segunda-feira, fevereiro 20, 2017

- ars longa, vita brevis -
Hipócrates
 
ou
 
- o carteiro -

antes e depois ou como "das coisas nascem coisas, já dizia o Bruno Munari e muito bem. ora boa noite, senhoras e senhores. hoje trago-vos um post que começa por um "antes e depois", mas que evolui para um "carteiro". Porquê? Porque sim. O antes é este

Abadia de Westminster
Século XIII
e o depois, este.

Hand Holbein
The Ambassadors (pormenor)
1533
National Gallery, Londres

Como podem ver pelas legendas, trata-se do pavimento da Abadia de Westminster que, segundo os entendidos, mimetiza o chão do edifício inglês ou esta história não tivesse tudo a ver com Inglaterra e o seu poder no século XVI. À primeira vista, o quadro de Holbein fala de poder e riqueza, mas a célebre anamorfose da caveira, em baixo leva-nos a reconsiderar a ideia inicial: talvez esta tela seja mais do que aquilo que pretende ser; talvez seja uma vanitas e nesse caso nos tente mostrar que a morte é mais poderosa do que qualquer riqueza ou poder político. Esta é sem dúvida uma cena montada onde cada objecto tem um papel específico.


Hand Holbein
The Ambassadors
1533
National Gallery, Londres

Vamos primeiro aos tecidos, aos padrões: as três grandes faixas horizontais do quadro mostram padrões:
o cortinado




o tapete








o pavimento






 
Esta demonstração de riqueza tem eco em outros pormenores do quadro como nas vestes que ambos usam. Num dos casos temos pele/pelo que não é de arminho, segundo me parece, mas que segundo sabemos não estaria ao alcance de qualquer um. No outro caso, a incrível textura do pelo da gola, bem como a textura e padrão da capa que um dos embaixadores veste:








































 
Estes homens, que eram sem dúvida, ricos, tinham também conhecimento e poder. Eram também jovens: o do lado esquerdo tinha 29 anos (está escrito na adaga que ele segura) e o outro tinha 25 (vemos no número no livro sob o seu braço). Estes homens são franceses, como o prova a insígnia da Ordem de São Miguel instituída por Luís XI de França, que um deles tem ao peito (São Miguel a matar o dragão)
































































A referência feita ao conhecimento, vem dos objectos que encontramos na prateleira. Se as suas vestes e o cenário em que se encontram, nos falam da sua riqueza e do seu mundo estático, com certezas, os objectos falam da sua visão do mundo, dos valores que partilham. Podemos dizer que na prateleira de cima, tudo está em ordem e que de facto, essa prateleira nos fala do que estes dois homens dominam. Em baixo, na prateleira de baixo o mesmo não se passa e os objectos, para além de desalinhados, incompletos ou estragados, são de outra natureza. Ora vejamos o que se passa na prateleira de baixo:
 
a guitarra com uma corda partida












o conjunto de flautas, incompleto


 
o globo de pernas para o ar…

Tudo isso é o reflexo de uma França em crise. A França havia sido sempre uma nação poderosa, mas agora, à data da pintura, tornou-se uma nação ameaçada pelo poder dos seus rivais sendo que os mais perigosos são Portugal e Espanha. Os dois reinos dividiram, como se sabe, o mundo em duas partes. França está ameaçada por todos os lados, com inimigos que não a deixam ser a potência que sempre foi. O papel destes dois jovens é salvar a honra francesa, restabelece-la e para isso precisam de alguns trunfos que podem ser vistos neste quadro e que estão ligados à parte de cima da prateleira. O primeiro trunfo, ainda na prateleira de baixo é um hino de Lutero, fundador do Protestantismo. Se apoiar as facções protestantes nos reinos rivais, a França consegue semear a discórdia entre Católicos e Protestantes e assim enfraquecer o poder que estas potências têm no mundo e enquanto seus vizinhos.










O segundo trunfo é o das suas relações com vizinhos do mundo islâmico. Quando Holbein pinta este quadro, os muçulmanos estão à porta da Europa, o que não impede os embaixadores de negociar com eles, obrigando-os a mover as suas forças e desta forma, ver a sua posição fortalecida na Europa.















