terça-feira, novembro 04, 2008

- o carteiro -

A revolta dos mil-folhas e das bolas de Berlim ou, a incredulidade:
Podem pensar que este post é uma implicância, implicância com uma minudência, uma coisa menor, sem importância, mas não vou deixar passar em branco (neste caso em preto e mesmo que ninguém leia podem já crer que o faço por catarse pessoal) o que vi e ouvi no programa "Portugal em Directo" transmitido pela RTP1 no passado dia 3o de Outubro. Deixo o vídeo para sentenciarem por vocês, mas passo a explicar. O programa abre com a apresentadora a dizer"pastelaria com design". Comecei logo a coçar aqui atrás, na cabeça e a fazer aquela cara: não há objectos com design ou objectos de design, assim como não há pastelaria com design. O exemplo melhor é o da natureza em que tudo trabalha em prol de maior eficácia e proveito: as folhas que colhem as gotas de orvalho, as garras dos predadores, o corpo dos ursos polares preparado para o frio... O que há é redesign de objectos ou styling, algo que começou há muito tempo, na década de 30 do século XX.
Quando se fala em pastelaria com design o que na verdade se devia dizer era que (e é todo o conteúdo da reportagem que me parece condescendente por nos passar um atestado de incompetência para avaliar, dando como boa e obrigatoriamente aceitável uma coisa que não o é) um grupo de jovens designers resolveu redesenhar alguns bolos na nossa pastelaria. E quando digo "nossa" estou a ser generosa e já veremos porquê. A Rita João, o Pedro Ferreira e o Frederico Duarte são três designers que vivem em Nova Iorque. Dizem, na reportagem, e por viverem longe de Portugal, ter saudades dos bolos portugueses. Vai daí, como se uma coisa tivesse a ver com a outra, resolverem actualizar bolos da nossa pastelaria dando-lhes uma practicidade que não tinham (palavras deles) e recuperar algumas receitas esquecidas. Mas esta ideia é autofágica. Os bolos a actualizar e tornar "mais práticos" eram o mil-folhas e a bola de Berlim. Quanto ao mil-folhas, desenharam-no mais estreito, para quando uma pessoa desse uma dentada não se sujasse com o recheio, o creme e a massa folhada. Pois eu tenho uma solução melhor: pedir o mil-folhas com a largura em que existe e, se realmente a pessoa está preocupada no quanto se vai sujar pede à menina que o atender "olhe, não se importava de cortar o mil-folhas na longitudinal?". O mil-folhas desenhado por estes jovens designers chama-se "mil-folhas finger"; ou seja, é dado um nome inglês a um bolo que é francês, que está na nossa pastelaria com várias adaptações e do qual os nossos designers sentiam saudades porque estavam em Nova Iorque. Wow, cosmopolita, não? O outro bolo em questão era a bola de Berlim. A reportagem não mostra, mas presume-se, por aquilo que é dito que se desenhou uma nova bola de Berlim com uma incisão diferente para o creme ser introduzido no interior do bolo, isto porque as pessoas se sujam com o creme da bola de Berlim que sai todo quando trincamos a bola. Só deixo duas perguntas. Não faz parte dos alimentos, destes pelo menos, que uma pessoa se suje? Não é daí que vem a palavra "lambuzar"?
Isto até podia ter algo de divertido se não tivesse ainda mais de subversivo e propagandístico. É que ao actualizar com estas incisões e novas medidas os bolos existentes, está-se a esquecer como é que eram os bolos originalmente. Ora como podem os jovens designers pretender recuperar a pastelaria tradicional (reintroduzindo bolos que estavam esquecidos) se ao mesmo tempo com as actualizações estão a votar ao esquecimento o mil-folhas tradicional e a bola de Berlim? Tenho a certeza que se a ideia pegar, daqui por uns anos, um outro jovem designer irá redesenhar a bola de Berlim e o mil-folhas para o seu formato original na tentativa de recuperar as tradições da nossa pastelaria. E assim andaremos. Para actualizar a pastelaria portuguesa, o trio de designers (a quem foi dada a oportunidade de expor este trabalho no MUDE - Museu do Design e da Moda em Lisboa talvez porque o seu currículo vago não é suficiente para abafar a expressão "designers em Nova Iorque"), recriou outros bolos como o Pagode. Como o nome indica e pode ser visto na reportagem, é tudo menos prático.

O que está errado em tudo isto não é os designers quererem dizer que foram muito inovadores, que são muito criativos. O que está errado é a televisão, que não fez os trabalhos de casa e "mete tudo no mesmo saco", vender-nos isso como algo de maravilhoso retirando-nos a possibilidade de questionar.

8 Comments:

Blogger Q said...

Tudo é pobre. O programa, a apresentador, a reportagem, e a repórter...já para nao falar nos designers que pensam que vieram salvar Portugal só porque resolveram fazer uma "tempestade cerebral" acerca de bolos com outros amigos (provavelmente designers), e decidiram repensar a forma e o "uso" dos bolos e, assim, criar uma nova oportunidade de mercado (nao me digas que trabalham na IDEO em NY!!)

Diz o outro para o Pedrita(Pedrita é um designer de 2 cabeças)

"Pedrita, Pedrita! Man, tenho uma ideia genial! Vamos fazer bolos com design pra que o pessoal fique com menos 1g de creme na boca cuando come!".

Bitch, please!

4/11/08 12:17 da tarde  
Anonymous maria said...

qq dia qd alguém falar na palavra "design" começo aos berros !!!!
"We showed them what to do, What the hell went wrong?"
- Mies Van Der Rohe

4/11/08 1:31 da tarde  
Blogger João Barbosa said...

áááácida. mas em grande. boa!

4/11/08 4:17 da tarde  
Blogger AM said...

pastelaria (fina) miniatura no Mude... mas que bem que eles estão (uns para os outros)

what went wrong, fomos todos nós, maria, a começar pelo velho homem novo correctamente "designado" e a acabar no próprio Mies dos últimos dias...

4/11/08 7:50 da tarde  
Blogger BadToTheBone said...

Eu se fosse a estes 3 meninos redesenhava um certo esfíncter que eu cá sei... pelas mesmas razões, claro... Raça da canalha...

4/11/08 9:51 da tarde  
Blogger BadToTheBone said...

não concordo.

6/11/08 9:03 da tarde  
Blogger beluga said...

Caro Q:
"póbre, póbre, bibes num anéxo". esta ideia dos bolos finos e pequeninos para a boquinha não ficar suja, merecia mesmo uma ensaboadela com sabão Carlos Aguiar. Eu não gostava dele, mas que ele meteria estes tipos na linha, não tenho dúvidas.

Cara Maria:
o que é que veio primeiro? o design ou a arquitectura? é como o ovo e a galinha.

Caro João Barbosa:
ácida quase nunca
doce quase sempre
em grande, tem dias

Caro Am:
coitados dos bolos que não têm culpa, mas aquilo foi um vómito do princípio ao fim.

Caro bad to the bone:
não compreendi. com o que é que não concordas?

7/11/08 12:31 da manhã  
Blogger BadToTheBone said...

Beluga, o primeiro comentário é meu. O segundo é da laranja metade. Uma troca de identidade... ehehehh

7/11/08 1:22 da tarde  

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