terça-feira, novembro 17, 2015

- o carteiro -
e o Homem criou Deus... (IX)

Como vimos na última aula (estou a brincar) o fenómeno islâmico vai conquistando áreas cada vez mais importantes economica e geograficamente, áreas essas que anteriormente pertenciam ao Cristianismo. Só sobraram duas: Constantinopla e Roma. Curiosamente as comunidades monofisistas, mal aceites pelo Cristianismo oficial, tiveram mais sorte e tolerância sob o jugo do Islão do que sob a sua própria religião.

À medida que a conquista islâmica atinge o Norte de África, o Médio Oriente e a Ásia Menor, o Império Bizantino mostra-se incapaz de travar a ofensiva. O novo Imperador, Leão III procura respostas para esta situação que, julga, se encontram não só na estratégia, mas também na religião. Ou seja, o Imperador acredita que o avanço do Islão é o castigo divino que os cristãos têm de sofrer pelo seu pecado. E que pecado era este segundo Leão III? Adorar ícones. Os ícones eram - e são - pilares do culto bizantino, mas o Imperador entendia que quem os adora cai no pecado da idolatria. Note-se que o Islão proibia a veneração de ícones e com isto relembrava assim ao Cristianismo a proibição do Antigo Testamento quanto à iconodulia (sim, dulia com "u"). Para fazer cumprir a lei, Leão III envia tropas pelo mundo cristão para destruir as imagens religiosas. A comunidade cristã, obviamente, reage mal (pois que cada um tinha o seu santinho e é obrigado a abdicar dele? não há justiça!). Em 787 - e para dar resposta a esta crise iconoclasta - realiza-se um Concílio Ecuménico. O Concílio determina que é aceite, possível, fazer um ícone de Cristo pois Cristo tinha uma alma e um corpo humanos; ou seja, existiu. Apesar de ter uma alma e um corpo humano, Cristo era consubstancial a Deus, que por sua vez não tinha corpo, logo não podia ser representado. Apesar do Concílio resolver, aparentemente, a questão dos ícones, mostrou também o aprofundar de uma divisão entre o Ocidente e o Oriente, com este último a manter-se mais fiel às escrituras.

Já antes de Leão III subir ao trono, em 732, na Batalha de Poitiers, Carlos Martel (corrigido por anónimo) evita a conquista islâmica de "França". Ao fazê-lo, Carlos Martel instala um novo império cristão a Ocidente. Após a sua morte, e a morte do seu filho Carlomano (que havia ficado com parte das possessões do pai), sucede Carlos Magno no trono. Tal como Constantino e Justiniano antes dele, Carlos Magno vai ser declarado imperador e vai reinar como tal sob uma nova designação: Imperador do Sacro Império Romano. Ora vejamos: Carlos Magno não reinava apenas em "França" as suas conquistas foram vastas. Daí este título. A "Europa cristã", desde a queda de Roma (porque já havia imperadores romanos cristãos desde o século III, IV) entre 476 e 622, mais coisa menos coisa, passou um mau bocado. Do Norte vinham os bárbaros, do Sul e do Este vinham os muçulmanos e dentro do próprio império havia divisões quanto à aceitação e entendimento das imagens. É dentro deste caos que surge a figura de Carlos Magno, rei de França. É ele que recupera o espírito cristão e que começa os primeiros mil anos de uma religião unida, porém não una.

Em 799, um pequeno grupo de homens atravessa as montanhas que dão acesso à França com o objectivo de falar com o Imperador. Entre eles encontrava-se o Papa Leão III (houve um Papa e um Imperador com o mesmo nome, quase na mesma altura). Leão III havia sido atacado e vai até França pedir a protecção do imperador. Isto é uma inversão do que tinha acontecido até aqui. Até aqui, quando as instituições romanas entravam em ruptura era o Cristianismo, a religião que as orientava a nível religioso, claro está, mas também institucional. Isto era um poder; ser papa era ser representante de Deus na Terra, seguir o passos de Pedro e possuir um poder acima do próprio imperador. Agora, a cada passo que Leão III dá na direcção de França, a cristandade afasta-se da sua capital religiosa, Constantinopla, isto porque o Papa se submete ao Imperador; o poder religioso submete-se ao político.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Não foi Carlos Magno que derrotou o exército árabe em Poitiers, no ano de 732, mas sim Carlos Martel, avô do anterior. Diz-se que foi nessa batalha que ganhou o cognome de Martel, ou Martellus (latim para "o martelo") porque foi martelo de infiéis. E também, possivelmente, por aproximação a Judas Macabeu (do aramaico maqqaba, "camartelo"), assim chamado pela sua ferocidade em combate.

17/11/15 9:51 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ou seja, eram ambos "martelos". Temos ainda um terceiro caso, na pessoa de um conhecido comentador televisivo português que recentemente se declarou candidato à Presidência da República.

17/11/15 9:55 da tarde  
Blogger beluga said...

Eish, fuck!... meti o pé na poça. Vou corrigir. Muito obrigada.

17/11/15 10:04 da tarde  

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