segunda-feira, abril 30, 2012

- o carteiro -




















Dürer
Auto-retrato
1505
Kunstsammlung, Weimar

hoje não há religião, nem iconografia, nem nada disso porque não tive tempo. estou a escrever porque acho que nunca contei esta história. quando a minha idade era outra que não esta, tive aulas de desenho de nu. 4 horas por dia com um homem, ou uma mulher, ou os dois nus, com mais pilosidade do que aquela com que vieram ao mundo, mas nus. em pelota, nuiinhos, no osso. lembro perfeitamente quando o turno da manhã veio dizer ao turno da tarde "estamos a ter aulas de desenho de nu", "com quem?", "com um homem. está um homem nu na sala". alguns rapazes saíram da sala e foram ver o homem nu, e nem disfarçaram o entusiasmo.
mas eis que chega a hora dos alunos do turno da tarde serem também presenteados com o Vítor (o nome dele era Vítor) nu, o que para a maior parte foi um presente envenenado. passo a explicar: para muitos e muitas era a primeira vez que viam alguém nu. nu assim sem ser a correr, no escuro, ou a espiar. nu de livre vontade e por tanto tempo: 4 horas de aula!
Dispusemos os estiradores em torno de um estrado onde o Vítor iria posar. Quando ele despiu o robe, as raparigas baixaram a cabeça, e começaram a limpar a folha branca incessantemente sem tirar os olhos dos lápis e do estirador. Os rapazes olhavam para elas a sorrir, para ver qual a que corava primeiro. outros rapazes já estavam a olhar para o Vítor. as primeiras aulas e os primeiros desenhos eram um atentado à arte: é que o Vítor, que até praticava desporto, era um rapaz com óptimo corpo para ser desenhado, porque tinha os músculos definidos e isso ajudava na expressão do desenho. e nisso eu até me safava. mas os genitais... se olhava para eles, fugia-me o pensamento. se não olhava estava a inventar e cheguei tanto a dotá-lo de um senhor pénis como no desenho seguinte, envergonhada por aquilo tudo, lhe diminuí drasticamente... o dom. o que me safou foi a fase do carvão: quando desenhámos o Vítor, durante umas duas aulas, a carvão, toda a sua zona erógena foi por mim furiosamente preenchida a preto, misturando assim a pilosidade com a coisa em si. Os comentários dos professores também não podiam ser mais desastrosos. quando, em vez do Vítor, foi a altura de posar uma modelo, chegámos a ouvir: "isto não é o peito que ela tem, é o peito que tu gostarias que ela tivesse". ou, perante a modelo de cócoras apoiada numa mão "não está bem. repara que ela tem a mão mais perto do... da... do... tu sabes."
depois das duas, três primeiras aulas, passou. o vítor, que saía às sete como nós, apanhava o nosso comboio e vínhamos todos na conversa, a mostrá-lo nu ao comboio, através dos desenhos. o Vítor começou a privar mais com a modelo e acabaram por ter um filho. ela chegou a posar grávida. mas o melhor mesmo foi um dia entrar num centro comercial por alturas do Natal e ver o Vítor vestido de pai natal, a entreter os miúdos. 

2 Comments:

Anonymous ana said...

nunca me esquecerei. e havia os famosos desenhos das colegas com partes estrategicamente deixadas em branco. e o professor que apontava com um cabo de vassoura.

30/4/12 11:29 da manhã  
Blogger beluga said...

também nunca mais esquecerei aquela risota ao almoço, antes da aula. mas não me lembro quem é que deixava os genitais em branco. lembro-me que eu pintava tudo a negro - pilosidade ou não, era sempre a abrir. quanto ao cabo da vassoura, lembro-me que havia piadas: se o cabo da vassoura tocasse no vítor o desenho poderia ter de ser outro...
e lembras-te quando ele posou com ela?

3/5/12 12:51 da manhã  

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