quinta-feira, fevereiro 21, 2008

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

Money makes the world go ‘round…
É óbvio que “filho de peixe sabe nadar”, mas também é sabido que no que diz respeito à arte, nem todos os peixinhos são bons artistas. Holbein deverá muito da sua obra ao pai, mas grande parte é mérito: desenha mãos como ninguém e retratos de majestade muito bons. Não deverá ter vivido na penúria, uma vez que as suas viagens frequentes provam a capacidade financeira para tal e os retratos de personalidades da burguesia da época devem ter sido uma boa fonte de rendimentos. Fixação ou obrigação da encomenda, certo certo é que Holbein pintou muito e e muito bem… dinheiro. Dinheiro espalhado em mesas, guardado em cofres semi-abertos, sob a forma de uma única moeda na mão de um homem, enfim, os exemplos seriam mais se as imagens que tenho aqui não fosse tão más. Não sendo esta justificação bastante para afastar os perseverantes leitores do Belogue (com todo o respeito), avanço para os exemplos:

Lais de Coríntio era uma prostituta das mais caras na Grécia Antiga. Os favores sexuais que poderia proporcionar deviam ser de tal forma extraordinários e a senhora é retratada com uma beleza tão excepcional que até se diz que Lais era amante do mais importante pintor da Antiguidade, Apelles. Lais é apresentada aqui como uma mulher muito bela, de formas suaves e um pouco esfumadas, ao estilo veneziano que denuncia um certo hedonismo. Diz-se que o modelo para este quadro (que tendo um caso com Apelles – cujo nome quer dizer Amor Profano - seria por isso representante do Amor Profano) também teria sido para um outro que representava o amor puro. Teríamos então a oposição entre Amor Profano e Amor Puro tal como enunciado por Ticiano, embora em Holbein nada diga se esta é a Lais do Amor Puro ou do Amor Profano (à excepção das moedas). Não há nesta Lais um interesse em chocar: ela não é pudica, mas também não é promíscua em demasia. O dinheiro em cima do balcão e a sua mão direita aberta ara que olha parece querer dizer “para me terem é tanto. Venham”.

Hans Holbein the Younger
Lais of Corinth
1526
Kunstmuseum Basel, Suiça


Este quadro não deve ser visto separadamente do outro que Holbein pintou e que retrata a cunhada (irmã da mulher) do retratado. Holbein constrói um retrato ao estilo italiano, estilo esse que começava a emergir na Alemanha nos séculos XV e XVI. Este estilo já estava a ser trabalhado há muito tempo e se o nome de um artista alemão puder ser aqui citado esse nome é o de Dürer que em muito contribuiu para a evolução do estilo. Quando este quadro é encomendado a Holbein, o pintor sabe perfeitamente o que fazer e como fazer: a linha reina sobre a cor e a textura, excepto no rosto da pessoa retratada. E essa pessoa é o mecenas, logo exige que a representação seja digna de tal. Meyer, o retratado, preocupa-se em mostrar a sua situação financeira segurando para isso uma moeda na mão. Era um homem vindo não das classes superiores, mas das guildas (associações de artesãos). No entanto este homem tornou-se um prestamista e graças ao seu trabalho, tinha uma posição social privilegiada e uma situação financeira desafogada. Meyer também apresenta na mão esquerda vários anéis de ouro que mostram a sua prosperidade e a própria arquitectura, o cenário que contextualiza a cena está repleto de alusões à Antiguidade Clássica e ao Renascimento italiano: colunas com capitéis coríntios, folhas de acanto e os putti.

Hans Holbein the Younger
Portrait of Jakob Meyer
1516
Kunstmuseum, Öffentliche Kunstsammlung

Este retrato de Dirk Tybis, diz-nos tudo acerca do retratado bastando para isso ler o papel que o mesmo segura na sua mão esquerda: chama-se Dirk Tybis, tem 33 anos e reside em Londres. Sabemos também pelo papel e pelos símbolos nele contidos que Tybis é um mercador e daí a presença do dinheiro em cima da mesa, um pouco ocultado. Este é um retrato curioso uma vez que há uma certa tendência para ser um retrato de poder e de exibição de prosperidade, mas acaba por sê-lo de forma tímida, uma vez que o que lhe dá esse poder, o dinheiro, está confinado a um canto do quadro.


Hans Holbein the Younger
Portrait of Dirk Tybis
1533
Kunsthistorisches Museum, Viena

Neste quadro de Holbein o retrato parece que foi apanhado de surpresa, ou pelo menos nota-se no seu rosto uma certa ansiedade: ele não se vira para observador, mira-o pelo canto do olho. No entanto, também não está a tentar esconder-se, está antes a anular-se para fazer sobressair o que ele acha verdadeiramente importante; ou seja, o ambiente que o rodeia (com todos os seus pormenores) e mostra o seu lugar na sociedade. Apesar disto e da presença do dinheiro e dos papéis e de escritos que relacionam Georg Gisze com o seu trabalho, o trabalho de mercador, ele pretende ser visto como um humanista. Atrás dele, na parede o escrito em latim: `Nulla sine merore voluptas', que quer dizer “sem trabalho não há ganho”. É portanto uma enfatização da sua actividade como mercador.

Há neste quadro objectos que se destacam como por exemplo a jarra com flores que está em cima da mesa. Até aqui nada de especial. Aliás a transparência quase anula a presença das flores. Mas a cor das flores, isso sim é importante, pois a esse cor-de-rosa era sinónimo, segundo os cânones venezianos, de uma certa postura social, de uma aproximação à realeza. O outro objecto que, não se destaca porque se trata do retrato de um mercador, mas que para esta análise é importante, é o pequeno cofre com moedas. É que tal como o que acontece com o quadro em si, este objecto só serve para dizer a actividade do retratado e a posição social e financeira. Quase que é anulado por uma série de outros objectos que fazem de Georg um mecenas em vez de um mercador.

Hans Holbein the Younger
Portrait of the Merchant Georg Gisze
1532
Staatliche Museen, Berlim

3 Comments:

Blogger João Barbosa said...

Gostei da boca dos desocupados.

21/2/08 9:31 da manhã  
Blogger beluga said...

"desocupados" retirados.

21/2/08 10:26 da manhã  
Blogger João Barbosa said...

Atão? estava gira e ficava bem a boca... acredite que faço mesmo muito pouco... infelizmente não vivo de rendimentos (só os do meu pouco trabalho)... milionário sem dinheiro, portanto

21/2/08 12:05 da tarde  

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