terça-feira, novembro 17, 2015

- o carteiro -




















Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a Vase
1888
National Gallery, Londres

postei aquela música porque, quando a minha idade era outra que não esta, eu pensava que o ideal seria viver nos anos anos 20, 30 ou 50 e ser cantora de cabaret. O que eu gostava! uma vez, eu e as minha amigas, planeámos cantar na festa do liceu. devíamos ter por volta de 15, 16 anos. O repertório era constituído pelos clássicos como: Let's do it, Fever, Sooner or Later, Making Whoopee... A mãe da Di, que era professora de inglês, iria dar-nos uma ajuda com as letras porque cantar e ser sexy ao mesmo tempo tornava a dicção sofrível. Achavamos que o ideal era vestir como a Kim Basinger no The Marrying Man, mas cada uma da sua cor ou com um decote diferente. às tantas, em vez de sermos umas Supremes, já éramos o coro de Santo Amaro de Oeiras, tanta era a mulherada que queria participar. Sim, nós tínhamos a mania que éramos mulheres com 15 anos, mas não nos sentíamos mulheres. Por isso, nunca vimos nesse facto uma justificação para o assédio que nos faziam. Convenhamos, aos 10 anos qualquer uma de nós já tinha sido assediada. Podia fazer uma lista, mas vou deixar isso para mim.

A nossa carreira musical terminou antes de começar: tínhamos vergonha. Eu tinha vergonha de cantar em frente ao Vasco - sim, porque o Vasco ia estar numa festa de final de ano no liceu, não iria estar a fumar um charro na praia, com os amigos!

Nessa altura, não sei se agora também é assim, o liceu dividia-se em grupos: os betos (com camisa aos quadrados ou às riscas e pullover a condizer); os surfistas (com cabelos compridos e camisas de flanela); os metaleiros (de preto e com símbolos de bandas como os Metallica e outros cujo nome não me recordo agora)... e acho que era só isto. depois havia as groupies dos grupos; aquelas que andavam com os betos, com os surfistas ou com os metaleiros. eu era aspirante a qualquer coisa que me permitisse ser aceite e por isso tanto comprava perfume da Don algodão em Espanha, para cheirar a beta, como deixava crescer o cabelo até ao rabo para poder disseminar-me entre os surfistas. era até aspirante a cantora de cabaré. Não cantava nada! Aliás, felizmente, nenhuma de nós seguiu a carreira de cantora. Também já não há cabarés, nem cintos de ligas, nem gangsters com fatos às riscas, nem sapateado, nem taças de champanhe (agora são flutes) nem a Audrey Hepburn, nem a Marilyn.

Às vezes também penso que podia viver num outro tempo, um tempo muito à frente, num outro milénio. Curiosamente, não imagino que no futuro vamos deixar de comer e começar a tomar os nutrientes em comprimidos, nem fazer férias na Lua, nem colonizar Marte. Vamos fazer o que sempre fizemos só que será demasiado tarde.

2 Comments:

Anonymous pedro b. said...

Pois é, agora já não se usam taças mas flutes. É raro lembrarmo-nos disso. Pensei que tudo isso pertencia já a um passado remoto... afinal não foi assim há tantos anos.

17/11/15 10:52 da manhã  
Blogger beluga said...

Substituiu-se o redondo e baixo pelo alto e fino...

17/11/15 10:15 da tarde  

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