segunda-feira, abril 20, 2009

- o carteiro -

Os Steinbroken* do Design
Já na semana passada estava a passar os olhos pela “Única” do Expresso (que por acaso não era a única revista que havia por ali, mas era a que estava mais à mão) quando me deparei com um artigo que se chamava “Comer com os olhos” (Revista Única de 10.04.09). Bem sei que não sou a pessoa mais indicada para falar de comida, mas também não serei a pior embora o artigo falasse do food design. Na minha opinião o “food design é como a pescada “antes de ser já o era”; ou seja, antes de alguém lhe dar um nome e teorizar sobre isso já há muito cada um de nós praticava o food design. Até tenho aqui uma fotografiazinha da Tele-Culinária de 1980, com receitas do chefe Silva para verem que, não obstante o serviço não ser da Vista-Alegre e os utensílios de cozinha não serem da Habitat, o já havia a noção do que era o food design, mesmo que não designado por esse nome. Era como dizia Goethe: “o que está dentro, está antes fora”. As batatas fritas em palitos são food design, as batatas pala-pála também, os peixinhos da horta idem, pratos como jardineira e massa à lavrador idem ibidem e até o cozido à portuguesa é um produto de food design. Passo a explicar:


No artigo (página 54 a 57). Fala-se de alguns “pioneiros” como Marti Guixé
cujo trabalho não acho premente, mas compreendo o lado divertido do design, ou da imaginação associado à comida. Vogelzang uma senhora que se apresenta como eating designer (seja lá o que isso for) diz que “constrói eating experiences (experiências do – acto de – comer) reflectindo sobre a dimensão social, cultural e sensorial da comida” (seja lá o que isso for, parte 2). Ao ver o site da eating designer acho que podemos ver que é mais uma eating artist. Podemos ver isso aqui. Falo de uma eating artist porque as suas interveções, mesmo que com o propósito “cultural e sensorial da comida”, não passam de instalações. Aí sim, há o apelo ao sensorial, mas não ao prático, ao útil e por isso não é apenas design. Há mesmo alguns exemplos apresentados no link que já existem e que nem por isso são tratados como “food design”, tais como as pequenas doses de sushi. Antes de Vogelzang as apresentar, tenho a certeza que o Japão as saboreava do mesmo tamanho e com o mesmo propósito. Bem sei que tenho uma visão muito pragmática do design, que associo forma à função e que gosto de separar as águas. Embora defenda que qualquer artefacto resultante de um processo de design deva ser simultaneamente prático, adequado ao que se propõe fazer, dentro do orçamento e acessível a todos, não descuro o sentido duplo que uma peça possa ter acho essencial, e tão importante quanto o resto, que a mesma faça um apelo a um leitmotif, a uma pertinência, enredo, conceito. Ainda relativamente a Vogelzang pode ler-se no artigo o seguinte “Vogelzang fez ‘projectos didácticos’, como Veggie Bling Bling (2007), em que com um utensílio para descaroçar maçãs criava colares, anéis, piercings e brincos feitos de cenouras, rabanetes e pepinos, esperando convencer os mais pequenos a comer vegetais.”. Ora o que é feito da sopa de ervilhas totalmente passada? O que é feito dos pratos decorados que os pais, mais ou menos extremosos nos davam: o arroz em cima, um ovo com duas gemas a fazer de olhos, uma azeitona preta no meio a fazer de nariz e a salsicha a fazer de boca? O que é feito da sopa de letras (no fim eu escrevi-a sempre o meu nome)? O que é feito das cerejas penduradas nas orelhas? O que é feito de expressões como “as cenouras fazem os olhos bonitos” ou “a pele do bacalhau faz as maminhas crecser”? Os mais pequenos sempre tiveram aversão a comer vegetais e outros alimentos, mas sempre os comeram e isso até era um acto divertido. As couves de Bruxelas são intragáveis, é verdade, mas só de pensar que podia comer uma couve (anã) inteira, comia! Voltando um pouco atrás: tanto a “jardineira” como a “massa à lavrador” apresentam-se com os produtos cortados no tamanho certo para a boca, quase nada necessita de faca. O cozido à portuguesa é um “dois em um” porque tanto pode ser um prato hiper calórico (para quem gostar e não se coibir dos enchidos), como pode ser mais saudável (para quem optar pelos vegetais, carne branca e uma porção de cereais).

