sexta-feira, novembro 23, 2007

- ars longa, vita brevis -
hipócrates
Nem todas as obras têm o melhor tratamento, embora todas o mereçam. E não faço distinções de estilos nem períodos, embora reconheça que talvez seja isso que leva a que umas “sejam filhas e outras sejam enteadas”; ou seja, umas ocupam bonitas paredes de uma casa ou de um museu com todas as condições, são alvo de estudos e tratamentos sempre que aparece uma doença, e outras estão em sótãos, em museus de província (discutível esta denominação, eu sei), servem para apodrecer, decoram locais poierentos e algumas têm até um segundo uso. Mas agora, depois de muitos anos e muitas obras perdidas (nem fazemos ideia do que existia antes da segunda guerra mundial e o que existe agora), uma equipa fez o levantamento, tratamento e apresentação ao público (na National Galery em Londres ) das obras negligenciadas. Essa equipa era composta por 25 “detectives de arte” (que inveja!) e durou três anos, mas trouxe à luz do dia tesouros e historias inimagináveis. O objectivo era encontrar 8 mil obras de arte perdidas e, apesar de desconhecer o número das encontradas, sabe-se que em exposição estarão 8. 8 obras estudadas ao milímetro e que por isso merecem especial atenção. O facto de não terem sido encontradas antes deve-se à existência de um corpo capaz dentro dos mais pequenos museus que perpetuava documentos e mantinha a memória das obras viva. Com o tempo as pessoas foram sido substituídas por outras e esse testemunho não foi passado ou foi perdendo importância dentro da orgânica do museu. A exposição estará na National Gallery até 10 de Fevereiro do próximo ano (ainda têm tempo) e chama-se: Discoveries: New Research into British Collections.

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A primeira pintura é de Panini e não há certezas quanto ao ano de criação da obra, podendo este situar-se entre 1729 e 1730. Era típico de Panini a pintura de vistas arquitectónicas fantasistas, irreais ou de arquitecturas efémeras, muito típicas de situações de Estado. Neste caso há uma coluna pintada que esteve na Piazza navona na celebração do nascimento do filho de um rei francês. Pensa-se que o pintor terá sido contratado pelo rei de França para executar a obra. Obviamente não há imagem desta pintura, mas duas outras muito semelhantes etão no Louvre e em Dublin.

[2]

Outra das obras em destaque é de Nicholas-Edward Gabe e chama-se The Barricade at Porte Saint –Denis, uma cena típica e iconica em que uma mulher avança nas barricadas. Terá sido pintada por volta de 1848 e tem muito do espírito da Revolução Francesa, embora não seja apenas simbólica: a mulher ali representada é um símbolo, mas também real e tomou parte dos incidentes nesse local. E ainda é mais pungente porque a mulher em questão apenas conseguiu erguer a bandeira antes de ter sido atingida por uma bala do exército. A mulher não é a personificação da liberdade, mas representa-a ao erguer a bandeira depois de tantos dias de um lado da barricada.

[3]

A Morte de Cleopatra de Benedetto Gennari é de 1886 e parece ser dos poucos quadros que está disponível on line ao leitor que não irá a Londres. Mostra a morte da rainha do Egipto, entre eros e o tanatos, com o sangue a escorrer-lhe. O quadro nem devia estar mal acondicionado no Victoria Art Gallery in Bath, mas como o tema era muito comum na época, não foi explorado um filão importante: Gennari era um pintor de temas religiosos, não históricos ou mitológicos, o que torna o quadro passível de uma análise e exposições mais profundas. Aliás, Gennari trabalhou para a esposa do rei Carlos II, um católico devoto. Uma explicação dada para esta mudança na temática é o dinheiro. Provavelmente Gennari estava a precisar de dinheiro e de um mecenas e para o conseguir terá pintado esta Cleópatra com o objectivo de agradar um conselheiro do rei.
[4]
É de cerca de 1500 esta Sagrada Família de Gianfrancesco Maineri, uma de quatro pinturas que Maineri pintou sob esta temática. Ao princípio parecia apenas aquilo que o título indica, mas após uma análise foram descobertas uma série de sinais que escondem o verdadeiro significado da pintura, bem como outros significados para a mesma. Por exemplo (sem a imagem fica mais difícil explicar), a esfera de vidro que a criança segura pode querer dizer que Cristo é uma figura de proa; a Virgem segura um véu transparente que pode remeter-nos para o “véu da carne”; ou seja, a referência à fisicidade humana em contraponto com a divindade do Criador.

