segunda-feira, julho 29, 2013

- o carteiro -

mais um bocadinho de Proust. não quero que vos falte nada.

a relação da Recherche com a pintura não é só aquela que vimos, ou pelo menos, não se processa apenas dessa forma. parece que tudo no livro (nos livros) nos chega por analogia com a pintura. a forma como as diferentes cenas são apresentadas a marcel, é como na pintura. e não digo isto no sentido figurado: ele observa as personagens como quem vê por uma tela, só que no caso de marcel, a tela é a janela. muitas das cenas mais marcantes do livro, aparecem a marcel através da janela. e quando não é ele a ver de fora para dentro ou de dentro para fora, são outras personagens como a tia Léonie que utilizava a janela para ver o que se passava fora de casa, já que se recusava a sair da mesma. No primeiro volume encontramos essa referência quando marcel e a família vão a Combray visitar a tia. Na descrição que faz do quarto o autor diz, relativamente à janela, apenas isto:

"Do outro lado, a cama ladeava a janela; tinha a rua debaixo dos olhos..."[1]

Parece pouco para quem como eu quer formar uma teoria. Mas em seguida, três páginas à frente, quando Françoise, a criada, entra no quarto da tia Léonie, esta bombardeia-a com questões acerca daquilo que viu, como a senhora Groupil que passou com um quarto de hora de atraso para ir buscar a irmã, a senhora Imbert que levava espargos, a Maguelone que tinha ido buscar o médico Piperaud, os sinos que dobravam pela senhora Rousseau...[2]

No mesmo volume, mais à frente, surge uma das cenas mais marcantes do livro, referente à relação lésbica - somente sugerida por Proust - entre a filha de Vinteuil e uma amiga. Esta cena também chega ao narrador através da janela.

"A janela estava entreaberta, a luz acesa, via todos os seus movimentos sem que ela me visse, mas se me fosse embora fazia estalar as silvas [...] Ao fundo do salão da menina Vinteuil, em cima da chaminé, estava poisado um pequeno retrato do pai, que ela foi buscar [...] e depois atirou-se para um canapé e puxou para junto de si uma mesinha onde colocou o retrato [...]. Pouco depois entrou a amiga. A menina Vinteuil recebeu-a sem se levantar, com as duas mãos atrás da cabeça, e recuou para a outra ponta do sofá como que para lhe dar lugar [...] Não tardou a levantar-se, e fingiu querer fechar as portadas sem o conseguir.
- Então deixa tudo aberto, tenho calor - disse a amiga.
- É que é desagradável, assim vêem-nos - respondeu a menina Vinteuil.
[...]
- E então - acrescentou ela (julgando dever acompanhar de uma piscadela de olho maliciosa e terna estas palavras [...] - ainda que nos vissem melhor seria. [...]«A menina parece-me estar esta tarde com pensamentos muito lúbricos» [...] No cavado do corpete de crepe, a menina Vinteuil sentiu que a amiga lhe aplicava um beijo; soltou um gritinho, fugiu, e correram uma atrás da outra aos saltos [...] Depois a menina Vinteuil acabou por cair sobre o canapé, coberta pelo corpo da amiga"[3]

Aqui, apesar da cena decorrer de forma movimentada (avanço até à janela, deitar no canapé, saltos), o plano do observador é fixo, frontal e rectangular. É um outro mundo para o narrador, uma terra estrangeira - Gomorra, que a filha do compositor apresenta ante o narrador. Esta cena, em que Gomorra surge em formato rectangular, tem paralelo com uma outra, em que Sodoma surge em formato circular. Ocorre no último volume quando o narrador contempla a flagelação do Barão de Charlus, num quarto com Jupien, através de um olho de boi lateral:

"Não tardaram a mandar-me subir para o 43, mas a atmosfera era tão desagradável e tão grande a curiosidade que, uma vez bebido o meu cassis, tornei a descer a escada e depois, mudando de ideias, voltei a subir e ultrapassei o andar do quarto 43 e fui até lá acima. De repente, pareceu-me ouvir [...] «Por amor de Deus, por piedade, peço-lhe, solte-me, não me bata com tanta força», dizia uma voz. «Eu beijo-lhe os pés, eu humilho-me, não torno mais. Tenha piedade.» «Não, meu crápula,» respondeu outra voz, «e já que te pões a berrar e te arrastas de joelhos, vou amarrar-te à cama, nada de piedade» - e ouvi o estalar de um chicote, provavelmente com pregos aguçados, porque foi seguido de gritos de dor. Reparei então que na parede daquele quarto havia um olho-de-boi lateral [...] e lá dentro, acorrentado a uma cama como Prometeu ao rochedo, recebendo os golpes de um chicote de facto semeado de pregos que Maurice lhe vibrava, já todo em sangue e coberto de equimoses que provavam que não era a primeira vez que se sujeitava àquele suplício, vi diante de mim o senhor de Charlus."[4] 

