quinta-feira, junho 24, 2010

- ars longa vita brevis -
hipócrates

ai caneco; dói-me a garganta e o ouvido direito. Apesar desta dor não impedir a postagem, vou ver se me poupo. Ora bem, mais um antes e depois, não é? Pois é… Este é um antes e depois que já há muito tempo pensava postar, mas quando sabia onde estava o “antes”, não sabia do “depois” e acabei por protelar a coisa. Ontem andava à procura do Pasolini e dei de caras com esta imagem, com este antes que me lembrou imediatamente o depois: uma fotografia do Lachapelle. A má notícia é que para mim, quer o Lachapelle quer o Pasolini viram esta imagem, ou semelhante num quadro. Para mim será uma Vénus e Marte, mas não consigo encontrar a imagem, razão pela qual peço aos ilustres colegas que lêem estas coisas (vai uma aposta como ninguém lê?) que me informem caso tenham conhecimento de algo na vossa biblioteca visual. Até diria mais: diria que é um Boticelli, mas já virei e revirei os livros e não encontro nem Boticelli, nem Carracci, nem o Aleijadinho. Mas como quem não tem cão caça com gato, apresento-vos este post arraçado de Sphynx cruzado com trinca-espinhas. O Pasolini filmou as Mil e uma Noites e numa das noites incluiu esta mulher a ser fecundada pela seta disparada por um homem. O filme faz parte de uma trilogia formada pelo Decameron e pelos Cantebury Tales e que teve como objectivo mostrar uma visão do autor sobre livros importantes da literatura medieval. As Mil e uma Noites conta a história de Zumurrud uma escrava que escolhe para seu novo mestre/amante o jovem Nuradin. A ele ensina como se expressar sexualmente sem receio e retira dessa relação a possibilidade de também ela se mostrar sem medo. No decorrer das suas noites Zumurrud vai contando histórias ao amante, histórias simples, pequenas e que desaguam em sexo e mais sexo, mas numa das noites os dois amantes são separados e aí começa a busca de um pelo outro em viagens, estadias, desconhecidos e informações cruzadas com mais sexo. Ufa! Ainda assim Pasolini foi fiel ao original (apesar de tudo) e manteve a noção de matrioska: história que desabrocha e dá lugar a outra e esta a outra e assim sucessivamente. Na primeira parte do filme o realizador fala da já referida necessidade de livre expressão sexual, na segunda parte a mensagem das histórias está relacionada com o destino, mas no seu todo é a história de Nuradin e Zumurrud que se sobrepõe ao destino. Isto quer dizer que apesar de não ter mantido a versão original – em que a escrava protela a sua morte através das histórias que vai contando – e de ter optado por uma versão mais erótica embora não pornográfica, Pasolini acaba por ser fiel ao original uma vez que o filme é um conjunto de histórias que se desdobram em outras histórias.
Quanto a Lachapelle, ou viu Pasolini ou viu, como acredito que aconteceu com o relaizador italiano, um quadro em que esta cena surge pelos corpos de um Cupido e uma Vénus, ou através de uma Vénus com Marte. Visto que o fotógrafo é muito influenciado pela pintura do renascimento, inclino-me para esta hipótese. De qualquer forma, parece-me mais do mesmo: fotografias glossy e kitch, com muito da estética dos anos noventa/dois mil (culturas alternativas, música pop, cultura de massas, marcas como estatuto, erotização dos efebos…). À distância de alguns anos estas fotografias parecem muito marcadas pela época, mas à medida que o tempo avança e quando vemos as fotografias mais recentes de Lachapelle com personagens que antes não estavam na moda, a linguagem de Lachapelle dá um lugar aos que não o tinham na fotografia mais convencional e torna admirável o que era vulgar:

Pasolini
As mil e uma noites
1974



David LaChapelle
isso agora é que não sei

9 Comments:

Blogger AM said...

não aposte, que niguém lê, porque perde
o LaChapelle é um LaPallise das imagens

24/6/10 10:49 da tarde  
Blogger beluga said...

Ora aí (na segunda parte do comentário) está uma verdade que não é nada LaPallise e que nunca me tinha ocorrido. É muito fácil fazer um antes e depois com as imagens do LaChapelle, mas há algumas, como esta e um pormenor que um destes dias vou postar, que não são assim tão evidentes. Na maior parte das vezes as cenas retratadas são uma transposição de pinturas conhecidas, interpretadas por modelos, actores ou gente do social. Mas há outras que é preciso puxar pelo miolo.

Ai meu deus, eu hoje estou tão disléxica a escrever.

25/6/10 12:44 da manhã  
Blogger João Barbosa said...

1º li
2º ...
3º Boticelli parece-me bem
4º tenho demasiado sono para procurar agora, mas a imagem lembra-me qualquer coisa, sim

25/6/10 1:02 da manhã  
Blogger beluga said...

Caro João Barbosa:
um dia destes vou fazer um churrasco virtual para mim, para si, para o AM e para a Maria. Quase que dava a minha mão esquerda como só nós é que lemos os posts aqui do Belogue.

Quanto ao autor da pintura, pesquise por aí e veja se se lembra de alguma coisa. Fico furiosa quando não encontro as imagens!

26/6/10 12:50 da manhã  
Blogger João Barbosa said...

organiza lá o churrasco, que eu levo vinho virtual

26/6/10 9:49 da manhã  
Blogger alma said...

Beluga,
Faça o churrasco e nada de asneiras mesmo virtuais ...

confesso que vim aqui e ainda não li o post todo (mas pelos comentários já percebi que é preciso estudos...)

28/6/10 3:00 da tarde  
Blogger beluga said...

Cara Alma:
não percebi as "asneiras virtuais".
Estou à pocura do vídeo em que o Herman José diz "mucca Parda".

29/6/10 8:47 da manhã  
Blogger alma said...

Beluga,
referia-me a dar a mão esquerda ou algo assim ...
sei que é uma força de expressão mas causa-me arrepios
sou uma alma muito sensivel

29/6/10 9:46 da manhã  
Blogger beluga said...

Cara Alma: como se costuma dizer:
tem cuidado com aquilo que desejas; podes obtê-lo

5/7/10 12:08 da manhã  

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