sexta-feira, fevereiro 03, 2012

- o carteiro -

e hoje, algo completamente diferente: retrato.

nunca liguei muito a retrato. achava que era só isso: a cara/corpo de alguém, e até uma demonstração de algum narcisismo por parte do retratado. nunca compreendi aquelas pessoas que iam de férias para albufeira ou para barcelona e pagavam para se verem retratadas. mas desde que comecei a estudar retrato reparei em outras coisas. neste retrato de ostentação, isolado, a 3/4 e de pé, o rei mostra-se em toda a sua força e graciosidade, apesar de aqui já possuir mais de 60 anos, o que naquela altura deveria ser muito. obviamente não teria o cabelo preto retinto. a cabeleira também faz parte do figurino e contribui para o aparato. Mais, Luís XIV posa como se estivesse a fazer uma dança, o que no seu caso não é para admirar já que ele era um fervoroso amante de dança. aliás, o rei movia-se como numa dança. todo o cenário mostra o seu poder real, cenário esse que se encontra mesmo montado. vemos uma coluna semi-escondida no veludo vermelho pesado, um pedestal onde a cena se desenvolve e tudo isto coberto por ricos tecidos. o veludo é preso com cordão e borlas douradas e a coroa repousa num pequeno banco. já tínhamos visto aqui no belogue que as coroas nunca são usadas a não ser no momento da coroação. no caso português encontram-se sobre um banco porque não pertencem ao rei, pertencem a nossa senhora da conceição desde 1640, mais ou menos. para além disto o que quero mostrar aqui são três singelos aspetos: a mão da justiça, os estofos e o avesso do seu manto real coberto de arminho. quanto à mão... a mão, encontra-se pousada no mesmo banco onde está a coroa. vemo-la com dois dedos esticados. sei que foi adoptada por Carlos Magno, diz-se que lhe pertencia, mas lembra-me e muito a mão de um clérigo na bênção. segue-se o tecido azul com estampado a dourado. o que está estampado são as flores de lis, símbolo da França e dos bourbon. os lírios eram, na antiguidade, as flores que tinham surgido do leite derramado do seio de juno quando esta dava de mamar a hércules (que ainda por cima era filho do marido com alcmena). é também símbolo de pureza e castidade na iconografia religiosa (que terei de fazer próximo semestre. a propósito, não sei se fica muito bem dizer isto aqui, mas como está no meio de muitas letras talvez ninguém repare: tirei 18 a história da arte e civilizações do mundo antigo. poderia ter tirado mais, mas o trabalho correu-me mal). segue-se o manto com o forro em arminho. arminho é uma espécie de doninha, mas de maior porte de com cauda mais comprida e negra na ponta. no inverno muda o pêlo para branco. aquilo que vemos no avesso do manto, aqueles pontinhos a branco são a cauda de arminho. cada ponto é um arminho morto. ora o arminho era símbolo de incorruptibilidade e por isso uma pele que quase ninguém na classe política nacional poderia usar! agora a sério. o arminho é um animal especial que representa a a pureza e a contenção: só comia uma vez por dia. para além disso os caçadores sujavam com lama a entrada da sua toca. como o animal preferia morrer a sujar-se na lama, acabou por se tornar símbolo da pureza e da castidade

Hyacinthe Rigaud
Luís XIV, rei de França
1701
Museu do Louvre. Paris

1 Comments:

Blogger Joao Barbosa said...

cada ponto é um arminho? que massacre!

4/2/12 6:18 da tarde  

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