quarta-feira, agosto 31, 2011

- o carteiro -

o que é que têm em comum Goya e Caravaggio? Os pincéis e pouco mais. Ao ler a biografia de um e ver o filme relativo à vida e obra do outro, a desilusão não podia ter sido maior. Ou se calhar até podia, mas é isto que se costuma escrever. A Ars Mundi tem uma colecção dedicada à biografia de alguns artistas. Peguei na de Goya e pensava descobrir um homem extraordinário que pintou de forma excepcional (alguns quadros são geniais, principalmente o do retrato da família real, e os dos acontecimentos de Maio de 1808, o fresco do cão em fundo amarelo, as gravuras dos Desastres...) e acima de tudo, a razão para ser tão estimado no mundo inteiro. Fiquei desiludida. Talvez porque espere da vida coisas extraordinárias e dos homens extraordinários... coisas extraordinárias. Mas a verdade é que a maior parte das pessoas extraordinárias é bastante comum. Ou pelo menos é o que se vai aprendendo. Não que ache mal, mas seria melhor se cada um de nós, para além de esperar para si coisas extraordinárias, também as fizesse. Diz o "roto ao esfarrapado". Bem, continuando; ao que parece Goya foi, no início da sua vida enquanto pintor, uma pessoa bastante subserviente: via-se e desejava-se rodeado de luxos e dos favores da corte. Queria que na sua aldeia natal falassem do número de cavalos da sua carruagem, que se comentasse com quem tinha jantado, que encomendas lhe havia a Igreja feito e com quem privava. Casou com a irmã de um pintor da corte, tendo em vista a sua ascensão ao mesmo lugar. Comprometeu as suas convicções em troco de alguma fama, conspirou em vão contra os seus rivais que acabaram sempre por lhe estender a mão. Goya alcançou aquilo a que se propôs, mas só aos 30 anos. Até aí lutou contra o academismo, sem no entanto, e na minha opinião, fugir totalmente dele. Por vezes, quando uma obra lhe era pedida e o pintor se encontrava sorumbático, pintava segundo o já pré-estabelecido e não segundo o seu espírito inovador. Quando ficou surdo e bastante enfermo, amante de duquesas (quem diria, já velho e doente), Goya nasce para outro tipo de pintura. Faz os seus retratos enquanto pintor da corte, mas dedica-se às gravuras, aos Desastres, aos Disparates, aos Caprichos. Dedica-se à tauromaquia (diz-se que chegou a tourear), desenhando. É pena que para mim só tenha ficado o retrato de um homem comum para uma obra extraordinária, entalada em dois tempos, nenhum deles o de Goya.

Vi depois o filme sobre a vida do Caravaggio de Derek Jarman e também... não sei, deve ser um problema meu, mas fiquei desiludida. Já não se usa a narrativa escorreita, isso é muito século e milénio passado. Tenho a certeza que algum Edgar Morin já disse quando é que as meta-narrativas acabaram, mas sim, esperava uma história tradicional. Não percebi o porquê do carro, da máquina de escrever e da calculadora. Não percebi igualmente como é que um jovem que perante o bispo boceja e afirma-se entediado ante o conhecimento que o mesmo transmite falando de Aristóteles e outros e depois, debita frases inspiradoras durante toda a vida adulta. Sendo que a passou entre tabernas e que mal sabia ler, não seria melhor mostrá-lo como ele era: um excelente pintor, um revoltado, um visionário que não quer ser intelectual. Eu gosto dele assim. O Caravaggio adulto do filme é uma desconcentração: às tantas a pessoa foca-se na imagem e esquece o texto. Talvez fosse esse o objectivo. Só quando interessa (quando descobre a sua Madalena grávida e retira da prisão o amante), é que o diálogo desenvolve. E para quê? Para dizer o que já se adivinha. Não sei. Eu acho que sou muito opinativa. Se analisar amanhã é até provável que não ache nada disto. Porém, e para já, a desilusão mantém-se.

(i'm such a bitch)

2 Comments:

Blogger AM said...

já não sei a última vez que fui ao cinema mas também (e eu sei que isto é muito discutível...) mas também não lhe sinto muito a falta
prefiro conversas e esplanadas e amigos
apenas uma nota sobre o Goya: "apenas" aos 30 anos!?...

31/8/11 8:50 da tarde  
Blogger beluga said...

Não vou muito ao cinema porque:
1- Nesta cidade não existe cinema e se existisse teria os filmes mais comerciais (e para ver isso, e repetir a dose, basta ver televisão aos domingos à tarde)
2- Os cinemas que interessam ou fecharam (o do c.c. cidade do porto), ou estão, no Verão, temporariamente fechados (o do campo alegre e o outro do nun'alvares).

(gosto do cinema para me sentir segura. não sei explicar)

só 30 anos... contra mim falo claro, mas para aquele tempo, aos 30 anos uma pessoa já estava velha demais para fazer determinadas coisas. entre elas, ter um lugar de topo e ser reconhecido. ser pintor não era o mesmo que ser cônsul ou ministro. mas mesmo comigo... às vezes sinto que há coisas para as quais já não vou a tempo. não sei se com 32 anos ainda vou aprender a andar de bicicleta. sem partir nenhum dente.

2/9/11 12:40 da manhã  

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