quinta-feira, agosto 27, 2026

 - o carteiro -












Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a Vase
1888
National Gallery, Londres


Quando a minha idade era outra que não esta a vida era quase simples. Vivíamos numa casa perto da praia e durante muito tempo aquela casa esteve lá para me lembrar que era a minha, embora eu já não vivesse nela. e eu gostava que assim fosse; gostava que a casa estivesse lá, mesmo que desabitada e em ruínas, porque isso era uma memória de um tempo... quase simples.

ao nosso lado vivia a Da. Natária e o Sr. Alberto; ela dona de casa e ele bancário no Porto, o que para mim era muito chique porque era como se ele fosse um ser exótico: nessa altura eu confundia "bancário" com "banqueiro", e ir ao Porto era só para dias de festa. Tinham três filhos e um deles era fanhoso, coitado. para o outro lado havia um restaurante e uma mercearia onde os homens bebiam copos de vinho de manhã à noite. estes dois espaços que faziam esquina e que eram geridos por uma família que tinha vindo de Angola, tinha sempre muita gente lá dentro e até hoje não sei quem lá vivia, mas sei que eram também três os rapazes, sendo que um deles, o Quito, era a minha paixão assolapada e não correspondida. um dia os rapazes da rua - estes e outros - e com quem eu brincava frequentemente (não tão frequentemente quanto eu gostava porque eram mais velhos e gostavam de futebol e pouco mais) foram - e eu com eles - para o sótão da casa da Da. Natária e do Sr. Alberto e aí deitaram-me numa cama (ou seria um sofá?) e espreitaram o meu pipi. um deles deitou-se por cima de mim e fez uns movimentos de ancas um pouco desajeitados, mas saiu logo. foi tão rápido e durou tanto tempo. 

em frente havia a padaria. uma padaria com pão branco, broas e bolos de arroz. hoje continua a ser padaria com fabrico próprio como era na altura, mas agora com esplanada e lattes em copos de papel.. Ao lado da padaria a loja do Sr. António vendia brinquedos em madeira, utensílios vários, bolas e toalhas de praia, malas térmicas e tudo que que fosse necessário para a época balnear. Era um espaço que eu não compreendia muito bem porque o Sr. António falava muito nas termas e como eu não sabia o que era isso, achava que não seria grande coisa. a loja tinha muitas teias de aranha e pó acumulado junto às montras, talvez porque o Sr. António estava sempre a pensar nessa coisa das termas e não tinha tempo para limpar a loja. Na mercearia junto ao restaurante comprei uma vez uma Coca-Cola e quando cheguei a casa recebi um sermão da minha mãe porque a Coca-Cola era muito cara. 

Passávamos muito tempo sozinhos na rua, a brincar, sem adultos a supervisionar. eu brincava mais em casa, mas gostava de ir á janela ou pôr-me à porta de casa com os sapatos altos da minha mãe, um terço ao pescoço, observar a rua e esperar que ela chegasse e me assegurasse que estava tudo bem e que ela não tinha morrido ao atravessar a linha de caminhos de ferro. quando ela se atrasava eu chorava e abraçava o retrato dela e do meu pai que descansava em cima da cómoda dentro de um moldura de veludo verde vareja.