sexta-feira, julho 18, 2008

- o carteiro -
Os auto retratos de pintores são comuns; até os mais tímidos se pintaram. Implica um processo de cisão entre o que representa e o que é representado, bem como um processo de auto-reflexão: quem representa acha sempre que o representado é uma parte de si. Os pintores não pretendem com o auto retrato contar uma história acerca de si, nem contarem a sua história, nem sequer pretendem ser verdadeiros assim como não pretendem falsear nada. Pretendem somente colocar-se no lugar do retratado, por uma vez olharem para si próprios do exterior e interrogarem-se: “quem é este?”, “O que faz aqui?”. Courbet é a excepção à regra (isto se ela existir pois é comum também os poetas fazerem a sua biografia interrogando-se. Courbet é o artista que se pinta no lugar de artista como fez na obra “Atelier do pintor”. O que não se sabe é que o título da obra continua e diz o seguinte: Atelier do artista – Alegoria Real, Histórica, Moral e Física que resume um período de sete anos da minha vida artística”. Isto revela uma grande capacidade de reflectir sobre si próprio e uma grande vontade em mostrar o produto dessa reflexão. É também comum os artistas representarem as suas musas (que não são necessariamente as suas esposas!), mas não é comum fazerem-se representar ao lado delas, das esposas. É algo que o artista parece fazer só mesmo em “desespero de causa”, ou quando o casamento é recente. Pelo menos foi o que me pareceu.
O rosto de Adriaen van der Werff não é de uma felicidade contagiante; contido ele mostra um retrato com a mulher e criança. Representa-a quase como se fosse um membro da realeza e faz-se representar da mesma forma embora não seja um auto-retrato ostensivo. E ainda tem mão para pegar na paleta e nos pincéis.

Adriaen van der Werff
Self-Portrait with a Portrait of his Wife,Margaretha van Rees,and their Daughter,Maria
1699
Rijksmuseum,Amsterdão

Gabriel Metsu aproveitou a primeira refeição do dia para se fazer representar junto à sua esposa naquele que é também conhecido por “Os comedores de ostras”. Só para meter inveja aos “Comedores de batatas”! Metsu não é conhecido por ter um estilo só, apesar da sua mudança de estilos poder indicar… o seu estilo. No entanto retrata-se como convém junta da esposa, numa imagem de circunstância a servir bolinhos à respectiva, naquilo que é, sem dúvida, um retrato de projecção de estatuto.

Gabriel Metsu
Breakfast
1660
The Hermitage, São Petersburgo
Jan de Baen, mais amoroso, pousa a mão sobre o ombro da esposa que mostra a pequena pintura onde podemos ver a filha. Há mais familiaridade, e mesmo sentimento, nesta imagem do que nas duas anteriores, mas continua a ser um retrato de circunstância, como se ambos estivessem a fingir um momento de intimidade em que são apanhados e congelados o tempo suficiente para terminar a obra, por um pintor. Eles não posam propositadamente, porque querem ser vistos juntos, porque querem perpetuar o momento, mas porque assim teve de ser.

Jan de Baen
Self-Portrait with His Wife, Maria de Kinderen
1674
Museum Bredius, The Hague

Quanto a Rubens é o mais apaixonado dos artistas: junto da sua primeira mulher Isabella Brandt, filha do humanista e advogado Jan Brandt, bastante conhecido naquele tempo na Antuérpia, Rubens posa com ela para a “fotografia”. Os dois estão de frente para quem vê (ou para quem os retrata), estão confortavelmente sentados, ela posa com estilo e graça, ele cruza a perna e esboça o início de um sorriso, um sorriso um pouco tímido e matreiro como se fosse a contar uma piada e estão de mãos dadas. E notem isto no título: em português diz-se “O artista e a sua esposa, Isabella Brandt debaixo de uma madressilva”. Em inglês diz-se “honeysuckle bower”.

Pieter Pauwel Rubens
The Artist and His First Wife, Isabella Brant, in the Honeysuckle Bower
1609-10
Alte Pinakothek, Munique

2 Comments:

Blogger João Barbosa said...

fiquei com a sensação de que faltou um Van Gogh... ao ler o texto fiquei a saborear um quadro ausente, um auto-retrato em que Van Gogh se representa enfaixado, após ter cortado a orelha.

18/7/08 10:43 da manhã  
Blogger Belogue said...

Caro João Barbosa:
Mas acha que falat o Van Gogh em relação a esta questão da auto-reflexão, do retrato como "abandono da alma" para se ver de fora? Mas são tantos os que se retrataram! Citei o Courbet porque o título da obra não é conhecido na totalidade.

19/7/08 1:15 da manhã  

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