terça-feira, fevereiro 19, 2008

- o carteiro -

Os sete actos de misericórdia são um tema mais ou menos conhecido e reproduzido por vários artistas. É facilmente compreendido e permite, contar a história dos sete actos de misericórdia enunciados no evangelho de São Mateus (Mateus 25, 35-40), separadamente, como manda a tradição. O evangelho fala apenas de seis: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.” (dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, acolher os forasteiros, vestir os pobres, prestar auxílio aos doentes, visitar os encarcerados). A estas a religião Católica juntou “enterrar os mortos”. Estas eram ideias já assentes na Bíblia, como vimos, mas que ganharam mais força com um grupo chamado “Nova Devoção” que no século XVI as divulgou. Quando digo “separadamente”, refiro-me ao facto de cada acto poder existir independentemente do outro, ou dos outros.

Master of Alkmaar
The Seven Works of Charity
1504
Rijksmuseum


Penso que poucos foram os artistas que os pintaram no mesmo espaço, pois isso levantava um problema de difícil resolução: como contar uma história em que todas estas situações coexistam e com um fio condutor entre elas. Encaixá-las nos limites da tela não era difícil, isso já tinha sido feito antes da descoberta da perspectiva por pintores que procuravam retratar, por exemplo, as estações do Calvário. Sendo Cristo um só, a repetição da personagem fazia com que as partes não fossem articuladas.

Church of St John the Evangelist
"dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede e acolher os estrangeiros"
Wolverhampton


Church of St John the Evangelist
"cobrir os nus, visitar os doentes, acudir aos presos"
Wolverhampton

Esta encomenda feita a Caravaggio foi tratada de forma tipicamente napolitana, mas pouco habitual. Esta composição conta com um número tão elevado de intervenientes, que o habitual jogo de tensões e dramas que a luz e a sombra permitiam, é substituído pela qualidade dinâmica. O único ponto de luz é a tocha que uma personagem em segundo plano, à direita segura e que estranhamente não é dissimulada por uma sombra, uma vez que a origem dos pontos de luz em Caravaggio é sempre de difícil definição. O pintor optou por utilizar como modelos pessoas da rua, pessoas comuns (como era habitual) e com isto criou uma desordem nos actos quando estão todos juntos, que aproximam o todo de uma cena nocturna de rua. No entanto estas personagens desaguam na pintura vindas de diferentes tempos e espaços, como se tivessem sido recortadas da Bíblia.
Caravaggio
The Seven Acts of Mercy
1607
Church of Pio Monte della Misericordia, Nápoles

Note-se primeiro que a Virgem e o Menino assistem a tudo de cima, protegidos por dois anjos interlaçados. Cá em baixo uma mulher do povo dá alimento a um homem que se encontra na prisão. É a Caritas Romana que alimenta o seu próprio pai, São Simão (?), dando-lhe o seio; ou seja “dar de comer a quem tem fome” e “visitar os presos”. São Martinho a santo medieval, mais à esquerda do quadro, desembainha a espada para dividir a capa e dar metade ao homem que se encontra nu a seus pés (“vestir os nus”). Ao lado do homem que está no chão encontra-se um outro, que não se consegue ver muito bem, mas que pode representar um doente. Assim, aquele que está de costas nuas para nós estaria a praticar uma obra de misericórdia ao “cuidar dos doentes”. Junto a São Martinho encontramos um outro homem, talvez um fidalgo, São Tiago de Compostela que simboliza os peregrinos ou mesmo o apóstolo Jacob, e que conversa com um estalajadeiro. Este indica-lhe com um movimento de mão a estalagem e guarida garantida (“acolher os estrangeiros”). Nas costas destes move-se Sansão, vindo do Antigo Testamento que, sequioso, aceita água do maxilar de um burro (“dar de beber a quem tem sede”). Entre este grupo à esquerda e a mulher à direita, nota-se o transporte de um corpo morto, que não é visto na totalidade, mas sugerido pelos pés (“enterrar os mortos”).

4 Comments:

Blogger João Barbosa said...

acrescente-se: dar de ler no belogue a quem lá vai dar.

19/2/08 1:55 da tarde  
Blogger beluga said...

acrescente-se "quem lá vai dar, perde o seu tempo".

esqueci-me de dizer que é Sansão porque na vida de Sansão há um episódio com os filisteus em que matou mil deles com a queixada de um burro. a escolha de S. Martinho é óbvia e São Martinho é muito apreciado em França, daí a razão para ter escrito que as personagens tinham proveniências muito diferentes. Quanto a Jacob... se for Jacob não é deverá ser o primeiro Jacob já que esse foi o fundador das doze tribos de Israel, não tem muito a ver com a peregrinação. Inclinava-me mais para São Tiago. Quanto à caritas Romana é uma personagem do livro "De Factis Dictisque Memorabilibus Libri IX" (qualquer coisa como "Ditos e factos da memória romana"). é a história de uma filha que alimenta o seu pai encarcerado, dando-lhe leite do próprio peito (acho esta história de muito mau gosto). esta atitude impressiona os carrascos e pai acaba por ser solto.

Costuma chamar-se a isto "adenda", mas achei que o belogue não tinha categoria para tal. Contudo, não podia privar o meu provável único visitante de hoje deste esclarecimento.

19/2/08 10:51 da tarde  
Blogger João Barbosa said...

:-) oiça... estou maravilhado

20/2/08 10:02 da manhã  
Blogger Instituto Cultural Emilio Sessa said...

Prezado Beluga. Ingressamos no teu site por intermédio do teu artigo sobre as "Sete Obras de Miseri-córdia". Queremos te comunicar que aqui no Rio Grande do Sul (Brasil), na cidade de Caxias do Sul, existem 14 magníficos painéis das Obras de Misericórdia Corporais e Espirituais, pintadas por Emilio Sessa, artista que o nosso Instituto se propõe a pesquisar. Nosso site é www.emiliosessa.com.br

3/10/09 1:09 da manhã  

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