segunda-feira, julho 05, 2010

- o carteiro -

depois da gastronomia, a astronomia:

as constelações são conjuntos organizados de estrelas. quando olhamos para o céu não notamos essa organização (pelo menos para os leigos), mas existe. segundo aquilo que sei as constelações estão divididas em zonas do céu; ou seja, nas zonas em surgem. Mas para além disso, as estrelas em si também estão organizadas em segundo um desenho mais ou menos imaginário que corresponde à união das mesas. diz-se "ali está a Ursa Maior" porque alguém, em algum momento procurando orientar-se pelo céu à noite, notou o conjunto de certas estrelas lhe fazia lembrar uma ursa. claro que as coisas são mais complicadas que isto; diferentes povos denominavam as mesmas constelações com diferentes nomes e só mais tarde é que foi possível uniformizar a classificação das constelações. mas basicamente, e no que concerne a este post, os nomes eram escolhidos em favor da época que se vivia. não será por isso de estranhar que existam constelações com nomes tão diferentes como Perseu e sextante, um relativo ao herói da mitologia (constelação encontrada e denominada durante Antiguidade) e outro ao instrumento de navegação inventado pelos portugueses (remontando-nos por isso à época dos Descobrimentos). e se pensam que isto é coisa de agora pois só com os instrumentos recentes é que se torna possível observar estrelas deixem-me dizer-vos que já há 4000 anos os sumérios observavam estrelas e criavam constelações. cada povo e cada era via aquilo que lhe era mais próximo: os caçadores viam presas no céu, quando uniam os pontos, enquanto os marinheiros viam bússolas ou esquadros. alguns dos nomes só muito a custo seriam hoje dados. tomemos como exemplo o Grande Carro (asterismo - grupo de estrelas de uma constelação - da Ursa Maior): os egípcios viam nesta figura composta por sete estrelas um touro seguido de um homem que estava deitado no chão e que carregava um crocodilo. Mas outras histórias que deram nome às constelações fazem todo o sentido quando olhamos para a sua configuração.
Perseu - Perseu foi o herói da mitologia que cortou a cabeça da Medusa e a ofereceu como prémio para ao rei que pretendia casar com a sua mãe à revelia desta. Perseu procurou a Medusa contra tudo e contra todos, sabendo que não seria fácil encontrá-la e que quando tal acontecesse não poderia olhar para ela pois quem olhasse para o monstro de imediato ficaria transformado em estátua. guiado pelos deuses que lhe ofereceram umas sandálias aladas, e um escudo pelo através do qual podia olhar o monstro, Perseu procurou a Medusa. Antes de chegar ao local onde ela estava passou pela zona onde se encontravam as Greias, três irmãs que já tinham nascido velhas, cegas e que partilhavam entre si um olho com o qual percepcionavam o mundo, escondidas de todos. Quando percebeu que estas não viam senão com o olho, roubo-lhes o mesmo e exigiu que em retorno elas lhe dissessem como podia chegar até às Ninfas pois estas sabiam onde estava a Medusa. O resto da história é conhecido: Perseu cortou a cabeça à Medusa e do seu sangue foram criados, segundo alguns autores, corais vermelhos e segundo outros, o cavalo de Perseu. Mas o ponto que liga a mitologia à forma da constelação é o facto de nesta podermos observar a estrela Algol que representa o olho diabólico da Medusa. Esta estrela é uma estrela binária que varia de brilho em três dias; ou seja as três Greias! (Não me perguntem o que é uma estrela binária)
Gustav Klimt
The Beethoven Frieze: The Hostile Powers
1902
Österreichische Galerie Belvedere, Viena



Cabeleira de Berenice - a história desta constelação é antiga, mas só em 1602 foi tida como constelação em si. Conta a mitologia que Berenice, a mulher de Ptolomeu III esperava que viesse vivo de uma guerra e por isso prometeu cortar as suas tranças e oferecê-las a Vénus caso isso acontecesse. O rei voltou e Berenice cortou as tranças e ofereceu-as a Vénus no templo dedicado a esta. À noite todos festejaram o regresso de Ptolomeu, mas o cabelo foi roubado do altar do templo. Caso não fosse encontrado culpado a história mudava de figura já que numa situação destas os sacerdotes tinham de ser sacrificados para saciar a fome de vingança da deusa. Tal não foi necessário pois um deles atalhou e lembrou-se do seguinte: Vénus tinha gostado tanto da oferenda de Berenice, tinha achado o cabelo tão bonito, que o levou para o céu e por lá o espalhou. De facto se olharmos para o céu aquela área caracteriza-se pela presença de um grande número de galáxias e de estrelas (cerca de 200). Apesar de não possuir estrelas muito brilhantes, esta constelação tem como segunda estrelas mais brilhante uma estrela chamada Diadema e representa uma pedra do coroa de Berenice. Tem o mesmo diâmetro que o Sol! É uma estrela binária cujo brilho oscila de intensidade. Por fim, o nome cabeleira de Berenice ou Comae Berenices (nome técnico), tem dois significados: Benenice vem do grego "Pherenike" que se dividirmos dá "phereine"+"nike". Isto é "trazer"+"vitória"; ou seja, "trazer a vitória". "Kome", palavra grego para designar cabelo, era utilizada por Aristóteles para denominar a longa e brilhante cauda de um cometa. Não sei se percebem: kome/cometa.

