segunda-feira, agosto 06, 2007

- ars longa, vita brevis -
hipócrates
A passagem de De La Tour para Sorrenti é semelhante à da arte egípcia para a arte do Renascimento. A pintura de perfil, por desconhecimento da perspectiva, própria da arte egípcia e que se prolongou Idade Média adentro, está então para La Tour como as pinturas descaradas de Frederic Bazille, Manet e Velzaquez estão para Sorrenti. Madalena de lado, quase de costas, mostra a sua vergonha de mulher pecadora, Tem dificuldade em encarar o observador, em ser encarada. Não olha directamente para o espelho, preferindo manter-se de lado, dando assim protagonismo à vela que se reflecte. Segundo aquilo que sei (tradição provavelmente recente), o reflexo de uma vela acessa num espelho é um chamamento do diabo. mas se a Madalena de De la Tour está arrependida, só poderá ser uma dupla invocação da presença de Cristo (numa Igreja sabemos que Cristo "está lá" quando o grande círio é acesso. O círio é acesso pela primeira vez cada ano litúrgico no primeiro Domingo do Advento. Ela está acompanhada e embora não seja culpada da morte de Cristo (tese mais recente dos códigos leonardianos), a caveira repousa sob os seus dedos interlaçados de quem espera pacientemente a mudança. Ou o perdão. Ao não se ver no espelho e perante os objectos que se encontram na mesa e no chão, podemos dizer que esta Madalena à semelhança da de Caravaggio, se despojou de tudo quanto era material.
Sorrenti é outra história... A modelo, vestida como a Madalena de De La Tour, mas com camisa de griffe na certa, olha para o observador com um certo enfado e displicência. Ela apoia o queixo na mão, retira as costas da cadeira, não estando por isso em repouso total e vira a caveira para o observador como que confrontando-o com a sua própria morte. Madalena sim, por semelhança com o original, mas nada penitente. As duas velas mantém-se, mas com significados diferentes. Como diria Vicente Verdú iluminam o individualismo das duas personagens: não são Cristo, não o invocam, mas trazem para a ribalta da composição negra tão ao gosto de De La Tour, as pessoas. E quando escrevo pessoas, não o faço ao acaso: são pessoas e não figuras bíblicas. Como já vimos a Madalena de Sorrenti apenas plasticamente se aproxima da Madalena original, enquanto a personagem da direita serviu o propósito do estilista, ou seja, mostrar alguma roupa. Ainda lhe procurei semelhanças com Cristo: o cabelo comprido, as tatuagens como chagas, mas as semelhanças acabam aí, segundo me parece.
E tudo isto, me veio à ideia quando mergulhei a madalena no chá.

Georges De la Tour
The Penitent Magdalen
1638-43
The Metropolitan Museum of Art, New York


Mario Sorrenti
Yves Saint Laurent para Rive Gauche
1998

3 Comments:

Blogger Q said...

Nao levar muito a sério a inteligencia é um acto muito inteligente.

6/8/07 8:30 da manhã  
Blogger AM said...

cá está... neste caso não senti nenhuma ausência, ou falha, ou vazio... ao regressar à pintura de origem, que é completa e "inteira", mesmo para quem não conheça (é o meu "caso") o "tema"

6/8/07 11:32 da manhã  
Blogger beluga said...

Q:
era uma piada.

AM:
porque não sente a pintura "truncada". a mesa dilui-se no fundo (uma das características de De La Tour). Seja o modelo, Cristo ou não, a madalena continua lá. não é preciso mais nada para entender a história. I guess...(?)

6/8/07 11:46 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home