quarta-feira, fevereiro 20, 2008

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

Já vimos aqui como os temas de carácter pagão foram tratados na Idade Média. Mal refeita da nova concepção do mundo que aliava o heliocentrismo ao teocentrismo, a Idade Média lidava mal com o passado, com o paganismo e não conseguia reinterpretá-lo à luz da nova doutrina. Por isso vemos muitas vezes na arte medieval temas pagãos que foram trabalhados com alguma vergonha e cuidado não fossem ultrapassados os limites da decência e da moral geral e daquela que existia em cada homem. A reabilitação desses temas era feita sempre de forma muito subtil. Isto devia-se em parte a essa dificuldade de lidar com princípios diferentes dos actuais, com a necessidade de não fugir às novas ideias sob pena de uma valente condenação pós-terrena e porque o homem da Idade Média, por oposição ao homem da Antiguidade Clássica, tinha sido forjado da terra, do barro e não da vontade de um Deus. Os temas pagãos só tinham significado para os artistas da Idade Média se estivessem revestidos de algum objectivo não pagão que pudesse ser relacionado com temas religiosos: o Pomo da Discórdia e A Tentação de Adão, Ceres e a Nossa Senhora das Candeias….

Já no que dizia respeito às cenas do dia-a-dia, cenas não sacras, o herói pagão era recuperado na sua plenitude (nem todos, claro), para transmitir os ideais da época, os ideais de enamoramento e romance, de vida em sociedade que se pretendia retratar.

Vemos esta discrepância entre o que se quer transmitir e a matéria para o fazer num episódio pagão bem conhecido e que é o Rapto de Europa. (Europa foi raptada por Zeus que dela se enamorou. Para chegar à deusa assumiu a forma de um touro branco que de imediato lhe chamou a atenção. Europa acariciou o touro e em seguida subiu para o seu torso sendo assim raptada quando o touro voou.) Um artista medieval retratou este tema segundo os cânones da época, mas sem a emoção que a passagem mitológica tem: Europa está já em cima do touro, mas toda a cena é estática. As amigas de Europa exprimem um espanto contido da margem como se o acontecimento não fosse extraordinário. O touro branco que deveria ser Zeus é um híbrido entre burro e cão, dado o seu tamanho e Europa, vestida à moda da época, não acena, nem esbraceja, nem mesmo tem as roupas em desalinho.
Anónimo
The rape of Europe

Quando mais tarde Dürer pegou no tema, já liberto das convenções medievais, fê-lo com toda a emoção que o mesmo exigia: a composição é feita de várias diagonais, as amigas de Europa, no segundo plano agitam-se como umas carpideiras sicilianas, monstros marinhos surgem no primeiro plano Europa quase nua está verdadeiramente montada num touro possante cuja cauda também se agita no momento em que o animal vai começar a voar e a deusa está em desalinho, com o pouco tecido que a cobre a esvoaçar, o cabelo no ar e a mão firme a segurar o corno do touro, os sátiros à esquerda cumprimentam o pai dos deuses.


Dürer
The rape of Europe

2 Comments:

Blogger João Barbosa said...

rape... não é violação?

20/2/08 9:57 da manhã  
Blogger beluga said...

assim traduzido... é. mas nesta passagem mitológica nao houve violação. "rape" é utilizado no sentido de rapto. no original "rapere" do latin, nem sequer tem uma conotação sexual e é antes aplicado no sentido "tomado à força".
corrijo, o touro não voou, o touro branco mergulhou. por isso na gravura de Dürer temos animais marinhos aparecer atrás do touro. (ok, eu calo-me)

20/2/08 2:46 da tarde  

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