quarta-feira, agosto 24, 2011

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou como isto hoje vai ser bastante longo. nas Lições de Estética, de Hegel, o autor introduziu um conceito novo ao falar da pintura holandesa do século XVII: o de "domingo da vida". Com esta fórmula ele pretendia designar o estado de espírito das personagens da pintura holandesa (e quem sabe se também dos próprios holandeses da época) que era caracterizado por um aparente bem-estar físico e psicológico face aos momentos mais prosaicos da existência. Seja qual for a função, o local, a hora do dia... as personagens das pinturas holandesas estão bem, não obstante não serem propriamente católicos. Mas se eles que não são católicos e estão bem, então é porque, ou são bons, ou a arte torna-os bons. Diria que a arte coloca em evidência uma característica deles já que muito se deve ao pintor. No primeiro caso, no caso de Vermeer que apesar de ser um artista apreciado no seu tempo (era um artista que cumpria o que lhe era encomendado), sofreu um período mais obscuro, a jovem encontra-se a segurar numa balança. Até lhe chamaram a "Rapariga que pesa ouro", ou "Rapariga que pesa pérolas", pois são visíveis alguns colares de pérolas em cima da mesa. As análises feitas ao quadro porém não revelam a presença nem de ouro, nem de pérolas nos pratos da balança, nem mesmo de pérolas soltas em cima da mesa, à espera de pesagem. Ora, se se a senhora não está a pesar, o que é que está a fazer com a balança na mão? A questão não é tão irrelevante quanto parece, já que todo o contexto não é inocente. A jovem segura a balança e posa frente a um quadro do Juízo Final. Está por isso entre os valores materiais (em cima da mesa) e os espirituais (no quadro), se bem que a balança vazia nos indique que ela privilegia os valores espirituais em detrimento dos materiais. A confirmar isto temos o seu rosto sereno e certo do que está a fazer. Quem pesa assim, apesar de "filisteu" não podia ser má pessoa. Vermeer acentuou ainda mais a alegoria ao acrescentar espaço para a frente da personagem e cortar o mesmo quase atrás dela, colocando no centro físico da composição (façam duas diagonais no quadro e vejam como no centro está a balança. Ela até faz uma das mãos repousar para não retirar visibilidade ao objecto).
No caso da pintura de Pieter de Hooch - coetânea da de Vermeer, embora um ano seja um ano - há a tentativa de repetição do esquema e quase, do tema. Vermeer e Hooch trabalharam juntos na guilda de São Lucas em Delft e é provável que um tenha "copiado" o outro (copiado no sentido positivo já que neste tempo era normal pintar a mesma temática da mesma forma). Porém, apesar de tudo fazer crer que Hooch seguiu a pintura de Vermeer, é até provável que tenha sido ao contrário. Só a vemos assim (1º Vermeer e depois Hooch) porque Vermeer é mais conhecido. O que se passa é que a pintura de Hooch tinha, na sua versão original, uma pessoa sentada na cadeira e que assim, muito provavelmente Hooch precedeu Vermeer ou caso contrário não teria colocado ali ninguém. Isto é uma "faca de dois legumes" já que ao analisar a obra de Hooch vemos que muito difícil encontrar personagens sozinhas, sem mais ninguém, assim como é raro encontrar janelas abertas naquela posição ou tapeçarias. Teria o pintor feito de forma autónoma, sem influência de Vermeer, como uma experiência, um teste aos seus limites? Ou estaria, ao aplicar elementos nunca antes aplicados, apenas a seguir Vermeer? Humm....
Vermeer
Woman holding balance
1662-1663
National Gallery, Washington

Pieter de Hooch

Woman weighing gold

1664

Stiftung Preussis Kulturbesitz, Gemäldegalerie, Berlim

3 Comments:

Blogger João Barbosa said...

lá está! a minha balança está carregada de oiro e prata... está? não está, mas devia estar...
.
belo bife do lombo de prosa

25/8/11 9:41 da manhã  
Blogger beluga said...

Caro João Barbosa:
Não leu o post, pois não? É que o ouro era só uma analogia. Não existe lá ouro, nem num caso nem no outro.

31/8/11 12:28 da manhã  
Blogger João Barbosa said...

ya! i know

31/8/11 2:52 da manhã  

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