terça-feira, junho 28, 2016

 - o carteiro -

et voilá! Sabia que voltaria ao Proust e às suas relações com a pintura impressionista. Quando em 2013 escrevi aqueles três posts (primeira parte, segunda e terceira) sobre a Recherche, cometi alguns erros e omissões. por isso volto ao Proust para completar (se é que algum dia este tema pode ficar completo, uma vez que é tão vasto e tem tantas ramificações) aquilo que escrevi.
 
Como tinha escrito, Proust compõe as suas personagens a partir de várias pessoas que cruzaram a sua vida. O modelo para o pintor Elstir foi tanto Whistler como Manet, Renoir ou Degas e o modelo para Swann foi Charles Ephrussi e Charles Haas. Ora ao contrário do que escrevi, os Ephrussi não eram uma família austríaca. Foram uma família russa, de Odessa, que agora, e após muitas peripécias, é De Waal. A história da família está neste livro incrível que pedi ao Pai Natal (aquele tótó não atendeu o meu pedido) mas que comprei após vender o meu corpo nas ruas de Saigão! É um livro tão maravilhoso (brutal!, como se diz agora)!



















Os Ephrussi eram uma família de banqueiros judeus, chamados os "Rothschild dos cereais". Completamente integrados na vida social, política e económica das cidades onde viviam em faustosos palácios, eram membros respeitados da sociedade. Um dos Ephrussi era, como dá para perceber, Charles Ephrussi. Em Paris, Charles vivia no Hôtel Ephrussi na Rue Monceau e era um colecionador fervoroso, bem como crítico de arte. O seu interesse eram os Impressionistas (aliás, comprou a obra Une botte d'asperge a Manet, por um preço mais elevado que aquele que o pintor pedia. este, enviou-lhe mais tarde um quadro com um espargo apenas, talvez para compensar o colecionador e amigo, dizendo-lhe "falta um espargo ao molho que já levou"). Comprou Berthe Morisot, levou a que alguns amigos, por ele aconselhados, comprassem outros impressionistas (como é o caso da Madame Strauss que comprou uma das Nympheas de Monet, e fez encomendas a Renoir que precisava de dinheiro. As encomendas suscitaram a revolta dos pares do artista, como Degas que diz mesmo:
 
"Monsieur Renoir, o senhor não tem integridade. Não admito que se pinte por encomenda. Parece que trabalha agora para financeiros, que se passeia com Monsieur Charles Ephrussi, só falta vê-lo expor no Mirlitons com Monsieur Bouguereau"
 
Para quem não percebeu a ironia, basta dizer que Bouguereau pintava estes cupcakes em forma de tela, estas merdices, para falar português correcto, que nada tinham a ver com a estética Impressionista. Convém também dizer que Degas bem podia falar: ele vinha de uma família abastada!
 
 

















Bouguereau
The Birth of Venus
1879
Musée d'Orsay

Também Proust frequentou o mundo de Charles Ephrussi, embora não fosse propriamente um amigo. Proust era um neófito, ansioso por se integrar na sociedade parisiense. Era Charles quem tinha a familiaridade necessária com Proust para lhe lembrar que eram horas de deixar um serão para os anfitriões descansarem. Entre a família Ephrussi chamam-lhe Proboleta, já que Proust andava sempre a voar de um evento social para outro! As semelhanças entre Charles Ephrussi e Charles Swann são muitas: ambos são judeus, ambos são cidadãos do mundo, ambos frequentam os mais elevados círculos sociais (Ephrussi foi o guia da rainha Vitória em Paris e Swann era amigo do Príncipe de Gales), ambos apreciam os autores do Renascimento, ambos coleccionam medalhões venezianos, ambos são mecenas dos impressionistas... Dizer que Ephrussi foi menos modelo do que Haas para Prous compor Swann é treta! 
 
Como colecionador, Charles estava também atento aos novos rumos da arte e do colecionismo. E claro, tinha gosto pessoal. Gostava de Moreau e com o tempo, abandonou o japonesismo e dedicou-se a colecionar louças de Meissen e mobiliário Império. Proust coloca mesmo a duquesa de Guermantes a comentar esse mobiliário:
 
"tudo isso que invade as nossas casas, as esfinges que vêm meter-se nos pés dos cadeirões, as serpentes que se enrolam nos candelabros, [...] os candeeiros pompeianos, as caminhas em forma de barcos que parecem ter sido encontradas no Nilo [...]. Sobre o rebordo da cama, havia esculpida uma longa sereia reclinada, deslumbrante, com uma cauda de nácar, e que segurava na mão uma espécie de lótus [...] as palmas e a coroa de ouro que estava ao lado era emocionante, bem ao jeito do arranjo de O Rapaz e a Morte, de Gustave Moreau." (vol.1, pág. 659).  
 
