sexta-feira, dezembro 07, 2007

- o carteiro -

[nota: este texto pode chocar os incautos, visitantes pela primeira e outros. desde já pedimos desculpa:]

Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a Vase
1888
National Gallery, Londres


Helena era de Tróia. Não de Tróia Turquia nem de Tróia Portugal. Era Helena de Tróia Feio. De feia não tinha nada, nunca houvera tido. Já desde menina, um rosto que nunca abandonou, o que dava muito jeito no caso dela, Helena era o chamariz dos rapazes e a inveja das raparigas. Era por eles apalpada e por elas apupada. Não era por mal, mas também não era por bem. Era só porque a miudagem gostava de se meter com ela e ela, calada, até a gostar um bocadinho, calava-se perante as raparigas que mal enchiam a roupa que traziam. Helena de Tróia tinha poucas amigas e uma legião de fãs. Rosinha era a única amiga e aquela que tinha permanecido na terra mantendo correspondência constante. Era dada às cartas como as raparigas que ouvia no rádio. Foi por carta que Helena soube que o Camilo tinha feito um filho à pudica Rosa: ele fez-lhe o filho, ela não disse que não, os dois não disseram nada, a família soube quando ela já estava de 7 meses, foi quase uma tragédia paroquial que se resolveu com um bom casamento como deve ser nestas coisas, que aquilo eram famílias pobres, mas a honrar a tradição. E o amor… Ai pois é! Que viesse depois que havia gente para lhe abrir a porta.

Mas Helena deixara aquela vida. A típica história do “palminho de cara” que se corrompe no calor da noite (salvo seja) para sobreviver, que acredita no sonho proporcionado pelas grandes cidades era aqui um bocado diferente. Helena também se juntou com um empreiteiro da capital que conheceu nos seus tempos áureos de cabeça de cartaz nas noites de quinta no Private. Entrou para lá porque quando chegou um homem que com ela se cruzou na rua sussurrou-lhe com o bigode a roçar-lhe no ouvido: “tinhas lugar no Private, bonequinha”. Ela lá foi que não era esquisita, tinha tudo no sítio, não devia satisfações a ninguém e o lugar era limpinho. Primeiro ambientou-se e depois gostou de ser apreciada. Não se considerava puta porque apesar de o ser, como o fazia com gosto auto denominava-se de outra forma. O empreiteiro dava uma ajuda, mas ela morria de saudades de mais homens a apreciá-la todas as noites, ou nas noites que lhe aprouvesse, que não há mal nenhum nas enxaquecas de uma profissional do sexo que como se sabe não são caprichos de puta. São ossos do ofício leves para ela, piores para as mulheres deles. Até que um dia, ela que não tinha coragem de deixar o pareço dele com hora marcada, decidiu deixar-se levar por um tipo bem parecido da concorrência, do Pleasures, que embora não sendo bem visto lá na casa, frequentava o Private só para poder privar da companhia e conversa de Helena. Por ela, conversava-se pouco: e não era por causa do tempo, era por causa da falta dele para toda a vontade que tinha. O tipo lá lhe disse que podia ganhar mais. “Isso não me leva, sabes que não me leva”, “E se eu te levar princesa”, “Se me levares é outra coisa”, “Passo por tua casa”, “Depois das oito e meia, quando estiver a fazer o jantar”. Ele lá foi e não entrou pela porta da frente. Entrou pela de trás e deixou o empreiteiro a piar fininho depois de um conjunto de golpes bastante duros nos genitais que Helena até achou que não era de macho atacar outro macho assim, “Valha-nos Deus se não teria sido preferível que o capasses!”. Comeram lulas recheadas com arroz branco, puro, alvo e saíram os dois pela porta da frente. O empreiteiro nunca mais a procurou tal foi a lição! Verdade é que também nunca mais procurou mulher alguma e o Private agora já não contava com a sua presença para animar os corações e os corpos das mais velhas.

No Pleasures tudo corria de feição e Helena, mulher que gostava de manter o que devia ser mantido, juntou-se também com o tipo. Uns meses mais tarde, ainda não enfartada de ser só de um, Helena começou a ser vigiada de perto à saída do Pleasures (onde só fazia varão e table dance devido a acordo prévio com o companheiro), por um conjunto de tipos dentro de uma Hiace, que ela achava que já não existia. O cerco durou ainda uns meses e numa das noites de trabalho para o marido e prazer para ela, foi abordada pelo condutor: “Olha lá boneca, sabes quem é o Menezes?” “Sei, e sei que não é para o Menezes que vocês estão aqui desde as onze até agora. O que é que foi?”, “vamos-te levar ao Menezes.”, “Se eu deixar. O Menezes que venha cá”, “Não sejas parva, que tu de parva não tens nada. O Menezes manda dizer que está à tua espera em casa para acabares o que começaste”, “Mau, mas que conversa é essa?”, “Anda com a gente e nada acontece ao teu amigo aqui do Pleasures”. E Helena que nunca se tinha sentido pressionada, que sempre tinha pressionado, foi com algum incómodo.

Quando chegaram à casa que já tinha sido dela com o Menezes ela disse a verdade das verdades “que gosto de ter muitos homens comigo. Não fiz para te magoar ou humilhar e nem sabia que o tipo do Pleasures te ia tratar assim. Fizemos aquilo a quente, excitados. Não te vou contar pormenores. Gostei de estar contigo, mas não sou de ninguém, percebes. Gosto que olhem para mim, que me toquem, gosto que me surpreendam, gosto que se babem, gosto que pensem em mim, que falem de mim, que… tu sabes… Bom, acho que já acabei o que começamos, não achas? Tu não falaste muito, mas eu só tenho isto para dizer. Peço desculpa por tudo o que te fiz passar.”, “Não, ainda não acabaste o que começaste. E as lulas? Nunca cheguei a comer as lulas. Tem tudo na cozinha. Vá lá Helena, compensa-me, mostra o que vales”.

2 Comments:

Blogger AM said...

he, he, adivinhei o fínal...
a beluga e as lulas...

7/12/07 4:35 da tarde  
Blogger beluga said...

m****, detesto quando isso acontece. Escrevi "lulas recheadas" por acaso. Logo a seguir pensei em mudar, mas não me ocorreu mais nada. se fosse agora escrevia que ela estava a cozinhar peras belle hélène. (fraquinha, fraquinha!)

7/12/07 5:58 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home