terça-feira, fevereiro 14, 2006

O CARTEIRO

Para quem não fez a escolinha toda ou "quem é amiguinho, quem é?":


O Tetramorfo é a representação simbólica dos quatro Evangelistas. Até à invenção da imprensa, divulgação e ensino sistemático, os fiéis assistiam de uma forma cega à celebração eucarística; ou seja, como não sabiam ler nem escever, liam a estatuária. Certas figuras bíblicas são substituídas pelo seu símbolo, sendo essa uma forma mais simples para reconhecer o santo em questão. Às vezes, recorrendo apenas às insígnias dos santos era possível contar a sua vida.
S. João Evangelista (canto superior esquerdo) é representado com uma águia ao lado como símbolo da elevada espiritualidade que os seus textos transmitem. A águia é o símbolo da inspiração e do Espírito Santo em S. João Evangelista.
Hans Burgkmair
Saint John Evangelist in Patmos
1508
Alte Pinakotek, Munique

O símbolo de S. Mateus (canto superior direito) é o Homem porque o seu Evangelho começa pela genealogia de Cristo. Também é identificado pela bolsa de publicano (cobrador de impostos).
Caravaggio
The calling of Saint Matthew
1599-1600
Contarelli Chapel, Churche of Saint Luigi dei Francesi, Roma

S. Lucas (canto inferior esquerdo) foi o primeiro iconógrafo e por isso é o patrono dos pintores. O seu símbolo é o touro, o animal dos sacrifícios (veja-se o Minotauro que nasce de Pasífae e de um grande touro branco sacrificial), porque Lucas começa o seu Evangelho com a evocação do sacerdote Zacarias, oficiante do Templo de Jerusalém.
Guercino
Saint Luke displaying a painting of the Virgin
1652-53
Nelson-Atkins Museum of Art, Kansas

O símbolo de S. Marcos (canto inferior direito) é o Leão, animal do deserto porque o seu Evangelho começa pela pregação de João Baptista no deserto. É o símbolo da cidade de Veneza para onde os seus restos mortais terão sido levados.

Vittore Carpaccio
The Lion of Saint Mark
1516
Palazzo Ducale, Veneza

2 Comments:

Anonymous bébé chorão said...

Tomara muito católico e cristão praticante saber estes preciosismos.

14/2/06 10:48 da tarde  
Blogger ppan said...

A origem iconográfica do tetramorfo tem origem numa conhecida passagem do Livro do Apocalipse, capítulo IV, 6-8:
“E havia diante do trono um mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro seres [ ou animais] cheios de olhos, à frente e atrás. E o primeiro ser era semelhante a um leão, e o segundo semelhante a um touro, o terceiro tinha o rosto semelhante ao de um homem, e o quarto era parecido com uma águia. E os quatro seres tinham, cada um, seis asas, e ao redor, e por dentro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir.”

Estes seres alados são muito semelhantes aos das visões proféticas de Isaías e, sobretudo, Ezequiel, que os precedem.
Ezequiel 1.10, descreve desta forma os querubins:
"A semelhança dos seus rostos era como o rosto de homem, e à mão direita os quatro tinham rosto de leão, e à esquerda tinham rosto de boi; também os quatro tinham rosto de águia".

Considera-se geralmente que estas figuras se poderão ter inspirado nos leões alados, de rosto humano barbudo, da arte babilónica (e.g. as gigantes estátuas das portas dos palácios). Era também comum a combinação de leão e águia: geralmente um leão com asas de águia, as vezes com garras ou bico; outra possibilidade era a águia com cabeça de leão. Os hititas (outro povo vizinho de Israel) parecem ter inventado os grifos, etc.

Actualmente, os teólogos e intérpretes modernos do Apocalipse vêem nas quatro figuras um símbolo do louvor a Deus cantado em uníssono por toda a criação. Santo Ireneu foi o primeiro a considerar que o tetramorfo simboliza os quatro evangelistas: (Mateus, Marcos, Lucas e João; mas já para S. Gregorio, por ex., eles significam os quatro momentos da vida de Cristo: nascimento, morte, ressurreição e ascensão. O problema com a interpretação tradicional (i.e. de Ireneu), amplamente divulgada durante a Idade Média, é que, para ser verdadeira implica dons verdadeiramente proféticos do autor do Livro do Apocalipse. Escrito provavelmente em fins do séc. I d.C. , talvez o último livro da Bíblia a ser escrito (a lenda apresenta-nos um S. João velhinho, milagrosamente conservado, de modo a poder terminar a sagrada tarefa), ele é contudo anterior ao estabelecimento do cânone; por outras palavras, no tempo em q o livro foi escrito era impossível ao autor adivinhar (a não ser por intervenção divina, evidentemente) que, no futuro, a exegese e a tradição cristã iriam estabelecer, não só apenas 4 Evangelhos como canónicos, mas também atribui-los às respectivas personagens (a autoria dos 4 textos é ainda hj um tema controverso).

Mias recentemente, uma outra explicação tem sido avançada: As expressões “olhos à frente e atrás” e “ao redor, e por dentro, estavam cheios de olhos”, podiam referir-se às estrelas da abóbada celeste (como parece que se referem algumas outras imagens do livro, e.g. o dragão e a virgem “mulher vestida do sol, com a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça” [Apocalipse, 12]); teríamos assim quatro constelações do Zodíaco, separadas entre si por noventa graus. O leão e o touro são casos evidentes ; o “ser com rosto semelhante a um homem” seria o Aquário (mas outras possibilidades têm sido sugeridas), uma das poucas constelações zodiacais cuja figura se compara com a figura humana. Por último, a águia, sendo embora uma constelação que não faz parte do Zodíaco, faz igualmente parte das cartas celestes.

16/2/06 1:50 da tarde  

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