sexta-feira, setembro 04, 2009

- o carteiro -

a mulher de bigode ninguém o... *

Quem não teve a tia da aldeia com o seu pelinho na "benta", daqueles pêlos grossos que elas cortavam com a tesoura por amolar, bem aparadinho ao Domingo para receber a família da cidade que ía lá comer rojões. Para além do homem da casa e do próprio porco (que post-mortem tem grande tratamento estético com o chamuscamento dos pêlos), a tia Rosinha, Maria ou Ainhas do Aido era a mulher mais peluda que conhecíamos. Por vezes, quando íamos ao mercado - para nós era a feira - na parte dos legumes deparávamo-nos sempre com uma senhora de buço pronunciado que vendia ovos ou umas pencas para o Natal a preços mais apetecíveis que qualquer rebuçado em troca de um beijo. As mulheres de buço (e penugens semelhantes em partes do corpo mais escondidas) são quase uma espécie em extinção. Isto porque a indústria do sexo, as revistas, os novos tratamentos, aquilo que comemos, as condições atmosféricas e todos os medicamentos que tomámos para curar uma simples gripe têm moldado os nossos gostos e as nossas hormonas. Há quem não possa alegar nenhum destes factos pois ter pelo na venta é o menos que se pode dizer. O que estas pessoas têm, não era, já no tempo em que nos ríamos delas, um problema que se resolva com tratamento estético. Chama-se hirsutismo e pode fazer de pessoas normais verdadeiras aberrações quando expostas ao ridículo. Há casos e casos e o que este post vai tentar fazer é abordá-los do ponto de vista da arte.
Antes que alguém soubesse que o hirsutismo é uma doença, era visto como uma extravagância, uma partida da Natureza para divertir as cortes, a par do nanismo, bócio, hipertireoidismo, cretinismo ou de algumas mutações genéticas. A hipertricose universal ou localizada, também conhecida por síndrome do homem lobo, ou mesmo hirsutismo é uma doença de natureza endócrina. É uma doença extremamente rara que consiste na constante produção do folículo capilar. Isto origina pessoas com crescimento anormal e contínuo de pelo em áreas onde por norma ele existe porque... temos pêlo no corpo todo, como no rosto, as palmas das mãos ou a planta dos pés. Os investigadores acreditam que esta doença é causada pelo acordar de um gene adormecido (ou a evolução do mesmo) que guardamos dos nossos tempos mais peludos. Nas crianças, as zonas afectadas começam por ter apenas o aspecto de um modesto revestimento capilar. mas ao contrário das outras crianças, rapidamente o pêlo cobre o rosto e as outras áreas já referidas. Este tipo de doença, deste tipo de natureza causa grandes modificações na fisionomia da pessoa e numa sociedade que se queria normal originava tanto a curiosidade de físicos, como das cortes (as famílias reais eram dadas ao seu momento mórbido), das feiras e dos pintores. Eles eram os homens selvagens, os Waldmenschen e as femmes sauvages dos primeiros viajantes, os hommes primitifs e os homo-hirsutus dos taxonomistas e os homens-cão-urso-leão-macaco dos feirantes. As pessoas que padeciam desse mal em estados extremos da doença (no fundo, todos nós temos hirsutismo, mas o crescimento está restringido a zonas comuns. E mesmo aquelas pessoas que têm pêlos no rosto ou nos ombros, não o têm na dimensão que aqui vamos mostrar) eram ostracizadas pela família e pela comunidade: permaneciam dentro de portas durante o dia e saíam apenas à noite para serem pouco vistas. Penso que daí também decorre a denominação que associa a doença com os lobos. É uma doença extremamente rara, mas suficientemente mórbida para atrair a sociedade da Idade Média para quem tudo o que fugisse ao cânone era obra demoníaca e castigo celestial. Nesta altura foram documentados apenas 50 casos. Um dos primeiros casos foi encontrado na corte do rei francês Henrique II. Este monarca gostava muito de bizarrias, coisas, objectos que fossem estranhos, excêntricos e originais. Em 1547 foi-lhe oferecido, como presente, um rapaz de 10 anos com uma aparência estranha: parecia meio humano e meio animal. Um pelo loiro comprido cobria-lhe o corpo por inteiro, excepto no que diz respeito aos lábios e aos olhos. O nome do rapaz era Petrus Gonsalvus (eu bem sabia que havia aqui gene nacional, carágo!). Pedro surge nesta obra de Agostino Carracci cujo título pode ser traduzido por Arrigo Peludo, Pedro louco e Amon Anão, um título que tem mais de inventário de Jardim Zoológico do que de nome de obra que pretende descrever uma alegoria da Natureza.
A obra de Carracci foi uma encomenda do Cardeal Ordoardo Farnese para o Palazzo Farnese. É um edifício anexo à embaixada francesa e ao um jardim botânico com animais ferozes enjaulados. Talvez daí tenha vindo a inspiração para o estranho título. Nota-se que Agostino Carracci não dominava este tema e tinha especial curiosidade pelos "homens peludos" uma vez que fez coexistir na pintura macacos e cães. O homem que se encontra no centro da pintura tem uma capa grosseira, identificada com a capa de um tamarco, traje dos Guanches, povo das Ilhas Canárias que acabou exterminado pelos espanhóis (Jimi, vê lá se encontras uma relíquia). Arrigo Gonsalvus, o homem selvagem não era mesmo um guanche. O pai de Arrigo, Petrus, que tinha sido escravo em Tenerife, já tinha hirsutismo. Casou com uma jovem holandesa muito bela que lhe deu quatro filhos, todos eles hirsutos, especialmente Arrigo. Foi o suficiente para os Habsburgo e os Farnese se interessarem por estes "prodígios da Natureza" e fazerem deles a companhia, leia-se "divertimento", ideal para os dias passados na corte. Outro membro bastante conhecido da família era Tognina Gonsalvus, a irmã de Arrigo que tal como ele foi oferecida de presente pelo duque de Parma ao seu irmão o Cardeal Odoardo Farnese.
Agostino Carracci
Hairy Harry, Mad Peter and Tiny Amon
1598-1600
Museo Nazionale di Capodimonte, Nápoles

