terça-feira, março 15, 2016

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

back to basics (é o mesmo que dizer, vamos voltar ao que interessa, aos posts com "sustânça")
aqui na terra não há cinema. houve, em tempos, mas agora fechou. nessa altura, o cinema passava muitos filmes de cowboys. um dia o meu pai ouviu um miúdo, junto ao cinema, dizer: "oh... é só filmes "dostrazan"!... é só ratos, só ratos e galifantes!" O galifante, esse animal mítico, para mim que ouvi esta história contada pelo meu pai, faz parte do grupo também composto por gambuzinos e unicórnios.
vá, trocem. mas houve um tempo em que o pessoal acreditava nestes e em outros animais. Na Idade Média, sem estradas, meios de comunicação social, população alfabetizada and so on, era natural que facilmente estas criaturas apenas faladas, mas nunca vistas, se tornassem coisas diferentes da realidade. Os animais, domésticos ou selvagens, abundavam em jóias, e mesmo em objectos utilitários que assim se tornavam mais agradáveis. Em livros sagrados, então nem se fala: o cordeiro que foi animal sacrificial pelos israelitas e depois adoptado como símbolo de Cristo, enfatizando o sacrífico deste pela Humanidade; o grifo, animal que acompanhava Apolo e guardava a luz, mantém a sua figura de guardião dos mortos no contexto cristão; o peixe, símbolo de Cristo por excelência... Para além destas representações naturais, os artistas medievais representavam também a interação das personagens cristãs com os animais como é o exemplo de Jonas e a Baleia, Daniel e os leões, Jesus a descer dos céus em forma de pomba (pombas feitas de materiais preciosos podiam ser vistas em altares bizantinos, suspensas); Jesus, humilde, a chegar a Jerusalém no Domingo de Ramos montado num burro  ou mesmo o tetramorfo: Lucas representado pelo touro; João pela águia; Marcos pelo leão e Mateus pelo anjo (bem sei que um anjo não é um animal). E depois, é claro, as bestas do apocalipse. Por volta do século V, as quatro bestas aladas do Apocalipse e também descritas por Ezequiel, eram igualmente usadas para representar os 4 evangelistas. Ah, para além disto tudo, e porque a orientação do pessoal mudou muito ao longo dos tempos (primeiro por causa da mudança de calendário, depois com o aparecimento de relógios cada vez mais rigorosos) os calendários com as actividades sazonais e os feriados, possuíam representações animais.
Duccio
Entrada em Jerusalém
1308-1311
Museo dell'Opera del Duomo, Siena
Relevo em marfim (Cristo em Majestade rodeado pelos 4 evangelistas) 
Século XIII
É neste contexto que vos venho falar de bestiários, já que de bestas não é preciso falar. basta abrir os olhos todos os dias e às vezes, mais do que uma vez por dia... Os animais, tal como referi no parágrafo acima, serviam como veículos para a envangelização e para a moralização. os bestiários desenvolveram-se na Europa medieval do século XII. Baseado em descrições do chamado Fisiólogo grego do século II e geralmente com acrescentos importantes de Isidoro de Sevilha, Santo Ambrósio e Rabanus Maurus, o bestiário é uma coleção de descrições de animais e interações entre eles e tinham tanto de história natural como de lendas, pretendendo ser isso mesmo: ensinamentos reais acerca de animais, mas também ensinamentos morais. O bestiário era um livro muito lido - por quem sabia ler - na Idade Média e servia como fonte de invenção artística. Para além de proporcionar e provocar uma interpretação ambígua acerca daquelas criaturas, o bestiário dava asas à imaginação para se divulgarem criaturas bizarras, muitas das quais apareciam na arte medieval. E algumas das lendas que daqui surgiram tiveram longa duração. O basilisco, por exemplo descrito na História Natural de Plínio é mencionado nos Contos da Cantuária do século XIV. Conotado com o diabo, o basilisco podia matar apenas pelo seu odor, vislumbre ou pelo som do seu assobio.
Basilisco
Kongelige Bibliotek
Gl. kgl. S. 1633 4º, Folio 51r
A manticora, de origem persa, com rosto de homem, corpo de leão e cauda de escorpião, possuía uma voz sedutora parecida com o som de uma flauta.
Manticora
Der Naturen Bloeme manuscript
c. 1350
National Library of the Netherlands
Já o centauro, com corpo de cavalo e torso de homem era vaidoso, mas capaz de chorar. 
Centauro
Bibliothèque Nationale de France
lat. 14429, Folio 116v