Na cena em que a menina Vinteuil se entrega aos prazeres da carne com a sua amiga, a homossexualidade é inaugural (de facto ocorre no primeiro volume) enquanto na cena relativa ao Barão de Charlus, no último volume a homossexualidade é vista como conclusiva. Temos assim o sadismo na homossexualidade feminina (a menina Vinteuil posiciona o retrato do pai em local visível, para magoar a amiga e assim ver o seu prazer aumentado) relacionado com o quadrado, com a abertura rectangular, enquanto o masoquismo na homossexualidade masculina está relacionada com o circular.Isto não acontece apenas aqui. Raymonde Coudert aponta que a conotação do sadismo com o quadrangular acontece logo no início, no primeiro volume, aquando da descrição do quarto do narrador onde é feita a oposição entre as formas redondas da lanterna mágica com as rectangulares do quarto:

"fora moralmente intoxicado pelo aroma desconhecido do vetiver, convencido da hostilidade das cortinas roxas e da insolente indiferença do relógio que palrava alto como se eu não estivesse ali; onde um estranho e impiedoso espelho de pé, de forma quadrangular, barrando obliquamente um dos cantos da sala, ocupava nítido na doce plenitude do meu usual campo de visão uma localização que nele não estava prevista [...] o quarto de dormir tornava a ser o ponto fixo e doloroso das minhas preocupações. Bem tinham tido a ideia, para me distraírem nas tardes em que me achavam com um aspecto por demais infeliz, de me darem uma lanterna mágica com que cobriam o meu candeeiro até à hora do jantar [...] [5] 

A cena que leva o narrador a ver e ouvir Jupien e Charlus é também ela cheia de volta e reviravoltas, complexa e não linear como a que lhe proporciona a visão da cena entre as jovens raparigas. O narrador sobe e desce, ouve e depois vê. Já antes algo fazia antever isto. Proust descreve-o no terceiro volume:

"[...] pois o senhor de Charlus só vinha ao palacete dos Guermantes da parte da tarde, às horas em que Jupien estava no escritório [...]quando a atitude do senhor de Charlus mudou, a de Jupien [...] imediatamente se harmonizou com ela. [...] O barão [...] andava de um lado para o outro [...] Jupien saiu pelo portão [...] o barão [...] disparou vivamente no seu encalço [...] Jupien [...] regressou, seguido pelo barão. [...] A porta da loja fechou-se atrás deles e não consegui ouvir mais nada" [6] 

Mas vamos ao que nos trouxe aqui: a janela como forma de introduzir as diferentes cenas como se as mesmas se tratassem de quadros. Isto volta a acontecer no segundo volume quando o narrador faz uma visita ao atelier de Elstir e vê, não o bando de raparigas que havia visto antes, mas uma das ciclistas do bando:

"Estir e eu tínhamos ido até uma janela, que dava, atrás do jardim, para uma estreita avenida transversal, quase um pequeno caminho rústico. Tínhamos ido para ali para respirar o ar mais fresco da tarde adiantada. Eu julgava-me bem longe das raparigas do pequeno bando [...] De repente, apareceu nele, caminhando a passos rápidos, a jovem ciclista do pequeno bando [...]" [7] 

E como diria o outro: "e assim acontece"
___________________________
[1] PROUST, Marcel; TAMEN, Pedro (trad.) – Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann, p. 52
[2] PROUST, Marcel; TAMEN, Pedro (trad.) – Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann, p. 62
[3] PROUST, Marcel; TAMEN, Pedro (trad.) – Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann, pp. 169-172
[4] PROUST, Marcel; TAMEN, Pedro (trad.) – Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Reencontrado, p. 132
[5] PROUST, Marcel; TAMEN, Pedro (trad.) – Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann, pp. 14-15
[6] PROUST, Marcel; TAMEN, Pedro (trad.) – Em Busca do Tempo Perdido: Sodoma e Gomorra, pp. 12-14
[7] PROUST, Marcel; TAMEN, Pedro (trad.) – Em Busca do Tempo Perdido: À Sombra das Raparigas em Flor, pp. 427-428
  

3 Comments:

Blogger alma said...

estas cenas homo são as que menos me interessam em toda a obra.
Não deixando de reconhecer o merito do narrador ao nos descrever como um simples e bom observador de algo tão inquietante para a maioria das pessoas

1/8/13 6:47 da tarde  
Blogger beluga said...

também não gostei muito disso. achei até um bocado forçada a associação quadrado-feminino-gomorra e círculo-masculino-sodoma. cada vez descubro mais coisas em proust e tenho também pena de não ter mais tempo de qualidade para o ler novamente. hoje estava a ler uma partezinha da história social da arte e da literatura do arnold hauser (eu sei, parece um bocado pedante) e vi lá outra característica do romance de que me tinha esquecido: nenhuma personagem do romance tem idade e os tempos sobrepõem-se sempre que o autor invoca uma memória.

2/8/13 1:14 da manhã  
Blogger alma said...

A historia social da arte e da literatura do Arnold Hauser é fundamental, citá-lo nada tem de pedante.

Quando dizem que Proust é chato tenho a certeza que é alguém que não o leu .
aconselho vivamente a ler a ilíada.
tenho a certeza que vai gostar.

boa noite vim aqui antes de terminar a noite vinha ler o restante que me faltava

beijo

2/8/13 1:22 da manhã  

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