terça-feira, janeiro 31, 2006

O CARTEIRO

Match Point ou "A Obra de Arte Total"(II)

A Obra de Arte Total, na sua génese, mais não é que o totalitarismo estético: juntam-se diferentes formas de arte com aspectos siameses entre si, enquadradas nos mesmnos princípios e com elas faz-se um espectáculo - e não a festa (porque a festa implica o público, a sua participação e o espectáculo tem um carácter pedagógico, paternalista, quase).
Há coisas que me escapam quando vejo um filme e que só mais tarde aprrendo. Há outras que me escapam e cujo conhecimento só chega até mim por aquilo que leio; ou seja, jamais seria capaz de descobri-las por mim, ou por défice na formação ou por deformação na mesma.
Mas neste Match Point senti Woody Allen como a reencarnação do próprio Wagner, na sua obstinação em ser bestial sem ser besta. Se a Obra de Arte Total é a união de várias artes sob o mesmo signo e cujo objectivo é elevar o herói, Match Point consegue isso.
A meu ver a história resume-se a uma imagem que é a leitura de "Crime e Castigo", logo no início do filme: o nosso herói é o instrutor de ténis, um herói que começa por ser atípico, tímido, mas que se engradece nos mais pequenos pormenores (o uso do relógio de tamanho monumental é disso exemplo), mas é também o anti-herói de Crime e Castigo, aquele que erra mas sai beneficiado e curado pelo poder do amor.
Depois, e aí sim, surge a arte: a pintura na Tate, na primeira saída do instrutor e Chloe, nas vezes que o instrutor telefona a Nola, com grandes telas como pano de fundo, quando sabe da notícia da sua morte. A representação surge através das idas à ópera (que têm qualquer coisa de filme de época), no facto de Nola ser uma candidata a actriz, sempre sem concretização, sempre sem sorte (algo que marca a diferença entre esta e o instrutor pois ele aceita a promoção familiar e ela, ou por falta de talento ou por falta de ofertas não tem essa protecção). A música está presente em todos os momentos, principalmente num lindíssimo "Desdémona" (ou seria "Una furtiva lagrima"?) com que o crime é perpetrado. A literatura que marca desde o início o destino do herói ("Crime e Castigo", o livro procurado na biblioteca da casa de campo e que é o mote para o primeiro encontro com Nola, o diário que o denuncia)...
Não sei, foi só uma ideia. Este post nem será lido, mas eu achei que valia a pena uma observação mais atenta.

3 Comments:

Anonymous ana said...

"porque a festa implica o público, a sua participação e o espectáculo tem um carácter pedagógico, paternalista, quase". muito bom.
do resto, percebi pouco, por não ter visto o filme e por de-formação...

31/1/06 2:42 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

então, não ligaram pevide à "cantadeira" q mandou umas bocas do Match Point? não há tempo, ou não há democracia?
se argolei, sorry

8/2/06 1:55 da manhã  
Blogger beluga said...

???

8/2/06 3:43 da tarde  

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