Outro membro da família, e aquele de quem primeiro se falou é Petrus Gonsalvus cuja vida está bem documentada. Gonsalvus, pai de Arrigo e Tognina, nasceu em 1556 em Tenerife, mas acabou na corte de Henrique II como já foi dito. Este foi um dos primeiros casos de hipertricose universal congénita. Apesar de ser visto pela corte como uma mascote, uma aberração aceitável, Petrus era extremamente inteligente e tinha uma presença marcante que chamou a atenção do monarca. Henrique II acabou por fazer dele um dos seus mais importantes embaixadores. Como este retrato de Petrus, de autoria desconhecida se encontra no Castelo de Ambras na Áustria a doença tornou-se conhecida também por síndrome de Ambras.

Anónimo
Petrus Gosalvus Hirsute Man
1580

Em 1585 Lavinia Fontana pintou o retrato de Tognina, filha de Petrus e irmã de Arrigo. Não a pintou como uma aberração pois há no retrato algo de muito solene, pelo menos na minha opinião. O rosto coberto de pelo é o que salta à vista, mas os olhos da rapariga são de um negro profundo, os lábios e o nariz apresentam-se muito delicados, bem como as mãos que não mostram qualquer sinal de hirsutismo. A cabeça tem também um ornamento sumptuoso e o vestido está detalhadamente pintado indicando algum luxo. Tognina Gonsalvus nasceu em 1572 e herdou do pai a doença de que temos vindo a falar. Ela era, à semelhança do seu pai e do irmão, requisitada como espécime para aulas em alguns gabinetes de curiosidades de nobres e monarcas em vários países da Europa. Eram também exibidos em festas promovidas pela corte como exemplos de algo negativo; ou seja, não eram tidos como excepções, mas como fruto, a face visível e corpórea de uma natureza intrinsecamente má. A prova de que há esperança neste mundo (ou que há gente com pouquíssima sorte, depende da perspectiva), é que Tognina se casou e deu à luz um filho peludo. Não nos enganemos: em muitos casos os homens que casavam com mulheres hirsutas faziam-no a troco de algo muito desejado como um título ou dinheiro ou fama. Em 1592 o caso de Tognina foi estudado pelo professor Ulisses Aldrovandi da Universidade de Bolonha que juntou o caso dos Gansalvus a muitos outros que tinha conhecido. Compilou estas histórias em livros ilustradas com desenhos e xilogravuras e, não obstante tratar-se de um médico deu ao livro o título de "História dos Monstros". Eu estou para aqui a falar, mas não sei como reagiria se visse um hirsuto. Hoje esta doença é muito frequente em países como a Índia, o Paquistão ou o México, onde o número de casos tem vindo a crescer.

Lavinia Fontana
Tognina Gonsalvus
1590


Outro caso documentado pelos pintores é o de Magdalena Ventura de los Abruzos, aqui pintada por Ribera, o que para mim foi uma surpresa porque pensava que o Ribera era um "pintor de santos". Reconheço em Ribera a influência de Caravaggio, mas nunca o tive em muito boa conta. O duque de Alacalá, vice-rei de Nápoles encarregou Ribera de pintar esta mulher que aqui aparece junto ao seu segundo marido Felix e com uma criança nos braços. A intenção do duque era documentar o caso e dá-lo a conhecer ao rei Filipe III. Ao que parece Magdalena não nasceu com hirsutismo como nos casos anteriormente documentos, tendo sido apenas aos 37 anos que começou a crescer o pelo na cara desta mulher como nos indica uma inscrição em pedra, situada à direita da pintura. Magdalena nasceu na região de Abruzzi, Nápoles e teve sete filhos: três antes de lhe surgir a barba e quatro depois do hisutismo localizado (este não era um caso de hirsutismo generalizado, logo não deve ter existido qualquer problema com a amamentação das crianças que podiam sempre ficar com pelos na boca... Como se vê, Magdalena tem o seio farto e sem pelo.) e quatro depois do hirsutismo e neste caso, consequente virilização. Atente-se na sua fisionomia masculina: Magdalena mudou não só a produção de pelos no rosto, como a de estrogéneo de tal forma que as suas feições alteraram-se: tem rugas na fronte e os sulcos nasolabiais. Isto não impediu que a senhora se casasse e, tcharan... por DUAS VEZES!!

