por uma cabeça humana (pé). Estas analogias são bíblicas, mas acho que a relação entre cada um deles e o símbolo ficou a dever-se a Santo Irineu, mas não tenho a certeza. Na bíblia surgem em Ezequiel 1; 10: "E a semelhança dos seus rostos era como o rosto de homem; e do lado direito todos os quatro tinham rosto de leão, e do lado esquerdo todos os quatro tinham rosto de boi; e também tinham rosto de águia todos os quatro." Quem vem montado neste animal é uma mulher que tem numa das mãos uma taça e na outra, bem alto, a cruz. Esta figura aparece triunfante, de cabeça erguida a olhar para Jesus e com uma coroa. Trata-se da Igreja Cristã em oposição à Sinagoga. No fundo o que esta cena mostra são as alegorias da Igreja (fé cristã) e da Sinagoga (fé judaica) que foram muito célebres em cenas da arte da Idade Média, principalmente na Alemanha e em França. Como podemos ver, a imagem de uma igreja vitoriosa junto a uma igreja derrotada, faz acreditar que o cristianismo tinha vencido. Para a taça que esta figura tem na mão desce diretamente o sangue de Cristo. A outra figura, que representa o judaísmo, mostra uma figura feminina com os olhos tapados (em algumas representações está mesmo com os olhos vendados), com instrumentos da circuncisão, a tábua com os dez mandamentos e um animal que iria ser oferecido em sacrifício. Os olhos vendados mostram a sua cegueira ante a divindade de Cristo. O facto de estar montada no dorso de um burro terá algum significado, até porque o burro parece bastante aborrecido. Na Reforma o burro era o animal aplicado em alguns quadros para os pintores se referirem aos judeus, com sentido depreciativo.


Anónimo
Igreja
1230
Catedral de Estrasburgo


Anónimo
Igreja
1230
Catedral de Estrasburgo

Em baixo os túmulos abrem-se e deles saem as almas dos mortos. Ora do lado esquerdo, vemos um morto especial a sair do seu túmulo. Trata-se de Adão, o primeiro homem, por oposição ao segundo homem e o segundo Adão: Cristo na cruz. Ora vemos ali ao lado caveiras e vemos muitas vezes na base da cruz, caveiras e ossadas humanas. Porquê? Porque segundo a tradição Cristo foi crucificado no local onde Adão havia sido sepultado. É Origenes quem refere isto e não tenho meio de prová-lo.

Bem, vou embora. boa páscoa, divirtam-se e até à próxima.

2 Comments:

Blogger Joao Barbosa said...

esmigalhadinho

21/4/12 3:52 da manhã  
Blogger beluga said...

não percebi joão

22/4/12 1:39 da manhã  

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