segunda-feira, agosto 06, 2007

- o carteiro -
Caro AM:
Parece que as segundas feiras são os dia das res(postas). O termo “truncado” foi utilizado primeiro por si. Pensei que se referia à pintura cortada, como se lhe faltasse um pedaço essencial para poder ser compreendida. No entanto também referiu gostar mais das que têm enquadramentos estranhos, não convencionais. Acabei por colocar tudo no mesmo saco, embora truncadas, truncadas, daquelas truncadas que nos fazem pensar “falta aqui um bocado”, e segundo a minha investigação só a banhista de Ingres. Mas vendo ampliada, a banhista tem tudo o que é necessário para ser compreendida como tal e por isso será um enquadramento fora do vulgar que a caracteriza e não um corte propositado para provocar tensão. Os “cortes” propositados parecem-me muito raros. Há jogos de luz e sombra para criar tensão, há composições em diagonal e os tais enquadramentos raros, mas cortes, talvez não. E digo talvez porque repito, a banhista de Ingres tem tudo para ser uma simples banhista. Está entre uma cama e um reposteiro, aos seus pés uma pequena saída de água para preparar convenientemente o banho e como sabemos, Ingres foi influenciado pelo exotismo e pelo orientalismo. A nossa banhista tem um turbante com padrão típico do exotismo pretendido e talvez não fosse há altura necessária uma cama por inteiro para perceber a pintura… como inteira.

Jean-Auguste-Dominique Ingres
Bather of Valpincon
1808
Musée du Louvre, Paris

Ingres também foi influenciado por Jacques Louis David que pintou a célebre Morte de Marat. Em tudo o quadro é perceptível e não nos deixa dúvidas quanto ao tema nem quanto à composição, apesar da banheira não ter sido pintada por completo. No entanto há tensão na grande mancha de cor criada por cima do morto, na parede que serve de pano de fundo ao homicídio.

Jacques-Louis David
Death of Marat
1793
Musees Royaux des Beaux-Arts de Belgique

Mas mais uma vez, luz e sombra, linhas de composição e outros não definem uma “truncada”. Nem sei se as haverá: retratos não completos não podem ser considerados truncados, pinturas onde uma das personagens secundárias não aparece por completo não pode ser considerada truncada, isto se a sua ausência não afectar a leitura da obra. Há casos em que o enquadramento justo e o desconhecimento do tema nos levam ao desconforto perante a pintura, mas também não podem ser consideradas truncadas. E depois claro, há aquelas obras que não deixam nada para a imaginação. Escolho uma, mesmo temendo cometer um sacrilégio, mas cá vai: a ronda da noite, tão apreciada assemelha-se mais a uma fotografia de um ensaio da Cavalleria Rusticana Pietro Mascagni, do que uma grande obra de arte. Mas haverá quem pense o mesmo dos girassóis de Van Gogh e eu acho-os tranquilizantes, tristes, sofridos, como se houvesse uma libertação na dor e no inalcançável.

Não sou especialista em nada, apenas interessada.

2 Comments:

Blogger AM said...

olá beluga

muito obrigado pela res posta

concordo com o que diz sobre a "banhista" do Ingres e em como o quadro tem tudo (no sitio) para ser "inteiro" e sem "falhas", no tema e na composição
mas depois de ver aquela imagem na posta "da moda" do outro (com o "senhor" sentado do outro lado da cama...), senti-me "incompleto"... foi apenas uma impressão... que esteve na origem desta nossa agradável troca de ideias sobre as pinturas "truncadas" :)
a res pega no Marat está "bem", interessante (não é por acaso que é... "interessada")
ao pensar nas "truncadas" fui parar ao Toulouse Lautrec, que participou na invenção desse olhar moderno, "truncado", "fragmentado" (dito "cubista"...), sobre as coisas... tenho pena que não tenha pegado na dica

6/8/07 11:28 da manhã  
Blogger beluga said...

tentarei pegar. tenho de "estudar os dossiers"

6/8/07 11:43 da manhã  

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