quarta-feira, abril 13, 2016

- o carteiro -

















Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a Vase
1888
National Gallery, Londres
quando a minha idade era outra que não esta, eu ia com a minha mãe ao cabeleireiro. nunca fui daquelas crianças a quem a mãe cortava o cabelo em casa. no entanto o meu corte de cabelo era sempre, para mim, motivo de grande desgosto. falo disto pois hoje fui cortar o cabelo e no caminho para o cabeleireiro, as minhas pernas tremiam. tal como Sansão, a minha única força é a capilar. lembrei-me então desses Sábados à tarde - não todos, está claro, que a vida não era fácil - em que ia com a minha mãe à Da. Helga. A Da. Helga era uma senhora alemã, muito distinta que fazia jus  àquela frase que dizia (e ainda diz): "em terra de cegos, quem tem olho é rei". isto aplicado à linguagem capilar é o mesmo que dizer: "em terra de sabão azul, quem usa Sunsilk parece a cindy Crawford". A Da. Helga tinha um salão numa marquise. Talvez fosse um bocadinho mais do que uma marquise, mas era sem dúvida parte de uma casa e não a sua totalidade. Era um salão por cima dos correios, em que tudo era demorado e doloroso. Era uma tarde inteira para o verniz secar, uma tarde inteira para colocar rolos (as permanentes de caracóis apertados estavam na moda) e uma tarde inteira para fazer depilação com aquela cera quente que dava para uma dúzia de pernas cabeludas. adorava aquele cheiro a cera quente... a minha mãe usava sombra azul nos olhos e sobrancelhas muito finas. Era o que se usava e nem mesmo o facto de o salão da Da. Helga ser mais em conta o tornava menos atento às tendências. No salão da Celeste Caprichoso a coisa era a mesma, só que ela usava Wella...
A minha mãe não me deixava usar o cabelo comprido e eu sofria... Oh, como sofria! Com o meu cabelo curto à rapaz - às vezes à tigela -, eu descia a rua até casa sempre num lamento sentido. A minha mãe parava por vezes numa confeitaria e comprava-me um bolo, para me calar, acho eu. O bolo que eu escolhia era sempre o mesmo: o lenço. Sabem qual é? Aquele que fica dobrado em triângulo com creme por dentro. E eu lá ia com ela, rua abaixo, agarrada ao lenço, mas sem esquecer a minha tristeza. Já enfartada e só a lamber o creme de quando em quando, repetia-lhe todo o caminho: "não gosto deste pintiado" (eu dizia "pintiado"). Detestava aquele cabelo tão pouco feminino. Não sei se a minha mãe tinha medo dos piolhos ou que eu me tornasse vaidosa antes da idade em que isso é inevitável... não sei. só sei que quando ela não estava em casa eu ia às gavetas dela e tirava de lá uma combinação, ou um saiote, como preferirem, colocava-o na cabeça (com o elástico que devia estar na cintura, junto à raiz do meu cabelo) e eu contemplava-me ao espelho. já contei isto no blog, não vale a pena repetir.
por isso me custa tanto cortar o cabelo. penso logo "e se alguma coisa de mal acontecer? como é que me vou defender?" deve haver uma altura certa para ter cabelo comprido, e o meu tempo com ele, segundo dizem os especialistas, está a acabar. quanto mais idade tem a mulher, mais curto deve o cabelo ser. isso para mim é particularmente estranho... é que ninguém me dá a idade que tenho e também por isso ninguém liga muito ao que eu penso. quando me tento impor com sapatos de tacão alto (cuja técnica até domino bem), sinto-me como aqueles miúdos que vão cantar à Gala dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz se devem sentir, com a gravata do pai quase pelos joelhos. Por isso sobra-me o cabelo. 

3 Comments:

Blogger beluga said...

devia postar sobre o Daesh, como combater o terrorismo, ou a táctica que o Porto deve seguir, em vez de postar sobre isto... mas nem sempre tenho opinião sobre as coisas. fizeram as pessoas crer que sim, que a sua opinião era importante, que nós éramos importantes. a culpa disto é do Martinho Lutero e do Rousseau. Nós não somos assim tão importantes, nem especiais. Mas colocam-nos um microfone espetado na cara e perguntam-nos "o que é que acha?" ou "o que é que pensa disto" e nós desfazemo-nos. Um microfone e uma câmara e passamos a ter opinião sobre tudo: da física quântica à arqueologia alternativa. Na verdade nós não achamos nada a maior parte do tempo. Fazemos as nossas coisas: vamos ao supermercado, fazemos xixi e cocó, trabalhamos...
lembro-me de ser pequena e de fazer uma gracinha qualquer e os meus pais dizerem: "és uma inconsequente"; ou seja "o que tu fazes não tem consequências, não tem importância". hoje toda a gente acha que o que pensa, diz ou sente tem importância, que é especial. e não, não somos nada especiais.

13/4/16 10:44 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

poxa, concordo plenamente.
Vendem para gente que nòs podemos ser qualquer coisa, que è so querer.
Mas nem sempre è assim.
E quase nunca somos especiais. Sonhos em ser estrelas do rock, atores/diretores de sucesso.
Mas ainda tenho uma ressalva, que nao precisamos ser especiais para ser feliz,nè?
Apenas procuramos paz e uma vida tranquila.
E ser especial para pessoas que amamos, acho que nao tem valor maior;

14/4/16 8:02 da manhã  
Blogger beluga said...

Caro(a) Anónimo

Pois é...para além de nos dizerem que o que pensamos importa, dizem também que podemos ser tudo (uma espécie de neoliberalismo social). Hoje há fóruns em todo o lado; as notícias nos jornais online têm uma parte para comentários e os programas de televisão com mais audiência são aqueles em que as pessoas podem decidir, votar (para além daqueles em que se explora a miséria humana até ao tutano, como os Big Brothers e sucedâneos).
Tal como diz, e muito bem, nós somos especiais para aqueles que gostam de nós e sim, isso é o mais importante. Desconfio sempre daquelas pessoas de quem todos gostam.

O que cada vez me interessa mais na internet, não são os "bitaites" dos outros, a opinião pronta, a reprodução de informação até ao infinito, mas.... os gatos e os cães. Um dia, os gatos e os cães vão salvar o mundo (assim mais ou menos como o "Idiota" do Dostoievsky dizia no livro do mesmo nome, só que aí, aplicado à beleza). Um vídeo de um animal por dia, restabelece a minha crença na Humanidade!

14/4/16 11:01 da tarde  

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