sexta-feira, agosto 17, 2007

- o carteiro -

Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a Vase

1888
National Gallery, London

Quando a minha idade era outra que não esta, a escola era longe, a casa era abaixo da linha de comboio e vê-los passar não era passatempo. Meter-me debaixo deles não era ideia, era pesadelo. A escola tinha muita gente que se foi conhecendo que trocava cromos de caderneta, que ganhava e perdia berlindes (uma vergonha perder a Vaca Leiteira, o berlinde grande e branco), o pião uma incógnita, a corda um vício e o elástico, uma forma dos rapazes nos verem as a roupa interior porque toda as raparigas usavam saia e o jogo obrigava duas a colocar o elástico atado à volta das pernas abertas. E jogo lá ía: “mete, mete, tira, tira, mete, vai ao meio e sai pra fora. E mete (duas palmas) e tira (duas palmas), mete vai ao meio e sai pra fora”. E menina que saísse sem tocar no elástico era menina vencedora. Não havia prémios, havia amizades convenientes. Quase todas acabavam com a passagem para outra escola e as intrigas habituais: os primeiros desamores. Como a amostra era pequena, o “acasalamento” dentro da amostra era mais que provável e fazia os seus estragos.

Na escola gostava de tudo, não gostava de mim nem dos que tinham mau hálito. Não me sentia eu e as diferenças sociais eram muito notórias. Em casa não havia pão fresco todos os dias, nem manteiga para barrá-lo (era margarina), não havia refrigerantes, nem chocolates (no Natal, duas bengalas e dois guarda-chuvas pendurados na árvore para cada um), não havia aparelhagem, não havia mais meninas na rua. Brincava sozinha com as bonecas que vinham de natais muito passados, servindo chá a cada uma, em chávenas improvisadas com vasos e por vezes, arriscava a pele com um pires da cozinha. Não falava com elas, não falava com ninguém e não me importava. Todos os dias dava “uma de mão” de água à parede caiada de branco, só para vê-la mais branca. E nas portas também para avivar a cor-de-vinho. Vinho era palavra non grata em casa embora ainda não soubesse o que queria dizer “non grata”, mas fica sempre bem o estrangeirismo. Quando não havia nada que fazer os rapazes da rua vinham buscar-me a casa para ir para o sótão dos três irmãos e “fazer o amor”. Cada um na sua vez deitavam-se por cima de mim à espera de sentir alguma coisa, mas não soube que alguma vez tivessem sentido. Voltaram lá. Fugi.

Aos fins de semana descansava-se e com sorte via-se a matança do porco. Colocava a cadeira na fila da frente de uma sala vazia, os homens à volta dele, as mulheres lá dentro a beber vinho, o porco a chorar, o cheiro nauseabundo de carne e pêlo queimado (chamuscavam o pobre com agulhas de pinheiro), e quando os outros homens estavam afastados, o responsável espetava-lhe a faca. E o sangue jorrava para uma bacia até se esgotar. Uma mulher corria para apanhá-la e misturar o sangue com vinagre. E depois era ver cortá-lo: horas e horas na matemática da fome até ao fim da noite. Quando a operação ao ar livre expirava e os mosquitos começavam a fazer o trabalho sujo, pegava na cadeira e levava-a de volta para dentro. Um fio de sangue escorria a poucos centímetros da perna da cadeira.

4 Comments:

Blogger Eduardo said...

Minha crida,
quando a minha idade, ainda não era a mesma que a sua (mesmo se ninguém o diria sou um bocadinho mais jovem que a menina) não obstante estarmos em pontos geograficos diferentes desse Portugal de brandos costumes que é o nosso, a realidade que eu vivi era bastante semelhante à realidade que vc descreveu: as meninas jogavam ao elastico, os meninos ao berlinde e ao prego (se não fosse a menina,ja nem me lembrava destas coisas);jogava-se ao "ai-vai-alho" (penso que é assim que se dizia) e a outros jogos que pressupunham um contacto directo e saudavel com os outros meninos na hora de recreio!
Estavamos nos finais dos saudosos anos 80,ainda existia o muro de Berlim,a Perestroika ainda não tinha chegado e a atmosfera que se vivia em Portugal era de euforia criativa e expansão economica!
Não obstante isso, os resquicios de 50 anos de privação ainda estavam bem presentes na memoria colectiva e por isso não havia lugar a muitos desperdicios.
Os meninos não eram tão mimados e mal educados como hoje o são;não tinham gameboys nem playstations, eram menos gordos e tinham menos caries antes mesmo de lhe cairem os dentes de leite!
Tal como você também gostava muito da escola e nessa altura desenhava muito, lembrando-me mesmo de ouvir o professor Alberto dizer que iria ser um novo Picasso, enquanto a professora Bernardette retorquia dizendo que ia ser bailarino!
Infelizmente, nem os pressagios de um nem d'outro se realizaram (ainda hoje não consigo perdoar à professora de ballet o facto de ter voltado para Buenos Aires e me ter deixado so, com o meu sonho por concretizar).
Contudo ao contrario de si, quando voltava para casa, tinha sempre com quem brincar,os irmãos distribuiam-se consoante as idades e actividades, a rua tinha muitos meninos, a casa tornava-se pequena para acolher tanta criançada e os olhos da mãe mais azuis que nunca de tanto bradar aos céus pedindo ajuda divina e paciência terrena para suportar tanta criançada!
Felizmente ou infelizmente, ao contrario da menina,nunca tive ocasião de assistir a um cenario dantesco e barbaro como a matança de porco que descreve.Acredito que o cheiro fosse nauseabundo e que ainda hoje esteja entranhado na sua memoria.
Na minha ficaram outras, se calhar menos mal cheirosas à primeira vista ou mais precisamente ao primeiro odor, contudo igualmente marcantes...talvez tão marcantes como a marca que se fazia aos porcos,a ferro e fogo, por razões que nunca cheguei a entender...

