terça-feira, julho 08, 2008

- ars longa, vita brevis -
hipócrates
antes e depois ou “apesar de esta ser a fotografia do conjunto captado por Lindberg e onde Julianne Moore representa o papel principal, a que menos me agrada, descobri no quadro de Sargent alguma coisa para além do retrato de uma senhora de classe social elevada. Madame X distingue-se das outras pois não interpreta o papel de mãe, de prostituta, de enfermeira ou de lolita como as outras personagens o eram. Madame X representa somente uma mulher o que nos tempos que se viviam, era de algum arrojo. Estamos no Impressionismo; as senhoras têm papéis sociais bem definidos e nunca podem ser apenas elas. Note-se que sempre que um impressionista retrata uma mulher ou quando uma pintora impressionista retrata o seu género, o faz invariavelmente como mãe, como prostituta, como bailarina, como filha de alguém (as meninas no balcão acompanhadas pelo pai ou pelo marido), como empregadas, como esposas, mas nunca como mulheres. A única seria talvez a Olímpia ou a senhora do Déjeneur Sur L’herbe, mas os dois exemplos são dúbios uma vez que as senhoras em questão estão nuas. Poderiam as mulheres vingar na pintura apenas dentro de uma destas convenções? Sargent disse que não quando pintou Madame X. O que é que tem de especial? É uma senhora de alta sociedade, bem sei e isso é uma prerrogativa. Mas é também uma mulher de queixo erguido, que se mostra, se mostra sem vergonha nem exibicionismo, mas com ostentação, o que nos dias de hoje, bem como naquela época não era bem visto. O facto de o título se reportar para uma incógnita, faz de Madame X uma mulher misteriosa. É uma mulher que, se entrasse numa sala, granjearia todas as atenções, mas que mantém uma distância assertiva e faz dela o objecto de desejo. No entanto, foi também a mulher que uma vez, ao passar férias em Cannes ouviu de outra mulher que por ali estava que ela, Madame X estava a ficar velha. Foi o suficiente para Madame X voltar para Paris e fechar-se dentro de uma casa da qual mandou retirar todos os espelhos. E depois há toda a parte formal, aquela que é visível aos olhos e não necessita de estudo algum: há um contraste entre o ébano do vestido e o alabastro de toda a pele que se encontra à mostra. À mostra pois a posição em que se encontra faz-nos crer que nas suas costas o vestido revela muito mais, mas claro, isso faz parte do mistério. Como as imagens esfíngicas, Madame tem o corpo de frente, mas a cabeça de perfil e como alguém que deixa um rasto de perfume, Madame estende a sua presença na pintura abandonando o braço atrás de si”:

John Singer Sargent
Madame Pierre Gautreau (Madame X)
1884
Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque


Peter Lindberg
Julianne Moore a interpretar Sargent
2008
Harper’s Bazaar

3 Comments:

Blogger AM said...

uma música:

The Art Teacher, Want Two, Rufus Wainwright

um livro:

Retrato de uma Senhora (The Portrait Of A Lady), Henry James

um filme:

A Idade da Inocência (The Age of Innocence), Martin Scorcese

três dos meus favoritos...

8/7/08 6:48 da tarde  
Blogger beluga said...

caro AM:
ora aí está um livro que ainda não li. boa dica.

9/7/08 12:00 da manhã  
Blogger AM said...

fico à espera da posta
se for caso disso, claro

9/7/08 5:47 da tarde  

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