segunda-feira, fevereiro 28, 2011

- o carteiro -

gostaria de ser muito entendida em política internacional e poder falar das revoltas no mundo árabe. mas não sou. tenho a minha opinião, aqui para comigo, mas não sou. o que posso falar acerca disso, em tom descomplexado, é dentro do âmbito da arte. lembro portanto os meus... 7 ou 8 anos quando ouvia Onda Choc. uma das músicas cuja letra melhor recordo é a "Adoro o Egipto", versão portuguesa de um tema das Bangles. e dizia o seguinte:

Na aula d'História
Sobre o Egipto
Muito nos rimos
Todos nós
Porque imaginámos
Oh eh oh
Que estávamos lá
C'os faraós

Fomos de barquinho
Pelo Nilo
Através do berço
De Moisés
E um crocodilo
Oh eh oh
Levou-nos até Ramsés

Uma esfinge então cantava
Eh oh eh oh eh eh oh eh oh
Adoro o Egipto...

e assim passávamos o tempo, entre festinhas em casas das amigas e coreografias para estas músicas. agora que o tempo passou, recordo para além desta letra, que quando aprendi algo sobre a arte egípcia foi, erradamente, que a pintura egípcia era frontal e plana porque os egípcios ainda não sabiam representar a perspectiva já que esta foi uma descoberta posterior; uma descoberta do Renascimento. ora, nada mais falso. as civilizações do mundo clássico sabiam da existência da perspectiva e representavam-na, como foi o caso dos gregos. com muita mestria, diga-se em abono da verdade, mais até do que os artistas da Idade Média, mas tudo isso tinha um propósito. A arte egípcia era, ao contrário do que se pensa, uma arte que conhecia a perspectiva, mas não a representava. Era aquilo que se chama uma arte aspectiva; ou seja, o que interessava não era aquilo que se via, mas aquilo que se sabia. Tomemos como exemplo um rio. Para os egípcios o rio não era um espelho, mas um meio aquático onde existiam peixes e outras espécies. Da mesma forma um homem não era um ser com espessura, com três dimensões, mas um ser com qualidades e defeitos, com inseguranças e posição hierárquica.

Houve no entanto um curo período de tempo, correspondente ao reinado de Amenófis IV que a lei da frontalidade foi substituída. Este Amenófis foi casado com Nefertiti e pai de Tuntakamon, só para situar o pessoal... Como sabemos, cada cabeça sua sentença e poucos foram os reis e imperadores que não deixaram a sua marca. Mas Amenófis fez uma ruptura, ainda que breve, com uma lei da arte egípcia; ou seja, a da frontalidade. Amenófis adoptou o estilo naturalista - embora idealizado na forma como, pelo menos ele, era retratado: rosto alongado, lábios salientes e o dobro do tamanho dos restantes, já que a posição social era conferida, na arte, pelo tamanho, algo que tinha permanecido imutável. Para além disso deu todos os passos no sentido da representação de cenas do quotidiano já que o próprio era retratado dentro do seu ambiente familiar. Mas se repararmos com atenção, as inovações são também de outro nível. Vejamos a diferença entre a primeira e a segunda imagem: na primeira sobrepõe-se a lei da frontalidade na segunda, pequenas barrigas espreitam junto dos panos que cingem a cintura como forma de sugerir que estas eram pessoas com matéria e com volume.

2 Comments:

Blogger AM said...

eu era mais o Cairo ("excitante Cairo"...) dos TAXI (com o vinil numa latinha...)
as Bangles foi mais tarde...
o pior do "estilo" Amenófis é quando acaba tudo naqueles doc. sobre os deuses astronautas...

2/3/11 3:08 da tarde  
Blogger beluga said...

puf... devia haver uma internet séria. (isto parece-me quase um paradoxo...)

8/3/11 12:29 da manhã  

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