quarta-feira, março 10, 2010

- o carteiro -
"Exulto de alegria
no Senhooooor
E minh'alma rejubi-i-la
No-Meu-Deeeeus"
Há pouco tempo em conversa com uma pessoa descobri que a Virgem Maria não tinha sido sempre retratada, no que à Natividade diz respeito, da mesma forma. Talvez nada de importante para vocês, mas para mim, cuja felicidade se encontra nas viagens, na leitura de um bom livro de Inverno a ouvir a chuva lá fora, nas idas sozinha ao cinema e ao teatro e nas descobertas artísticas, isto é de grande importância. Por isso não me estraguem o momento.
A justificação para representações diferentes do mesmo momento da vida de uma personagem bíblica não fica apenas a dever-se aos gostos dos artistas, às limitações que lhes foram impostas pela Igreja ou devido ao gosto da época. Estas diferentes representações estão também ligadas à inexistência de uma história inequívoca da vida de Maria. Sabemos um pouco sobre a sua vida através daquilo que vem exposto na Bíblia, mas também sabemos que este livro basilar da religião católica é uma construção política e que por isso diversos evangelhos menos “úteis” foram deixados de fora da compilação. Alguns como o Proto-Evangelho de Tiago abordam mais em pormenor o contexto do nascimento de Cristo. Neste Evangelho apócrifo Tiago fala de forma mais específica, e ausente na Bíblia, de tudo o que antecedeu a Natividade. Esta escritura, longe de questionar a virgindade de Maria, acaba por corroborá-la devido à forma excepcional como ocorreu o nascimento de Cristo. Diz o Evangelho que sentindo o aproximar da hora, Maria pediu a José que se instalassem na gruta, primeiro lugar que viram minimamente potável para o “parto”. José deixa Maria ali (não sei se a pedido dela ou não, facto que poderia mudar muita coisa) e vai em busca de auxílio. Bate à porta de Geloma que se dirige para a gruta enquanto José procura outra mulher que os possa ajudar. Geloma segue o seu caminho envolta num halo, de tal forma, que à sua volta tudo se ilumina; José chega mais tarde acompanhado por Salomé. Mas nenhum deles entra na gruta. Aliás, Geloma nunca entrou na gruta pois quando lá chegou já Jesus tinha nascido. José convida-a a entrar e ao olhar para Maria Geloma exulta de alegria pois apesar de não ter visto a forma imaculada como Jesus veio ao mundo e não sabendo da sua história, exclama: “O dia é grande para mim, porque vi um espectáculo maravilhoso! Jamais imaginei ou ouvi falar de tal coisa! Uma virgem concebeu e mantém-se virgem!” Salomé não acredita e tal como Tomé pediu para tocar nas chagas de Cristo, Salomé pede para tocar no ventre de Maria. E mal o faz a sua mão começa a arder, acção do Senhor, por ela ter duvidado.

Esta passagem confirma a ideia enunciada mais tarde por Santo Agostinho que Maria foi “virgo ante partum, in partum, post partum” (virem antes, durante e depois do parto). Foi também por esta altura, mais precisamente em 431 que o Concílio Ecuménico de Éfeso declarou que Maria era não só a Mãe de Cristo (como pretendiam os puristas), mas também a Mãe de Deus uma vez que Deus tinha vindo à Terra sob a forma humana. Por isso ela passou a ser uma presença regular e com lugar de destaque nas cenas de Natividade. As representações artísticas da Natividade foram sendo alteradas ao longo do tempo, ditadas pelas leis religiosas que muitas vezes eram a leis do mecenato, e pelas novas descobertas. Na minha opinião foram vários os momentos que marcaram a forma como se retratou Nossa Senhora na Natividade. Até às disposições de Éfeso as representações artísticas, pelo menos as que chegaram até nós, mostravam a Virgem numa cama como uma parturiente normal às vezes auxiliada por Salomé, como podemos ver no fresco de Giotto.

