quinta-feira, outubro 09, 2008

- o carteiro -

E a arquitectura, Santa Bárbara*?

Tenho andado aqui com uma grande pulga atrás da orelha e não sei se a dou para o circo ou se a mato. Acho que a morte da pulga é impossível porque a pulga é esta questão bizantina que eu tenho e outros têm: onde classificá-la? A arquitectura, não haja dúvidas disso, desde sempre foi a preferida das artes (o arche, arte primeira), a mais perfeita a que melhor servia. Mas aí começam os problemas. A arquitectura tem um lado funcional (lembro os arcos de triunfo que assinalam a entrada e saída das cidades, os hospitais, as casas de habitação, fábricas e bibliotecas, templos, estações de caminho de ferro) que não me parece compatível, ou por outro lado, pode ser uma mais valia, com as outras artes. Mesmo assim não me parece compatível com elas pois tanto a escultura como a pintura ou mesmo a poesia, expulsa da República de Platão, têm apenas como objectivo proporcionar a fruição ao outro, o prazer dos sentidos. A luta relativa à "incompatibilidade" não se coloca entre a definição de arte e a arquitectura como se pudesse existir algum parâmetro nessa definição tão vaga que vai mudando consoante o autor, que portajasse a arquitectura ou impedisse mesmo a sua admissão.

Partindo novamente da velha dicotomia forma/função que torna demasiado mecânicas as observações do que nos rodeia, a utilidade da arquitectura está relacionada com a sua função (pode ser mais ou menos útil se for mais ou menos funcional), mas não está relacionada com a sua forma. Porém, a forma é aquilo que define a beleza da arte e não a função. Ninguém avaliaria um quadro pela sua função, se é que uma pintura tem função. Exceptuando casos como as pinturas de via sacra em igrejas medievais ou uma missa fúnebre. No entanto não se pode dizer que nestes casos nem a pintura nem a música tenham uma função prática. E os exemplos apresentados, posso dizê-lo, são esfarrapados porque não são práticos. Ajudam à execução desta ou daquela função, mas não são práticos. Estão em patamares de utilidade diferentes daquele alcançado pela arquitectura. Se uma casa construída para habitação é impossível de habitar, então a arquitectura falhou, mas se um quadro não cobre a parede toda ou não ajuda os fiéis a perceber quais os momentos da vida de Cristo, não se levanta nenhuma questão visto haver substitutos, e essa não ser a função da pintura. No entanto, se a casa é habitável, mas desconfortável porque a sua forma "agride" quem lá habita, porque é fria ou desconfortável, então o papel do arquitecto ficou também pela metade. Se nos lembrarmos da expressão "arte pela arte", a arquitectura não poderia ser uma forma de arte por excelência porque não separa o que é útil do que é artístico.

Porém estamos a colocar toda a questão na dicotomia funcionalismo/formalismo. O tal funcionalismo de que falava há pouco (a forma acompanha a função - Louis Sullivan) esbarra no formalismo (a forma "tem sempre razão" e deve ajudar a função) e ficamos sem perceber se deve prevalecer a forma ou a função. Vejamos os casos de pequenos edifícios sem qualquer função como templos em miniatura que se encontram em muitos jardins de palácios oitocentistas. Nesses casos a arquitectura é ornamentação e se é apenas ornamentação, não é arquitectura. Se é ornamentação, e partindo do princípio que a "forma segue a função", e que "ornamento é crime" (Adolf Loos), então esta arquitectura não serve os propósitos da arquitectura. Esta claro é uma visão extrema que até remete para o Historicismo, uma vez que limita a arquitectura à sua época e à sua função. Em parte concordo pois quando a arquitectura se escuda por trás de exemplos anteriores pode estar a esquecer a sua contemporaneidade. Além do mais, revela-se um gasto desnecessário de energia, dinheiro e pessoas pois muitos revivalismos arquitectónicos apresentam colunas gregas que não seguram nada, entablamentos sem função, etc. Assim como um pintor de hoje não copia a técnica do século XVI, então a arquitectura não se deveria socorrer de revivalismos desnecessários. Desta forma torna-se mais difícil fazer a defesa da forma em detrimento da função, uma vez que os exemplos apresentados, e outros nos mostram que as cópias não contribuem para a função nem tornam o edifício mais belo.
Mas em relação à forma, note-se que o próprio Vitrúvio a refere. Chama-lhe Venustas, mas mais uma vez e para dificultar a defesa da forma, acrescentou-se a utilitas e a firmitas; ou seja a utilidade e a estabilidade construtiva. Estes dois termos não são tendencialmente funcionalistas isto se atendermos ao facto de existir beleza na firmitas. Apreciamos a beleza de uma ruínas pelo seu método de construção que graças à degradação fica esventrado e à mostra de todos.

Cá para mim, que ninguém nos ouça, as duas devem ter iguais percentagens de importância, pois se a função determina a forma, não é menos verdade que a forma potencia a função e se a isto acrescermos a expressão, temos arte. A ideia de utilidade que não consigo ultrapassar, tem de ser vista como uma mais valia na arquitectura e não como um foco de rivalidade entre esta arte a as outras. É que a arquitectura apresenta também vantagens face à pintura, por exemplo. Não é a representação do real, mas sim o real em si, logo não é enganadora.
*Santa protectora dos arquitectos

5 Comments:

Blogger AM said...

ai que comichão beluga...

a "polémica" à volta da questão entre a forma e a função é um pouco bizantina... e quem pensa muito nisso, "pira"
bauhaus e ronchamp, (gosto tanto quando as obras não precisam de mais do que uma palavra...) são igualmente "formais" e "funcionais"

9/10/08 8:05 da tarde  
Blogger Belogue said...

Os "ismos" (estes e outros) hoje quase não fazem sentido, mas é de facto uma prerrogativa da arquitectura em que nunca tinha pensado: a única das artes que é útil. (Li o seu post sobre a "receita" com os ingredientes formalismo e funcionalismo no Despropósito e a propósito, estava a acabar de fazer, e pela primeira vez, empadas de galinha. Como ficaram bem, considerei-me arquitecta.)

12/10/08 11:38 da tarde  
Blogger AM said...

a minha especialidade, por estes dias, é bolacha maria torrada esmigalhada à mão com iogurte natural e banana às rodelas
só por aqui já pode avaliar do meu sucesso como arquitecto...

13/10/08 7:19 da tarde  
Blogger Belogue said...

não entra todos os dias na Ronchamp, pois não? e isso não quer dizer que os outros edifícios não sejam bons. eu cá acho que o iogurte com a banana e a bolacha maria, um clássico, qualquer dia podia entrar para o cardápio (parte das sobremesas) de um restaurante. já agora, deixo-lhe uma pergunta que não sei se vai ler, por isso não sei se vai responder: qual é o equivalente gastro´nómico, para si, à ronchamp?

16/10/08 1:32 da manhã  
Blogger AM said...

ah :) (desculpe o sorriso mas teve que ser), essa é fácil
o equivalente gastronómico de Ronchamp são os nossos incomparáveis doces conventuais
ai o pecado da gula...

17/10/08 11:12 da tarde  

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