quinta-feira, agosto 27, 2009

- o carteiro -

Se uma cabeça incomoda muita gente, duas cabeças incomodam muitas mais. E três incomodam quem as tem:
A imagem de Ticiano relativa à “Alegoria do Tempo governado pela Prudência” não me era estranha. Já tinha visto a mesma disposição num quadro de Poussin, mas percebi, ao escrever este post, que “o buraco era mais em baixo”. O que Ticiano pintou era o resultado da incompreensão ocidental relativamente à iconografia e às histórias do Egipto e do Extremo Oriente.

Ticiano
Allegory of Time Governed by Prudence
1565
National Gallery, Londres

Havia uma divindade egípcia denominada Serapis por Ptolomeu Sóter I. Quando Ptolomeu subiu ao poder da dinastia Lágida, o touro sagrado de Osorápis, forma composta de Osíris + Ápis, era uma das principais divindades do Egipto. Osíris era o deus egípcio dos mortos enquanto Ápis era o touro. Desta forma, Serapis (nome por que ficou conhecido Osíris+Ápis) tinha uma dupla natureza pois representava simultaneamente a fecundidade agrícola e a vida além da morte o que ajudava o sincretismo com outros deuses como os deuses gregos. Os gregos identificavam Serapis com Hades, embora, e como vamos ver, existam diferenças substanciais e eu estabeleça neste post semelhanças com Hécate, uma divindade grega feminina. Cria-se assim no período Ptolomaico um deus antropomórfico que era a reunião de atributos egípcios e gregos. Segundo os escritos deixados por Plutarco Serapis era natural de Sinopo, no Mar Negro e tinha surgido em sonhos a Ptolomeu. O deus teria mandado trazer para o Egipto uma estátua sua cujo significado e alegorias foram elaboradas após isso, com objectivos ideológicos que reuniam elementos de ambas as civilizações. Era óbvio que como deus do Estado, Serapis seria o elo de agregação entre as culturas helenística e egípcia. O aspecto de Serapis é uma analogia com as histórias sobre Zeus, Hélio, Dionísio, Hades e Asclépio. A divindade era-lhe conferida pela ligação solar com deuses como Zeus e Hélio, a fertilidade vinha de Dionísio, Ápis e Osíris e de Hades e Asclépio recebia os elementos funerários relacionados com a ávida após a morte, a medicina e a magia.

Bartoli
Serapis



Vincenzo Cartari
Serapis

Serapis tinha a forma humana, um corno na testa, vestes ricas e ao estilo grego, mas estava acompanhado por uma criatura monstruosa com três cabeças: o Cerbéro da mitologia grega e várias serpentes aos pés. Serapis era uma divindade masculina relacionada com o mistério. Ora isto não era muito comum na Grécia pois como as mulheres não tinham voz activa nem válida na sociedade passaram a dominar a esfera religiosa e mística. Elas liam os oráculos, eram sibilas, eram vestais, dominavam o mundo dos mistérios subterrâneos, etc.

Vincenzo Cartari
Serapis

No entanto, segundo Hesíodo, uma das filhas do titã Perseu era Hécate. Hécate é uma figura complexa e arcaica proveniente de Caria, Sul da Ásia Menor. Nada na sua história, se é que ela existe, fala da participação da deusa num relato mítico ou heróico. Não pertence por isso ao panteão dos doze deuses olímpicos. O seu poder no entanto é enorme e estende-se tanto à terra, como ao mar, ao Céu e aos Infernos. Como deusa da terra que era, tinha o poder de conferir riqueza e outros benefícios de natureza material. Mais tarde, tornou-se deusa das artes mágicas e foi associada ao mundo dos fantasmas. De facto, se procurarmos no Google por Hécate, vemos que é o mote para muitos sites que falam de bruxaria e misticismo.

