terça-feira, novembro 27, 2007

- o carteiro -
Não é um antes e depois, é um “carteiro” para os apreciadores, não apreciadores e assim-assim d’ “A Ronda da Noite” de Rembrandt. Era para ser um antes e depois por causa deste trabalho de um jovem artista brasileiro, mas A Ronda Noite, dizem, merece muito mais. Eu continuo a achar que não e se tivesse aqui a senhora professora Maria João Ortigão (sim, da família), já tinha sido fuzilada com o olhar. Ainda assim vale a pena dizer que o quadro de Rembrandt é importante, ou pelo menos, famoso em parte pelo seu título. A Ronda da Noite foi um título dado já no século XIX por especialistas em arte que procuravam uma mensagem subliminar na obra. O título que hoje deveria vigorar seria 'Company of Frans Banning Cocq and Willem van Ruytenburch', remetendo a acção e o protagonismo para duas famílias de oficiais que de facto existiram no século XVII. A pintura em si não tem nada de especial; alegam que o que a torna especial é o contraste de luz e sombra que puxa para o primeiro plano umas personagens e empurra para planos secundários outras. Nada que a própria perspectiva já não fizesse há muito tempo… Há também a importância da expressão. Nada me disse, mas este grupo parece que está num palco, actuar, estão em acção mas também posam um momento para a fotografia que fará a capa do folheto do espectáculo. Rembrandt colocou propositadamente as personagens de forma individualizada, sem ligação entre elas, de modo a que pudéssemos pensar que cada uma desempenha um papel fundamental e muito diferente da personagem que lhe está ao lado. Os seus gestos são de espanto, surpresa, de acção iminente, mas como se encontram todos de frente para quem vê o quadro, perdem a sua dinâmica, não há linhas diagonais, ninguém está de costas, ninguém assume uma posição mais importante que ninguém, apesar de já conhecermos quem “manda” no quadro, quem orquestra a acção. Com orquestra ou sem orquestra, este quadro está mais para Cavalleria Rusticana do que para Prima Donna. (desculpem-me os puristas).

Rembrandt
Nightwatch
1642
Rijksmuseum, Amsterdão

A fotografia do brasileiro Reginaldo Gonçalves foi a vencedora de um passatempo patrocinado pela Rádio Nederland, que premiava artistas que fossem buscar inspiração á técnica, temática u espírito das obras de Rembrandt. Reginaldo Gonçalves pintou uma Ronda da Noite “à moda do Ga” e explica porque é que a fotografia encenada faz sentido: no Gana são comuns as asociações e grupos de pessoas que vigiam as ruas. Ele próprio é membro da Companhia Asafo que toma conta da segurança, paz e ordem das ruas do país. Assim, os trajes holandese são substituídos por trajes típicos do Gana (aqueles que vemos em amarelo, em verde e em vermelho). Cada cor representa não só a hierarquia, mas também as diferentes companhias e os diferentes povos do Gana. O capitão e o tenente de A Ronda Nocturna são substituídos por dois tenentes da Asafo. Uma boa ideia (que não sei se foi adaptada depois do anúncio do vencedor) e que valoriza o próprio país. O vídeo da vitória está aqui.

Reginaldo Gonçalves
Ghanaian Night Watch
2006

3 Comments:

Blogger João Barbosa said...

dah! a foto é tenebrosamente fatela! estraga a pobre «ronda da noite».

27/11/07 10:13 da manhã  
Blogger AM said...

o mugabe (ou será o kadafi?) já chegou?

27/11/07 7:38 da tarde  
Blogger beluga said...

não me fale do kadafi que eu ando com a líbia atravessada na garganta (salvo seja!). Quanto aos Mugabes, sabe o que é que dizem... "democraticamente eleitos". E nós, adeptos fiés da Realpolitik, que até dá jeito porque não estamos em posição de desdenhar, ainda lhes colocamos a passadeira vermelha. não me venham com diplomacia; para mim toda a tolerância chega a um ponto de intolerância.

28/11/07 12:22 da manhã  

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