Avanço no artigo e passo para uma parte que me irritou substancialmente até porque já tinha escrito no Belogue sobre isso. Portanto, quando li “Em Portugal, o livro ‘Fabrico Próprio’: o design da pastelaria semi-industrial portuguesa, dos designers Frederico Duarte, Rita João e Pedro Ferreira (Pedrita) é um caso de sucesso. (…) toma os bolos nossos de cada dia como objectos de design de pleno direito”, eriçou-se-me o pelo e bufei como um gato irritado. E mais não digo porque o resto está no link que deixei aqui em cima. Não compreendo e não aceito que se possa chamar de inovador a “criação” de mil-folhas (bolos) mais finos e chamar isso design. O design está na faca e na noção de cada um de nós de que se não conseguimos trincar um mil-folhas sem nos sujarmos, temos que cortá-lo. Não é preciso editar um livro, fazer um workshop, um programa de televisão e anunciar isso “em terra de cegos” como design.

Depois do momento em que a bílis me subiu à boca, surgiu na leitura o momento hilariante: “Numa perspectiva menos glamorosa, mas igualmente pertinente, a designer Sandra Neves desenvolveu um projecto, “Gostar de Comer” [que desde já aviso, não funcionaria com doentes do comportamento alimentar], que une food design e design inclusivo procurando soluções para pessoas que sofreram um acidente vascular cerebral e que portanto têm dificuldade em comer os pratos da cozinha tradicional portuguesa (um bom cozido, ou bacalhau com grão). Cortando a carne e as batatas em cubos, tudo se torna mais fácil e deixa de haver excluídos”. Aqui, confesso, quase fiz xixi de tanto rir. A última frase faz de todas as mães do mundo (quer dizer, quase todas), umas designers, uma vez que todas elas (a minha pelo menos), já cortavam a carne e as batatas em pedaços mais pequenos quando aprendemos a comer sozinhos. E isto quer dizer que todos os filhos, primos, tios, padrinhos e pais de pessoas que tenham sofrido um acidente vascular cerebral são designers porque, preocupados com a qualidade de vida dos seus parentes cortam a carne e as batatas e até fazem esparregado e empadão para quem perdeu a dentição a fim de não haver “excluídos”. Isto também quer dizer que ao contrário do que se pensa o design é a mais antiga profissão do mundo e que este está cheio de designers. Isto também quer dizer que num mundo sem excluídos vivemos na Utopia. Ou já teremos passado para a Distopia em que em nome do glamour deixará de haver excluídos?
*O conde Steinbroken era um personagem de “Ao Maias” de Eça de Queirós, minitro da Finlândia que representava a diplomacia inútil. A sua frase chave era “C'est grave, c'est excessivement grave".

4 Comments:

Blogger João Barbosa said...

não concordo totalmente. as criações da família sempre foram arte popular, não design. por outro lado, o que estes food designers querem ser é artistas. e é aqui que a Beluga tem razão, quando chama à baila os criadores de trazer por casa. uma sopa de ervilha passada não é design, mas arte... conceptual, é certo, mas não deixa de ser arte. o cozido à portuguesa é expressionista gestualista (pelo menos o do meu pai era)... e o que dizer das pescadinhas de rabo na boca? verdadeiro objecto de heráldica, que é um proto-design.
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ai escrevia o nome com as letrinhas da sopa?! ai era? e já na altura assinava beluga ou apenas ova?! ;-D
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sempre detestei massa e arroz na sopa, detesto coisas moles a boiar no prato

20/4/09 10:48 da manhã  
Anonymous maria said...

Beluga,
envie este seu texto para a revista única!
presta um serviço público :)
se for preciso assinaturas...
eu assino !

20/4/09 8:11 da tarde  
Blogger AM said...

uma posta-delícia

(subscrevo o coment da maria)

20/4/09 8:55 da tarde  
Blogger beluga said...

Caro João barbosa:
mas eu concordo consigo: a pescada de rabo na boca que a minha mãe fazia era para me aobrigar a comer peixe. a necessidade aguça o engenho. É uma criação popular. (Feito pela minha mãe é arte ao mais alto nível, se é que há níveis. também acho que os food designers querem ser artistas; e não há mal nenhum nisso. Têm é que se assumir como food artists e não estar a mascarar o que fazem com o guarda-chuva da utilidade. Aquilo que fazem é absolutamente inútil porque é só a verbalização (no caso da designer portuguesa) daquilo que toda a vida se fez.

quando escrevia o nome com letrinhas na canja de galinha, era o próprio, mas isso fica para fora da blogosfera. Ainda não imaginava ser ova nem subir de posto e ser beluga.

Eu detesto coisas que tremam tipo mão de vaca, ou coisas gelatinosas tipo... gordura de cozido.

cara Maria e Caro AM:
eu sou pequenina, não me meto com os grandes. a menos que se metam comigo. e já que estamos a falar de comida, digo como dizem os brasileiros: eu pago um boi para não entrar numa briga, mas pago uma boiada para não sair"

25/4/09 1:05 da manhã  

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