Cabeça da rainha Berenice II


Aquila - Aquila é a águia que na mitologia grega estava responsável pelo transporte dos raios e trovões de Zeus e também pela escolha dos jovens que deviam ir para o Monte Olimpo. Daí o termo "ter olho de águia". Do nome Aquila vem também a palavra aquilino: "ter um perfil aquilino" é o mesmo que dizer "tem um nariz com a curvatura de um bico de águia". Se hoje não é bonito, na altura era bem entendido pois as águias eram símbolos de poder. Nas várias mitologias a águia surge associada a diferentes significados e mesmo na mitologia grega - aquela em que aqui nos baseamos -, esta Aquila pode ser, etimologicamente muitas coisas. Pode ser a águia que comeu o fígado de Prometeu assim como pode ser e esta é uma tese que defendo mais, a ave que raptou Ganymedes. Ganymedes é o nome grego para Aquário (nome de uma constelação zodiacal) e do rapaz mais bonito da Antiguidade, como diziam alguns poetas. O nome das estrelas que perfazem Aquila também se prende com a origem deste nome. Por exemplo, a estrela mais brilhante desta constelação; ou seja, a estrela alfa é a estrela Altair que se localiza na asa da águia e é simultaneamente o nome árabe para "pássaro".


Michaelangelo Buonarroti
The Rape of Ganymede
1533
Fogg Art Museum, Cambridge

Orion - Orion ou o caçador é o nome de uma mais bonitas, e sem dúvida a mais brilhante constelação que pode ser observada de Janeiro a Fevereiro, principalmente no Hemisfério Norte, pois a maior parte das estrelas que a constituem situam-se neste hemisfério. Há muitas histórias que tentam explicar o mito de Orion. Aquela para que mais me inclino é a que diz que Orion foi um gigante caçador filho de um deus, não sendo portanto considerado como tal (uma vez que não era filho de deus e de deusa). Era um mortal amado pela deusa Artémis - deusa da caça - mas que sofreu um revés. Conta a história que Artémis, enganada por Apolo seu irmão, atingiu Orion quando este nadava apenas com a cabeça fora de água. Ela como estava longe não viu que o alvo era ele e atingiu-o com a sua seta. Não sei se Orion morreu por causa de Artemis se por causa de Apolo que pelo sim pelo não colocou na água um escorpião para este ferir e matar Orion. Seja como for a sua colocação no céu como constelação deve-se em parte a Artémis que chorosa pediu aos deuses que colocassem o seu amor no céu, devidamente artilhado: com o cinturão, o escudo, o elmo, a espada e uma moca. Para além disso a deusa também pediu que Orion figurasse nos céus acompanhado pelo seu cão Sírius. A estrela mais brilhante desta constelação (e nona mais brilhante de todas as estrelas do firmamento) chama-se Betelgeuse e é uma super-gigante vermelha cujo nome vem do árabe e que quer dizer qualquer coisa como "axila". Como vemos existem diversas origens para os nomes, entre elas o árabe. No cinto de Orion podemos ver três estrelas seguidas de brilho e tamanho semelhantes e que estão separadas umas das outras espaços parecidos, de seu nome Mintaka, Alnilam e Alnitak. A primeira quer dizer "cinto", em árabe, a segunda denomina "cinto de pérolas" e a terceira refere-se a "cerca". Rigel que se situa no pé quer dizer em árabe isso mesmo: pé. Preseume-se então que esta tenha sido a parte do corpo de Orion onde o escorpião desferiu a picada mortal. O mais curioso é que quando fazemos uma sobreposição das constelações dos signos do zodíaco com as constelações boreais vemos que Orion surge mesmo acima de Escorpião.

3 Comments:

Blogger João Barbosa said...

não nos faltava mais nada, agora a Beluga também já comenta o céu... onde este blogue irá parar? Oh mulher, Beluga é do mar, não é peixe voador...
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estou a brincar. não sabia que também lia as estrelas. sempre a surpreender

5/7/10 8:32 da manhã  
Blogger beluga said...

Estava a ver um documentário no canal de história e falaram de Perseu. Aí lembrei-me da constelação efui estudar mais um bocadinho. Mas há coisas dentro da astronomia que me custam perceber como a sobreposição das constelações, a inexistência de semelhança entre o desenho mental e o desenho feito pelas estrelas, a presença de tantas estrelas com nomes tão diferentes e brilhos mensuráveis... e a lua, a lua está cada vez mais afastada da terra, sabia?

Fiquei a saber que me falta saber muitas coisas. e isso é o que me chateia.

6/7/10 8:54 da manhã  
Blogger João Barbosa said...

Essa da Lua sabia. quanto ao resto... para mim é tudo mistééééério... sei que há uma estrela com um nome fixe: Adalberã

9/7/10 9:01 da tarde  

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