quarta-feira, junho 10, 2009

- o carteiro -
O Cristo Abissínio:
Diz a História que em 1494 Duarte Galvão chega à Etiópia, reino também conhecido como Prestes João, onde se julgava estar um poderoso reino cristão no Oriente. Antes desta embaixada, já em 1495 o rei D. Manuel havia enviado Pêro da Covilhã para entrar em contacto com o único reino cristão no Oriente. Julgava-se que o Prestes João era um reino tão rico e tão exótico que teria a forma do Tabernáculo que por sua vez é uma réplica daquilo que seria o templo perfeito: imagem do Céu na Terra. Porém a terra revelou-se pobre e oprimida pelas nações circundantes que eram de maioria muçulmana. Mais tarde, e como foi dito, D. Manuel envia uma outra embaixada à Etiópia e desta vez, com oferendas valiosas para os etíopes. Entre elas leva o Cristo Abissínio, uma pintura cujo traço se desconhece a nacionalidade, mas que foi oferta do rei português e que representava um Cristo. A imagem adquiriu tal importância que era colocada à cabeceira da cama do monarca, era levada com estandarte na frente da linha de batalha e tinha já adquirido um estatuto simbólico (as populações depositavam na imagem muita devoção) quando a Etiópia foi “invadida” por ingleses. À volta do país existiam muitas colónias inglesas e alguém, informado do valor que o Cristo da Abissínia possuía, pilhou a imagem e levou-a para Inglaterra. Os etíopes entraram em contacto com os ingleses, já no reinado de Isabel II para que a imagem fosse devolvida à Etiópia, mas a Inglaterra negou conhecer sequer a existência de tal peça. Ela não só existia em território inglês como foi vendida por um assessor do reino à Christie’s. Ora a leiloeira que é muito cuidadosa na avaliação das peças e leva sempre a leilão obras devidamente identificadas, vendeu o Cristo Abissínio. A quem? A um comprador português, de Coimbra que entretanto faleceu. Os herdeiros têm o quadro e podiam, a meu ver, por uma questão de cordialidade cedê-la de novo à Etiópia. Legalmente, a família não tem que o fazer. A lei que ordena a devolução de obras de arte pilhadas ou adquiridas após pilhagem é de 1932, mas não tem efeitos retroactivos; ou seja, só abarca o que foi pilhado depois desse ano.

Mas na minha cabeça a Etiópia é um país pobre. A imagem que tenho desse país hoje é a mesma de há alguns anos, quando a seca e as constantes batalhas com países rivais faziam as parangonas dos telejornais. Ainda que o país tenha evoluído, o que é que vale mais: a preservação de uma obra de arte em local visitável, com boas condições de conservação da peça e sem grandes riscos de pilhagem ou destruição, ou no país de origem seja ele qual for. Outro exemplo é o Mali. Muitos dos leilões de obras de arte africanas são feitos com peças do Mali, algumas de proveniência e método de aquisição muito dúbio. No entanto, mesmo que o país tenha todo o direito a receber a peça, não tem de criar primeiramente, condições para a receber e manter com as condições mínimas?

2 Comments:

Blogger João Barbosa said...

não sei de veio a Lisboa ver a exposição da colecção de arte africana de Eduardo Nery. de facto, havia belíssimos exemplares do Mali.

10/6/09 2:02 da tarde  
Blogger beluga said...

Caro João Barbosa:
é o preço da interioridade interior de cada um. Gostava de ter iso ver, mas não se pode ter tudo. E às vezes não se quer ter nada. Nem daquilo que se tem, nem do que não se tem.

23/6/09 1:35 da manhã  

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