segunda-feira, junho 25, 2007

- o carteiro -
Goya ficou surdo, completamente surdo em 1792 logo, a percepção dos acontecimentos do 3 de Maio foi para ele diferente. Não existia a emoção dos sons como quando vemos televisão, um filme de suspense, por exemplo. Pintar esta cena deveria ter sido duplamente difícil para Goya: pelo acontecimento em si, pela brutalidade do mesmo e pela dificuldade em guardar na memória os pormenores sem o som. Goya, apesar de espanhol viu com bons olhos a entrada das tropas de Napoleão em Madrid e aliou-se a elas. Esperava que estas lhe trouxessem as reformas liberais necessárias. Mas as tropas napolenónicas comportaram-se de forma imperdoável. Goya pintou o quadro de forma curiosa e que reflecte a sua desilusão: os que já estão mortos foram retratados numa rodilha de sangue e roupa. São farrapos no chão. Os que se preparam para disparar tem o rosto tapado pelos braços e pelas armas, a camisa branca do homem que ergue os braços como um Cristo crucificado ilumina a pintura, a luz surge do chão, de uma gigantesca lanterna em forma de cubo que está mais para adereço teatral do que para instrumento portátil em execuções.

Goya
The Shootings of May Third
1808-1814
Museo del Prado, Madrid

Já a execução execução do Imperador pintada por Manet não tem a mesma força da execução pintada por Goya. Não há dimensão humana; ou melhor, há mas do ponto de vista de um burguês. O quadro de Goya é o quadro de um revolucionário. Manet perde na composição ao não colocar o Imperador mais próximo do centro da composição, mas talvez fosse essa uma das bases de sustentação da monarquia: o afastamento distintivo das pessoas, mesmo na morte. Manet também não foi fiel ao acontecimento em si: o Imperador não estava naquela posição nem trazia chapéu. Se duvidas houver quanto à pessoa ser executada em Manet, note-se que o imperador tem barba, tal como é retratado outras vezes e que as outras personagens têm tez mais escura, o que se justifica pois são ambos mexicanos. (Maximiliano proclamou-se imperador do México.) Manet não era apreciador de pintura histórica. Chegou mesmo a dizer: "The reconstruction of a historic scene. How absurd! Quelle bonne plaisanterie" e isso deve ter influenciado a execução desta obra da qual foram feitas 4 versões. Da versão de Manet, que retrata um acontecimento diferente daquele que Goya pintou, mas com igual composição, foi também feito um filme de 14 minutos.

Manet
Execution of the Emperor Maximilian

1867
Kunsthalle, Mannheim


Manet
The Execution of Emperor Maximilian
1867
Museum of Fine Arts, Boston

4 Comments:

Blogger João Barbosa said...

Há uma gralha no texto, Goya não ficou surdo em 1972.
O resto, fantástico como sempre.

25/6/07 10:05 da manhã  
Blogger beluga said...

Pois não, mas já está corrigido. Falhou-me o dedo para os 70's. O resto, tem dias

26/6/07 12:47 da manhã  
Anonymous Lygia P. Lima said...

fantástico, contribuiu para a minha pesquisa! Veja nosso blog:

http://dmsenac.blogspot.com.br

8/10/07 1:39 da manhã  
Anonymous Lygia P. Lima said...

retificando.... http://dmsenac.blogspot.com


enviarei minha pesquisa sobre as 4 versões de Manet sobre esta obra.

8/10/07 1:43 da manhã  

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