segunda-feira, janeiro 23, 2012

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou depois de estudar HACMA. depois de estudar HACMA durante duas semanas uma pessoa não consegue pensar neste século nem neste milénio: as pessoas passam a chamar-se Imhotepe e Nofret e vivemos todos a preparar o nosso ka para a vida post-mortem. penso que perco tempo com isto, mas pelo menos fico a saber que afinal de contas - e ao contrário do que disse um senhor na televisão sobre os tempos feudais em que vivemos - , os egípcios eram pagos para construir o túmulo do seu faraó. para além disso os escravos tinham direitos como o direito de posse e casamento. mais, na mesopotâmia, e a partir do código de Hamurabi, existia uma lei que proibia a condenação sem provas, assim como outra que hoje conhecemos como "presunção de inocência". como a minha capacidade para derivar é grande, mesmo sem justificação, vou poupar-vos a parvoíces e tentar iniciar este post que em vez de ter um antes e um depois, deveria ter um antes e três depois. ficaríamos então com Rembrandt, Caillebotte (tenho quase a certeza que conseguiríamos qualquer coisa entre estes dois...), Chaim Soutine e Hermann Nistch, já que todos eles pintaram (no caso de Nitsch foi uma fotografia) bovinos esventrados. porém, e como já apresentei uma coisa assim parecida (como se isso alguma vez tivesse sido um impedimento...) vou abreviar e confrontar apenas o Caillebotte com o Chaim Soutine.
Caillebotte faz o que lhe compete: uma natureza morta. Aliás ele já havia feito coisas parecidas com uma língua de vaca e uma cabeça de porco (acho eu), penduradas num talho. o corpo do animal esventrado parece ter também uma ornamentação, tal como uma montra de talho, só que agora fazem desmaiar um raminho de salsa sobre as costeletas do cachaço, ou sobre a carne já moída (o que acho que não é permitido por lei... mas ainda se continua a ver. por acaso o trabalho dos talhantes desde sempre me fascinou. o corte da carne desde sempre me fascinou, mas isso fica para outra vez). Outro exemplo desta decoração da carne é o célebre leitão com uma laranja na boca, que é uma coisa que me choca porque um leitão é um porco bebé... não havia necessidade. bem, Caillebotte pinta sem sangue, como se o animal já tivesse sangrado tudo e tivesse sido limpo das vísceras e assim pudesse, contra todas as vozes figurar bem num quadro. É uma versão eugénica do animal esventrado. Já Chaim Soutine mostra a carcaça numa posição diferente. Como em Caillebotte não vemos mesmo o local onde as patas traseiras acabam, parece que o animal está bem seguro, está bem enquadrado. Já em Soutine isso não acontece. A carcaça está em desequilíbrio, no meio de nada (o fundo não é figurativo) e para além disso está mais aberta que a carcaça pintada por Caillebotte. Até parece ter sido sodomizada. Apesar de parecer ter sangrado o uso de cores que Chaim Soutine faz, mesmo as do fundo, acentuam a sugestão de sangue no animal. Tudo é berrante. Vemos que a peça em desequilíbrio e o jogo de cores é suficiente para a primeira nos parecer aceitável e a segunda, assustadora.
Caillebotte
Veau à l'étal
1882

Chaim Soutine
Le boeuf écorché
1924

3 Comments:

Blogger AM said...

eu é mais Bacon

25/1/12 8:41 da tarde  
Blogger alma said...

eh eh eh !
pela resposta do AM.
diria que a Beluga está a dar pérolas a porcos ...
sorry

gosto do Ecorché

27/1/12 9:34 da tarde  
Blogger beluga said...

eu nem bacon nem soutine (nem secretos nem orelha), mas caillebotte sim.

pérolas a porcos não sei, mas sei que com alguma pintura contemporânea estamos todos como bois a olhar para um palácio (ele é pérolas, ele é palácios...)

27/1/12 11:45 da tarde  

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