Não obstante ser amigo e mecenas dos impressionistas, estes não poupavam a Charles Ephrussi o seu gosto por Moreau. Renoir, a propósito disto disse:
 
"Ah, esse Gustave Moreau! Pensar que há quem o leve a sério, um pintor que nunca aprendeu sequer a pintar um pé, [...] mas que não era tolo. Teve a esperteza de lançar a rede aos judeus, de se lembrar de pintar com tons de ouro. [...] Até Ephrussi caiu, ele que eu sempre julguei que tivesse algum senso! Um dia fui visitá-lo e dei de caras com um Gustave Moreau!"
 
Estas frases de Renoir levantam algumas questões:
a) é muito difícil desenhar pés
b) Moreau e o simbolismo são de facto detestáveis
c) Renoir chama Ephrussi de judeu e fá-lo em tom depreciativo, como se os judeus só gostassem de coisas feias, e fossem iludidos pelos tons dourados do pintor simbolista.
d) Charles Ephrussi ao que parece, adquiriu um Gustave Moreau.
Se quanto às duas primeiras alíneas não há nada a dizer, as duas segundas merecem atenção. Ao que parece (e isto no que diz respeito à alínea d)), Charles Ephrussi possuiu de facto um Gustave Moreau. Segundo o Musée d' Orsay, o Jasão de Moreau pertenceu a Charles. Poderia ter sido este o quadro que Renoir viu quando se deslocou aos aposentos de Charles e que o enfureceu!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gustave Moreau
Jasão e Medeia
1865
Musée d'Orsay
 
De facto é um quadro muito feio! E viver com este quadro - e outros quadros dos simbolistas - não devia ser fácil. Huysmans, no seu À Rebours, descreve o que era viver com obras deste tipo, em concreto, com a Salomé de Moreau. Só encontrei a versão em francês...

"Un trône se dressait, pareil au maître-autel d’une cathédrale, sous d’innombrables voûtes jaillissant de colonnes trapues ainsi que des piliers romans, émaillées de briques polychromes, serties de mosaïques, incrustées de lapis et de sardoines, dans un palais semblable à une basilique d’une architecture tout à la fois musulmane et byzantine. Au centre du tabernacle surmontant l’autel précédé de marches en forme de demi-vasques, le Tétrarque Hérode était assis, coiffé d’une tiare, les jambes rapprochées, les mains sur les genoux. La figure était jaune, parcheminée, annelée de rides, décimée par l’âge ; sa longue barbe flottait comme un nuage blanc sur les étoiles en pierreries qui constellaient la robe d’orfroi plaquée sur sa poitrine. Autour de cette statue, immobile, figée dans une pose hiératique de dieu hindou, des parfums brûlaient, dégorgeant des nuées de vapeurs que trouaient, de même que des yeux phosphorés de bêtes, les feux des pierres enchâssées dans les parois du trône ; puis la vapeur montait, se déroulait sous les arcades où la fumée bleue se mêlait à la poudre d’or des grands rayons de jour, tombés des dômes. Dans l’odeur perverse des parfums, dans l’atmosphère surchauffée de cette église, Salomé, le bras gauche étendu, en un geste de commandement, le bras droit replié, tenant, à la hauteur du visage, un grand lotus, s’avance lentement sur les pointes, aux accords d’une guitare dont une femme accroupie pince les cordes.(...)"

E continua. O quadro, a avaliar pela descrição, é este:

















Gustave Moreau
The Apparition

O que é mais curioso nesta entrada em cena do livro de Huysmans, não é que este faça referência a um quadro de Moreau, mas antes o facto de o herói, Des Esseintes, ser inspirado no conde Robert de Montesquiou, um esteta e dândi que serviu de modelo a Proust para a construção da personagem do Barão de Charlus. Este Robert de Montesquiou, amigo de Charles Ephrussi, tinha como pináculo da estética, uma tartaruga com a carapaça incrustada de pedras preciosas, que andava pela sala e admirava os presentes. Oscar Wilde, ao que parece, chegou a ver esta tartaruga, já que o refere no seu diário. Ora, embora não tenha lido o livro de Huysmans, sei - porque sou uma pessoa muito bem informada - que há alguns paralelismos entre o À Rebours e o Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

