quarta-feira, abril 15, 2009

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

Antes e depois ou “porque alguém disse que não gostava de Damien Hirst” ou como “cara Maria, se o seu asco pela obra de Hirst lhe provoca comichões no céu da boca como o meu asco por El Greco, acho que isto bem merece um post. Há algum tempo tinha visto a segunda imagem, a imagem de Hirst a “imitar” qualquer coisa de Bruegel. Mas por mais que puxasse pela cabeça e consultasse os anais pictóricos e a minha biblioteca visual, não me vinha nada à ideia. Por isso é que às vezes demoro a postar: ou está perfeito, ou não está. Para mim faz toda a diferença e, assim como assim, ninguém deve ler isto, para quem ler não faz diferença nenhuma um dia para a frente ou dois dias para trás. Estava então a dizer que apontei no meu caderninho esta imagem e respectiva referência à espera do dia em que, em desesperadamente em busca de Brugel, ou por acaso, descobrisse o “antes” que dá existência ao “depois” de Hirst. Um dia, lá estava eu a ver um livro quando vi a gravura de Bruegel, referente às tentações de Santo Antão; não confundir com o quadro “A tentação de Santo António” do mesmo autor.


Daquilo que sabemos de Bruegel e que nos pode ser útil para este post é que ele e Hirst… não tinham nada em comum. É talvez mais provável que se saiba com consistência mais sobre Bruegel do que sobre Hirst. Bruegel era um homem da sua terra: chamavam-lhe “Bruegel di Breda” (cidade onde terá nascido) e “pintor camponês” (ou qualquer coisa semelhante). Não era no entanto um inculto ou um homem desinteressado pelas práticas dos outros países: tal como pintores que desejavam ter o seu nome associado a grandes obras artísticas e mecenas generosos, Bruegel romanizou-se; ou seja, foi para Itália para aprender mais sobre o estilo e as novidades italianas. Na sua terra era considerado um homem culto, que privava com as elites, mas divertido e sociável: tanto se dava com as elites como com os camponeses. Como se não bastasse era um “socialista” atento à política e condições de vida no seu meio, embora a sua obra não transparecesse qualquer crítica social. Mesmo quando, nas suas alegorias, se socorre do onírico e do surreal, não é no sentido crítico, isto porque Bruegel era a favor da Reforma calvinista por oposição ao Catolicismo. Isto não seria problema se nessa altura a Flandres não estivesse sob o domínio espanhol que era nada mais nada menos que Católica. Mais; o rei espanhol era um coleccionador de Brugel. Apesar de ter privado com os grandes de Itália, não era inferior a eles. Rubens aliás era um grande admirador seu e no túmulo de Bruegel encontra-se uma obra de Rubens. Mas não era um pintor mundano: interessava-lhe observar as pessoas, ver as suas reacções, medos e fantasias, mais do que pintar deuses ou deusas. (Não foi Tolstoi que disse “pinta a tua aldeia e pintarás o mundo”?). A sua obra retrata tanto o quotidiano do povo, no que diz respeito ao seu trabalho, mas também no que diz respeito às desigualdades sociais, como as lutas entre os ideais religiosos. Na gravura “As tentações de Santo Antão”, vemos como o universo criativo do pintor se aproxima do de Bosch na forma como trata temas bíblicos como se de episódios da aldeia se tratassem. Bruegel utilizou aqui esses elementos do quotidiano para ilustrar a lenda popular das tentações do santo, mas também utilizou ou provérbios como forma de codificar o quadro, algo que também fez na obra “Provérbios Flamengos”. Um exemplo: o peixe que apodrece na cabeça do santo simboliza a decadência do catolicismo (Cristo é identificado com um peixe no Cristianismo)

Pieter Bruegel
Temptation of St. Antony the Great



David Bailey
Damien Hirst
2004

3 Comments:

Blogger João Barbosa said...

e quem, além de Greco, não gosta de Renoir? Hummm?! não tem direito a posta? vou amuar e fazer birra... inundar-lhe o belogue com as minhas lágrimas..
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é tudo a brincar, pois já me tem brindado muitas vezes.

15/4/09 9:37 da tarde  
Anonymous maria said...

Beluga,

Muito obrigada,pela sua atenção !

O Damien Hirst não me chega a fazer comichão no céu da boca! mas algum asco sinto, não gosto de aldrabices ...

se o autor for sincero (além da sinceridade em extorquir dinheiro à custa de bluff), estou-me nas tintas se é bom, medíocre ou simplesmente mau...

Qt ao Bruegel foi me sempre um pintor simpático da 1ª divisão :)

Excelente post :)

16/4/09 12:33 da tarde  
Blogger beluga said...

bem, o Renoir desculpa-se. acho aquilo muito próximo do quadro do menino com a lágrima no canto do olho, esse best seller pictórico que abunda nas casas do nosso Portugal, mas ainda trago. quer dizer, não tenho nenhuma reacção alérgica; passo bem. O el greco dá-me arrepios e comichões: é tétrico.

tchim-tchim outra vez!

Cara Maria:
não tem que agradecer (por isso é que tomei uma nota no meu caderninho e toda a gente criticou). volte sempre!

18/4/09 12:44 da manhã  

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