terça-feira, dezembro 08, 2020

- o carteiro -

"o meu amor é pequenino como um grão de arroz
é tão discreto que ninguém sabe onde mora"


mora numa jarra. sim senhor! tudo o que é pequenino mora numa jarra. à excepção do meu peito, que mora no soutien. bom, quem é que é pequenino? uma senhora chamada sibila de Cumas. A sibila de Cumas presidia ao oráculo de Cumas onde profetizava para o Deus Apolo. Cumas, Nápoles, era a morada da sibila que, dentro da sua gruta (gruta essa que ainda hoje existe), levava a cabo as suas artes divinatórias, sendo que previa o futuro escrevendo em folhas de carvalho. Se o vento as levava, a sibila recuperava as folhas de carvalho e as profecias, mas não pela mesma ordem. Cumas era também o nome da cidade onde Eneias desembarcou, vindo de Cartago, onde havia deixado em desespero a rainha Dido com quem se envolvera numa paixão tórrida. A importância da Sibila de Cumas prende-se com a história de Dido e Eneias - mais do que com as profecias feitas para Apolo - que inspirou alguns escritores clássicos (Virgílio, Ovídio) e outros um bocadinho menos clássicos como Isidoro de Sevilha. Na Eneida de Virgílio a Sibila de Cumas aparece como um veículo para Eneias visitar o pai no outro mundo. Ela estabelece a ponte entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos (os campos elísios, para os romanos). Já Varro e Lactâncio referem a história dos livros que a Sibila de Cumas tentou vender a Tarquínio, o Soberbo, último rei de Roma. Segundo os mesmos, a Sibila chegou a Roma (note-se que a descrevem como uma mulher velha) e tentou vender ao rei Tarquínio 9 livros das sua profecias, por um determinado preço. O monarca declinou a proposta e a sibila fez nova proposta: queimou três livros e ofereceu a Tarquínio seis pelo mesmo preço. Este voltou a recusar e troçou dela: ele não quis seis pelo preço mais alto, ia querer três pelo mesmo preço? A sibila queimou mais três livros e voltou para oferecê-los ao rei pelo preço de sempre. Tarquínio intrigado sondou os seus conselheiros que consideraram que o rei estava a subestimar alguns sinais divinos dados pela sibila e por isso aconselharam-no a comprar os três livros restantes pelo valor pedido pela mulher. 
Ovídio, no livro 14 das Metamorfoses, entre o verso 100 e 152 apresenta-nos a Sibila de Cumas, também enquanto ponte entre Eneias e o seu pai. Quando a Sibila ajuda Eneias e encontrar-se com o pai no mundo dos mortos, Eneias agradece-lhe dizendo que irá erigir-lhe um templo e pagar-lhe tributo em incenso. A sibila suspira e conta-lhe a sua história (tradução muuuuuito livre): "nunca fui deusa e a minha condição de criatura mortal não está de acordo com o tributo em incenso sagrado. Mas para que a ignorância não te impeça de seguir o caminho correcto, digo-te que já tive a possibilidade de obter a vida eterna, se oferecesse a minha virgindade a Apolo. Mas como ele esperava que eu pedisse presentes em troca da virgindade disse-me 'Virgem de Cumas, escolhe o que desejas que seja teu e o teu desejo será satisfeito'. Eu agarrei num punhado de areia e disse-lhe que desejava ter tantos anos de vida quantos os grãos de areia existentes naquele punhado, esquecendo-me de dizer que desejava que aqueles anos fossem também de juventude". Apolo satisfez o seu pedido, mas a Sibila negou-se a ceder a virgindade ao Deus. Uma vez que  sibila pediu os anos de vida, mas não a juventude, foi envelhecendo. Nas Metamorfoses diz a Eneias que tem já 700 anos e que ainda lhe faltam mais 300 para completar o número de grãos de areia que um dia teve na mão. Cada vez mais pequena, acabou por ser mantida numa jarra (ampulla), algo que não é Ovídio nem Virgílio que nos conta, mas Petrónio (e mais tarde T.S. Elliot que utiliza esta citação em Waste Land). No Satíricon encontramos o seguinte: "Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent: Sibylla ti theleis; respondebat illa: apothanein thelo." ("Vi com os meus olhos a Sibila numa jarra, e quando as crianças lhe perguntaram 'O que desejas?', ela respondeu 'Desejo morrer'") (Petrónio, Satíricon, Capítulo 48)














Miguel Ângelo
Sibila de Cumas
1508-1512
Capela Sistina, Vaticano

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Lembrei-me de si e deste seu post sobre a vida, a morte e as decisões que tomamos, quando vi este vídeo: Bill Murray Admits A Painting Saved His Life

(Boas Festas, Beluga)

18/12/20 7:01 da tarde  
Blogger Belogue said...

Obrigada e Feliz Natal!

20/12/20 9:43 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home