Apesar de tudo isto, desta rede apertada de ligações (que merece um esquema à altura e que terei muito prazer de fazer, quando tiver tempo), o antissemitismo crescente falou mais alto. E agora sim, vamos para a alínea c) anterior: os artistas, não obstante serem acarinhados por Charles Ephrussi, não se coibiam de lhe expressarem o seu desagrado pelo facto de ser judeu. Era o tempo do caso Dreyfus que despertou muitos ódios face à comunidade judaica. A França dividiu-se entre dreyfusistas e anti-dreyfusistas e o círculo de Charles Ephrussi também: Degas deixou de falar ao seu mecenas e a Pissarro, um pintor judeu; Cézane estava convencido da culpa de Dreyfus e Renoir manifestou-se contra a "arte de judeus" de Charles. Zola, que defendeu Dreyfus no J'accuse, acossado, teve de fugir e chegou a ser dado como "refugiado" na casa de Charles Ephrussi. Também na Recherche muda a tolerância para com Swann: ele deixa de ser o homem que todas as senhoras de sociedade querem ter por perto aquando das conversas sobre arte e decoração, sobre vestuário e conduta e passa a ser tratado desta forma pelo duque de Guermantes:

"[...] no que tange a Swann [...] dizem-me que é abertamente dreyfusista. Nunca teria acreditado nisso da parte dele, ele que é um fino gourmet, um espírito positivo, um colecionador, apreciador de livros antigos, membro do Jockey, um homem rodeado da consideração geral, um conhecedor de boas firmas e que nos enviava o melhor vinho do porto que se pode beber, um diletante, um pai de família. Ah, fui bem enganado." (Vol.4)

Espero que tenham gostado. Despeço-me com amizade...

5 Comments:

Anonymous pedro b. said...

"...Degas deixou de falar ao seu mecenas e a Pissarro, um pintor judeu; Cézane estava convencido da culpa de Dreyfus e Renoir manifestou-se contra a "arte de judeus" Ou seja, eram todos umas bestas.
E não é verdade que os quadros de Gustave Moreau fossem assim tão maus. Breton colocou-o entre os seus "precursores" do surrealismo, numa espécie de cânone ou história de arte alternativa: Ucello, Bosch, Archimboldo (OK, esse é um bocado piroso), Fussli, Goya, Blake...
Em Paris, havia uma Casa-Museu Gustave Moreau, um edifício e colecção muito curiosos que cheguei a visitar. Fui verificar e parece que ainda existe: https://fr.wikipedia.org/wiki/Surr%C3%A9alisme

1/7/16 4:28 da tarde  
Blogger beluga said...

Olá professor, boa noite
Sim, eram todos umas bestas. Mesmo o sócio dos Ephrussi, não judeu, se aproveitou da situação da família para “passar-lhes a perna”. Vale a pena ler o livro. Parece piroso, mas é muito bom.
Ainda há o Museu Gustave Moreau, mas como está bom de ver, nunca lá pus os pés. Sejamos sinceros: o surrealismo, como o simbolismo, é piroso! O Dalí é piroso! Aquilo é feio, dá vómitos e tonturas. Claro que o surrealismo não é só Dalí, mas diga-me um bom surrealista, para além do Magritte (e o Cruzeiro Seixas entre nós)! Para lhe provar que não estou sozinha deixo-lhe uma petite histoire:
O director da prisão de Sing Sing queria encomendar ao Dalí um painel para o refeitório do estabelecimento. O painel nunca chegou a ser encomendado pois os presos disseram-lhe que isso seria aumentar a carga das suas penas, algo a que o director não estava autorizado …

14/7/16 11:07 da tarde  
Anonymous pedro b said...

Um bom pintor surrealista: Max Ernst (por exemplo as frotagge - mas, claro, tem coisas melhores e piores), Miró. Escultura e desenhos: Giacometti.
Mas o surrealismo vai muito para além da pintura. Aliás, há que quem considere que o investimento nos pintores e na pintura tradicional (tela a óleo, etc.), que Breton faz a partir de certa altura, marca um retrocesso no movimento. Acho que se deve distinguir entre o conceito de "surrealismo" ou de super-realidade, e as obras que lhe estão geralmente associadas (o caso mais conhecido é evidentemente Dali, que por acaso até foi expulso dos surrealistas). O próprio Breton era um indivíduo muito limitado: autoritário, arrogante, homofóbico. Mas isso não invalida a importância do movimento, a que ele deu o impulso inicial com os manifestos, organização de grupos, etc. (Claro que também há quem defenda que tudo isto estava já presente no dadaísmo, que o surrealismo é um aproveitamento francês, pretensioso-intelectualóide, e uma 'domesticação' do dadaísmo).
Mas duas coisas são certas: 1) o termo 'surrealismo' faz hoje parte dos dicionários e expressa algo maior do que ele próprio [movimento artístico nascido c.1920];
2) os nossos “modos de ver” (para usar uma conhecida expressão de John Berger) alteram-se com o tempo, a nossa capacidade de deslumbramento e de apreciação estética são limitadas e fatigam-se facilmente. Quem é hoje capaz de olhar para a Mona Lisa sem reprimir um pequeno bocejo, ou de ver todas aquelas figuras nos trípticos de Hieronymus [Jheronimus?] Bosch sem ali pressentir qualquer coisa de levemente kitsch? Vemos Bosch através de Dali.