Hoje, devido ao seu texto,voltei a recordar algumas delas e recuei no tempo.
Dei-me conta que não sei onde ficou o Eduardinho desses tempos e que não obstante também não ser completamente feliz nessa época, à medida que fui avançando no tempo me fui distanciando dessa felicidade que me prometeram que chegaria um dia quando fosse grande.

17/8/07 9:56 da manhã  
Blogger beluga said...

Edu:
note que estas histórias podem ser ou não ficção: já fui sobrinho de uma senhora que vivia na transição entre o século XIX e XX, já fui filho de um nobre do século XVIII, já fui filho de um homem que dividia as mulheres entre aquelas de quem se desfrutava e aquelas com quem se casava, já fui ginasta, fui agora rapariga de uma rua só com rapazes. O que é verdade e o que é ficção, fica comigo. Mas não desprezo a sua experiência. Obrigada pela participação.

17/8/07 12:21 da tarde  
Blogger AM said...

Não que seja novidade, mas que bem que se escreve aqui pelo b(e)logue (e caixa de comentários...)

No meu caso a linha de comboio ficava um pouco mais longe, atravessava-se (com mil cuidados) para visitar os aviões (em terra) do "museu do ar" (que belo nome) e brincava-se nas plataformas e rampas de pedra (que "arquitectónico"...), ao pé dos "enormes" e "negros" armazéns em madeira – tipo palheiro – enquanto se esperava pela chegada das encomendas "dispachadas" pela família na província, que podiam demorar meses...
(A preto e branco, fica muito neo-realista...)

Mais tarde apanhou-se (a jeito?) o comboio suburbano, das 7H30, dito dos trabalhadores, ou "o operário", ou lá o que era, para estudar (sem jeito...) "as artes e as humanidades", na escola dos malucos, em Lisboa.
Houve uns, às tantas das memórias, que correram para não o perder. Apanharam a última carruagem e foram abalroados por um "intercidades" (?) que vinha da invicta. Deu nas notícias. Um promissor bailarino que correu para não perder o comboio, perdeu uma das pernas (já não sei qual...), e a promissora carreira (nada de Prof. argentinas, portanto, foi nos alvores da moda da "dança jazz", e antes, estou em crer, da moda das "croissanterias" nos "centros comerciais"...).
Isto está tudo um pouco baralhado no tempo, mas também o que é que isso interessa, é como o Amarcord... e o aniki-bobó, que também mete comboios e meninas e meninos, à beira da linha.

A matança do porco também nunca mais será a mesma... agora, que faltam os homens (alguma guerra ou quê?...), enforca-se o animal num sobreiro, com a ajuda do tractor, e vai a musgar de lança-chamas, com uma botija de gás a tiracolo (bem mais violento, posso garantir, que os mais violentos dos desenhos animados do canal panda).
Está tudo tão diferente... a carne é cortada num instante, por uma equipa de "profissionais" que diz que têm talhos (e têm) na capital e (os saloios) nos arredores.

As mulheres já não amassam, nem benzem, nem cozem, o pão. "A chover e a fazer sol, e as bruxas a fazer pão mole"... qualquer dia, eclipse, arco-íris...

Sobre os (des)amores não escrevo.
(Ainda não percebi como é que vai correr o dia...)

17/8/07 12:39 da tarde  
Blogger Eduardo said...

Minha crida Ju,

o que me interessou na sua historia,que é alias o que me intersse geralmente em todas as historias, não foi o facto de ser uma representação fidedigna de uma determinada época ou situação, mas o facto de, veridica ou não, ter despertado em mim memorias de tempos distantes e de uma época que no meu imaginario estava ha muito apagada ou simplesmente anestesiada...

e numa altura em que tento colocar "alguma ordem na casa", mesmo se ela, ou sobretudo por isso, foi deslocada para um espaço e realidades fisicas completamente distintas, é sempre bom redescobrir os alicerces que a formaram..
isso permite-nos fazer uma avaliação da situação, analisar a origem das frechas e sobretudo ver o seu estado actual..talvez assim consiga evitar o desabamento!

quanto à questão de saber onde termina a verdade e começa a ficção..isso não me interessa nada... como ainda ontem dizia ao Martin "às vezes prefiro que me contem mentiras; desde que sejam belas, eu tenderei a acreditar nelas"!

no fundo, não é o que fazemos todos nos?!!

beijo (a)

P.S: esta melhor?

17/8/07 1:31 da tarde  

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