O terceiro e último trunfo é... a vida amorosa do rei inglês Henrique VIII, simbolizado pelo pavimento que, como dito acima, mimetiza do pavimento da Abadia de Westminster. De facto, a França apoiou o rei na sua decisão de repudiar a sua primeira mulher e casar com Ana Bolena. Esta foi a forma que o reino francês teve de criar atritos entre a Inglaterra e os vizinhos alemães e de certa forma, tornar a sua posição mais favorecida dentro do mapa da Europa. E com isto, a França acaba por embarcar numa "nova religião" (não será uma nova religião, mas uma nova visão do Cristianismo); ou seja, o Protestantismo, na medida em que lhe é mais favorável no xadrez geo-político. Estas ideias de transgredir valores humanos ou religiosos haviam sido divulgadas um ano antes com a publicação do livro de Maquiavel, "O Príncipe".
 
A prateleira de cima, fala-nos do conhecimento, mas do conhecimento de coisas mensuráveis, o conhecimento científico. Temos por isso mapas de estrelas e constelações
 
 














Um quadrante náutico




















um astrolábio




















um calendário cilíndrico


e um outro instrumento (um sólido de dez faces não regulares) cujo nome e função desconheço. O que retiramos disto é que todo o conhecimento, poder e riqueza são em vão já que a morte é o fim de tudo. Mas pode haver salvação, redenção e essa vem do alto (do canto superior esquerdo do quadro), de Cristo:



vou embora. beijos e até breve
ah... não se esqueçam de lavar a dentuça, a papuça e beber um leitinho antes de ir dormir.

2 Comments:

Anonymous pedro b. said...

Não me parece que o sólido poliédrico representado no quadro tenha um nome. Segundo a wikipédia, é “apenas” um relógio de sol poliédrico (pelos vistos existem relógios de sol em forma de esfera, cilindro, prisma, etc.). A referência que a wikipédia dá, em apoio desta explicação é:
---- Dekker, Elly; Lippincott, Kristen (1999). "The Scientific Instruments in Holbein's Ambassadors: A Re-Examination". Journal of the Warburg and Courtauld Institutes. The Warburg Institute. 62: 93–125. doi:10.2307/751384. ISSN 0075-4390. JSTOR 751384.
Gostava de colocar mais comentários mas nunca tenho tempo! Por exemplo, o que significa AET.SVAE (aparece inscrito na adaga e também no livro)? Qualquer coisa acerca da idade, em latim abreviado.

23/2/17 12:06 da tarde  
Blogger beluga said...

Olá professor

Bom, desculpe discordar, mas acho que o sólido deverá ter um nome. A importância do nome, para mim, vinha/vem de um quadro do Jacopo di Barbari, do Luca Paccioli. Nele vê um dodecaedro em cima da mesa, um dodecaedro regular, enquanto o outro no quadro do Holbein não me parece regular (e não é um dodecaedro), mas tem qualquer coisa de dodecaedro...

https://pt.wikipedia.org/wiki/Luca_Pacioli#/media/File:Pacioli.jpg

Vamos a um bocadinho de línguas mortas (sem piadas):
AET.SVAE 29 quer dizer "A sua idade é 29 [anos]"
AET é o radical de palavras como etário, etária, mas também está na base da palavra "era"
SVAE pode ser "sua" já que na frase "FABER EST QVISQVE FORTVNAE SVAE" - Every Man Is The Maker Of His Own Fortune, "Faber" é artesão; "est" é "é", "fortvnae" é "fortuna". Ficam a faltar "Qvisqve" e "svae". Uma é a palavra para "homem" e outra para "sua". Acho que analisando as palavras e o seu contexto nas duas expressões "svae" poderá ser a palavra para "sua". Se escrevermos "suae" em vez de "svae" obtemos (no Google translate que não é uma sumidade mas ajuda), a palavra "sua".

Portanto: a sua idade era 29 [anos]

também não tenho tempo para posts nem comentários como deveria ser. às vezes não tenho tempo nem vontade.
vou para dentro. beijos

27/2/17 11:38 da tarde  

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