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Até cerca de 1980 este retrato raro de Rubens na sua casa em Antuérpia (atribuído a Anton Gunther Gheringh), segundo se sabia, executado entre 1645 e 1675, estava pendurado na parede de um hall num centro de detenção em Buckinghamshire e muitas vezes servia de quadro para as mais diversas actividades. Mais tarde o centro tornou-se um Museu e o quadro ficou num armazém do mesmo. Quando restaurado e tratado das muitas mazelas que tinha, o quadro mostrou uma bela realidade: tinha pormenores da casa de Rubens restaurada no século XIX, como frescos no exterior do edifício, que foram desenhados pelo pintor. O melhor é que os especialistas atá aí só tinham esboços dos frescos, nunca uma versão a cores das pinturas e por isso, graças ao quadro, puderam concluir que havia mármore no exterior da casa, entre o primeiro e o segundo andar. O quadro chama-se Courtyard at the Rubenshuis porque o termo “Rubenshuis” se refere a qualquer coisa relacionada com Rubens como é comum em outros quadros.

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The Ark on Mount Ararat de Filippo Palizzi esteve durante muito tempo exposto na Falmouth Art Gallery e era muito visto devido à fácil identificação do tema: a arca de Noé, os animais, a cena bíblica em si… Aparentemente o quadro não tinha nada de especial, até que uma investigadora descobriu existir um quadro muito semelhante no Museo del Capodimonte em Nápoles, mas de maiores dimensões, quase o dobro do tamanho. Este segundo quadro foi encomendado por Vittorio Emanuele II, que era à altura Rei da Itália, e a relação entre os dois é tão próxima, são tão parecidos que se partiu do princípio que um se desenvolveu a partir do outro. A versão de Falmouth seria então a versão preliminar, um esboçi para a versão napolitana e também terá dado o mote a outros dois tabalhos de Palizzi que neste momento pertencem a colecções privadas.

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Impressiona-me este Luca Giordano estar na lista, porque ao contrário dos outros nomes que me eram desconhecidos, o de Luca é familiar. A morte de Séneca, o conselheiro de Nero é um tema muito trabalhado, talvez por ter sido acusado de conspirar a morte de Nero, talvez por se ter suicidado. O momento do suicídio é sempre o preferido dos pintores. No entanto, só muito recentemente é que este quadro, que terá sido pintado entre 1650 e 1675, foi atribuído a Giordano com certeza graças à análise da sua assinatura. Até aí, e como a sua proveniência não era conhecida, nem o nome do seu autor era dado como garantido, o quadro acabou num armazém do Bolton Museum and Art Gallery. Há uma versão do mesmo quadro e do mesmo autor no Louvre.

O que esta iniciativa conseguiu foi, para mim, invejável. Primeiro porque fizeram exactamente aquilo que eu gostaria de fazer: investigar obras de arte. Depois porque devolveram a vida a quadros que o mereciam, não pelo possível valor no mercado, mas porque todos os que se encontram nestas condições o merecem. Por fim, porque ao exibirem-nos dão-lhe o mesmo valor que cópias (ou estes é que seriam as cópias) de quadros encontrados em museus com mais visibilidade permitindo assim fazer um rastreio intensivo deste tipo de quadros que se multiplicam sem haver disso qualquer registo.

3 Comments:

Blogger AM said...

uma posta notável

23/11/07 11:57 da manhã  
Blogger João Barbosa said...

estou tecnicamente sem palavras. espero que seja transitório. admirável.

23/11/07 4:23 da tarde  
Blogger beluga said...

Caro AM e Caro João Barbosa (hoje sem resposta individualizada porque eu ando a poupar o neurónio):
pensava que os bons posts tinham acabado no primeiro ano, ano e meio de Belogue. Estimo muito em saber que gostam. Mas acalmem-se lá, só descobri o artigo do jornal "The Independent" onde fala da exposição. É um excelente artigo, não pela dificuldade que deve ter sido a sua escrita, mas porque para mim fala de assuntos que me interessam e tem a capacidade de preparar as pessoas para a exposição. Não considero o primeiro quadro uma maravilha, os o Rubens e do da morte da Cleópatra são relevantes, abrem novas portas no estudo da pintura. mas isto sou eu a falar e estou longe de ser "entendida" nestas matérias.
mas obrigada e voltem sempre

23/11/07 10:32 da tarde  

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