18/7/16 11:30 da manhã  
Anonymous pedro b said...

Não sabia que Pissarro era judeu (ou de origem judaica, aliás, parece que nominalmente fora baptizado e tinha até nacionalidade dinamarquesa!). Sempre pensei que Pissarro mantivera as melhores relações com os restantes surrealistas e era até uma espécie de ancião do grupo, mas afinal parece que era sobretudo amigo de Monet e Cezanne, e Monet e tanto um como outro eram 10 anos mais velhos do que ele. Enfim, ideias feitas, construídas a partir de leituras apressadas - ou mesmo erradas: li algures que os outro impressionistas o tratavam por "tio Pissarro", provavelmente referiam-se à geração mais nova, por ex. Gauguin que foi seu aluno.
(A wikipédia portuguesa diz que o pai de Pissarro era um criptojudeu de Bragança que emigrou, ainda criança, p/ Bordéus; enquanto a wikipedia francesa diz que o pai, embora de origem portuguesa, nasceu em Bordéus e tenha nacionalidade francesa´. É curioso como existem tantos "portugueses": Espinosa, Ribeiro Sanches... primeiro expulsámo-los e queimámos alguns na fogueira, agora já está tudo perdoado e reivindicamo-los para a lista de glórias nacionais. É também curioso ver como as versões da wikipédia sobre um mesmo assunto variam de uma língua p/ outra. Por ex. a biografia de Vasco da Gama).

18/7/16 11:56 da manhã  
Blogger beluga said...

Olá professor, boa noite


A propósito dos artista impressionistas, o anti-semitismo e a primeira parte do seu comentário, deixo-lhe aqui mais uma história. O renoir, à semelhança do Delacroix, beneficiou de encomendas em alturas em que estava mais em baixo de finanças. O Delacroix fez um conjunto de retratos, os retratos Goubaux, encomendados pelo director de um instituto de rapazes em Paris que havia sido seu colega de liceu. Eram retratos de alunos galardoados. O Delacroix cumpriu, e muito bem, essa missão. Existe um destes retratos Goubaux na Fundação Medeiros e Almeida em Lisboa. Mas o Renoir também beneficiou de uma encomenda à sua medida. Como o pintor precisava de dinheiro, Charles Ephrussi convenceu uma tia a posar para ele e convenceu a amante. A amante dele, não era a amante da tia, claro! Ao que parece a amante de Charles não gostou muito do resultado e demorou muito tempo a pagar os 1500 francos acordados. Renoir sem contemplações insurgiu-se! Também Degas - o mesmo Degas que havia manifestado desagrado pelas encomendas que Charles fazia a Renoir - , perante o atraso num pagamento, não teve pejo em escrever a Charles um bilhete irritado. Logo o Degas que era de uma família rica...

E mais: Renoir chamava à arte que Charles adquiria, mas não era a sua (os simbolistas, por exemplo), "arte de judeus", "tralha gout Rothschild".

Quanto ao simbolismo e ao surrealismo, tem razão, não se pode tomar a pintura de Dalí pelo movimento em si. Deixo um excerto da nota introdutória do livro "O movimento surrealista" de Franco Fortini: "Consideremos, com efeito, que, enquanto a pintura, a escultura, o cinema e o teatro surrealistas foram absorvidos pelo desenvolvimento histórico de cada uma destas artes, as relações que os surrealistas visaram estabelecer entre expressão literária e actividade ético-política, definem e qualificam, melhor do que quaisquer outras, as suas exigências específicas e a sua individualidade histórica."

Mas mantenho a minha opinião: o surrealismo enquanto movimento pictórico, com o seu verde varejeira e o seu amarelo escarro, dão-me náuseas. Nem Max Ernst nem Dalí. Magritte sim: faz-me lembrar a obra do Eduardo Luís. Ou ao contrário.

20/7/16 11:32 da tarde  

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