Giotto di Bondone
No. 17 Scenes from the Life of Christ: 1. Nativity: Birth of Jesus
1304-06
Cappella Scrovegni (Arena Chapel), Pádua

Muitas destas obras (em murais ou mosaicos) até incluíam Maria dentro de um quarto, enquanto outras colocavam-na numa cama, mas esta dentro da gruta. Eis que com Éfeso mudou também a forma de retratar esta cena, mas não foi capaz de chegar a todo o Império. Aquando da divisão do Império cristão, no Oriente as representações de Maria aconchegando na cama o Menino permaneceram, mas no Ocidente esta forma de ver a Natividade foi-se tornando cada vez mais canónica. No Oriente, que tinha em conta Geloma e Salomé as duas mulheres surgem com mais frequência. Seguindo o escrito na Bíblia os artistas ocidentais retrataram Maria e José dentro da gruta com o Menino deitado nas palhas. Esta versão teve mais divulgação no Gótico e no Gótico Internacional. Irradiaram também Jesus de luz e criaram em seu redor um ambiente iluminado, algo que até está, a meu ver, relacionado com o Evangelho de Tiago. Mais tarde, com o Concílio de Trento aconteceu paradoxal. Por um lado incentivou-se a devoção Mariana e o culto dos santos como forma de chegar a todos os fiéis, o que se traduziu no reforço de imagens e personagens que não existem na bíblia (como os três reis magos que surgem na arte desde o século X), mas por outro as facções saídas da Reforma Protestante não acreditavam na virgindade de Maria o que fez com que nos países protestantes as cenas da Natividade fossem buscar um pouco das mesmas retratadas no Oriente.

Konrad von Soest
Nativity
1403
Parish church, Bad Wildungen



Matthias Grünewald
Concert of Angels and Nativity
c. 1515
Musée d'Unterlinden, Colmar

4 Comments:

Blogger alma said...

Beluga,
Nunca percebi a importância da Virgem ser ou não ser virgem.

No questionário de Proust se me perguntassem qual o heroi na vida ou em ficção responderia : Jesus Cristo !

Tb Gosto de ir ao cinema viajar,ler ...
e visitar o seu belogue

10/3/10 11:59 da manhã  
Blogger João Barbosa said...

faço minhas as palavras de alma. sem tirar nem pôr

10/3/10 7:17 da tarde  
Blogger AM said...

a Virgindade da virgem (para um crente) é... fundamental
não levam a mal que eu diga que tenho um "interesse" no S. José, pois não...

10/3/10 10:19 da tarde  
Blogger beluga said...

Cara Alma:
acho que percebe que para uma Igreja em construção ( a Bíblia foi uma construção política), Igreja essa que queria obter o mesmo sucesso do paganismo, era necessária a aproximação ao ser humano em grau suficiente para que este se pudesse identificar com o Messias, e um afastamento razoável para que o Messias fosse respeitado. Eu vejo a coisa assim: tal como os deuses tinham os nascimentos mais estranhos (da coxa de Zeus, da cabeça da Mãe) Cristo teve de nascer de uma Virgem, o que não é só estranho como praticamente impossível. A não ser que a fertilização in vitro já fosse conhecida.

A sério? O seu herói seria Cristo?

Pois é...Gostava de viajar, ler e ir ao cinema mais vezes. Estou a ler "Jacques o Fatalista" e vamos lá ver se é este ano que se cumprem os 10 dias na Turquia.

Caro João Barbosa:
Quais? Todas as palavras? Também responderia Cristo no questionário Proust? Acho (não pense que sou snob) que não admiro ninguém ao ponto de me vir um nome à cabeça.

Caro AM:
Mas olhe que hoje há virgens mais virgens que a virgem o era no seu tempo (no tempo dela)!
Sociologicamente falando, o São José também me desperta alguma curiosidade e descobri que ao longo do tempo a Igreja secundarizou São José e que a arte até chegou a ridicularizá-lo como se ele fosse o "chifrudo", o tipo a quem a mulher meteu "os palitos" e depois disse que foi o Espírito Santo. Mas esta noção ´vem um pouco da Igreja. lembro-me que na catequese havia a ideia de que Jesus era só filho de Maria e de Deus e não de José. E José, não obstante ter o seu dia de devoção (1 de Maio), nunca teve um grande papel na vida de Cristo, e se teve, esse papel nunca foi explorado (por exemplo, segundo evangelhos apócrifos, foi José quem transportou o corpo de Jesus para fora da cidade)

10/3/10 11:39 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home