Mas para além destes animais imaginários, míticos, também figuravam nos bestiários, animais exóticos que acabavam por assumir uma forma imaginária porque a maior parte das pessoas nunca os tinha visto. Ou seja, os animais exóticos eram muitas vezes oferecidos como presentes diplomáticos a monarcas, vindos das peregrinações ou das cruzadas. Carlos Magno, ao que parece, recebeu um elefante do califa Harun-al-Rachid em 797; o rei Edgar da Escócia ofereceu um camelo ao rei da Irlanda, o nosso rei D. Manuel ofereceu um rinoceronte ao Papa Leão X, o rei Henrique I da Inglaterra tinha um pequeno zoo e o rei Carlos V mantinha leões naquilo que é hoje a Porte des Lions. Como as pessoas nunca tinham visto esses animais, as histórias e representações que circulavam acerca deles eram fantásticas. Veja-se o caso do rinoceronte desenhado por Dürer - que, segundo se pensa, é uma representação do rinoceronte que o rei D- Manuel ofereceu ao Papa. Durer nunca viu o rinoceronte, mas baseou o seu desenho numa descrição anónima da época. O resultado é um rinoceronte arraçado de lagosta. A avaliar por aquela carapaça...
















Albrech Dürer
Rhinocerus
1515
British Museum, Londres


(fim da primeira parte)

4 Comments:

Anonymous pedro b. said...

Não sabia que, no teatramorfo, Mateus podia ser representado quer pelo anjo quer pelo cordeiro, já que Ezequiel (e depois João, no Livro do Apocalipse) apenas falam de rostos de homem [anjo], leão, águia e touro.

Do que andei a investigar, imagino que essa interpretação iconográfica derive de S. Jerónimo, que no comentário aos 4 Evangelhos, dá a entender que o 'homem' se deve ao facto de o Evangelho de Mateus se centrar na natureza humana de Cristo, começando pela sua genealogia davídica: "A primeira face, de um homem, significa Mateus, que inicia a sua narrativa como se falasse de um homem.” De facto, este evangelho começa assim: “Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.” Esse Jesus poderia então ser simbolizado pelo Cordeiro, agnus dei (embora S. Jerónimo não chegue a dizer isso, claro. Aliás, também não me parece que fale do anjo).

15/3/16 1:00 da tarde  
Blogger beluga said...

Bom dia, tudo bem?
Pois, enganei-me.... devia estar a escrever e a pensar na palavra cordeiro, mas de facto é só o anjo. Desculpe...
Vou corrigir. De qualquer forma, obrigada pela interpretação de s. Jerónimo.

16/3/16 9:04 da manhã  
Anonymous pedro b. said...

Bom dia, beluga.
Não foi isso que eu quis dizer. Na verdade, encontrei também algumas referências na net ao “cordeiro de Deus” como símbolo do Evangelho de Mateus. Por exemplo, aqui:
“O portal [românico] principal possui a figura de cristo entronizado, envolto de uma mandorla e rodeado pelos quatro evangelistas ou os seus símbolos – o tetramorfo: o Leão representa Marcos; o Anjo, cordeiro de Deus ou Agnus Dei, representa Mateus (…). pág. 155”
http://www.slideshare.net/cattonia/escultura-e-pintura-romnicas

Ou na wikipédia em português: “o Anjo, por vezes representado pelo cordeiro de Deus ou Agnus Dei, representa Mateus;

