quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Cafarnaum
um dia, os meus pais convidaram um casal amigo, casal um pouco mortiço, muito religioso, para irem todos ver o Carnaval a uma dessas cidades que o festejam. Entre desfiles e brincadeiras, passaram por uma roulote com um grande neon em forma de hamburguer. Segundo eles, e estou a usar as palavras ditas aquilo era "a coisa mais linda" do Carnaval. 
Quando penso no Cacilheiro da Joana, vêm-me à boca estas palavras: que coisa "mai" linda!. É a coisa "mai" linda que Portugal tem a mostrar acerca da sua arte. A sua arte, a arte portuguesa, representada por Joana Vasconcelos é então uma pequena e flutuante Cafarnaum, mas um imenso Xanadu da própria, da Secretaria de Estado da Cultura e de alguns convidados que militam. Desta vez a vossa - porque minha não é - interventiva artista, qual Joana "Darque" (porque embora tenha nascido em França, é com as nossas linhas que (se) cose), não "Christou" o barco, thank God. Esse barco, como sabem, é um cacilheiro. Não é um rabelo, não é um moliceiro... é um cacilheiro; ou seja, bem representativo de um Portugal que geograficamente se situa ali para Lisboa, já que o resto é paisagem. O barco será revestido com um painel de azulejos que mostra Lisboa vista do rio, antes do terramoto de 1755, que como se sabe, era a única cidade que havia e houve sempre em Portugal. Aliás, como a Joana também deve saber, a técnica do azulejo que marcou o nosso Barroco em parte porque era um material barato, acessível, ficou parada no século XVIII e por isso não há artistas mais recentes a pintar azulejo, como por exemplo o Luís Filipe Abreu que pintou os painéis do metro do Saldanha. Nem há outras cores. Nem há outras fábricas para produzir os azulejos, como a cerâmica de Valadares, por exemplo, que entrou há pouco em insolvência. Isso sim, isso seria promover, pelo menos, a economia nacional. No interior do cacilheiro haverá mais uma instalação tricotada que representa um útero ou um espaço uterino, pois como é de conhecimento de todos, só há úteros em Portugal e os nossos produzem prodígios com dois olhos. Quem também vai lá estar, é a Vida Portuguesa (caramba, era preciso serem assim tão literais?), a vender sabonetes e coisas lindas, que os turistas gostam, é verdade. Mas isto não é uma feira do fumeiro. Nem é uma excursão de japoneses largados na Praça da Figueira. É uma Bienal, meninas; menina Joana e menina Catarina. Uma bienal num local em perigo de desaparecer, graças à ondulação provocada pelos grandes barcos. 
Durante muito tempo Portugal desejou um local de exposição melhor. Como aquelas sub-lebridades que vão a uma festa e fazem de tudo para se aproximarem do pitch, também o cacilheiro vai, como quem não quer a coisa, querendo, instalar-se na zona nobre, local onde nunca conseguiu estar.
Ainda que digam que a beluga gosta de praticar o bota abaixismo por amargura ou inveja, não consigo guardar os meus encómios para o fim. O cacilheiro é já a coisa "mai" linda da arte portuguesa. (nem acho que seja amargurada, mas rigorosa: arte é uma coisa, cultura é outra)

5 Comments:

Blogger silvia camara said...

Este comentário foi removido pelo autor.

21/2/13 1:15 da tarde  
Blogger alma said...

Uma boa leitura sobre mais um despautério .

21/2/13 1:17 da tarde  
Blogger António Machado said...

"arte é uma coisa, cultura é outra"
e isto do "cacilheiro" (entre-tenga, entre-tanga, entre-e-traga, sabonetes) não é nem uma coisa nem outra (smile)

21/2/13 9:26 da tarde  
Blogger beluga said...

cara alma:
sabe, hoje estava a ver umas coisas sobre matisse. um dos principais colecionadores de matisse era um milionário russo (russo ou alemão, já não me lembro) que era conhecido por ser um excêntrico, por comprar obras dele. um dia o colecionador disse ao matisse uma coisa semelhante a isto (não é bem isto, mas é este o sentido): "o presente acha que és um louco, mas o futuro vai-te dar razão". e eu fiquei a pensar se a joana vasconcelos não seria, no meu caso, um matisse. penso por vezes que sou eu quem está errada e que ela é uma visionária, que está a ver um nicho de mercado para a arte e que o futuro lhe dará razão.

mas acho que não. desconfio sempre daquelas pessoas que agradam a toda a gente.

21/2/13 11:22 da tarde  
Blogger beluga said...

Caro antónio:
percebo o que quer dizer: os sabonetes não estão na formação da nossa identidade (na formação da identidade do povo português). mas então que nome dar às andorinhas bordalo pinheiro? ou então à ginjinha que se bebe no rossio. ainda que isso não identifique todos os portugueses (para o norte a ginjinha não diz grande coisa), para quem vem de fora, isso é cultura. é como ir a paris e passear com a baguette debaixo do braço, ou ir à grécia e beber ouzo. quando lá vamos - eu pelo menos - dizemos "quero viver ou participar da cultura e por isso vou provar isto ou dançar aquilo, partir pratos ou arrotar". não tem a ver só com comida e bebida, como dá para perceber, mas parece-me que embora sejam aspetos mais prosaicos da cultura, são cultura.

não sei... às vezes custa-me postar estas coisas, porque não sou uma expert, mas penso coisas acerca das coisas e mesmo que seja errado, para já é o que eu penso. desculpe lá...

21/2/13 11:29 da tarde  

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