sexta-feira, fevereiro 20, 2009

- o carteiro -
numa hagiografia portuguesa
fica bem
S. Gonçalo
sin vergüenza

Sei que "vergüenza" é castelhano, mas achei que ficava bem. É que este "vergüenza" tem duplo sentido. São Gonçalo de Amarante é um santo sem vergonha exactamente por causas das suas "vergonhas" que andam muitas vezes de fora. Vamos então ao que interessa e à história oficial – os os mais afoitos poderão saltar. São Gonçalo, padroeiro da cidade de Amarante, nasceu por ali em 1187. Ainda novo dedicou-se ao sacerdócio. No entanto alimentava o sonho de visitar a Terra Santa e Roma. Para não abandonar a paróquia onde era sacerdote, pediu a um protegido seu que também era padre que cuidasse da mesma enquanto empreendia a sua viagem. Segundo Frei Luís de Sousa, São Gonçalo passou cerca de 14 anos a viajar (sem licença de vencimento, penso eu) e quando regressou, aquele que um dia foi seu protegido, ostracizou-o e como o tinha dado como morto, tomou o lugar do nosso santo. Que na realidade é só beato. Como não tinha para onde ir acabou por se tornar ermitão na ermida da Senhora da Assunção em Amarante e mais tarde ingressou na ordem dos Dominicanos em Guimarães, tomou o hábito, embora tenha vivido sempre na ermida onde faleceu em 10 de Janeiro de 1259. Mais tarde a ermida deu lugar à Igreja e ao Mosteiro de Amarante.

Na hagiografia oficial de São Gonçalo são invocados inúmeros feitos. O principal é aquele que depois o representa nas pinturas e que se refere à construção da ponte sobre o rio Tâmega que terá dado origem ao núcleo urbanístico que agora é Amarante. Diz-se que a sua intervenção na construção da ponte foi ao nível dos peditórios nas populações vizinhas, ao nível da construção em si (esta estava atrasada o que dificultava a vida das populações. São Gonçalo construiu o que faltava da noite para o dia) e ao nível das aparições havendo relatos de pessoas que um dia, ao observarem o nível da água do rio, viram aparecer sobre a ponte a imagem de São Gonçalo.
António André
São Gonçalo de Amarante
c. 1600 – 1650
Museu de Aveiro

Atribuem-se-lhe outros milagres que a Igreja Católica não confirma nem desmente. Como é um santo que também tem devotos no Brasil, é natural que seja qual for a sua história verdadeira, esta vai-se misturar sempre com as histórias idiossincráticas dos dois países, das suas populações e com aquilo que cada um privilegia no santo. No Brasil por exemplo -e vemos pelo conteúdo da história que esta devoção não poderia ser portuguesa - que após a viagem à Terra Santa e a Roma e após o desentendimento com o outro padre, São Gonçalo procurou manter uma vida virtuosa ajudando os outros a manter a sua conduta de bons e devotos cristãos. Para isso, conta-se que calçava uns sapatos com pregos (para fugir à tentação), agarrava na sua viola e ia pelas ruas onde sabia ir encontrar prostitutas e para elas tocava e dançava. O objectivo disto era mantê-las entretidas e cansadas: enquanto estavam a dançar não se estavam a prostituir e quando ficavam cansadas já não saíam para ir procurar clientes. (Eu cá acho que a estratégia devia ter sido directamente nos clientes e não nas prostitutas. Já se sabe S. Gonçalo que quando "um não quer, dois não pecam") Diz-se até que ainda hoje existe, nos dias de romaria a S. Gonçalo (dia 10 de Janeiro), se baila essa dança em São Gonçalo do Amarante, Brasil.


A lenda da vida de São Gonçalo recua até à sua infância. Diz a mesma que no próprio dia do seu baptizado, ainda criança, contemplava com amor, temor e encanto uma imagem de Cristo Crucificado.
Mas há também uma terceira história que é a menos referida, mas com certeza é aquela que o povo relembra com mais facilidade e carinho, e que a Igreja teima em afastar dos dicionários de santos. (Aliás, nos dicionários de Santos, à excepção do Dicionário de Santos Portugueses de João Ameal), não há referência a São Gonçalo. Está bem que é só beato, mas não custava nada dizer um bocadinho mais). E a história que o padre João Gaspar de Aveiro diz tratar-se de uma figura "quiça adulterada, no decorrer dos séculos, num homem galhofeiro e com culto menos digno". Note-se que Aveiro também festeja o São Gonçalo, que o povo desta cidade trata carinhosamente por São Gonçalinho. No mesmo dia 10 de Janeiro, a confraria de São Gonçalo (para os aveirenses, santo protector das populações piscatórias cuja ermida octogonal se ergueu na zona perto dos canais) junta-se no cimo da capela de São Gonçalo e atira, de lá de cima cá para baixo uns doces típicos em forma de mão curvada que se chamam "cavacas", muito duros e que são apanhados através de variadas técnicas. Como a confusão é grande e os confrades atiram com a sua maior força (tendo havido mesmo lesões em pessoas que não se protegeram contra a cavaca nem a apanharam), as pessoas utilizam redes de pesca, guarda-chuvas ao contrário e até luvas de hóquei.
Mas vamos à história. Diz-se que São Gonçalo é o santo protector das velhas e que cura problemas de fertilidade masculina. Segundo a lenda o santo teria casado em segredo os habitantes de uma aldeia chamada Ovelha, habitantes esses que a Igreja não queria casar: os que viviam maritalmente. Entre estes encontravam-se novos e velhos, como é claro. Mas o povo passou a dizer que São Gonçalo era o "casamenteiro dos de Ovelha", que abreviado e com o tempo deu "casamenteiro das Velhas". Das questões sentimentais rapidamente o povo passou para as questões de ordem sexual. Não há provas neste caso (assim como não há no outro, mas sempre há uma história que o justifica) de que São Gonçalo tenha sido o taumaturgo dos impotentes sexuais, mas se virmos os ex-votos que são colocados na capela onde se encontra o seu sarcófago antropomórfico, notaremos que se são na sua maioria partes do corpo como seios, partes genitais masculinos e femininos e corpos de crianças. O que pode corroborar estas duas histórias e juntá-las é a venda, ainda hoje, nas barracas e nas pastelarias mais tradicionais de Amarante, de uns bolos em forma de pénis aos quais se dá o nome de (desculpem-me) caralhinhos de São Gonçalo.



Eis a vergonha do santo desavergonhado. E mais, tão desavergonhado é que permitiu que o povo fizesse estes lindos versinhos que qualquer um pode ouvir em Amarante e não só:

"São Gonçalo de Amarante
Que estais virado para a Vila
Vira-te para o outro lado
Que te dá o Sol na p***"

"Casai-me, meu São Gonçalo
Casai-me porque podeis
Já tenho teia de aranha
Naquilo que bem sabeis"

E anda a gente com terços e rosários e com o credo na boca, a bater no peito e a fazer peregrinações para estas poucas-vergonhas. Ai se fosse no meu tempo...


2 Comments:

Blogger João Barbosa said...

como se comprova, o cristianismo não terminou com o paganismo, engoli-o... lembro-me de príapo...
.
já não me lembrava dos marsapos de s.gonçalo...
.
a foto dos ditos bolos lembrou-me duma cena de «as recordações da casa amarela», em que a senhora manja uma tíbia. o chantilly escorre-lhe da boca, e não se vê o bolo todo, donde que o que resulta é uma simulação de felatio.

20/2/09 8:06 da tarde  
Blogger AM said...

deliciosa (smile)

21/2/09 10:32 da tarde  

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