Talvez ainda mais curioso é que na wikipédia inglesa diz que se trata de um homem ou anjo (tal como eu aprendi na catequese), porque o Evangelho de Mateus se centra na vida e natureza humana de Cristo, como refere S. Jerónimo, etc. Mas já as wikipédias em versão francesa e espanhola, por exemplo, apenas referem o homem. A wikipédia francesa diz mesmo que o atributo de Mateus é:
“L'homme (et non pas l'ange puisque les ailes qu'il porte sont l'attribut des Quatre Vivants [Ezequiel 1, 10] et non pas les ailes d'un ange). ”
https://fr.wikipedia.org/wiki/T%C3%A9tramorphe

A wikipédia em espanhol mostra realmente uma iluminura com o “homem” de Mateus, sem asas (mas, claro, também existem algumas representações de anjos sem asas, em especial a partir do Renascimento)”: Livro de Durrow, séc. VII, Dublin, Biblioteca do Trinity College

A propósito, a wikipedia alemã (eles que são uns coca-bichinhos nestas coisas de iconografia) não tem uma entrada subordinada ao tema “Tetramorfo”; para encontrar informação similar é precisa procurar em: Evangelistensymbole
https://de.wikipedia.org/wiki/Evangelistensymbole

beijos,

16/3/16 1:45 da tarde  
Blogger beluga said...

Olá boa noite professor
Sabe que isso é mesmo estranho... Porque sei que me enganei a escrever "cordeiro" juntamente com o anjo no caso de Mateus. Sei disso porque estava a escrever o post com uns apontamentos ao lado e nesses apontamentos não havia nada sobre o cordeiro.
E eu também aprendi na "catequese" assim: Mateus podia ser representado pelo anjo ou pelo Homem, uma vez que um anjo é um homem que ganha asas. Essa foi a explicação que me deram, mas isso não faz sentido por várias razões:
- nem todos os anjos têm corpo
- os anjos são de origem divina. não são nem foram humanos.

A explicação que faz mais sentido é a de São Jerónimo:
Mateus - Homem: Porque o Evangelho de São Mateus salienta a figura de Jesus como ser humano, daí a representação ser através de um homem.
Lucas - Touro: Porque o Evangelho de São Lucas fala dos reis do Antigo Testamento e dos sacrifícios de Jesus. Como o touro era um animal sacrificial...
Marcos - Leão: Porque o Evangelho refere uma voz que fala no deserto, tal como o leão vagueia pelo deserto.
João - Águia: João escreve o seu Evangelho muitos anos mais tarde, já com muita reflexão. Tem um estilo de escrita mais elevado, mas é também um Evangelho relacionado com a Ascensão

Não há dúvida que a grande referência do tetramorfo é Ezequiel. Se bem que Ezequiel é contraditório. Em Ezequiel 1:5 lemos "E do meio dela saía a semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham a semelhança de homem.". Mas logo no versículo a seguir, Ezequiel diz que cada um "tinha quatro rostos, como também cada um deles quatro asas". (isto daria um ser estranho...). É só no versículo 10 que a coisa se aproxima ao tetramorfo: "E a semelhança dos seus rostos era como o rosto de homem; e do lado direito todos os quatro tinham rosto de leão, e do lado esquerdo todos os quatro tinham rosto de boi; e também tinham rosto de águia todos os quatro." (Ezequiel 1: 6-10)

Mas há outro texto a ter em conta: Daniel. Bem sei que uma coisa pode não estar relacionada com outra pois o número 4 tem o seu simbolismo (4 humores do corpo humano, 4 ventos, 4 evangelistas, 4 rios do paraíso...), mas vamos a Daniel. Ele fala de visões que teve. A primeira com um leão: "O primeiro era como leão, e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, e foi levantado da terra, e posto em pé como um homem, e foi-lhe dado um coração de homem.". A segunda foi com um urso, seguiu-se o leopardo e o homem (segundo a minha catequese).

Tenho de ver os links que me enviou, mas vai ficar para outro dia porque estou na minha hora.
beijos e até breve (obrigada pela troca de ideias. é bom ter alguém desse lado que me incite a recordar estas coisas)

16/3/16 11:06 da tarde  

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