quinta-feira, setembro 20, 2007

- não vai mais vinho para essa mesa -



Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a Vase

1888
National Gallery, London

Quando a minha idade era outra que não esta, a minha avó era padeira. Bem, eu não privava muito com a minha avó, mas sabia lavar as tripas de um porco, sabia amassar o pão e debulhar o milho. Não falávamos em parte porque ela era uma pessoa de poucas palavras, sempre preocupada com o bicarbonato de sódio para a caldeirada, com conspirações da vizinhança, com o mandar talhar o ar, com o sacrificial rito de matança de uma galinha para agradar a um Deus que nunca lha tinha pedido, nem era conhecido que alguma vez fosse fazer uso de tal manjar embora se aplique com frequência a expressão “manjar dos deuses”. Não falávamos muito porque a sua rudeza se estendia às mãos: era agreste até no sacudir das mesmas e abraçá-la, toda ela compacta, musculada e rija, era como abraçar o tronco de um pinheiro, e encostar a face à face dela, como lavar o rosto com agulhas. Mas era e é uma mulher como poucas, sem queixas, sem achaques, sem choros.
Não privávamos muito, agora não privamos nada porque lhe vi descer e tapar o rosto o véu da inveja que espero não ter herdado e da maldade até, se mo é permitido dizer. Porque se esparramou e espreguiçou no seu íntimo, da mesma forma como escorregava a massa do pão sobre a masseira, a obsessão pela vida dos outros, a ida às capelinhas, o disse-que-disse-que-disse, as visitas regulares a senhoras que mesmo sem turbante viam em olhos de boi e tripas de coelho o futuro, o passado, o presente e todos o pretéritos e gerúndios que mais fossem requisitados. Bastava pedir e a madame que era amiga de todos e como se sabe não tinha grande lucro porque ninguém é juíz em causa própria, quase passava recibo e a minha avó que não era mulher de se ficar, quase lho pedia.

Ao fim da tarde levava as vacas à ordenha, sempre com o credo na boca, não fosse o sol deitar-se mais tarde, a “Malhada” não dar o leite que o úbere dizia ter e ficar-se pelo meio canedo, a “Pintas” recusar-se a subir para o estrado, um bando de malucos sair do meio do mato e atacar quatro vacas indefesas com o seu corpanzil bicolor e uma mulher rija como uma árvore que temia perante tudo como um menino de bibe. Invocava Deus e Nosso Senhor em cada frase, terminava-as dando graças a esse homem que fazia com que vivesse na parte velha de uma casa adjacente à nova, por pudor e temor de que os vizinhos a vissem à solene janela da casa nova onde em dia da procissão se sacodiam com gestos secos e únicos as colchas de tecido lavrado, e por respeito a Deus que amava os pobres pois era deles o reino dos céus. E a par de amassar o pão com precisão e de fazê-lo como ninguém, a minha avó trabalhava arduamente para entrar nesse reino pela porta da frente com a roupa domingueira.

5 Comments:

Blogger João Barbosa said...

muito bonito

20/9/07 2:22 da tarde  
Blogger beluga said...

desculpe perguntar, mas está a brincar ou está a "falar" a sério?

20/9/07 2:37 da tarde  
Blogger João Barbosa said...

estou a falar a sério.
não tem noção que escreve bem? gostei mesmo do texto.

21/9/07 10:06 da manhã  
Blogger beluga said...

obrigada, mas não, não tenho essa noção. acho mesmo que como blogger sou uma valente *****, e nas outras áreas, nem vale a pena falar que eu hoje estou com o diabo no corpo (cruzes canhoto, lagarto, lagarto, lagarto)

21/9/07 11:48 da manhã  
Anonymous ana said...

só mesmo à marretada, pá. não te enxergas? eu gosto mesmo.

21/9/07 10:52 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home