William Blake
Hecate or the Three Fates
1795
Tate Gallery, Londres

Pois Hecate é uma divindade com corpo de mulher, mas três cabeças mencionada num hino do mágico “Papiro de Paris”. Esta divindade de origem asiática foi assimilada, como vimos pela ascendência que lhe é atribuída, pela cultura grega como sendo muitas coisas para além dos atributos já mencionados. Dizia-se, nesse “Papiro de Paris” que Hecate surgia na Lua Nova representado três idades do Homem, o mesmo tema que Ticiano utiliza na referida Alegoria. No entanto Ticiano mistura este tema caro aos homens em geral (o tema da passagem do tempo e dos efeitos do tempo no presente e no futuro), com os sinais de Hecate e de Serapis; ou seja, o policéfalo, as três cabeças saídas do mesmo corpo, cada uma com um significado. No caso de Hecate, uma das cabeças é humana, a cabeça da esquerda é de um cão e a cabeça da direita de uma cabra ou até de uma pantera, consoante as representações. Como vemos, aproxima-se do monstro que acompanha Serapis.

Hecate
Século XVI



E porque Hecate é tri, é três em um, está muito presente nas encruzilhadas, nos cruzamentos, o que sabemos ser meio caminho andado para ser tomada como uma divindade mágica. É também a deusa tríplice pois o seu domínio é celestial, é infernal e marítimo. As representações também não são homogéneas pois tanto encontramos a versão mais próxima de Serapis, como vemos estas figuras com três corpos ou com três faces humanas a olhar em direcções diferentes, ou três cabeças todas iguais, mas apenas um pescoço, etc. O importante a reter aqui é que o policéfalo, a imagem do homem ou da mulher com três cabeças de animal é uma presença na arte, presença essa ligada ao passado, ao presente e ao futuro, como veremos no quadro de Ticiano.

Catedral de Siena
Hecate

O retrato de Ticiano, que não deixa de ser um auto-retrato, é tardio, como mostrará a explicação seguinte, se esta for de algum uso. Vemos três rostos: um de frente e dois de perfil. O rosto do lado esquerdo da pintura temos o retrato de Ticiano, por cima de uma cabeça de lobo, de frente para nós está o retrato do seu filho, Orazio, por cima de uma cabeça de leão e do lado direito da pintura encontra-se o perfil do seu sobrinho Marco Vecelli que segundo se sabe, seria seu herdeiro, pintado por cima de uma cabeça de cão. Lobo, leão e cão têm o seu significado: simbolizam o passado (Ticiano), o presente (Orazio) e o futuro (Marco). No topo da pintura temos a explicação da mesma numa inscrição que tem de ser traduzida e analisada tendo em conta o pensamento da época. Diz o seguinte: “Ex praeterito praesens prudenter agit, ni futurum actione deturpet.” A inscrição quer dizer, mais ou menos, isto: da experiência do passado, o presente age de forma prudente, a fim de não comprometer a acção futura. Esta expressão que justifica de certa forma a escolha de uma imagem oriental para a exibição de um tema ocidental como o da Prudência (que geralmente não era retratada assim, com o uso de três cabeças a representar o passado, o presente e o futuro), mostra bem a capacidade de agregação e assimilação de conhecimento por parte de Ticiano. A mesma expressão não seria totalmente nova uma vez que já tinha sido utilizada por Petrus Berchorius no seu “Reportorium Morale”. Nele o autor dizia: a Prudência consiste na memória do passado, organizada no presente para contemplação do futuro. Isto resumido em três palavras: memória, inteligência e visão.

2 Comments:

Blogger João Barbosa said...

ora aqui está uma bela lição! belo naco de conhecimento. hoje vou mais satisfeito para a cama.

27/8/09 12:18 da manhã  
Blogger beluga said...

Eu ainda vou com a sensação que podia estar melhor, que a relação entre as cabeças dos animais, o tempo e a policefalia podia estar melhor. Sim, eu tenho uma necessidade muito grande de "provar que sou original". Ou pelo menos, eficiente.

27/8/09 2:00 da manhã  

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