José de Ribera
La mujer barbuda
1631
Museo Tavera, Toledo


Juan Sánchez Cotán
Brígida del Río, la Barbuda de Peñaranda
1590
Museo del Prado, Madrid

A fugir já um pouco à temática do hirsutismo e já mais no voyeurismo, confesso, encontrei esta pintura de Juan Carreño de Miranda que mostra "a Monstra" ou "a Gorda". Há duas versões, uma com a criança nua e outra a que aqui apresentamos. Eugenia Martínez Vallejo é um caso típico de uma endocrinopatia chamada síndrome de Prader-Willi que se caracteriza pela obesidade, pelas dificuldades de aprendizagem, pelo atraso no desenvolvimento motor e sexual, flacidez genital, etc. Aqui Eugénia foi pintada aos seis anos de idade por Juan Carreño de Miranda. E apesar de desconhecer se esta foi alguma encomenda para algum monarca - apesar de Eugénia viver de facto na corte do rei -, a verdade é que o pintor era um reputado artista da mesma corte. Aqui, aos seis anos pesava 75 quilos e tem em ambas as mãos maçãs. Isto não é mais do que a analogia feita pelo pintor entre a forma corporal de Eugénia, o seu apetite voraz e a modorra em que vivia e o pecado da gula e da luxúria.

Juan Carreño de Miranda
Eugenia Martinez Valleji, La Monstrua
Museo del Prado, Madrid

* por favor não completar

5 Comments:

Blogger João Barbosa said...

estava à espera duma piada com barbas... ;-)
.
esta posta surpreendeu-me. gostei!

4/9/09 3:45 da tarde  
Blogger beluga said...

eu também gostei de fazer isto. há tanta coisa que a gente não sabe... e pior, quer saber e não tem como!

8/9/09 12:12 da manhã  
Blogger Brontops Baruq said...

Para o caso da Sra Magdalena Ventura de los Abruzos que ficou peluda depois dos trinta: já ouvi falar (não me lembro onde) que este tipo de coisa tem a ver com o desenvolvimento de certos tumores na mulher. Mas não saberia dizer se li ou se me contaram ou se estou fazendo alguma confusão.

Tá muito bão. Parabéns.

Coincidência ou não: saiu na última revista brasileira Piauí, uma pequena matéria sobre a decadência dos espetáculos circenses da Monga, a Mulher-Gorila. No show, uma mulher se metamorfoseava em gorila, saindo correndo atrás da platéia.

Na revista comentavam sobre Julia Pastrana, uma mexicana do século XIX que sofria do mal do hirsutismo.

História triste, mas típica destes freaks circenses: Ela casou-se com o empresário e engravidou, mas ela morreu no parto. O luto do marido foi tamanho que ele decidiu embalsamar o corpo dela e o do próprio filho e realizar shows pela Europa com os dois. O show não pode parar. Salvo engano, o corpo acabou indo parar na Noruega ou Suécia... Posso pesquisar, tenho algo sobre o assunto.

Um link bom para este assunto tristemente fascinante dos "freaks" é este aqui: http://thehumanmarvels.com/

Abraços

8/9/09 2:15 da manhã  
Blogger beluga said...

Caro Brontops:
Obrigada por aparecer com tanta informação. Apesar de muitos homens terem as feições femininas ou terem até algum peito, nada se compara ao rosto coberto de pelo de uma mulher. Parece compreensível dizer que aquele homem até parece uma mulher, mas uma mulher com rosto de homem é, que me desculpem os visados, uma aberração.

Acredite que quanto à revista, foi pura coincidência: vejo muitas coisas sobre o Brasil, consulto vários sites brasileiros, revistas e jornais, mas nem sequer conhecia a revista de que me fala.

Acho que todas estas mulheres (e outras atracções de circo com forma humana) tinha uma história triste, não só pela forma como são tratados pela sociedade(talvez a ostracização fosse preferível à condescendência), mas pela forma como o seu aspecto lhes condiciona tanto a vida sentimental.

Lembro-me, como história feliz, de um casal de anões que fazia as delícias dos circos. Acho que se casaram com esse propósito.

Volte sempre

8/9/09 11:57 da tarde  
Blogger Fred said...

Petrus Gonsalvus,
Não era um montro
era um homem

20/11/09 12:32 da tarde  

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